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Luz

Não saberia dizer ao certo onde estava, porque tinha conduzido durante horas por estradas de asfalto degradado, e a última, inócua, referência que possuía, tinha sido uma bomba de gasolina em nenhures onde atestara o carro e comprara um pacote de bolachas e uma garrafa de Johnny Walker, agora, tinha encostado o carro à berma, na reentrância de um portão em ruínas, do que deveria ter sido uma quinta nos seus tempos de glória. Preparou-se para passar a noite. Foi bebericando o uísque por um copo de plástico amarrotado até sentir pesar as pálpebras, deitou então o banco da frente, o mais que pode, e procurou dormir, com a porta do seu lado toda aberta para trás, porque o ar começava a ficar irrespirável. Adormeceu e dormiu pesadamente até às primeiras horas da manhã, despertado pelo ronco penoso dos camiões de mercadorias. Estava imprestável, sujo e a cheirar mal, deu alguns passos até à berma do alcatrão, a bocejar ruidosamente e, aí, entre o vórtice momentâneo de dois camiões a passar, teve uma epifania - do outro lado da estrada e até perder de vista, estendia-se um imenso campo de girassóis, as folhas de um verde esmaecido, coroados por flores abertas, irradiantes, plêiade de pequenos sóis que o atraíam no vazio cósmico, cruzou a estrada e adentrou-se pelo campo de girassóis, abismado de uma vaga religiosidade, uma sucessão de pensamentos e memórias afloraram na sua comoção, afinal, havia beleza neste mundo, algo que valia a pena no meio das viagens e da solidão e do ódio. Sentiu-se diferente, transformado, aquele campo de girassóis não podia ser um acidente de percurso, era uma espécie de mensagem, um sinal que lhe mostrava que as coisas podem ter um sentido, para além da perpétua dissolução que o cercava, podia dar um novo rumo à vida, começar tudo de novo como se obedecesse a um chamamento. Com um entusiasmo que não se lembrava de alguma vez ter sentido, regressou ao carro. Iria deixá-lo ali mesmo, cruzaria o campo de girassóis até encontrar uma outra estrada para seguir e de uma nova vida para viver. Enfiou num saco as bolachas, o uísque e uma t'shirt usada. O calor estava a acelerar o processo, e o cheiro a podre tinha-se acentuado, não tardaria, e iria tornar-se insuportável. Deu uma última olhada ao interior do carro antes de o fechar, havia algo à vista, um bibe rasgado no lugar do pendura. Metodicamente, enrolou-o e enfiou-o por debaixo do banco, longe dos olhares curiosos. Trancou as portas e atravessou a estrada, ele e os girassóis voltados para nascente.

2 comentários:

  1. existe sempre um campo de girassóis, algures. Ou uma pequena semente esquecida no bolso... :)

    Abraço, José

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  2. ...ou lírios do campo ;)

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