Frutos

Aproximou-se da jovem quando a viu sozinha, no pátio de cimento contíguo à grande eira circular. Parecia pensativa, já mudara de roupa mas ainda segurava a tiara que cingira o seu penteado de noiva.
- A menina é a esposa do meu sobrinho, não é? Do João? Eu sou o Luís, irmão da senhora sua sogra.
Ela cumprimentou-o, com alguma surpresa, estudando aquele personagem despudoradamente.
- Um bom rapaz, o João...mas eu gostava mesmo era de lhe falar da minha irmã, isto, se me der uns minutos.
- São seus! O que tem para me dizer?
- Nada de dramático, a minha irmã é boa pessoa, desafeiçoada de si mesma para se dar aos outros, vive para os outros e precisa deles como a terra da chuva. Se sente que os outros a querem menos, ou negligenciam a sua presença ou a sua opinião, sofre como se tivesse alguma intensa dor física.
- Já me tinha apercebido disso, desde o princípio!
- Então, deve guardar essa intuição, como o principal atributo da minha irmã!
- Porquê?
- Porque ela vive num mundo vasto que nós, só parcialmente, entrevemos. É uma fantasista patológica, para ela, a realidade é uma despensa escura no seu espírito e, como é um lugar reduzido e pobre, ela acrescenta-lhe outras divisões e espaços, sujeitos a uma arquitectura volúvel e diáfana
, inventa salões de banquetes e lúgubres masmorras, jardins de Versalhes com labirintos de sebes e bailes de máscaras, e bosques verdejantes com pequenos lagos perfeitos e caminhos empedrados onde as pessoas passeiam a cavalo. As pessoas que ela conhece, transitam de uns espaços para outros, segundo os seus caprichos e humores. Alguém que hoje mereceria dançar no salão real, amanhã poderá parecer-lhe um anão corcunda na torre dos sinos, ou um verdugo a torturar infelizes nas masmorras. As memórias e as referências da minha irmã não são, nem estáveis, nem coerentes. Ela nunca conta uma história da mesma maneira e vê-se, por isso, forçada a imaginar novas histórias para justificar as contradições que lhe descobrem. Por tudo isso, é preciso que você não esqueça o essencial, que ela gosta das pessoas e seria capaz de morrer por si, mesmo que a venha a enredar em histórias que você nunca conheceu e que a farão sentir-se revoltada.
- Não me tinha apercebido disso, pelo menos, não com essa nitidez. Quando o senhor começou a falar comigo, tive logo uma espécie de prenúncio do que se seguiria.
- Porquê?
- A sua irmã contou-me que o senhor tinha morrido há cinco anos, e que tinha sido um choque para toda a família, mas não cheguei a perceber de que forma tinha morrido, se atropelado por um camião ou esfaqueado por um rufia quando tentava salvar uma menina de ser violada. Também me contou, e isto na presença do João, que morreu devido a um cancro.
- Não sabia disso, mas o João, como todos os membros desta família, nem se esforça por contestar a minha irmã. A gente encolhe os ombros e segue em frente, é menos desgastante. Vistas as coisas, esta conversa nem tem razão de ser, porque você percebeu logo as regras do jogo.
- Não tem importância, foi um prazer. Não quer entrar? Ver as pessoas?
- Não, é melhor não, estou com elas todos os dias, vou antes dar um passeio até ao pomar. Deve estar abandonado, sempre me entristeceu que as pessoas não se sirvam do pomar e deixem a fruta pelo chão, a apodrecer.

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