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Apanhar uma cadela

Fugiu do calor da beira da piscina e refugiou-se no alpendre da casa, ficava virado a leste e era fresco como uma cave, o amante trouxe-lhe uma sangria com muitas frutas e muito álcool, e esfumou-se no interior escuro da casa, como uma sombra fundindo-se com o seu elemento, ela levantou o copo, fresco, com perlas líquidas a escorrer pelo vidro, fresco demais, saíra da braseira do sol e, se bebesse aquilo, ganhava uma dor de cabeça para uma semana, pousou o copo e afagou a caniche que brincava aos seus pés, tinha a língua de fora a caniche, devia ter sede, olhou em volta, talvez pudesse...não devia fazer grande mal, e despejou a sangria na malga de pedra, a cadela rodeou o líquido odorífero, cheirou, molhou a ponta da língua e depois bebeu a sangria com sofreguidão, com o rabo minúsculo a sacudir-se; em seguida, foi o seu corpo todo que se sacudiu, diante dos seus olhos, a cadela rebolou-se pelo chão a ganir até se imobilizar com a língua retorcida e os olhos injectados de sangue. A dona levantou-se dum salto, muito constrangida, era uma tragédia, matara a sua querida caniche, tadinha dela, ela não sabia, não podia saber, que o álcool podia fazer aquilo a um animal. Meu Deus, o que vou fazer agora? - pensou. O amante regressou ao alpendre, como se respondesse a uma chamada, trazia um saco de plástico preto e enfiou nele a caniche de corpo retesado - Não te atormentes, meu amor, não tiveste a culpa e não é nenhuma sangria desatada, eu trato de tudo! Ela agradeceu, em pranto, e abraçou o amante pelo pescoço enquanto este tentava imaginar onde poderia, agora, colocar o veneno.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...