Animal de hábitos

O prédio em que vivia, padecia de todos as pequenas falhas dos prédios novos mal construídos, e o pior dele era a deficiente insonorização dos apartamentos, ouvia-se quase tudo através das paredes e das placas. À noite, o seu vizinho de cima tinha o lastimável hábito de ir mijar às três da manhã, o tipo não devia dormir antes daquela expulsão de líquidos, porque era matemático. Três da manhã, o fio líquido na água da sanita, os pingos terminais e depois, o autoclismo, descarga completa, a ressoar pela parede do seu quarto. Acordava sempre e, por vezes, nem conseguia dormir, tal era a convicção de que acabaria por acordar com a mijadela das três horas. Os seus ciclos de sono começaram a andar afectados e deu voltas à mioleira a pensar numa solução, e acabou por lhe aparecer uma. Ofereceria cerveja ao tipo, era diurético, ele descarregava a bexiga ao princípio da noite e ele podia dormir como um anjinho. Isto, se ele gostasse de cerveja, tinha de gostar porque ele precisava muito de dormir, nem que fosse só uma noite. À hora de jantar, deixou-lhe duas cervejas médias à porta, tocou a campainha e correu a refugiar-se na penumbra das escadas. A porta abriu-se e as lourinhas foram recolhidas. Correu para casa, tirou o som à televisão, comeu também qualquer coisa e refugiou-se no quarto. Ainda estava a vestir o pijama quando ouviu o ritual das três da manhã...seis horas mais cedo. Deu um grito de alegria e começou aos pulos em cima da cama. Quando a euforia lhe passou, deitou-se e dormiu como um justo.
Às três da manhã, acordou com passos no piso de cima, e sentou-se na cama, estonteado. Versão condensada - ouviu a tampa da sanita a abrir, uns pingos de urina na água e, novamente, o raio do autoclismo como um tornado no silêncio da noite.

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