INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Plano furado

O espertalhaço casou-se com uma mulher muito velha e muito rica, no fito de enriquecer, viúvo. Mas foi ela que o enterrou, depois duma das suas costelas salientes lhe perfurar o peito durante o coito.

Reforma

Os cães já estavam avisados dos cuidados que tinham de ter com a posse de humanos potencialmente perigosos.
Agora, uma nova lei agravou essa responsabilidade, imputando aos cães a responsabilidade criminal pelos actos lesivos dos humanos potencialmente perigosos.

A nave espacial alienígena aterrou nos jardins da Casa Branca.
Foi lançado logo um alerta vermelho. Em poucos minutos, o engenho estava sobre a mira de canhões e raios laser, e o Presidente escondido num bunker a ver pela televisão.
Abriu-se uma porta, e dois seres a caminhar sobre cinco pernas abriram um buraco no relvado com utensílios semelhantes a pás, voltaram para dentro da nave e trouxeram um Padrão dos Descobrimentos que erigiram no centro do buraco, enchendo o resto do espaço com terra e calcando-a com os seus pés numerosos.
Voltaram novamente para a nave e, aproveitando a trégua, avançou ao seu encontro um PR da Casa Branca para encetar um primeiro contacto diplomático, no preciso momento em que os extraterrestres saíam, carregando caixas de bugigangas e missangas para comerciar com os nativos.

Cortázar

Julio Cortázar é um autor que descobri há meia dúzia de anos, e foi como uma epifania, algo de muito valioso que tinha junto a mim sem o notar. É difícil não nos deixarmos seduzir pelo seu génio narrativo, pelo modo como nos envolve nas histórias que conta.

No portal da Ciudad Seva, podem ser lidos diversos contos, e sete textos de Cortázar em volta do conto e da escrita (gostei particularmente de El Sentimiento de lo fantástico); enquanto. no Projecto Releituras, está publicado, em português, um dos seus contos, Casa Tomada, o conto que abre o "Bestiário", obra (re)editada em Portugal pelas Publicações Dom Quixote.

Calar

- Quem és tu? O que queres de mim?
- Eu sou o Grilo Falante, e tu, Pinóquio, precisas de mim porque eu sou a voz da tua Consciência!
- Um grilo? Porque não um esquilo ou uma estrela porno? Odeio insectos, aviso-te já, tenho nojo de insectos, e é melhor afastares-te, porque eu sou de madeira mas não sou amigo do ambiente!
- Não fujas de mim, Pinóquio, não vale a pena correres pela casa, porque não se consegue deixar a consciência para trás...o que é isso que tens na mão?
- Chama-se insecticida!
Zzzzzzzzzzzzzttttttttttttttt!

Valbom

No final de Junho de 1993, os dois irmãos Morais, estão de volta à liberdade. Sete anos na cadeia por um assalto que correu mal. Tinham entrado numa vivenda a julgar que os donos estavam no Algarve, mas apareceu-lhes a família inteira aos gritos na sala. Desataram aos tiros, e a única coisa que conseguiram com isso, foi cravar duas balas no abdómen da filha do casal. Agora, respiram de novo o ar da liberdade, que para eles tem tanto valor como o bocejo dum canguru no outro lado do planeta. Voltam à terrinha, uma aldeia chamada Valbom que cresceu como um fungo em volta da estrada nacional. Alguns amigos mostram-se felizes de os ver, umas palmadas nas costas, umas taças de vinho bebidas no café do lugarejo, e os dois pensam no que fazer à vida. Reocupam a casa da família e, para desagrado seu, têm de trabalhar um pouco para reerguer o telhado de alpendre, que ruíra como uma aba de chapéu descaído. Uma tia oferece-se para lhes limpar a casa, por bondade. Mete mãos à obra com a ajuda duma comadre, e reviram a casa toda. Detergente e lixívia com fartura, levam os cortinados para lavar e coser e deitam para o lixo os dois colchões infestados de pulgas, prometendo a tia que lhes havia de arranjar outros. Os dois comem em casa de familiares, e dormem nos assentos do velho Ford Cortina encalhado ao lado da casa, todo enferrujado e sem ar nos pneus. Uns dias depois, estão reinstalados na casa, com o mínimo de conforto a que estavam habituados. Só o autoclismo não funciona, e têm de despejar água com um balde para empurrar o mijo e a merda. Os dois conversam no alpendre sobre o que iriam fazer. Nenhum dos dois pensa em trabalhar, e o dinheiro não caía do céu. Desta vez, temos de ter mais cuidado! - Murmura um dos irmãos.


Augusto Azevedo também vive em Valbom e tem mais vinte anos que os irmãos Morais, que ainda são seus parentes afastados. Durante quase toda a sua vida fora forneiro numa fábrica de faianças de Alcobaça, e por volta do ano em que nasceram os Morais, o dono da fábrica promoveu-o. Precisava de alguém na rua para contactar os clientes mas, sobretudo, para os chatear cordialmente até eles liquidarem as facturas atrasadas, porque havia cada vez mais dinheiro empatado na rua, que precisava para pagar aos empregados e comprar matéria-prima. Azevedo tinha o perfil ideal. Era extrovertido e simpático, com o bom-senso suficiente para levar as coisas a bem e conseguir resultados sem alimentar antipatias. Em Valbom, também era uma pessoa muito estimada. Construíra um primeiro andar sobre a sua vivenda, para alojar o filho quando este se casou, e a sua casa era a melhor da terra, e a única com uma piscina grande. Já tinha uma neta, com a qual passeava ao Domingo, todo derretido. Quando chega a Valbom, vindo da fábrica ou da volta, não prescinde de parar religiosamente no café local, para beber um café ou um copo e trocar alguns dedos de conversa com o proprietário e os amigos. Ás vezes, chega já com a noite adiantada, mas pára lá na mesma. Nunca deixa a sua maleta de trabalho no carro, transporta-a na mão, fechada e com uma correntinha niquelada a prendê-la à pulseira de couro no braço esquerdo. Transporta facturas e recibos, mas também cheques e, ocasionalmente, algum dinheiro em notas. Pousa a mala no balcão ou em cima da mesa, e habituou-se de tal forma a tê-la presa ao pulso que quase nem dá por ela.
Os irmãos Morais começaram a tê-lo debaixo d'olho. Tinham retomado os seus trabalhos nocturnos, desapareciam durante duas ou três noites, e depois regressavam à sua mesa habitual no café, cheios de dinheiro, a beber cerveja e a comer uns petiscos. Tentavam trabalhar longe para não atrair suspeitas, mas a maleta do Azevedo parecia túrgida de promessas, era tentadora. Sabia-se lá quanto dinheiro não estava guardado ali dentro. Uma noite, saíram do café e seguiram o Azevedo. Ao contrário do que deve ser feito por alguém que transporta valores ou representa dinheiro, o Azevedo tinha sempre a mesma rotina, todos os dias. O carro ficava junto ao café e percorria as mesmas ruas até casa porque, de manhã, iria percorrê-las em sentido inverso, tomar o pequeno-almoço no café, e arrancar. A meio caminho entre o café e a casa dele, havia uma obra abandonada. Era ali que tinha de ser dado o golpe, concordaram os dois irmãos, não havia casas do outro lado, apenas o muro duma propriedade, e a obra não tinha taipais, era toda aberta. Um dos irmãos ficou encarregue de arranjar um corta-rebites para cortar a corrente e quando o conseguiu, depositou-o na obra, em pé, encostado à face interna dum dos pilares da fachada. O cenário estava preparado. Continuaram a ir ao café, como todas as noites, espreitando e avaliando o Azevedo. Uma noite, o Azevedo vem invulgarmente exuberante, cumprimenta todos em voz alta e percorre as mesas, apertando efusivamente a mão aos presentes. Senta-se ao balcão a conversar, cheio de sorrisos. Os irmãos entreolham-se e miram a maleta do Azevedo, parecia invulgarmente cheia. Um deles levanta-se, a pretexto de ir buscar o jornal A Bola, e tenta escutar a conversa.
- Minha neta...dinheiro que pague...amanhã vai ser um dia especial - e um gesto enfático, umas pequenas palmadas no bojo da maleta, seguido de uma frase incendiária - hoje é que trago aqui um verdadeiro tesouro...
Largou o jornal e deu um toque no cotovelo do irmão. Saíram logo do café e em passos apressados, subiram a rua até à obra. Apagaram os cigarros e emboscaram-se no escuro a cochichar, agitados. Passaram-se parcos minutos, que lhes pareceram horas, até ouvirem os passos do Azevedo no empedrado da rua. Distinguiram a sua silhueta característica, com a maleta acorrentada ao pulso. Esperaram até ele chegar diante da obra e saltaram-lhe ao caminho, agarraram-no pelos dois, tapando-lhe a boca e golpeando-lhe nas costas e na cabeça para vencer a sua resistência. Enquanto um o imobilizava, já deitado no chão, o irmão, foi à procura do corta-rebites, mas não estava onde o tinha deixado. Rogou pragas a quem o tinha tirado. O Azevedo esperneava e sacudia-se, tentando libertar-se, e o irmão via-se em apuros para o segurar. Dirigiu a este um aviso para lhe largar a cabeça, e quando o Azevedo começou a gritar, ergueu nos ares um pedregulho que estava encostado a uma betoneira, e esmagou-lhe o crânio como se fosse uma melancia. Repetiu o golpe, para ter a certeza de que o calava. O irmão puxou de uma navalha de ponta-e-mola e, em rápidas surtidas, cortou a pulseira de couro para libertar a maleta. Os dois correram pelas ruas sombrias, e só se detiveram dentro de casa. Correram as cortinas, fecharam a porta da rua à chave e acenderam a luz. A fechadura foi forçada com a mesma navalha, e abriram-na. Os olhos, os dedos ansiosos e pintalgados de sangue, esmiuçaram o conteúdo, papéis e mais papéis, nada mais do que papéis e, no fundo, um saco com um embrulho. Já desesperados, rasgaram o papel de embrulho, revelando à luz ocre do candeeiro, uma boneca Barbie na sua caixinha florida.

Um novo rosto (apetecia-me)

Um caminho longo e árduo, e um
banco à sombra de uma árvore, para
descansar ou ler, de fugida. Ou apenas
parar um pouco, o caminho já não está
despovoado,
encontro, por todo o lado, imagens,
ecos e memórias. Reúno forças e
meto-me de novo ao caminho, trago muita coisa
comigo
mas não me pesa, o caminho é a pátria
dos peregrinos.

O poder explosivo do Aroma de Octanas

Numa manhã citadina de regresso ao trabalho, o morador de subúrbio sentou-se ao volante do seu carro. Mordeu nervosamente o lábio e rodou a chave na ignição. Ouviu-se apenas um ruído surdo, de peça de metal a mover-se milimétricamente para voltar ao seu lugar inicial. Resmungou para dentro e tentou outra vez. Rodou a chave, e o resultado foi o mesmo. Nisto, reparou que estava a ser observado - numa paragem de autocarro mesmo diante do seu lugar, um grupo de mulheres olhava-o com uma expressão irónica. Lançou-lhes um olhar incendiado e tentou outra vez, mas nada, o motor não lhe apetecia. Teve de olhar para elas, o mulherio já se ria sem reservas. Saiu do carro e dirigiu-lhes a palavra.
- Estão a rir-se de quê? Vocês não distinguem entre uma biela e uma chave de rodas, e riem-se de mim, que conduzo há trinta anos!
Mas elas não se atemorizaram e, agora, riam-se abertamente, mas do seu papelão, enquanto ele, de novo ao volante, acrescentava para si mesmo: "Mulheres dum raio! Gostava de as ver, a tentar conduzir um carro sem gasolina!".

Firma registada

"A Feirante - Confecções e Contrafacções Associadas".


Há umas semanas, vi em diferido uma peça truculenta do Daily Show de Jon Stewart na qual se coligia as inúmeras gafes televisivas originadas pela semelhança entre os nomes de Obama e Osama - políticos, comentadores e jornalistas americanos, descaíam-se a chamar Osama a Barack Obama.
Agora, para agravar as coisas, o próprio Obama escolheu para vir a ocupar a vice-presidência (se for eleito, claro), um senador com o estranho nome de Joe Biden, estranho porque do somatório do nome dos dois obtém-se algo como Obama (Osama)-Bi-(La) den.
Venham as confusões!

Dois remates

A meio da viagem de recreio pelo Atlântico, o pequeno paquete realizou, como era hábito, uma simulação de naufrágio. Com todos os passageiros de todos os camarotes avisados de véspera por uma circular, a simulação começou logo a seguir ao pequeno-almoço. A sirene aflitiva tocou repetidamente, e todas as pessoas acorreram ao convés com os seus coletes salva-vidas, alinhando-se ordeiramente junto ao bote de salvamento que lhes estava destinado. Mas uma simulação era uma simulação, e muitos nem haviam apertado os fechos do colete, apesar do baque violento que antecedeu o soar da sirene, e do navio que tinham diante dos olhos, quebrado a meio pela proa do paquete.


A meio da viagem de recreio pelo Atlântico, o pequeno paquete realizou, como era hábito, uma simulação de naufrágio. Com todos os passageiros de todos os camarotes avisados de véspera por uma circular, a simulação começou logo a seguir ao pequeno-almoço. A sirene aflitiva tocou repetidamente, e todas as pessoas acorreram ao convés com os seus coletes salva-vidas, alinhando-se ordeiramente junto ao bote de salvamento que lhes estava destinado. Todos sabiam que se tratava duma simulação, que era tudo a fingir, à excepção de duas crianças de quatro e seis anos que se borraram nas calças, e de um rapaz de catorze anos que estava a leste de tudo e que, no meio de tanto bulício e ruído, atirou-se ao mar da popa do navio.

Recebeu no telemóvel a mensagem da namorada em pleno horário de trabalho, do lado de dentro de um balcão da repartição de Finanças. Na primeira ida ao arquivo, abriu-a.
Dear Mário, Amot e desejot c tdas células do meu corpo
A sua cabeça entrou em parafuso, passou o trabalho a um colega e esgueirou-se até ao exterior. Ligou-lhe, era mais rápido:
- Quem é o Mário para quem mandaste o ésse-éme-ésse?
- Foi engano, não existe Mário nenhum, lembrei-me de te mandar um mensagem, e como estava a ler um livro do Mário Cesariny, troquei os nomes. Desculpa, tá? Só queria fazer-te uma surpresa.
- É bom que seja engano, porque se eu desconfio que há outro homem na tua vida, parto-lhe as fuças, aliás, mato-o e depois parto-lhe as fuças. Ouviste bem?
- Sim, ouvi, ouvi muito bem, como sempre.
O episódio desvaneceu-se. Umas semanas depois, ele regressava a casa à boleia no carro de um colega, quando viu a namorada, sentada numa esplanada de café, de mão dada com um estranho. Sacou tão depressa do telemóvel, que este escapou-lhe das mãos, apanhou-o do chão do carro como se ele estivesse em brasa e contactou a namorada com os dedos trémulos.
- Quem é esse anormal que está contigo no café? - gritou.
- É o engano!

Sexo bio-mecânico

- Agora, estás entre a espada e a parede! - proclamou o andróide à sua companheira ginóide.
- Com tantos acessórios que tens, isso parece mais um canivete suíço!

- Estamos a ser seguidos! - O aviso dela soou quando saíam do mercado. A outra mulher olhou por cima do ombro, e foi a única vez que o fez, porque a amiga soltou um gritinho de aviso para ela não repetir o gesto. Continuaram as duas a caminhar, com o passo apressado, mas na mesma sintonia dos passos de toda a gente em volta. Com as bolsas e os sacos aferrados nas mãos, passearam um pouco, a aparentar um ar casual. Aqui pararam na montra duma livraria para ver as novidades e, mais adiante, atreveram-se a entrar numa loja de roupas, onde experimentaram algumas calças de ganga. Quando desaguaram novamente na rua, a amiga murmurou: "Ainda anda atrás de nós, mas não olhes!". Flectiram para um pequeno centro comercial - primeiro os cinemas, a relojoaria, cheiraram umas amostras na perfumaria, e beberam um café na esplanada do átrio, onde conversaram em amena cavaqueira durante mais de uma hora até a amiga, a que descobrira o perseguidor, ter uma ideia. Foram em seguida a um Banco, a pretexto de pedirem informações sobre um empréstimo pessoal, e o fulano foi atrás delas ou, pelo menos, ela achava que sim. Indicaram-lhes um segundo balcão, onde mataram tempo a fazerem perguntas fúteis à funcionária e a pedir simulações. A estratégia era simples, se o malfeitor as tentasse roubar ou violar nas ruas, a polícia poderia exumar os últimos passos delas e descobrir que elas tinham estado ali, e encontrar o culpado entre os clientes filmados no interior da instituição. Quando saíram do Banco, ficaram num impasse porque teriam de se separar, uma vez que viviam nos dois extremos da cidade, e não adiantava uma acompanhar a outra a casa e esta retribuir acompanhando a primeira, porque apenas adiariam o inadiável e, uma das duas teria de se aventurar solitariamente até à sua própria casa - "Dormes na minha casa", propôs a mais atenta das duas. A amiga aceitou, não queria ser uma presa solitária nalgum beco escuro. Racharam um táxi, e chegaram ao apartamento num segundo piso, onde se trancaram, correndo ferrolhos, e fechaduras de quatro trancas. A dona do apartamento verificou se todas as janelas estavam bem fechadas, mas deu uma escapadela à marquise da varanda para esquadrinhar a rua. "Ele ficou no passeio, vai acabar por se cansar!". E fechou também a porta da varanda, arrastando até esta o pesado sofá de três lugares. Por precaução, desligou também o telefone, para não ouvirem ameaças ou telefonemas obscenos. Agora, tudo parecia em ordem. "O sofá-cama fica muito exposto! É melhor dormires comigo na minha cama, e fechamos à chave a porta do quarto, para termos uma segurança suplementar!".

Um texto exemplar

Este, de Daniil Harms:

«Era um homem ruivo que não tinha olhos nem orelhas. Também não tinha cabelo, pelo que só convencionalmente se podia chamar ruivo. Não podia falar, porque não tinha boca. Também não tinha nariz. Nem sequer tinha mãos, nem pernas. Não tinha ventre, não tinha costas, não tinha coluna vertebral, nem quaisquer entranhas. Não tinha nada! Por isso não se compreende de quem se trata.
É melhor não falarmos mais nele


1001 postes na estrada

Depois de uma passagem de ano e meio pelo MSN/Windows Live, o Estrada de Santiago aterrou no Blogger. Desde então, foram publicadas mil mensagens neste blogue.
Este post, o milésimo primeiro, serve para assinalar essa trivialidade.

Obrigado a todos aqueles que alguma vez passaram por cá.

Razões

Com apenas cinco anos, pergunto ao pai se podia abdicar do seu apelido de Pinto. Quando censurado por este, explicou que os primos já o chateavam o suficiente por ter estado num incubadora como os ovos de galinha.

Quando a nova colega de trabalho lhe contou, com um ar misterioso, que viera de um lugar com muitos anéis, a sua fantasia levou-o logo a supor que ela era uma extraterrestre chegada de Saturno. Quando teve oportunidade de a conhecer melhor, substituiu essa fantasia pela convicção de que ela nascera num ninho de cobras.

Acabadas as férias, levou de volta para o seu apartamento citadino, dois baldes com areia de praia, que deixou na varanda junto à cadeira de plástico. Estava determinado. Em cada dia que voltasse do trabalho, haveria de sentar-se ali com os pés na areia, e fechar os olhos para tentar recordar o murmúrio das ondas. As gaivotas, poderia imaginar as gaivotas, convertendo mentalmente, os guinchos frequentes dos pirralhos da vizinha.

As suas palavras eram dóceis e dadas e saíam de si sem medo das pessoas ou dos sons, mas os seus silêncios não, enrolavam-se em volta das cordas vocais como pequeninas serpentes com a grossura de um cabelo, ou povoavam o seu peito com um novelo ácido e tumultuado. Com o passar dos anos, as palavras já não encontravam caminho para se libertar e mesclaram-se com os seus silêncios; e todos em volta tiveram de aprender a dialogar com o seu mutismo, durante todo o tempo que ela demorou a explodir.

O convento dominicano guardava a sete chaves a sua relíquia mais invejada: um fragmento de madeira da cruz de Cristo.
Os bichos-carpinteiro descobriram a madeira e entraram directamente para o Céu, sem passar pela recta da meta.

A suprema vocação do mirone onanista:

Ser controlador de tráfego no Império dos Sentidos.

A vida é feita de pequenos prazeres,

a visão extasiada das ínfimas estrelas, gomos de laranja deliciados num dia abrasador, pequenos beijos e carícias com a ponta da língua, uma música tocando baixinho no Mp3 de um estranho, os pequenos e intensos comprimidos sublimados pelo álcool, um colibri fulvo umbilicado ao cálice da flor pelo seu bico curvo, um adormecido pacote de C4 ligado a um temporizador numa maleta no Metropolitano, o cheiro de café e torradas pela manhã, as promessas de amor eterno sussurradas na areia da praia num entardecer de Agosto, a voz que se ama cruzando oceanos até ao telefone na nossa mão.

A vida é feita de pequenas vidas

Nada a fazer

A sua inaptidão para a música era tão definitiva, que se poderia dizer que ela executava notas de música como se dirigisse um pelotão de fuzilamento.

Frutos

Aproximou-se da jovem quando a viu sozinha, no pátio de cimento contíguo à grande eira circular. Parecia pensativa, já mudara de roupa mas ainda segurava a tiara que cingira o seu penteado de noiva.
- A menina é a esposa do meu sobrinho, não é? Do João? Eu sou o Luís, irmão da senhora sua sogra.
Ela cumprimentou-o, com alguma surpresa, estudando aquele personagem despudoradamente.
- Um bom rapaz, o João...mas eu gostava mesmo era de lhe falar da minha irmã, isto, se me der uns minutos.
- São seus! O que tem para me dizer?
- Nada de dramático, a minha irmã é boa pessoa, desafeiçoada de si mesma para se dar aos outros, vive para os outros e precisa deles como a terra da chuva. Se sente que os outros a querem menos, ou negligenciam a sua presença ou a sua opinião, sofre como se tivesse alguma intensa dor física.
- Já me tinha apercebido disso, desde o princípio!
- Então, deve guardar essa intuição, como o principal atributo da minha irmã!
- Porquê?
- Porque ela vive num mundo vasto que nós, só parcialmente, entrevemos. É uma fantasista patológica, para ela, a realidade é uma despensa escura no seu espírito e, como é um lugar reduzido e pobre, ela acrescenta-lhe outras divisões e espaços, sujeitos a uma arquitectura volúvel e diáfana
, inventa salões de banquetes e lúgubres masmorras, jardins de Versalhes com labirintos de sebes e bailes de máscaras, e bosques verdejantes com pequenos lagos perfeitos e caminhos empedrados onde as pessoas passeiam a cavalo. As pessoas que ela conhece, transitam de uns espaços para outros, segundo os seus caprichos e humores. Alguém que hoje mereceria dançar no salão real, amanhã poderá parecer-lhe um anão corcunda na torre dos sinos, ou um verdugo a torturar infelizes nas masmorras. As memórias e as referências da minha irmã não são, nem estáveis, nem coerentes. Ela nunca conta uma história da mesma maneira e vê-se, por isso, forçada a imaginar novas histórias para justificar as contradições que lhe descobrem. Por tudo isso, é preciso que você não esqueça o essencial, que ela gosta das pessoas e seria capaz de morrer por si, mesmo que a venha a enredar em histórias que você nunca conheceu e que a farão sentir-se revoltada.
- Não me tinha apercebido disso, pelo menos, não com essa nitidez. Quando o senhor começou a falar comigo, tive logo uma espécie de prenúncio do que se seguiria.
- Porquê?
- A sua irmã contou-me que o senhor tinha morrido há cinco anos, e que tinha sido um choque para toda a família, mas não cheguei a perceber de que forma tinha morrido, se atropelado por um camião ou esfaqueado por um rufia quando tentava salvar uma menina de ser violada. Também me contou, e isto na presença do João, que morreu devido a um cancro.
- Não sabia disso, mas o João, como todos os membros desta família, nem se esforça por contestar a minha irmã. A gente encolhe os ombros e segue em frente, é menos desgastante. Vistas as coisas, esta conversa nem tem razão de ser, porque você percebeu logo as regras do jogo.
- Não tem importância, foi um prazer. Não quer entrar? Ver as pessoas?
- Não, é melhor não, estou com elas todos os dias, vou antes dar um passeio até ao pomar. Deve estar abandonado, sempre me entristeceu que as pessoas não se sirvam do pomar e deixem a fruta pelo chão, a apodrecer.
"Sou o dono da Verdade" - arrogou-se o triste truão, levantando acima da cabeça uma gaiola de ferro, enquanto os seus pés bailavam.
Mas não havia quem visse nela a Verdade, somente, algumas penas douradas a esvoaçar dentro da rede.
É uma verdade nua e crua, que os canibais despem as suas vítimas antes de as cozerem, porque a roupa funde-se com a pele durante o processo, e os tecidos sintéticos conferem à carne um paladar esquisito.

É um facto científico, que se pode sangrar por dentro devido a uma grande variedade de causas - a lesão dum órgão causada por um choque ou queda violenta, o rompimento de um vaso sanguíneo, uma dor profunda nascida de uma separação ou rejeição, a violência que nos atingiu com palavras ou agressões, uma experiência longínqua que nos gangrenou nos dias primevos da infância. Nalguns casos, urge a intervenção médica, no sentido de coser o órgão danificado, a veia que se rompeu. Noutros, de nada adianta, abrirem-nos e remexerem nas nossas entranhas. Sangramos e continuaremos a sangrar por dentro, enquanto houver sangue nas veias, e uma espécie de vida a animar-nos o coração.

O magnata do petróleo sofria de derrames de pele de cor negra.

Dos mitos

Amor-próprio, é o que não faltava a Narciso.

De todas as colecções que poderia ter iniciado, a única pela qual se afeiçoou de corpo e alma foi à sua colecção de artigos de hotel: sabonetes, pastas de dentes, toalhas e fronhas com monograma, cinzeiros, cruzetas, saca-rolhas...
Foi enriquecendo a sua colecção durante toda a sua vida de casado, ao longo de encontros furtivos com diferentes parceiras.
A feia impotência que o assolou, interrompeu uma bela colecção.

Um Eléctrico Chamado DESEJO", de Elia Kazan

Remédio santo

Para não ser molestado no seu sono pelas picadelas das melgas, estendeu uma rede mosquiteira em volta da cama, e para que nem o zumbido delas o atormentasse, levou para dentro da rede o seu leitor de cassetes, e as suas velhas cassetes dos Deep Purple.

Procura-se

Vampiro jovem, com cartão de cliente do Ikea, procura companheira de qualquer idade para redecorar a cripta do castelo.

*
Perdeu-se cão Grand Danois, de pêlo castanho lustroso e um metro e quinze de alto. Oferece-se recompensa a quem o descobrir e à cestinha de vime onde era transportado.
*
Professor cansado de ser recolocado, procura lugar de perceptor por um período superior a dois anos lectivos.

Apanhar uma cadela

Fugiu do calor da beira da piscina e refugiou-se no alpendre da casa, ficava virado a leste e era fresco como uma cave, o amante trouxe-lhe uma sangria com muitas frutas e muito álcool, e esfumou-se no interior escuro da casa, como uma sombra fundindo-se com o seu elemento, ela levantou o copo, fresco, com perlas líquidas a escorrer pelo vidro, fresco demais, saíra da braseira do sol e, se bebesse aquilo, ganhava uma dor de cabeça para uma semana, pousou o copo e afagou a caniche que brincava aos seus pés, tinha a língua de fora a caniche, devia ter sede, olhou em volta, talvez pudesse...não devia fazer grande mal, e despejou a sangria na malga de pedra, a cadela rodeou o líquido odorífero, cheirou, molhou a ponta da língua e depois bebeu a sangria com sofreguidão, com o rabo minúsculo a sacudir-se; em seguida, foi o seu corpo todo que se sacudiu, diante dos seus olhos, a cadela rebolou-se pelo chão a ganir até se imobilizar com a língua retorcida e os olhos injectados de sangue. A dona levantou-se dum salto, muito constrangida, era uma tragédia, matara a sua querida caniche, tadinha dela, ela não sabia, não podia saber, que o álcool podia fazer aquilo a um animal. Meu Deus, o que vou fazer agora? - pensou. O amante regressou ao alpendre, como se respondesse a uma chamada, trazia um saco de plástico preto e enfiou nele a caniche de corpo retesado - Não te atormentes, meu amor, não tiveste a culpa e não é nenhuma sangria desatada, eu trato de tudo! Ela agradeceu, em pranto, e abraçou o amante pelo pescoço enquanto este tentava imaginar onde poderia, agora, colocar o veneno.

Ironia q.b.

Neste conto soberbo de Victor Giudice, ao qual cheguei via azeite & azia

A tarde declina e é ventosa, tarde de um Agosto comprometido com os zéfiros de Outono, mas os dois sentem-se bem ali, no recôncavo de um rochedo polido pela água do mar, apenas se avista um pouco de mar e as canas dos pescadores no outro lado do molhe, ela aninha-se no seu peito enquanto as suas mãos lhe afagam as pernas ao sol, beijam-se e ela prende a língua dele entre os seus dentes, e o riso coroa a sensualidade daquele gesto. Ela roda o seu corpo até ter a sua cintura entre as pernas, esfregando-se no seu desejo enquanto recomeçam a beijar-se. Nisto, sentem que alguém os está a ver, uma mulher entradota com um chapéu de jardinagem de aba larga, está parada a uns cinco metros, mostra-se surpreendida, viera a saltitar no molhe de rochedo em rochedo e não estava à espera, quando se recompõe, sorri com cumplicidade e leva a mão aberta aos olhos para simbolizar a sua discrição, e eles retomam o mel enquanto ela continua a saltitar, com a mão na cara, e ouvem o seu grito quando cai numa fissura entre dois rochedos. O casal suspende por um momento as suas carícias e beijos, e voltam a ouvi-la, geme alto, de uma forma lancinante - "Deve estar a masturbar-se - avalia ele - Agora é a minha vez!" - e depois de lhe mordiscar ao de leve o lábio superior, aprisiona a língua dela entre os seus dentes.

Animal de hábitos

O prédio em que vivia, padecia de todos as pequenas falhas dos prédios novos mal construídos, e o pior dele era a deficiente insonorização dos apartamentos, ouvia-se quase tudo através das paredes e das placas. À noite, o seu vizinho de cima tinha o lastimável hábito de ir mijar às três da manhã, o tipo não devia dormir antes daquela expulsão de líquidos, porque era matemático. Três da manhã, o fio líquido na água da sanita, os pingos terminais e depois, o autoclismo, descarga completa, a ressoar pela parede do seu quarto. Acordava sempre e, por vezes, nem conseguia dormir, tal era a convicção de que acabaria por acordar com a mijadela das três horas. Os seus ciclos de sono começaram a andar afectados e deu voltas à mioleira a pensar numa solução, e acabou por lhe aparecer uma. Ofereceria cerveja ao tipo, era diurético, ele descarregava a bexiga ao princípio da noite e ele podia dormir como um anjinho. Isto, se ele gostasse de cerveja, tinha de gostar porque ele precisava muito de dormir, nem que fosse só uma noite. À hora de jantar, deixou-lhe duas cervejas médias à porta, tocou a campainha e correu a refugiar-se na penumbra das escadas. A porta abriu-se e as lourinhas foram recolhidas. Correu para casa, tirou o som à televisão, comeu também qualquer coisa e refugiou-se no quarto. Ainda estava a vestir o pijama quando ouviu o ritual das três da manhã...seis horas mais cedo. Deu um grito de alegria e começou aos pulos em cima da cama. Quando a euforia lhe passou, deitou-se e dormiu como um justo.
Às três da manhã, acordou com passos no piso de cima, e sentou-se na cama, estonteado. Versão condensada - ouviu a tampa da sanita a abrir, uns pingos de urina na água e, novamente, o raio do autoclismo como um tornado no silêncio da noite.
- Sou um prosador tosco, e manco de palavras, mas os teus versos fazem-me voar!
- Acredito em ti - afiançou ela, com dois dedos fechados sobre o seu calcanhar para reter junto a si o corpo imponderável que baloiçava na brisa.

Dia aziago

Viu-o logo à entrada, primeiro de viés, e gradualmente, mais em pormenor, e teve um choque, já não o via há muito tempo, estava uma lástima, mais gordo, cabelo grande em desleixo, barba por fazer. Tentou evitá-lo, há encontros que não se desejam, diagonalizou a marcha para lhe escapar mas só conseguiu apressar o inevitável.
"Como vai? - inquiriu por gentileza, e a figura no espelho encolheu os ombros e respondeu, abrindo muito a boca de dentes amarelados: "Vai-se andando, não é?" - "Pois é! - volveu ele - "Quando não se puder andar, empurra-se!". E não precisou mais de gastar o seu latim, porque o outro, para seu profundo alívio, perdeu-se no meio das paredes e recantos do Centro Comercial.
Mal ele sabia, que não iria conseguir livrar-se do fulano.

Luz

Não saberia dizer ao certo onde estava, porque tinha conduzido durante horas por estradas de asfalto degradado, e a última, inócua, referência que possuía, tinha sido uma bomba de gasolina em nenhures onde atestara o carro e comprara um pacote de bolachas e uma garrafa de Johnny Walker, agora, tinha encostado o carro à berma, na reentrância de um portão em ruínas, do que deveria ter sido uma quinta nos seus tempos de glória. Preparou-se para passar a noite. Foi bebericando o uísque por um copo de plástico amarrotado até sentir pesar as pálpebras, deitou então o banco da frente, o mais que pode, e procurou dormir, com a porta do seu lado toda aberta para trás, porque o ar começava a ficar irrespirável. Adormeceu e dormiu pesadamente até às primeiras horas da manhã, despertado pelo ronco penoso dos camiões de mercadorias. Estava imprestável, sujo e a cheirar mal, deu alguns passos até à berma do alcatrão, a bocejar ruidosamente e, aí, entre o vórtice momentâneo de dois camiões a passar, teve uma epifania - do outro lado da estrada e até perder de vista, estendia-se um imenso campo de girassóis, as folhas de um verde esmaecido, coroados por flores abertas, irradiantes, plêiade de pequenos sóis que o atraíam no vazio cósmico, cruzou a estrada e adentrou-se pelo campo de girassóis, abismado de uma vaga religiosidade, uma sucessão de pensamentos e memórias afloraram na sua comoção, afinal, havia beleza neste mundo, algo que valia a pena no meio das viagens e da solidão e do ódio. Sentiu-se diferente, transformado, aquele campo de girassóis não podia ser um acidente de percurso, era uma espécie de mensagem, um sinal que lhe mostrava que as coisas podem ter um sentido, para além da perpétua dissolução que o cercava, podia dar um novo rumo à vida, começar tudo de novo como se obedecesse a um chamamento. Com um entusiasmo que não se lembrava de alguma vez ter sentido, regressou ao carro. Iria deixá-lo ali mesmo, cruzaria o campo de girassóis até encontrar uma outra estrada para seguir e de uma nova vida para viver. Enfiou num saco as bolachas, o uísque e uma t'shirt usada. O calor estava a acelerar o processo, e o cheiro a podre tinha-se acentuado, não tardaria, e iria tornar-se insuportável. Deu uma última olhada ao interior do carro antes de o fechar, havia algo à vista, um bibe rasgado no lugar do pendura. Metodicamente, enrolou-o e enfiou-o por debaixo do banco, longe dos olhares curiosos. Trancou as portas e atravessou a estrada, ele e os girassóis voltados para nascente.

ocorrência

Quando por engano, a pequena mercearia de bairro recebeu uma caixa de bananas do Equador cheia de saquinhos de coca, não era preciso ser nenhum Barão de Munchausen, para imaginar que, na outra extremidade daquela troca, existiria um homem ou grupo de homens a subir pelas paredes, ou a perder a vida de uma forma macaca.


É um redonda redundância, mas é preferível estar na mó de cima do que debaixo de uma pedra de mó.

1ª vez que lá aportou:
Site em construção, seremos muito breves!

Um mês depois:
Site em construção, seremos breves!

Dois meses depois:
Site suspenso, expirou a licença camarária.

No seu escritório de gestor de sucesso, tudo servia para sublinhar o seu triunfo, a maciça secretária de mogno, a outra, de carne e osso, que se rebolava dentro de uma saia diminuta, o bar bem fornecido a um canto, os charutos, os diplomas e prémios emoldurados. Mas o objecto que mais estimava, o seu mais-que-tudo naquela sala de élite, era uma enorme e quadrangular lente de aumento que se erguia entre o seu lugar à secretária e as cadeiras onde se sentavam os seus interlocutores (ele sempre tivera pavor que estes o achassem um microcéfalo).

Hiperligue-se

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O post final do Blog de Apontamentos, de Luís Ene. Uma referência. O Luís Ene continua a trabalhar noutras frentes, e acho que não resistirá a criar outro blog.
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Já aqui tinha deixado um post sobre o dócil-diarista António Gregório, visitem pois o Random Acess Memory, um blog com a apurada qualidade de escrita a que ele já nos havia habituado.
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Para quem sofre de bloguite, com os seus tiques e sintomas, é indispensável esta Epístola aos Blogueiros de Fabrício Carpinejar, que nos oferece a saudável chance de rirmos de nós mesmos (o post tem a data de 3 de Janeiro).

O estóico sem férias

Não se importava de passar as passas do Algarve, desde que fosse mesmo no Algarve.

Leitura de férias

In "Os Náufragos do Autocarro" de Steinbeck
(Empresa Nacional de Publicidade, 1963):

"Quando chegava a casa tinha sempre uma quantidade de histórias para contar (...). Costumava contar uma sobre Pancho Villa. Dizia que uma pobre mulher fora até junto de Villa e queixara-se: «O senhor matou o meu marido e agora eu e os meus filhos vamos morrer de fome». Villa tinha muito dinheiro nessa ocasião. Dispunha de máquinas de impressão e fazia o dinheiro que queria. Voltou-se para o tesoureiro e ordenou: «Arranja cinco quilos de notas de vinte pesos para esta pobre mulher». Nem se dava ao trabalho de contá-lo, tal era a fartura. Assim se fez, as notas foram amarradas com arame e a mulher foi-se embora. Bom, depois, um sargento disse a Villa: «Houve um engano, meu general. Nós não lhe matamos o marido. Ele é que apanhou uma bebedeira, e nós metemo-lo na cadeia». Pancho ordenou então: «Vão fuzilá-lo imediatamente. Não podemos desapontar aquela pobre mulher»".
Uma vez por mês, quando o tempo estava bom, faziam uma limpeza geral à casa, abriam-se as janelas todas, punha-se a assoalhar cá fora os tapetes e cobertas de sofá, e fazia-se uma limpeza a fundo. Foi numa dessas limpezas gerais que descobriram o fungo, chamaram-lhe fungo porque não sabiam que nome lhe dar, tinha um aspecto baço e gelatinoso e revestia um canto das águas furtadas como uma teia de aranha congelada. Tentaram removê-lo, mas não o conseguiram, era rijo como os cornos e não se partia nem a golpe de picadeira. Não adiantou nada usarem produtos químicos em cima, amónia ou lixívia, porque permanecia inalterável. Foi alguma coisa que tu trouxeste na sola dos sapatos, disse a dona da casa ao marido, a quem recriminava constantemente por nunca descalçar as botas sujas quando entrava em casa, quer viesse da horta ou tivesse acabado de chegar da caça.
Mas eram as águas-furtadas e tinham lá muito espaço, não fazia mossa. No mês seguinte, o fungo tinha aumentado e revestia quase todo o chão e os dois primeiros degraus da escada. Parecia um ringue de patinagem no gelo. Repararam que às vezes parecia mudar de cor, como uma coisa viva, e começaram a preocupar-se. Consultaram várias pessoas e entidades, que não deram importância alguma ao fenómeno, mas um cunhado dele, que trabalhava nos Serviços Municipalizados, declarou que a origem daquilo eram os índices de humidade da casa, e vendeu-lhes um desumidificador industrial, uma máquina impressionante que ainda rugiu e trepidou durante uma semana ao lado da coisa, antes desta a envolver como um glaciar paciente.
Quando chegou ao quarto do casal, estes desistiram de dormir ali, e montaram uma tenda de campismo no relvado da casa. Começaram a procurar casa, e colocaram uma tabuleta na entrada para vender aquela. A mulher, que sempre fora a mais pragmática dos dois, disse com entusiasmo ao marido que podiam dizer a quem a viesse ver, que não havia casa mais prática de limpar, que se punha toda num brinco apenas com uma esfregona e meio balde de água, como quem puxa o lustro a um espelho.

Instruir

"A vida é uma carta fechada - proferiu o chefe da quadrilha com afectação filosófica - Nunca sabemos o que está lá dentro, e a minha experiência de vida diz-me que lá dentro não há trunfo nenhum, a menos que se consiga fazer batota".

"Teúda e manteúda"
A expressão confunde, os linguistas derivam, e vai-se buscar ao folclore duas irmãs inseparáveis, de Nápoles, não sei porquê. A mim, não me sugere amante, amásia tida e mantida, antes soa-me a beata, secretamente orgulhosa de ir para a cama com Deus, e desfiar o Kama Sutra debaixo das mantas.
Ou com um servo de Deus, a cumprir penitências.

Férias

Um amigo é um amigo, mesmo que seja um lobo e tenha a pata peluda a tapar o ventilador de ar da cave de uma casa esquecida, enquanto a alcateia se banqueteia com a ideia de morar numa casa de cinco assoalhadas a cem metros da praia.
(Mas também podia estar a sonhar, e o lobo não ser amigo, e a casa ser uma barraca de papelão e contraplacado, num bairro de lata prestes a transformar-se em ouro).

Minguante

Revista MINGUANTE n.º11, um número diferente, porque assinala o segundo aniversário da revista (Parabéns aos editores), e é dedicada ao tema O Desejo, uma boa explicação para ter conseguido reunir oitenta autores diferentes ;)

Para quem, como eu, a acompanha desde a primeira hora (comecei a colaborar, sem sequer saber o que era uma micro-narrativa), a Minguante é um bom veículo para a divulgação de novos textos e autores e, por reflexo, um cativante e inovador espaço de leitura. Perdeu-se alguma coisa ao longo dos sucessivos números, um certo idealismo pedagógico, que se traduzia por artigos, entrevistas e links de interesse para a divulgação da micro-ficção no mundo lusófono, mas, há concessões que se tem de fazer, e isto é como a história do lençol curto: quando se puxa para a cabeça, destapa os pés, e vice-versa.

No que à micro-ficção diz respeito, nada a apontar, autores, textos, e-books para passar em revista. Uma revista para levar para todo o lado, e uma boa leitura de férias.

{também lá estou com uns (Calados) Desejos de Rua}



Achado e dito (John)

"Olha a Bóo-la de Berlim! Olha a Bóo-li-nhah!"
- Querem uma? - perguntou à mulher e aos filhos, estendidos nas toalhas de praia após o banho. Todos queriam, chamou o vendedor e comprou uma para cada. Todos se serviram, enquanto o vendedor de branco retomava a sua marcha penosa pela areia solta.
Ainda não tinha começado a comer a sua, quando ouviu um pregão semelhante, atrás de si. Era outro vendedor, de mais idade, que não se desencorajou de os ver a comer. Pousou a caixa rectangular ao seu lado e perguntou em voz baixa:
- Compraram bolas-de-berlim ao puto? Vocês cometeram um erro do caraças!
- Porquê, amigo? Estão envenenadas?
- É como se estivessem, nós estamos proibidos de vender bolas-de-berlim com creme, porque podem provocar intoxicações, no entanto, ele vende-as. Se não fosse o patrocínio do Clique, o gajo não se safava. Se vocês costumam vir para esta praia, tenho o gosto de vos informar que estou por aqui todos os dias, e as minhas bolas-de-berlim são deliciosas e são das autênticas, aliás, não há bolas-de-berlim mais autênticas do que as minhas!
- Amigo, e desculpe tratá-lo dessa forma. Nós estamos longe de casa, e vimos para a praia justamente para estarmos longe de tudo, das rotinas e das pessoas de todos os dias, e isso abrange as guerrinhas e questiúnculas que muita gente passa a vida a urdir, e pelos vistos, você também deve pertencer a essa categoria de gente que pensávamos ter deixado para trás. Nós compramos bolas-de-berlim a quem nos apetece, e não nos queira convencer de que só as suas é que são as tradicionais ou as autênticas bolas-de-berlim, que patranhas dessas não servem para nós.
- Amigo, e tenho gosto de o tratar dessa forma, vejo que você é uma pessoa inteligente, e peço desculpa pela minha abordagem um pouco bélica. Mas posso afiançar-lhe que o que disse é verdade, e as minhas bolas-de-berlim não precisam de nenhum certificado ou prémio de doçaria para lhe provar que são as verdadeiras bolas, porque elas falam por si.
E dito isto, abriu a meia tampa da caixa das bolas-de-berlim, e um grito uníssono elevou-se do seu interior: "Ich Bin ein Berliner!!".

Quando ele era pequeno, era mesmo pequeno, tinha em média dois palmos a menos de altura do que os meninos da sua idade, e os outros, maiores em altura, não deixavam de lhe recordar esse facto, e atribuíam-lhe alcunhas, todas as que a sua imaginação conseguia requisitar ao compêndio de crueldade infantil. O que lhe custava mais eram as maldades. A entrada da Escola Primária era feita por um pequeno portão de ferro no centro de dois muros convergentes. Quando ele se dirigia para o portão, aquelas harpias em corpo de menino, esperavam-no, sentados no alto do muro e arremessavam-lhe caracóis - caracol, era uma das suas alcunhas mais populares - que explodiam em cima dele enquanto corria para o interior da escola para minimizar os estragos. Na hora do recreio, ele voltava furtivamente àquele sítio, porque lhe fazia impressão os caracóis ainda vivos, parcialmente esmagados num borrão de baba. Com um pedaço de cana que mantinha a um canto do portão, removia-os com cuidado para a palma da sua mão, enfarinhados em terra, e depositava-os no meio dos arbustos, na esperança de os ajudar a sobreviver.

Muitos anos mais tarde, continuava a ser uma pessoa de baixa estatura, mas sem que isso originasse um halo maldito em sua volta. A tortura psicológica dos seus tempos de criança, havia-se esbatido numa torrente de vivências e memórias, e já não lhe dava importância alguma. Numa noitada com os amigos numa ronda de copos e bares de strip-tease, viu-se à porta da sua casa às cinco da manhã, e não lhe apeteceu entrar. Pegou no carro e conduziu ao acaso, até se achar na marginal de S. Martinho do Porto. Saiu e caminhou um pouco. Apesar do álcool e da agitação da últimas horas, sentia-se vazio, nunca se sentira tão vazio. Enfastiou-se de ouvir o mar e de tentar fixar as embarcações de pesca ancoradas no negrume. Continuou a caminhar, encostou-se ao tapume de uma obra para puxar de um cigarro, e ouviu sons no interior do prédio em construção. Havia uma nesga na rede de malha de aço que o cercava. Entrou também. O prédio estava apenas alçado, havia poucas paredes de tijolo, apenas a estrutura, as placas e escadas e ferros armados. Encontrou a origem dos sons, um grupo pequeno de pessoas, sentado a um canto do rés-do-chão, próximas umas das outras, entregues ao vício em torno de uma colher aquecida. Encolheu os ombros e, como não tivessem dado por si, dirigiu-se às escadas e começou a subir os degraus. Foi subindo sempre até não haver mais degraus, foi até uma ponta do terraço e sentou-se na berma. Devia estar a uns sete andares de altura, a marginal era um rio de luz e a Baía escura pareceu-lhe um lago cheio de petróleo. Subira por subir, sem nenhuma ideia clara a empurrá-lo, mas ali, com os pés varejando no vazio, ocorreu-lhe que podia saltar, um impulso para a frente, uma pequena aplicação de força e tudo acabava. Quando começou a sentir o torpor e a sensualidade daquela ideia, uma recordação emergiu e estracinhou-a, a de um menino pequeno que se condoía dos caracóis, aqueles seres minúsculos eram arremessados com força e, no entanto, sobreviviam, agonizavam, mas estavam vivos. A morte não o assustava, aquilo sim, era assustador, cair e não morrer, estropiado e partido. Levantou-se e começou a descer os degraus. Era irónico, mas os miúdos beras da sua infância tinham-lhe salvo a vida.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...