Pêndulo

Da primeira vez que foi visitar o tio ao IPO de Lisboa, lembrou-se que devia levar-lhe jornais, sabia que ele, leão dos quatro costados, gostava de futebol e por isso comprou-lhe dois jornais desportivos e um semanário tirado à sorte. Pediu indicações e lá aportou ao quarto onde ele convalescia da operação, um quarto grande que ele partilhava com outro paciente que, nesse momento recebia a visita de uma senhora sexagenária, talvez esposa dele.
Saudou a todos no geral, e deu um abraço ao tio, inteirou-se da operação e de como se sentia, falaram da casa na terra, de Lisboa e do Tejo, dos familiares que já tinham vindo e dos que tinham anunciado a sua visita iminente, às páginas tantas, acusando o barafustar do vizinho de quarto, o tio confidenciou-lhe - "as coisas não correram muito bem com ele, vai outra vez à faca antes do final da semana", acto imediato, como se sentisse culpado por estar a cochichar, elevou a voz e apresentou-o ao vizinho; "Senhor Silveira, minha senhora, este é o meu sobrinho, o Mateus, falei-vos dele, é caixeiro-viajante e vem muitas vezes à capital". O outro grunhiu um "prazer" mal-humorado e replicou: "Já sei que o senhor tem filhos e sobrinhos, não precisa de os estar sempre a exibir, eu também tenho filhos e noras e netos e netas, e são tantos que, quando aqui chegarem, vão encher este quarto de tal forma que a gente nem vai conseguir mexer-se cá dentro. Você vai ver!". O tio e ele concordaram tacitamente, e prosseguiram a conversa paralela até ao final da visita.
Uma semana depois, regressou ao IPO, a volta levara-o ali e ele aproveitou, já que o tio estava quase a ter alta, entrou no quarto e viu o vizinho de quarto deitado no seu leito.
- É filho, genro, ou sobrinho? - perguntou ele, de chofre, ao tio.
- Sobrinho!
- Mais um! Não tenho inveja nenhuma. Quando a minha prole entrar por essa porta, você vai desejar estar noutro quarto, porque quase não se conseguirá respirar com tanta gente! Você vai ver!

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