INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Oh Captain, my Captain!

Antes de partirem, os dois pilotos retiraram as instruções de um envelope fechado, a luz era ténue, e o piloto leu-as em voz alta para o seu adjutor. Nem um nem outro usava capacete, era um voo experimental, e pequenos fios estavam colados à cabeça e aos pulsos para recolha de dados. Prenderam-se com os cintos aos bancos, já com o rotor em passo mínimo, e iniciaram a descolagem, ganharam altitude e tomaram o rumo pré-estabelecido, em voo de cruzeiro. O capitão Santos era um piloto experiente com mais de mil horas de voo, e manobrava a manche e a alavanca de passo com gestos mecânicos, quase involuntários, como se ele e a máquina fossem um só, um hodierno centauro aéreo; o seu co-piloto, o jovem Andrade, era um novato deslumbrado com tudo, ainda dava os primeiros passos na aprendizagem, mas já arquitectava projectos futuros de heli-turismo. Numa missão em tempo real, atingiram as coordenadas solicitadas em pouco mais de uma hora, um ponto convencional no oceano, sobre o qual deveriam executar um perímetro circular durante tempo indefinido. As instruções precisavam que esse voo circular deveria descer à menor altitude possível sobre as ondas, e Santos cumpriu à risca, baixando-o até a um ponto em que Andrade gracejou que começava a sentir os pés húmidos. Como a órbita do helicóptero o mantinha numa posição inclinada, ambos os pilotos viram, simultaneamente, nas águas, algo que não lhes deu vontade de rir ou gracejar. Quase à superfície, a poucos metros de profundidade, distinguiam-se estruturas e volumes estranhos, aparentemente erguidos por mãos humanas, conseguiam perceber que havia à pele da água edifícios de forma piramidal, arcos de pedra, colunas, ruas e recintos murados onde o chão era formado por grandes lajes de pedra, havia também outras ruínas dispersas pelo fundo arenoso, que as algas e os moluscos haviam conquistado parcialmente. Ambos sabiam que aquilo não era real, mas não conseguiam deixar de sentir o entusiasmo e a adrenalina que sentiriam se aquilo estivesse mesmo debaixo deles.
- Atlântida? - murmurou Andrade.
- Podia ser...em algum lugar...em algum tempo.
- Parecia um filme, era de cortar a respiração!
Santos concordou. Ouviram o som do contacto rádio, e ele interrompeu a órbita para dirigir o helicóptero na viagem de regresso à base. A missão foi abortada antes de lá chegarem, abriu-se para o alto a porta do simulador de voo, e dois homens com bata branca entraram para lhes retirar os fios com que haviam monitorizado as suas reacções. Os dois pilotos desceram do simulador suspenso no hangar, a uns três metros de altura, e foram preencher o relatório que lhes havia sido pedido.


*

Horas depois, ambos foram beber uma cerveja ao bar da base aérea. Andrade ia sair de licença dentro de poucas horas, e já se notava na sua farda o desleixo de quem só está a espera da hora da partida. Beberam-na a uma mesa com outros camaradas e, mal se viram sozinhos, o capitão perguntou a Andrade aquilo que lhe estava atravessado na garganta.
- Não achou estranho o cenário desta simulação de voo?
- Porquê?
- Ora esta! Estamos numa iniciativa de reciclagem de conhecimentos e fazemos uma simulação que era suposto incidir sobre experiências prováveis de uma rotina de voo normal, ou num cenário de guerra. Em vez disso, fazem-nos descobrir a Atlântida.
- E o senhor tem uma teoria, meu capitão?
- Acho que servimos de cobaias, estão a tentar avaliar de alguma forma o impacto que uma descoberta destas teria nos mídia. Para mim, já encontraram aquelas ruínas e estão guardadas para quando forem úteis. Se de hoje para amanhã houver um grande atentado terrorista no nosso país ou um princípio de motim popular, as ruínas saltam para todas as televisões, e meio-mundo fica narcotizado.
- Acho um pouco rebuscado, meu capitão, eu também via os Ficheiros Secretos, mas não sei, parece-me, e se me permite dizê-lo, a febre das conspirações, com o devido respeito, claro. Além do mais, o mar está todo cartografado!
- Esqueceste de mencionar as fotos de satélite. Mas há sempre uma zona de penumbra. Pode ter havido um registo insólito no sonar dum barco de pesca, ou terem tropeçado em muros enquanto instalavam um cabo submarino. Há uns anos largos, quando os russos ainda eram soviéticos, eles mergulharam até ao Monte Ampére, perto da Madeira, e anunciaram que tinham visto ruínas, escadarias e plataformas de pedra a cerca de cinquenta metros de profundidade, tiraram quase quinhentas fotografias desses vestígios mas, depois, negaram tudo e afirmaram que tinha sido uma grande confusão, talvez um sonho do vodka. No virar do século, nós, portugueses, voltamos ao Monte Ampére, acho que era uma equipa da universidade do Algarve, e fomos lá à procura de quê?
- Das ruínas!
- Não, nova confusão, só havia biólogos e coisa assim, para estudar a vida naquele monte submarino, colheram amostras e tiraram muitas fotos de peixes e corais. Agora, imagina que alguém tenha visto ou filmado escadarias e monumentos, uns tipos fecham-se em copas nas mansões do poder e criam uma reprodução virtual dessas ruínas que são exibidas a militares como nós em simuladores de voo. Para mim, estão a preparar a revelação, e nós somos as cobaias.
- Talvez, meu capitão, não posso dizer que concorde consigo, mas também não afasto a possibilidade do senhor ter razão. Achei muito estranha esta simulação de voo, mas daí a concluir que nos usaram como cobaias...ainda que possam ter usado, claro, também não excluo essa hipótese, não completamente. Posso pedir mais uma cerveja para si, meu capitão?


*
Andrade abandonou as instalações mais tarde do que o esperado. Bebeu umas cervejas com o Santos, e foi fazer a trouxa; como se sentisse um pouco agitado, fez um pouco de step num aparelho que um colega tinha, e voltou ao bar para comer uma tosta mista e beber um abatanado. Eram quase onze da noite quando tomou o caminho de casa. Quase duas horas depois, no meio de nenhures e já a precisar dum novo café, avistou uma panóplia de luzes junto à estrada - podia ser uma operação stop ou um acidente, em qualquer dos casos, metia polícia, e abrandou a velocidade para não melindrar os agentes. Começou a achar estranhas aquelas luzes, mas antes que conseguisse chegar mais perto, o carro deu o peido-mestre, o motor foi-se abaixo e as luzes e o rádio eclipsaram-se. Quando andava à procura no porta-luvas de uma lanterna-porta-chaves, uma luz branca intensa foi projectada sobre a viatura. Meio encadeado, viu sair daquela luz uns vultos estranhos de pequena estatura. Saiu do carro num salto, pronto a reagir, mas um daqueles seres disparou sobre ele um feixe de luz que o paralisou, fazendo-o cair sobre o alcatrão. Não se conseguia mexer, os membros tolhidos por uma espécie de formigueiro, mas estava consciente. Sentiu que o levavam dali como se estivesse a flutuar, mas a cabeça descaída sobre um dos ombros permitiu-lhe ver de través que aquelas luzes todas pertenciam a um nave discóide pousada na berma da estrada. Subiram com ele uma rampa e foi levado para uma espécie de laboratório onde recolheram amostras de pele e unhas, e foi enfiado dentro dum tubo iluminado, onde uma fibra óptica lhe entrou pela boca, enquanto sentia a queimadura de uma espécie de cabos que tocaram a sua pele à altura do ventre. Aí, perdeu a consciência. Quando acordou estava de novo no carro, sentado no banco com a porta aberta. Amanhecia. Conseguia movimentar os membros e o corpo, mas sentia dores. No ventre, tinha pequenas queimaduras circulares com o tamanho de uma moeda de euro. Experimentou rodar a chave na ignição, o carro trabalhava. Ligou o telemóvel que ficara largado no banco e procurou o número do capitão. Ligou-lhe, e uma voz estremunhada no outro lado, comprovou que tivera sucesso.
- Capitão? Meu capitão?

- Andrade? Sabes que horas são?
- O senhor tinha razão, meu capitão! Estão a usar-nos como cobaias, agora foi com extraterrestres, e os gajos capricharam, usaram efeitos especiais, cenários, anões mascarados. O meu capitão devia ter visto. Cá para mim, tem algum extraterrestre congelado e estão a preparar-se para o mostrar ao mundo!

(imagem pilhada aqui)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...