MOAB


Veste calças e camisa branca, e boina de marujo, mas é um míudo ainda, e nunca pôs os pés num barco. Trabalha na manutenção da marina, andando para cá e para lá nos deques de madeira, limpando-os e fazendo a sua manutenção. À sua volta, baloiçam os iates e lanchas nas suas formas esguias e sinuosas de corpo de mulher, ouve-se as vozes babélicas dos seus ocupantes, as músicas exóticas, pequenos grupos transitam pelos deques, tisnados pelo sol e felizes, nos barcos há mulheres lindas deitadas ao sol com óculos negros como abismos, há luxo e luxúria entrevistos, pressentidos, nas cabines luxuosas com portas envidraçadas. O menino remove o salgadiço da madeira com uma escova branda, ajoelhado ao lado do seu balde, e passa uma trincha com verniz hidrófugo nas partes afectadas. À sua volta, baloiçam os iates e lanchas nas suas formas esguias de corpo de mulher, que o seduzem - sonhos tão próximos como ilhas no outro lado do mundo.


"Kilpatrick foi um conspirador, um secreto e glorioso capitão de conspiradores; à semelhança de Moisés que, da terra de Moab, divisou e não pôde pisar a Terra Prometida".

(Jorge Luís Borges, "Tema do Traidor e do Herói")

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