João e Maria

Há anos a fio que o mesmo círculo de amigos alugava o mesmo apartamento no Algarve para passarem férias. Começaram ainda tenros, ainda solteiros ou nos primeiros anos de namoro, com o tempo, casaram-se e vieram os filhos, mas mantiveram-se fiéis às férias em conjunto, e ao apartamento que encolhia, ainda que não fisicamente. Alguns casais, com a prole, dormiam no chão da sala, e outros no chão dos dois quartos.
De todos os casais, João e Maria, formavam o casal mais peculiar. Quando o grupo debandava da praia para o apartamento ao entardecer, para a maratona de banhos, eles insistiam em ficar para trás, sozinhos, para ver o sol a pôr-se. Eram esquisitos, na opinião dos outros, para quê ver o mar que se vê durante todo o dia?
Eles ficavam lá uma meia hora e depois, recolhiam também. O apartamento situava-se num terceiro andar, o último do prédio, mas as escadas continuavam para cima, para um patamar vazio, com uma porta de alumínio que dava para um terraço enorme e deserto. Há uns anos, des-esperado por um pouco de intimidade, João descobrira que essa porta não estava fechada à chave, e reclamou a descoberta como um novo mundo descoberto por um navegador.
Esse passou a ser o segredo amoroso de João e Maria. Seguiam na peugada dos outros, e subiam mais dois lanços de escada até ao último patamar; aí ou no terraço contíguo, amavam-se sedentamente sob a luz ígnea do entardecer.
Quando voltavam, iam de sorrido rasgado. Os outros achavam-nos esquisitos, mas reconheciam que olhar o mar, devia fazer muito bem à alma.

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