O som e a imagem

Folheou os CD's que tinha na mão, não sabia qual escolher desta vez. O Sounds of Green não era mau, faixas de quarenta minutos com música suave enriquecida com sons da floresta, os dos tigres e macacos eram críveis, os das araras nem tanto, o produtor deveria ter utilizado corvos com a asa presa para chegar àquele resultado; o Sounds of Blue não lhe apetecia, o canto das baleias já enjoava, e tanto mar, tinha sobre ele um efeito diurético.
E os outros que não voltavam, começava a recear o pior, não deviam ter aguentado, podiam estar a cozer no meio da areia.
Voltou aos discos, tentando não pensar nisso, e decidiu-se pelo Music for Pregnants, que tinha um pouco de tudo, música suave, sons da natureza, animalzinhos a exprimirem-se docemente. Quando a música preencheu o interior da nave, sentou-se aos comandos, e esperou. Até onde a vista alcançava, só se via deserto e destroços, a pulsar de radioactividade. Ele fora contra a decisão de aterrar no lugar previsto. Deviam ter procurado um outro lugar para pousar o Vaivém Espacial, mas Lewis, sobretudo ele, fora autoritário, a América, como quase todo o hemisfério norte fora pulverizado por explosões nucleares, e o dever deles era regressar ao lugar previsto para ajudar o país no que fosse preciso. Quando conseguiram colocar a nave no solo, mais por sorte do que por perícia, Lewis assumiu o comando - era natural que o fizesse, era militar de patente, não um turista espacial - e organizou uma expedição para encontrar sobreviventes e tentar comunicar com os superiores hierárquicos.
Haviam-no deixado para trás; Lewis, mais para se livrar dele do que por necessidade estratégica, incumbira-o de ficar na nave e esperar que alguém tentasse comunicar. Não se chateou muito, ainda tinha víveres para uns dois meses, havia que ter esperança, talvez viessem resgatá-lo dali com meios aéreos.
Não estariam naquela situação se não fosse o cabeçudo do Lewis, se tivessem sido espertos, podiam ter tentado pousar mais a sul, nalgum campo de aviação ou num deserto limpo, mas não, Lewis tinha de pôr a nave mesmo no centro do forno de radiações. Estúpidos militares!

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