Custa-me dizer isto - e aí, não vale inventar - mas não me lembro do seu nome. Era um pouco mais alta do que eu, e tinha cabelos louros, lisos e compridos, que caíam sobre as costas. Veio morar para o bairro com os pais e uma irmã mais velha, que sorria sempre quando me via; e tornou-se parte da vida de todos, via-mo-la na escola e no machibombo* para a escola, quando brincávamos pelas ruas em coros de gritos e risos, e nos bailes de garagem, onde um gira-discos, uma pilha de LP's e uma mesa com sandes e Canada Dry's, davam para um convívio de horas. Entre mim e Isolda, chamar-lhe-ei assim, existia aquilo que os maus novelistas chamam de química especial, mas essa química precisou de um empurrão. Durante um baile de garagem em que eu estava sentado com os meus amigos no topo de um muro de jardim, ela passou por trás e deu-me um empurrão enérgico que me precipitou no meio dum roseiral, riu-se muito, e eu , do outro lado, consegui rir-me também, apesar do picos e cortes. Começamos logo nesse baile a falar um com o outro, iniciando uma amizade que se intensificou nos meses seguintes, amizade pueril, agarotada, feita de jogos e brincadeiras, de palavras ditas e subentendidas. A simples presença dela trazia-me alegria e encantamento, era uma epifania pegar na sua mão, ouvi-la rir, e tocar com os meus lábios nos dela como se ambos beijássemos papel rasgadiço. A primeira vez foi numa tarde abafada, em que fomos colher maçanicas, um fruto pequeno e um pouco ácido de casca fina que devia o seu nome à remota semelhança com uma maçã. Isolda era asmática, e possuía um pequeno spray que usava de tempos a tempos, nessa tarde, sentados na sombra a devorar as maçanicas, ela usou-o e eu perguntei, porque sempre fui um pouco neurótico, no que sucederia se ela se sentisse mal e tivesse deixado o spray em casa - faço respiração boca-a-boca, respondeu ela, aproximando a sua boca da minha, beijei-a, de um modo um pouco confuso, em que os nossos narizes se chocaram e um caprichoso caroço de maçanica transitou de uma boca para a outra, fazendo-nos rir até às lágrimas.
A minha história com Isolda durou meses e durou uma eternidade mas, ao contrário desta, teve um fim abrupto. Numa manhã em que fui a casa dela para desafiá-la a ir brincar, encontrei a casa fechada, e várias caixas e papelões junto à porta de entrada. A vizinha do lado, explicou o mistério de uma forma sumária: "Não está ninguém, voltaram para a metrópole!".
Rasgou-se o abismo. A metrópole era longe, a milhares de quilómetros de Moçambique, um lugar vago como as fotos da Torre de Belém, e da estátua de Dom Afonso Henriques junto ao castelo de Guimarães. Da metrópole vinham as cartas dos avós e tios que nunca víamos, e a voz miraculosamente retransmitida dos relatos domingueiros de futebol no rádio grande da sala, e revistas, remessas de objectos e confeitaria. Ir para a metrópole era como ir para outro planeta, respirar outro ar e viver com selenitas de antenas na cabeça.
Isolda fora para a metrópole! De certa forma, morrera. A criança que eu fui, nunca a trouxe na bagagem para a metrópole, acho que ficou em Moçambique, à espera que ela regressasse.

*Machibombo: camioneta.

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