Ciclo

No coração do planalto, a vila rústica de casas de pedra possuía uma oliveira no centro de um largo, num soco de terra murado.

As lendas locais falavam confusamente de um enforcado, de alguém inocente que aí fora justiçado em tempos, e que amaldiçoara a oliveira com o último sopro do seu peito.
Dizia-se que o seu corpo alimentava as raízes da árvore, e que as suas olivas por vezes eram rubras por dentro, da cor do sangue.

Muitos se poderiam comover com essa história popular, não aquele turista que agora a contemplava, alicerçado na sua vida cosmopolita e primeiro-mundista. Contemplava e avaliava. A oliveira tinha os ramos baixos, nada próprios para um enforcamento, e pouco sólidos de aspecto. E as olivas, colheu algumas ao alcance da mão e abriu-as, olivas comuns, e aguadas. Ergueu a máquina fotográfica presa ao pescoço por uma correia, e escaneou a oliveira com o zoom da máquina. Humm!! As azeitonas no alto da árvore, possuíam um tom diferente das outras, quase avermelhadas sob a incidência dos raios solares, mas daí a afirmar-se que seriam vermelhas por dentro...
A sua formação científica impelia-o a obter respostas, e subiu à árvore com os seus calções de caqui e o seu chapéu de Gunga Din. Desajeitadamente, tentou alcançar as olivas da discórdia, um pé resvalou dum ramo e, enquanto amaldiçoava a puta da árvore, o seu corpo seguiu o exemplo do seu pé e foi atraído pelo solo, sustido na queda pela correia da máquina fotográfica, que se enrolara caprichosamente nos ramos, e que provocou um puxão no seu pescoço, quebrando-o como a um fino ramo seco.

As lendas falavam confusamente de um enforcado, de alguém inocente que aí fora justiçado em tempos, e que amaldiçoara a oliveira com o último sopro do seu peito.

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