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Iaco

Fernando ia casar-se com Ana, a sua namorada de sempre. Alugara um apartamento usado, de paredes pintadas de um amarelo deprimente, que ele considerava ser "cor de vomitado". Para repintá-la de branco, reuniu entre os amigos uma pequena equipa de pintura e convocou-os para um Domingo à tarde. À sua namorada, Fernando atribuiu o sacral encargo de assegurar o provimento de sanduíches e cervejas.
A brigada de pintura que aí se formou compreendia, para além do próprio Fernando, quatro voluntários. O Luís, antigo colega de escola, moreno e ligeiramente acorcovado pela prática do culturismo, que tinha uma vaidade enorme na sua aparência. A Sandra, a sua namorada, uma adorável ninfa de cabelos louros e formas sinuosas e carnudas, que já curtira com todos dos presentes, sem distinção de género. O Elias, magro e completamente calvo, que era o intelectual do grupo e, por fim, o expansivo Caio, gordo e desajeitado, que trazia vestidas umas jeans muito apertadas com a barriga saliente por cima destas como uma bolsa em formação.
Depois dos momentos iniciais de convívio, Fernando distribuiu o equipamento e dividiu-os em duas equipas. Luís e Elias, com rolos de pintura, ocupar-se-iam das superfícies maiores e, aos restantes, caberia pincelar os cantos e os pequenos detalhes. Iniciaram o trabalho, envolvidos pela música de um CD de Bob Marley.
Luís e Elias trabalharam em harmonia: o primeiro em cima de um escadote pintava a parte superior de cada parede, enquanto Elias, acocorado no chão, completava a outra metade. As garrafas de cerveja iam circulando entre eles, mas Caio superava-os a todos. Desde que entrara no apartamento que Caio vinha devorando, sem descanso, as sandes preparadas por Ana, ao mesmo tempo que bebia cerveja com grandes goles sôfregos.
Quando acabaram a segunda divisão do apartamento, sentaram-se todos no chão da sala de estar, a fumar um charro. Conversaram durante um bocado, trocando piadas sobre o desempenho artístico de cada um, ou secundando Bob Marley com vozes desencontradas. Caio manteve-se quase sempre calado. Com toda aquela cerveja no estômago e o fumo quente do charro a arrepanhar-lhe as costelas, estava a sentir-se desorientado, e, com os olhos muito abertos, fixava ostensivamente os seios da Sandra, que uma camisola apertada tornavam ainda mais arredondados e cheios.
Retomaram o trabalho, rindo e arrotando ruidosamente. Luís sussurrou à namorada que se mantivesse longe de Caio, ela fez uma cara de amuada e afastou-se dele, rebolando as nádegas ao passar pelos outros. Um pouco chateado com aquilo, Luís trocou algumas palavras com Fernando sobre uma das letras de Bob Marley que estavam a ouvir pela quarta vez naquela tarde e foi buscar uma cerveja à cozinha. Mudou de ideias quando viu lá Caio a destroçar o segundo lote de sandes, trazido por Ana da casa da mãe. Tinha desapertado o cinto e o botão das calças, e os cantos dos lábios rebrilhavam com a gordura. Voltou ao seu posto, com inclinações homicidas em relação a ele. Elias estava sentado no topo do escadote, com os olhos em lume. Todos os outros haviam ficado para trás, demorados no seu trabalho minucioso. Luís começou a mexer a tinta num balde grande enquanto ouvia o escadote de alumínio a ranger dolorosamente.
- Precisas de ajuda?
- Não, mas queres saber de uma coisa engraçada? - Replicou Elias e, ante o seu silêncio, continuou – Estou apaixonado pela tua namorada, não me importava de ser um cão, só para ela me puxar pela trela...
Luís foi apanhado de surpresa. Quando tentou falar, as palavras enrolaram-se na garganta. Pigarreou ruidosamente com um ardor aflitivo no peito.
- Eu sei, eu sei - repetiu Elias com tristeza - sei que ela de mim só quer sexo, mas isso não me chega. Se ela quisesse viver comigo, tenho a certeza de que seríamos completos e felizes, eu como o Yang, positivo e solar, ela como o meu pólo negativo, aquífero e envolvente. Há qualquer coisa de alquímico na nossa relação, na cama como fora dela, somos como o mercúrio e o enxofre...
- Acho que o charro te bateu, ou então, andaste a snifar diluente às escondidas - interrompeu o Luís, gracejando, para aligeirar a conversa – eu fui o primeiro homem da Sandra, e ela não teve mais ninguém para além de mim, não nesta encarnação. E dizeres-me isso, é uma ofensa, a pior ofensa que se pode fazer a um amigo.
Elias acusou a censura e fechou-se num silêncio empedernido. Constrangido com o ambiente, Luís muniu-se de um rolo e de um tabuleiro e passou para o quarto ao lado onde começou a pintar sozinho e com rapidez, resmungando baixinho. Mas, aos poucos, a sua energia foi desaparecendo como a de um herói dum jogo vídeo a precisar recarregar. Já não havia energia nem munições para mais lutas, e os cenários estavam deteriorados, com longas paredes nuas mal pintadas, e poças de tinta nos jornais que cobriam o chão.
Como Luís, toda a brigada de pintura estava a acusar o desgaste. Fernando, depois do seu desabafo, sentara-se no chão, com as pernas cruzadas como um yogi, a brincar com um rolo de pintura, deslocando-o à sua volta num círculo fechado. No hall, Fernando, desmotivado, bebia cerveja ao som do eterno disco de reggae, enquanto salpicava a madeira da porta de entrada com a tinta branca de um pincel, rindo-se perdidamente do efeito obtido. Sandra, que momentos antes se permitira estar a flertar com Caio, chorava agora, arrependida, abraçada a Ana, sentadas as duas no mosaico fresco do chão da cozinha, queixando-se do Luís e de como os ciúmes violentos do namorado a haviam levado a deixar que o porco do Caio a amassasse toda com as suas mãos gordas, besuntando-a com os lábios gordurosos. Caio, por seu turno, não se sentia consumido pelo trabalho ou pelos remorsos, muito simplesmente, aliviava a sua sobrecarga, a vomitar ajoelhado diante da sanita.
Uma semana depois, Fernando tentou reunir de novo a equipa para acabar a obra, mas foi ouvindo pelo telefone recusas e desculpas inacreditáveis. De todos, Caio foi o único que se prontificou de imediato a ajudá-lo. Para se ser mais exacto, Caio ficou radiante. Deu a resposta a Fernando, e começou a ulular aos saltos à volta da mesinha do telefone, recriando a dança de guerra dos índios Apaches.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...