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A mostrar mensagens de Julho, 2008

Orwell updated

(Se vos apetecer, espreitem um conto meu no sitio da Letrário Editora, uma novel página de contos online que merece ser revisitada todos os meses).

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MOAB

Veste calças e camisa branca, e boina de marujo, mas é um míudo ainda, e nunca pôs os pés num barco. Trabalha na manutenção da marina, andando para cá e para lá nos deques de madeira, limpando-os e fazendo a sua manutenção. À sua volta, baloiçam os iates e lanchas nas suas formas esguias e sinuosas de corpo de mulher, ouve-se as vozes babélicas dos seus ocupantes, as músicas exóticas, pequenos grupos transitam pelos deques, tisnados pelo sol e felizes, nos barcos há mulheres lindas deitadas ao sol com óculos negros como abismos, há luxo e luxúria entrevistos, pressentidos, nas cabines luxuosas com portas envidraçadas. O menino remove o salgadiço da madeira com uma escova branda, ajoelhado ao lado do seu balde, e passa uma trincha com verniz hidrófugo nas partes afectadas. À sua volta, baloiçam os iates e lanchas nas suas formas esguias de corpo de mulher, que o seduzem - sonhos tão próximos como ilhas no outro lado do mundo.

"Kilpatrick foi um conspirador, um secreto e glorios…
-Isto é ridículo! Eu não me conformo - queixou-se o banhista à mulher - há mais de trinta anos que venho a esta praia e sempre a conheci por Praia dos Tomates, cheguei a aqui vir de bicicleta com a malta amiga, comíamos num barraco de estrada junto às Açoteias e depois vínhamos para aqui, porque era mais sossegado e não tínhamos de galgar ladeiras, e também havia umas bifas por aqui que gostavam de fazer nudismo e a gente aproveitava para consolar a vista. Agora, vieram para aqui os técnicos do Turismo e acharam que Praia dos Tomates era demasiado brejeiro e baptizaram-na de Praia da Rocha Baixinha! Ah, Ah! Que lindo nome! Que rocha? Só se for alguma pedra nos rins desses técnicos com aspirações a Saramago. E porque não tomates? O que é que os tomates têm de mal? Hã? A gente até brincava que vinha para aqui pôr os tomates de molho, mas o nome até podia ser uma homenagem ao agricultor remendado que esgravata a terra areada junto ao mar, construindo a sua hortazita em buracos cercados d…

Uma ideia porreira

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A Biblioteca de praia da Quarteira (a foto não é minha, nem é deste ano), onde se pode requisitar livros, e com um pouco de sorte, arranjar um lugar à sombra para se ler. Honestamente, só lá fui duas vezes, para ler os jornais à borliú antes de ir beber um panaché.

Uma ideia porreira 2

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Os cinzeiros de praia da "minha" operadora (este, na Praia da Falésia)

Arod

Os patins são como as asas de Hermes, fazem-nos voar. Comecei a aprender a andar de patins na casa da minha professora primária, onde recebia explicações depois das aulas. A filha dela, que era alta e linda, tinha patins e sabia andar bem, deslizando graciosamente como um cisne no passeio em cimento que circundava a casa. Determinado, convenci os meus pais a oferecerem-me uns e convenci a filha da professora a ensinar-me a andar neles.

Primeiras instruções, primeiros bate-cus sob as risadas musicais dela, e comecei a conseguir-me equilibrar e, depois, a andar uns parcos metros, com a asa direita erguida, pronto a apoiar-me nas paredes. Duas, três semanas de exercícios quase diários, e já andava, sem grandes mestrias nem aventuras. A minha instrutora, para me testar, desafiou-me para uma corrida em volta da casa, e eu aceitei, num excesso de entusiasmo. Posicionamo-nos um ao lado do outro, fizemos a contagem decrescente e arrancamos. Ela partiu como uma flecha, e eu persegui-a. Primeira…
A sua memória era muito ténue e, para não se esquecer das coisas, atava laços em tudo quanto era sítio, pedacinhos de pano atados nas pernas das mesas e das cadeiras, nas maçanetas das portas, nas cruzetas do guarda-roupa. De cada vez que o lembrete funcionava, apressava-se a desatar o laço, para não voltar a matar a cabeça com um enigma já solucionado. De todos, o laço mais intrigante foi um que lhe apareceu na cabeceira em ferro fundido da cama, um laço bonito em tule no centro de uma rosa pintada a dourado. Não se lembrava, não tinha a mais pequena noção ou suspeita, e aquilo moeu-lhe o juízo durante uma semana inteirinha; a solução, entrou-lhe pela porta adentro, quando o pai a veio buscar para conduzi-la ao altar.
O recanto da praia onde se instalara estava sofrivelmente preenchido e sossegado, até ao momento em que soou aquele estampido familiar - avançaram pela areia, como uma pequena manada, três matronas, dois homens de barriga pronunciada e calções com palmeiras, quatro casais jovens e cinco-seis-sete-oito crianças, de diversas idades mas bem orquestradas nos seus saltos e gritos. Diante dos olhos de todos, assentaram arraiais, criando espaço onde ele não existia. Dois corta-ventos unidos na extremidade - ainda que não houvesse vento para cortar - formaram um recinto em U que foi logo preenchido por cinco guarda-sóis, uma pirâmide de seis geleiras azuis com pegas brancas, sacos e sacos de roupas, joguetes de plástico, livros do Teo e da Hannah Montana, e diversos garrafões de água com torneirinha. Aquela trupe logo se encarregou de estender os lençóis de praia, que cobriram todo o centímetro quadrado de areia daquele espaço. Num ápice, estava envolvido e cercado. Pediram-lhe para desenrolar…
João e Maria

Há anos a fio que o mesmo círculo de amigos alugava o mesmo apartamento no Algarve para passarem férias. Começaram ainda tenros, ainda solteiros ou nos primeiros anos de namoro, com o tempo, casaram-se e vieram os filhos, mas mantiveram-se fiéis às férias em conjunto, e ao apartamento que encolhia, ainda que não fisicamente. Alguns casais, com a prole, dormiam no chão da sala, e outros no chão dos dois quartos. De todos os casais, João e Maria, formavam o casal mais peculiar. Quando o grupo debandava da praia para o apartamento ao entardecer, para a maratona de banhos, eles insistiam em ficar para trás, sozinhos, para ver o sol a pôr-se. Eram esquisitos, na opinião dos outros, para quê ver o mar que se vê durante todo o dia? Eles ficavam lá uma meia hora e depois, recolhiam também.O apartamento situava-se num terceiro andar, o último do prédio, mas as escadas continuavam para cima, para um patamarvazio, com uma porta de alumínio que dava para um terraço enorme e deserto. H…
Evocação

São três euros e vinte e cinco! - pediu a empregada na esplanada, desenfiando as mãos dos bolsos do avental verde com um gigantesco monograma comercial. A cliente separou o dinheiro, escolhendo as moedas na palma da sua mão, uma mão diferente de pele branca enrugada, com marcas avermelhadas, vestígio dalguma queimadura antiga. A empregada procurou ignorar o detalhe, e quanto mais fazia por parecer indiferente, mais se notava que tinha os olhos fixos nele, na mão e na tatuagem de chamas a vermelho e negro que subiam da mão até o ombro em volutas psicadélicas. A cliente notou a estranheza e o embaraço da jovem. - A pintura fez-se carne! - explicou com um sorriso.
Sensível: "Não suportaria viver num arranha-céus, sou demasiado religioso para isso!".
Pico della Mirandola, sem medicação:

"Sou homem, mas tudo o que é humano me é indiferente!".
A senhora idosa aviou-se no supermercado, e foi para a caixa com um cestinho com verduras, quando estava lá a chegar, a sua vez era paralela à de um jovem bronzeado, que levava na mão, vários pacotes de preservativos - normais, extra-finos, estimulantes, espermicidas. Ela fez-lhe sinal para ele passar à frente e ele, por sua vez, quis dar-lhe a vez, mas ela não aceitou: "Não, o moço primeiro, parece ter muito mais urgência!"
Vânia Assim, sem mais nem menos, o míudo apaixonou-se e passou a menosprezar a companhia dos amigos, o Sol e a prancha de surf; só pensava nela, e tanto nela pensava que não conseguia dormir, e tinha invânias.
Mitoilógico

"Já não tenho cabeça para nada" - confessou a Hidra de Lerna ao Cavaleiro Sem Cabeça.
Á terça rezava o terço, e à quarta, quinta, e por aí fora; todos os dias menos à segunda, que era um dia muito preenchido a fazer as contas aos ganhos do bordel.
"O que não couber numa frase, não cabe num livro" - concluiu o epistemólogo, dando por terminado o seu tratado em dezasseis tomos. P.S.123...experiência(primeiro post através do Blogger Mobile)

II de PAUSA

Até ao final deste mês, este blogue entra em regime de Auto-gestão. Há um tipo que vai continuar a ver o mail, e outro que vai ver se dá uma arrumação nos arquivos-mortos; o que escreve os posts, esse vai fazer-se à estrada (sem maiúscula) e algaraviar um pouco.

Fiquem (muito) bem!

Até já!

Oh Captain, my Captain!

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Antes de partirem, os dois pilotos retiraram as instruções de um envelope fechado, a luz era ténue, e o piloto leu-as em voz alta para o seu adjutor. Nem um nem outro usava capacete, era um voo experimental, e pequenos fios estavam colados à cabeça e aos pulsos para recolha de dados. Prenderam-se com os cintos aos bancos, já com o rotor em passo mínimo, e iniciaram a descolagem, ganharam altitude e tomaram o rumo pré-estabelecido, em voo de cruzeiro. O capitão Santos era um piloto experiente com mais de mil horas de voo, e manobrava a manche e a alavanca de passo com gestos mecânicos, quase involuntários, como se ele e a máquina fossem um só, um hodierno centauro aéreo; o seu co-piloto, o jovem Andrade, era um novato deslumbrado com tudo, ainda dava os primeiros passos na aprendizagem, mas já arquitectava projectos futuros de heli-turismo. Numa missão em tempo real, atingiram as coordenadas solicitadas em pouco mais de uma hora, um ponto convencional no oceano, sobre o qual deveriam e…

Manhã

É na infância que se aprende a amar, como a morrer, de muitas formas, são dores de acrescimento, somam-se coisas dentro de nós, cujo produto é líquido e cujo resto é, quase sempre, zero. Os dias liquefazem-se e correm como regatos de chuva, transportando húmus e areia estéril para um estuário que ainda não nos é dado conhecer. Nesse estuário adiado, os nossos gestos cansados semearão quimeras entre flores silvestres enquanto escutamos os ecos, preciosos e enganadores, das outras vidas que em nós foram.

Custa-me dizer isto - e aí, não vale inventar - mas não me lembro do seu nome. Era um pouco mais alta do que eu, e tinha cabelos louros, lisos e compridos, que caíam sobre as costas. Veio morar para o bairro com os pais e uma irmã mais velha, que sorria sempre quando me via; e tornou-se parte da vida de todos, via-mo-la na escola e no machibombo* para a escola, quando brincávamos pelas ruas em coros de gritos e risos, e nos bailes de garagem, onde um gira-discos, uma pilha de LP's e uma mesa com sandes e Canada Dry's, davam para um convívio de horas. Entre mim e Isolda, chamar-lhe-ei assim, existia aquilo que os maus novelistas chamam de química especial, mas essa química precisou de um empurrão. Durante um baile de garagem em que eu estava sentado com os meus amigos no topo de um muro de jardim, ela passou por trás e deu-me um empurrão enérgico que me precipitou no meio dum roseiral, riu-se muito, e eu , do outro lado, consegui rir-me também, apesar do picos e cortes. Começam…

A arca da velha

"Para viver bem sem trabalhar, ou roubar ou casar!". Nuno encontrou esse provérbio húngaro numa revista, e tomou-o como lema. Optou pelo casamento, com uma mulher entradota, mas rica. Foi seu escudeiro, seu escravo, arlequim e pingalim, até conseguir o que queria, ser seu herdeiro universal, dentro e fora do universo, e logo saltou para a fase seguinte, a do homicídio, premeditado para não existir. Num Domingo em que se dispensara os criados, e em que ele próprio era suposto estar muito longe dali, numa regata, colocou-se de atalaia numa janela do primeiro piso com a mulher, dopada e bêbeda, a vaguear pelo jardim à procura da dentadura postiça. Quando a apanhou na vertical da janela, lançou sobre o seu cocuruto uma arca carregada de roupas e naftalina. Falhou, o golpe do baú, e levou um pontapé no cu.

O som e a imagem

Folheou os CD's que tinha na mão, não sabia qual escolher desta vez. O Sounds of Green não era mau, faixas de quarenta minutos com música suave enriquecida com sons da floresta, os dos tigres e macacos eram críveis, os das araras nem tanto, o produtor deveria ter utilizado corvos com a asa presa para chegar àquele resultado; o Sounds of Blue não lhe apetecia, o canto das baleias já enjoava, e tanto mar, tinha sobre ele um efeito diurético. E os outros que não voltavam, começava a recear o pior, não deviam ter aguentado, podiam estar a cozer no meio da areia. Voltou aos discos, tentando não pensar nisso, e decidiu-se pelo Music for Pregnants, que tinha um pouco de tudo, música suave, sons da natureza, animalzinhos a exprimirem-se docemente. Quando a música preencheu o interior da nave, sentou-se aos comandos, e esperou. Até onde a vista alcançava, só se via deserto e destroços, a pulsar de radioactividade. Ele fora contra a decisão de aterrar no lugar previsto. Deviam ter procurado u…

De Adolfo Casais Monteiro (1908-1972):

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SURPRESA

A realidade é apenas
uma luz por dentro das coisas. Teia
em que se enreda o olhar que traz
dentro de si o amor do mundo.
Vaso que dá forma à
toalha líquida dos instantes. Suspensa
ponte sobre as margens do tempo.
Baste
ao amor a adivinhação, ao sorriso
a presença de um sonho. A luz
floresce em qualquer parte.

Ciclo

No coração do planalto, a vila rústica de casas de pedra possuía uma oliveira no centro de um largo, num soco de terra murado.

As lendas locais falavam confusamente de um enforcado, de alguém inocente que aí fora justiçado em tempos, e que amaldiçoara a oliveira com o último sopro do seu peito. Dizia-se que o seu corpo alimentava as raízes da árvore, e que as suas olivas por vezes eram rubras por dentro, da cor do sangue.

Muitos se poderiam comover com essa história popular, não aquele turista que agora a contemplava, alicerçado na sua vida cosmopolita e primeiro-mundista. Contemplava e avaliava. A oliveira tinha os ramos baixos, nada próprios para um enforcamento, e pouco sólidos de aspecto. E as olivas, colheu algumas ao alcance da mão e abriu-as, olivas comuns, e aguadas. Ergueu a máquina fotográfica presa ao pescoço por uma correia, e escaneou a oliveira com o zoom da máquina. Humm!! As azeitonas no alto da árvore, possuíam um tom diferente das outras, quase avermelhadas sob a incid…

Pêndulo

Da primeira vez que foi visitar o tio ao IPO de Lisboa, lembrou-se que devia levar-lhe jornais, sabia que ele, leão dos quatro costados, gostava de futebol e por isso comprou-lhe dois jornais desportivos e um semanário tirado à sorte. Pediu indicações e lá aportou ao quarto onde ele convalescia da operação, um quarto grande que ele partilhava com outro paciente que, nesse momento recebia a visita de uma senhora sexagenária, talvez esposa dele.
Saudou a todos no geral, e deu um abraço ao tio, inteirou-se da operação e de como se sentia, falaram da casa na terra, de Lisboa e do Tejo, dos familiares que já tinham vindo e dos que tinham anunciado a sua visita iminente, às páginas tantas, acusando o barafustar do vizinho de quarto, o tio confidenciou-lhe - "as coisas não correram muito bem com ele, vai outra vez à faca antes do final da semana", acto imediato, como se sentisse culpado por estar a cochichar, elevou a voz e apresentou-o ao vizinho; "Senhor Silveira, minha senho…

epitáfio

Em setenta e oito anos e trinta e dois dias de vida, precisou de, sensivelmente, dois biliões e meio de palavras para descobrir que não cabia em nenhuma delas,

nem mesmo nas da extrema-unção,

(depois disso, não procurou mais)


Iaco

Fernando ia casar-se com Ana, a sua namorada de sempre. Alugara um apartamento usado, de paredes pintadas de um amarelo deprimente, que ele considerava ser "cor de vomitado". Para repintá-la de branco, reuniu entre os amigos uma pequena equipa de pintura e convocou-os para um Domingo à tarde. À sua namorada, Fernando atribuiu o sacral encargo de assegurar o provimento de sanduíches e cervejas.
A brigada de pintura que aí se formou compreendia, para além do próprio Fernando, quatro voluntários. O Luís, antigo colega de escola, moreno e ligeiramente acorcovado pela prática do culturismo, que tinha uma vaidade enorme na sua aparência. A Sandra, a sua namorada, uma adorável ninfa de cabelos louros e formas sinuosas e carnudas, que já curtira com todos dos presentes, sem distinção de género. O Elias, magro e completamente calvo, que era o intelectual do grupo e, por fim, o expansivo Caio, gordo e desajeitado, que trazia vestidas umas jeans muito apertadas com a barriga saliente po…

Olhar para dentro

- Estás com má cara, o que é que se passa? - Descobri que tenho manchas nos pulmões! - Eu tinha-te dito, que essa introspecção toda te podia causar transtornos!

Apetecia-lhe delir as coisas em volta, e fê-lo, porque isso só depende da vontade, que era muita, e com férrea pertinácia conseguiu expulsar pessoas, lugares e devaneios do alcance da memória, estátuas de cera que se derretiam em afluentes de esquecimento, algumas coisas, no entanto, resistiram a essa operação, as pessoas e experiências de que não conseguia fugir, e são essas que pulsam como um tumor no centro da testa, fazendo-o invocar com os seus gritos os enfermeiros e as suas agulhas sedativas.

Estacionar no meio da cidade, era um quebra-cabeças, mas desta vez, ela já levava a lição estudada. Tinha aberto um novo estacionamento subterrâneo onde, tinha ouvido dizer, a primeira meia-hora era de graça e, meia-hora, era precisamente o tempo que precisava para tratar dos seus assuntos. Dirigindo, desceu a rampa em caracol do estacionamento, retirou o tiquê, após o que, é claro, estacionou a viatura. Saiu disparada pela escada, e foi fazer os recados. Uma carta já com selo na caixa dos Correios, uma fugida ao Banco, o jornal comprado no quiosque. Voltou correndo e foi à caixa do estacionamento apresentar o tiquê. Vinte e oito minutos - disse o funcionário - Se a senhora se colocar na saída em dois minutos, não tem nada a pagar! Sentiu um pico de adrenalina e começou a correr para o carro. Mas dois minutos era muito pouco, porque entre ela e o carro interpôs-se a marcha duma banda, uma roda gigante de crianças de mãos dadas a cantar o Jardim da Celeste, e um dragão festivo chinês a…

Pantagruel

À noite, e depois de uns drinques, todos os gatos são pargos.

extravagância

Os sentimentos são labirintos, de cada vez que ela chegava perto dele, tremia por dentro como se um sismo a varresse de ponta a ponta; não o conseguia evitar, e isto acontecia há anos a fio sem que nenhum gesto, nenhuma palavra, o revelasse a ele, o seu epicentro tranquilo.

Quando nasceu, prematura, foi colocada na incubadora. Os seus pais, antagónicos no que sentiam pela bébé, referiam-se a ela como o pintainho engelhado.

In the jungle

O jaguar fechou os dentes sobre a sua jugular. Logo a ele, que sobrestimava o repelente de insectos que espalhara pelo corpo todo.

Funâmbulo

Nos seus períodos de sonambulismo, procurava sempre andar no funicular.



O novo-falido

Endereçava sempre os cumprimentos ao Chef, depois de comer na Sopa dos Pobres.

O novo-milionário

Só ia a um restaurante de luxo, quando conseguia encher uma mala de viagem com cheques-refeição.

Casa de Passe

Madame Lola, em termos futebolísticos, não era apenas um número dez, jogava em toda a largura do campo e tinha um apurado domínio do jogo.

Dúvida

Nas comunidades enraizadas em terras quentes xistosas, a um referendo, poder-se-á chamar plebixisto?
Reabertura do parlamento, eleições livres, liberdade de imprensa. O Generalíssimo descalendarizou a calendarização das reformas. Ficou para calendas gregas.

Trolha espanhol:
- A mí me gusta trabajar!
Trolha português:
- A mim também me custa, e muito!