INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Orwell updated


(Se vos apetecer, espreitem um conto meu no sitio da Letrário Editora, uma novel página de contos online que merece ser revisitada todos os meses).

MOAB


Veste calças e camisa branca, e boina de marujo, mas é um míudo ainda, e nunca pôs os pés num barco. Trabalha na manutenção da marina, andando para cá e para lá nos deques de madeira, limpando-os e fazendo a sua manutenção. À sua volta, baloiçam os iates e lanchas nas suas formas esguias e sinuosas de corpo de mulher, ouve-se as vozes babélicas dos seus ocupantes, as músicas exóticas, pequenos grupos transitam pelos deques, tisnados pelo sol e felizes, nos barcos há mulheres lindas deitadas ao sol com óculos negros como abismos, há luxo e luxúria entrevistos, pressentidos, nas cabines luxuosas com portas envidraçadas. O menino remove o salgadiço da madeira com uma escova branda, ajoelhado ao lado do seu balde, e passa uma trincha com verniz hidrófugo nas partes afectadas. À sua volta, baloiçam os iates e lanchas nas suas formas esguias de corpo de mulher, que o seduzem - sonhos tão próximos como ilhas no outro lado do mundo.


"Kilpatrick foi um conspirador, um secreto e glorioso capitão de conspiradores; à semelhança de Moisés que, da terra de Moab, divisou e não pôde pisar a Terra Prometida".

(Jorge Luís Borges, "Tema do Traidor e do Herói")

-Isto é ridículo! Eu não me conformo - queixou-se o banhista à mulher - há mais de trinta anos que venho a esta praia e sempre a conheci por Praia dos Tomates, cheguei a aqui vir de bicicleta com a malta amiga, comíamos num barraco de estrada junto às Açoteias e depois vínhamos para aqui, porque era mais sossegado e não tínhamos de galgar ladeiras, e também havia umas bifas por aqui que gostavam de fazer nudismo e a gente aproveitava para consolar a vista. Agora, vieram para aqui os técnicos do Turismo e acharam que Praia dos Tomates era demasiado brejeiro e baptizaram-na de Praia da Rocha Baixinha! Ah, Ah! Que lindo nome! Que rocha? Só se for alguma pedra nos rins desses técnicos com aspirações a Saramago. E porque não tomates? O que é que os tomates têm de mal? Hã? A gente até brincava que vinha para aqui pôr os tomates de molho, mas o nome até podia ser uma homenagem ao agricultor remendado que esgravata a terra areada junto ao mar, construindo a sua hortazita em buracos cercados de tapumes de cana. É só gente armada em esperta! Olha, já que estou nesta praia, vou pôr os tomates de molho! Venho já!
Uma dúzia de passos, e o queixoso entra na água.
- Ahhhhh!
- O que foi, homem? Magoaste-te?
- Acho que dei um pontapé nalguma coisa, tenho o dedo a sangrar!!!
- Se calhar, encontraste a rocha baixinha...

Uma ideia porreira

A Biblioteca de praia da Quarteira (a foto não é minha, nem é deste ano), onde se pode requisitar livros, e com um pouco de sorte, arranjar um lugar à sombra para se ler. Honestamente, só lá fui duas vezes, para ler os jornais à borliú antes de ir beber um panaché.

Uma ideia porreira 2

Os cinzeiros de praia da "minha" operadora (este, na Praia da Falésia)

Arod

Os patins são como as asas de Hermes, fazem-nos voar. Comecei a aprender a andar de patins na casa da minha professora primária, onde recebia explicações depois das aulas. A filha dela, que era alta e linda, tinha patins e sabia andar bem, deslizando graciosamente como um cisne no passeio em cimento que circundava a casa. Determinado, convenci os meus pais a oferecerem-me uns e convenci a filha da professora a ensinar-me a andar neles.

Primeiras instruções, primeiros bate-cus sob as risadas musicais dela, e comecei a conseguir-me equilibrar e, depois, a andar uns parcos metros, com a asa direita erguida, pronto a apoiar-me nas paredes. Duas, três semanas de exercícios quase diários, e já andava, sem grandes mestrias nem aventuras. A minha instrutora, para me testar, desafiou-me para uma corrida em volta da casa, e eu aceitei, num excesso de entusiasmo. Posicionamo-nos um ao lado do outro, fizemos a contagem decrescente e arrancamos. Ela partiu como uma flecha, e eu persegui-a. Primeira esquina dobrada, e já só lhe vi a sombra na esquina seguinte, aumentei a passada e dobrei-a também, sem me lembrar do ramo de limoeiro que pendia sobre esse troço da pista, tentei baixar-me para o evitar, perdi a noção de onde tinha os pés e espalhei-me ao comprido. Recompus-me e coloquei-me em pé, analisando os estragos. Tinha os cotovelos esfolados e sangrava dum deles, peguei num punhado de terra dum canteiro e esfreguei-a na ferida até o sangue estancar. Tudo em ordem. Quando a minha oponente me alcançou, já eu estava sentado no banco de madeira, junto ao portão do jardim, expliquei-lhe que tinha caído, mas que não havia azar. Ela sentou-se ao meu lado, e conversamos um pouco, com os patins calçados. Chegaram os meus pais para me virem buscar, e eu despedi-me e fui ao encontro deles, às arrecuas, como um caranguejo - na queda, tinha rasgado os calções atrás, de alto a baixo.
A sua memória era muito ténue e, para não se esquecer das coisas, atava laços em tudo quanto era sítio, pedacinhos de pano atados nas pernas das mesas e das cadeiras, nas maçanetas das portas, nas cruzetas do guarda-roupa. De cada vez que o lembrete funcionava, apressava-se a desatar o laço, para não voltar a matar a cabeça com um enigma já solucionado. De todos, o laço mais intrigante foi um que lhe apareceu na cabeceira em ferro fundido da cama, um laço bonito em tule no centro de uma rosa pintada a dourado. Não se lembrava, não tinha a mais pequena noção ou suspeita, e aquilo moeu-lhe o juízo durante uma semana inteirinha; a solução, entrou-lhe pela porta adentro, quando o pai a veio buscar para conduzi-la ao altar.
O recanto da praia onde se instalara estava sofrivelmente preenchido e sossegado, até ao momento em que soou aquele estampido familiar - avançaram pela areia, como uma pequena manada, três matronas, dois homens de barriga pronunciada e calções com palmeiras, quatro casais jovens e cinco-seis-sete-oito crianças, de diversas idades mas bem orquestradas nos seus saltos e gritos. Diante dos olhos de todos, assentaram arraiais, criando espaço onde ele não existia. Dois corta-ventos unidos na extremidade - ainda que não houvesse vento para cortar - formaram um recinto em U que foi logo preenchido por cinco guarda-sóis, uma pirâmide de seis geleiras azuis com pegas brancas, sacos e sacos de roupas, joguetes de plástico, livros do Teo e da Hannah Montana, e diversos garrafões de água com torneirinha. Aquela trupe logo se encarregou de estender os lençóis de praia, que cobriram todo o centímetro quadrado de areia daquele espaço.
Num ápice, estava envolvido e cercado. Pediram-lhe para desenrolar o corta-vento entre ele e o mar, e concordou, pediram-lhe para colocar toalhas à volta da sua, e foi como se tivesse concordado, porque os actos não esperaram pelo eco das palavras. Aquilo era demais, e a sua vontade era fugir dali, e até fugiria, se não tivessem trespassado a palma da sua mão com uma lança de guarda-sol.
João e Maria

Há anos a fio que o mesmo círculo de amigos alugava o mesmo apartamento no Algarve para passarem férias. Começaram ainda tenros, ainda solteiros ou nos primeiros anos de namoro, com o tempo, casaram-se e vieram os filhos, mas mantiveram-se fiéis às férias em conjunto, e ao apartamento que encolhia, ainda que não fisicamente. Alguns casais, com a prole, dormiam no chão da sala, e outros no chão dos dois quartos.
De todos os casais, João e Maria, formavam o casal mais peculiar. Quando o grupo debandava da praia para o apartamento ao entardecer, para a maratona de banhos, eles insistiam em ficar para trás, sozinhos, para ver o sol a pôr-se. Eram esquisitos, na opinião dos outros, para quê ver o mar que se vê durante todo o dia?
Eles ficavam lá uma meia hora e depois, recolhiam também. O apartamento situava-se num terceiro andar, o último do prédio, mas as escadas continuavam para cima, para um patamar vazio, com uma porta de alumínio que dava para um terraço enorme e deserto. Há uns anos, des-esperado por um pouco de intimidade, João descobrira que essa porta não estava fechada à chave, e reclamou a descoberta como um novo mundo descoberto por um navegador.
Esse passou a ser o segredo amoroso de João e Maria. Seguiam na peugada dos outros, e subiam mais dois lanços de escada até ao último patamar; aí ou no terraço contíguo, amavam-se sedentamente sob a luz ígnea do entardecer.
Quando voltavam, iam de sorrido rasgado. Os outros achavam-nos esquisitos, mas reconheciam que olhar o mar, devia fazer muito bem à alma.
Evocação

São três euros e vinte e cinco! - pediu a empregada na esplanada, desenfiando as mãos dos bolsos do avental verde com um gigantesco monograma comercial.
A cliente separou o dinheiro, escolhendo as moedas na palma da sua mão, uma mão diferente de pele branca enrugada, com marcas avermelhadas, vestígio dalguma queimadura antiga.
A empregada procurou ignorar o detalhe, e quanto mais fazia por parecer indiferente, mais se notava que tinha os olhos fixos nele, na mão e na tatuagem de chamas a vermelho e negro que subiam da mão até o ombro em volutas psicadélicas.
A cliente notou a estranheza e o embaraço da jovem.
- A pintura fez-se carne! - explicou com um sorriso.
Sensível:
"Não suportaria viver num arranha-céus, sou demasiado religioso para isso!".
Pico della Mirandola, sem medicação:

"Sou homem, mas tudo o que é humano me é indiferente!".
A senhora idosa aviou-se no supermercado, e foi para a caixa com um cestinho com verduras, quando estava lá a chegar, a sua vez era paralela à de um jovem bronzeado, que levava na mão, vários pacotes de preservativos - normais, extra-finos, estimulantes, espermicidas. Ela fez-lhe sinal para ele passar à frente e ele, por sua vez, quis dar-lhe a vez, mas ela não aceitou: "Não, o moço primeiro, parece ter muito mais urgência!"
Vânia
Assim, sem mais nem menos, o míudo apaixonou-se e passou a menosprezar a companhia dos amigos, o Sol e a prancha de surf; só pensava nela, e tanto nela pensava que não conseguia dormir, e tinha invânias.
Mitoilógico

"Já não tenho cabeça para nada" - confessou a Hidra de Lerna ao Cavaleiro Sem Cabeça.
Á terça rezava o terço, e à quarta, quinta, e por aí fora; todos os dias menos à segunda, que era um dia muito preenchido a fazer as contas aos ganhos do bordel.

"O que não couber numa frase, não cabe num livro" - concluiu o epistemólogo, dando por terminado o seu tratado em dezasseis tomos.

P.S.

123...experiência

(primeiro post através do Blogger Mobile)

II de PAUSA

Até ao final deste mês, este blogue entra em regime de Auto-gestão.
Há um tipo que vai continuar a ver o mail, e outro que vai ver se dá uma arrumação nos arquivos-mortos; o que escreve os posts, esse vai fazer-se à estrada (sem maiúscula) e algaraviar um pouco.

Fiquem (muito) bem!

Até já!

Oh Captain, my Captain!

Antes de partirem, os dois pilotos retiraram as instruções de um envelope fechado, a luz era ténue, e o piloto leu-as em voz alta para o seu adjutor. Nem um nem outro usava capacete, era um voo experimental, e pequenos fios estavam colados à cabeça e aos pulsos para recolha de dados. Prenderam-se com os cintos aos bancos, já com o rotor em passo mínimo, e iniciaram a descolagem, ganharam altitude e tomaram o rumo pré-estabelecido, em voo de cruzeiro. O capitão Santos era um piloto experiente com mais de mil horas de voo, e manobrava a manche e a alavanca de passo com gestos mecânicos, quase involuntários, como se ele e a máquina fossem um só, um hodierno centauro aéreo; o seu co-piloto, o jovem Andrade, era um novato deslumbrado com tudo, ainda dava os primeiros passos na aprendizagem, mas já arquitectava projectos futuros de heli-turismo. Numa missão em tempo real, atingiram as coordenadas solicitadas em pouco mais de uma hora, um ponto convencional no oceano, sobre o qual deveriam executar um perímetro circular durante tempo indefinido. As instruções precisavam que esse voo circular deveria descer à menor altitude possível sobre as ondas, e Santos cumpriu à risca, baixando-o até a um ponto em que Andrade gracejou que começava a sentir os pés húmidos. Como a órbita do helicóptero o mantinha numa posição inclinada, ambos os pilotos viram, simultaneamente, nas águas, algo que não lhes deu vontade de rir ou gracejar. Quase à superfície, a poucos metros de profundidade, distinguiam-se estruturas e volumes estranhos, aparentemente erguidos por mãos humanas, conseguiam perceber que havia à pele da água edifícios de forma piramidal, arcos de pedra, colunas, ruas e recintos murados onde o chão era formado por grandes lajes de pedra, havia também outras ruínas dispersas pelo fundo arenoso, que as algas e os moluscos haviam conquistado parcialmente. Ambos sabiam que aquilo não era real, mas não conseguiam deixar de sentir o entusiasmo e a adrenalina que sentiriam se aquilo estivesse mesmo debaixo deles.
- Atlântida? - murmurou Andrade.
- Podia ser...em algum lugar...em algum tempo.
- Parecia um filme, era de cortar a respiração!
Santos concordou. Ouviram o som do contacto rádio, e ele interrompeu a órbita para dirigir o helicóptero na viagem de regresso à base. A missão foi abortada antes de lá chegarem, abriu-se para o alto a porta do simulador de voo, e dois homens com bata branca entraram para lhes retirar os fios com que haviam monitorizado as suas reacções. Os dois pilotos desceram do simulador suspenso no hangar, a uns três metros de altura, e foram preencher o relatório que lhes havia sido pedido.


*

Horas depois, ambos foram beber uma cerveja ao bar da base aérea. Andrade ia sair de licença dentro de poucas horas, e já se notava na sua farda o desleixo de quem só está a espera da hora da partida. Beberam-na a uma mesa com outros camaradas e, mal se viram sozinhos, o capitão perguntou a Andrade aquilo que lhe estava atravessado na garganta.
- Não achou estranho o cenário desta simulação de voo?
- Porquê?
- Ora esta! Estamos numa iniciativa de reciclagem de conhecimentos e fazemos uma simulação que era suposto incidir sobre experiências prováveis de uma rotina de voo normal, ou num cenário de guerra. Em vez disso, fazem-nos descobrir a Atlântida.
- E o senhor tem uma teoria, meu capitão?
- Acho que servimos de cobaias, estão a tentar avaliar de alguma forma o impacto que uma descoberta destas teria nos mídia. Para mim, já encontraram aquelas ruínas e estão guardadas para quando forem úteis. Se de hoje para amanhã houver um grande atentado terrorista no nosso país ou um princípio de motim popular, as ruínas saltam para todas as televisões, e meio-mundo fica narcotizado.
- Acho um pouco rebuscado, meu capitão, eu também via os Ficheiros Secretos, mas não sei, parece-me, e se me permite dizê-lo, a febre das conspirações, com o devido respeito, claro. Além do mais, o mar está todo cartografado!
- Esqueceste de mencionar as fotos de satélite. Mas há sempre uma zona de penumbra. Pode ter havido um registo insólito no sonar dum barco de pesca, ou terem tropeçado em muros enquanto instalavam um cabo submarino. Há uns anos largos, quando os russos ainda eram soviéticos, eles mergulharam até ao Monte Ampére, perto da Madeira, e anunciaram que tinham visto ruínas, escadarias e plataformas de pedra a cerca de cinquenta metros de profundidade, tiraram quase quinhentas fotografias desses vestígios mas, depois, negaram tudo e afirmaram que tinha sido uma grande confusão, talvez um sonho do vodka. No virar do século, nós, portugueses, voltamos ao Monte Ampére, acho que era uma equipa da universidade do Algarve, e fomos lá à procura de quê?
- Das ruínas!
- Não, nova confusão, só havia biólogos e coisa assim, para estudar a vida naquele monte submarino, colheram amostras e tiraram muitas fotos de peixes e corais. Agora, imagina que alguém tenha visto ou filmado escadarias e monumentos, uns tipos fecham-se em copas nas mansões do poder e criam uma reprodução virtual dessas ruínas que são exibidas a militares como nós em simuladores de voo. Para mim, estão a preparar a revelação, e nós somos as cobaias.
- Talvez, meu capitão, não posso dizer que concorde consigo, mas também não afasto a possibilidade do senhor ter razão. Achei muito estranha esta simulação de voo, mas daí a concluir que nos usaram como cobaias...ainda que possam ter usado, claro, também não excluo essa hipótese, não completamente. Posso pedir mais uma cerveja para si, meu capitão?


*
Andrade abandonou as instalações mais tarde do que o esperado. Bebeu umas cervejas com o Santos, e foi fazer a trouxa; como se sentisse um pouco agitado, fez um pouco de step num aparelho que um colega tinha, e voltou ao bar para comer uma tosta mista e beber um abatanado. Eram quase onze da noite quando tomou o caminho de casa. Quase duas horas depois, no meio de nenhures e já a precisar dum novo café, avistou uma panóplia de luzes junto à estrada - podia ser uma operação stop ou um acidente, em qualquer dos casos, metia polícia, e abrandou a velocidade para não melindrar os agentes. Começou a achar estranhas aquelas luzes, mas antes que conseguisse chegar mais perto, o carro deu o peido-mestre, o motor foi-se abaixo e as luzes e o rádio eclipsaram-se. Quando andava à procura no porta-luvas de uma lanterna-porta-chaves, uma luz branca intensa foi projectada sobre a viatura. Meio encadeado, viu sair daquela luz uns vultos estranhos de pequena estatura. Saiu do carro num salto, pronto a reagir, mas um daqueles seres disparou sobre ele um feixe de luz que o paralisou, fazendo-o cair sobre o alcatrão. Não se conseguia mexer, os membros tolhidos por uma espécie de formigueiro, mas estava consciente. Sentiu que o levavam dali como se estivesse a flutuar, mas a cabeça descaída sobre um dos ombros permitiu-lhe ver de través que aquelas luzes todas pertenciam a um nave discóide pousada na berma da estrada. Subiram com ele uma rampa e foi levado para uma espécie de laboratório onde recolheram amostras de pele e unhas, e foi enfiado dentro dum tubo iluminado, onde uma fibra óptica lhe entrou pela boca, enquanto sentia a queimadura de uma espécie de cabos que tocaram a sua pele à altura do ventre. Aí, perdeu a consciência. Quando acordou estava de novo no carro, sentado no banco com a porta aberta. Amanhecia. Conseguia movimentar os membros e o corpo, mas sentia dores. No ventre, tinha pequenas queimaduras circulares com o tamanho de uma moeda de euro. Experimentou rodar a chave na ignição, o carro trabalhava. Ligou o telemóvel que ficara largado no banco e procurou o número do capitão. Ligou-lhe, e uma voz estremunhada no outro lado, comprovou que tivera sucesso.
- Capitão? Meu capitão?

- Andrade? Sabes que horas são?
- O senhor tinha razão, meu capitão! Estão a usar-nos como cobaias, agora foi com extraterrestres, e os gajos capricharam, usaram efeitos especiais, cenários, anões mascarados. O meu capitão devia ter visto. Cá para mim, tem algum extraterrestre congelado e estão a preparar-se para o mostrar ao mundo!

(imagem pilhada aqui)

Manhã

É na infância que se aprende a amar, como a morrer, de muitas formas, são dores de acrescimento, somam-se coisas dentro de nós, cujo produto é líquido e cujo resto é, quase sempre, zero. Os dias liquefazem-se e correm como regatos de chuva, transportando húmus e areia estéril para um estuário que ainda não nos é dado conhecer. Nesse estuário adiado, os nossos gestos cansados semearão quimeras entre flores silvestres enquanto escutamos os ecos, preciosos e enganadores, das outras vidas que em nós foram.

Custa-me dizer isto - e aí, não vale inventar - mas não me lembro do seu nome. Era um pouco mais alta do que eu, e tinha cabelos louros, lisos e compridos, que caíam sobre as costas. Veio morar para o bairro com os pais e uma irmã mais velha, que sorria sempre quando me via; e tornou-se parte da vida de todos, via-mo-la na escola e no machibombo* para a escola, quando brincávamos pelas ruas em coros de gritos e risos, e nos bailes de garagem, onde um gira-discos, uma pilha de LP's e uma mesa com sandes e Canada Dry's, davam para um convívio de horas. Entre mim e Isolda, chamar-lhe-ei assim, existia aquilo que os maus novelistas chamam de química especial, mas essa química precisou de um empurrão. Durante um baile de garagem em que eu estava sentado com os meus amigos no topo de um muro de jardim, ela passou por trás e deu-me um empurrão enérgico que me precipitou no meio dum roseiral, riu-se muito, e eu , do outro lado, consegui rir-me também, apesar do picos e cortes. Começamos logo nesse baile a falar um com o outro, iniciando uma amizade que se intensificou nos meses seguintes, amizade pueril, agarotada, feita de jogos e brincadeiras, de palavras ditas e subentendidas. A simples presença dela trazia-me alegria e encantamento, era uma epifania pegar na sua mão, ouvi-la rir, e tocar com os meus lábios nos dela como se ambos beijássemos papel rasgadiço. A primeira vez foi numa tarde abafada, em que fomos colher maçanicas, um fruto pequeno e um pouco ácido de casca fina que devia o seu nome à remota semelhança com uma maçã. Isolda era asmática, e possuía um pequeno spray que usava de tempos a tempos, nessa tarde, sentados na sombra a devorar as maçanicas, ela usou-o e eu perguntei, porque sempre fui um pouco neurótico, no que sucederia se ela se sentisse mal e tivesse deixado o spray em casa - faço respiração boca-a-boca, respondeu ela, aproximando a sua boca da minha, beijei-a, de um modo um pouco confuso, em que os nossos narizes se chocaram e um caprichoso caroço de maçanica transitou de uma boca para a outra, fazendo-nos rir até às lágrimas.
A minha história com Isolda durou meses e durou uma eternidade mas, ao contrário desta, teve um fim abrupto. Numa manhã em que fui a casa dela para desafiá-la a ir brincar, encontrei a casa fechada, e várias caixas e papelões junto à porta de entrada. A vizinha do lado, explicou o mistério de uma forma sumária: "Não está ninguém, voltaram para a metrópole!".
Rasgou-se o abismo. A metrópole era longe, a milhares de quilómetros de Moçambique, um lugar vago como as fotos da Torre de Belém, e da estátua de Dom Afonso Henriques junto ao castelo de Guimarães. Da metrópole vinham as cartas dos avós e tios que nunca víamos, e a voz miraculosamente retransmitida dos relatos domingueiros de futebol no rádio grande da sala, e revistas, remessas de objectos e confeitaria. Ir para a metrópole era como ir para outro planeta, respirar outro ar e viver com selenitas de antenas na cabeça.
Isolda fora para a metrópole! De certa forma, morrera. A criança que eu fui, nunca a trouxe na bagagem para a metrópole, acho que ficou em Moçambique, à espera que ela regressasse.

*Machibombo: camioneta.

A arca da velha

"Para viver bem sem trabalhar, ou roubar ou casar!". Nuno encontrou esse provérbio húngaro numa revista, e tomou-o como lema.
Optou pelo casamento, com uma mulher entradota, mas rica. Foi seu escudeiro, seu escravo, arlequim e pingalim, até conseguir o que queria, ser seu herdeiro universal, dentro e fora do universo, e logo saltou para a fase seguinte, a do homicídio, premeditado para não existir.
Num Domingo em que se dispensara os criados, e em que ele próprio era suposto estar muito longe dali, numa regata, colocou-se de atalaia numa janela do primeiro piso com a mulher, dopada e bêbeda, a vaguear pelo jardim à procura da dentadura postiça. Quando a apanhou na vertical da janela, lançou sobre o seu cocuruto uma arca carregada de roupas e naftalina.
Falhou, o golpe do baú, e levou um pontapé no cu.

O som e a imagem

Folheou os CD's que tinha na mão, não sabia qual escolher desta vez. O Sounds of Green não era mau, faixas de quarenta minutos com música suave enriquecida com sons da floresta, os dos tigres e macacos eram críveis, os das araras nem tanto, o produtor deveria ter utilizado corvos com a asa presa para chegar àquele resultado; o Sounds of Blue não lhe apetecia, o canto das baleias já enjoava, e tanto mar, tinha sobre ele um efeito diurético.
E os outros que não voltavam, começava a recear o pior, não deviam ter aguentado, podiam estar a cozer no meio da areia.
Voltou aos discos, tentando não pensar nisso, e decidiu-se pelo Music for Pregnants, que tinha um pouco de tudo, música suave, sons da natureza, animalzinhos a exprimirem-se docemente. Quando a música preencheu o interior da nave, sentou-se aos comandos, e esperou. Até onde a vista alcançava, só se via deserto e destroços, a pulsar de radioactividade. Ele fora contra a decisão de aterrar no lugar previsto. Deviam ter procurado um outro lugar para pousar o Vaivém Espacial, mas Lewis, sobretudo ele, fora autoritário, a América, como quase todo o hemisfério norte fora pulverizado por explosões nucleares, e o dever deles era regressar ao lugar previsto para ajudar o país no que fosse preciso. Quando conseguiram colocar a nave no solo, mais por sorte do que por perícia, Lewis assumiu o comando - era natural que o fizesse, era militar de patente, não um turista espacial - e organizou uma expedição para encontrar sobreviventes e tentar comunicar com os superiores hierárquicos.
Haviam-no deixado para trás; Lewis, mais para se livrar dele do que por necessidade estratégica, incumbira-o de ficar na nave e esperar que alguém tentasse comunicar. Não se chateou muito, ainda tinha víveres para uns dois meses, havia que ter esperança, talvez viessem resgatá-lo dali com meios aéreos.
Não estariam naquela situação se não fosse o cabeçudo do Lewis, se tivessem sido espertos, podiam ter tentado pousar mais a sul, nalgum campo de aviação ou num deserto limpo, mas não, Lewis tinha de pôr a nave mesmo no centro do forno de radiações. Estúpidos militares!

De Adolfo Casais Monteiro (1908-1972):

SURPRESA

A realidade é apenas
uma luz por dentro das coisas. Teia
em que se enreda o olhar que traz
dentro de si o amor do mundo.
Vaso que dá forma à
toalha líquida dos instantes. Suspensa
ponte sobre as margens do tempo.
Baste
ao amor a adivinhação, ao sorriso
a presença de um sonho. A luz
floresce em qualquer parte.

Ciclo

No coração do planalto, a vila rústica de casas de pedra possuía uma oliveira no centro de um largo, num soco de terra murado.

As lendas locais falavam confusamente de um enforcado, de alguém inocente que aí fora justiçado em tempos, e que amaldiçoara a oliveira com o último sopro do seu peito.
Dizia-se que o seu corpo alimentava as raízes da árvore, e que as suas olivas por vezes eram rubras por dentro, da cor do sangue.

Muitos se poderiam comover com essa história popular, não aquele turista que agora a contemplava, alicerçado na sua vida cosmopolita e primeiro-mundista. Contemplava e avaliava. A oliveira tinha os ramos baixos, nada próprios para um enforcamento, e pouco sólidos de aspecto. E as olivas, colheu algumas ao alcance da mão e abriu-as, olivas comuns, e aguadas. Ergueu a máquina fotográfica presa ao pescoço por uma correia, e escaneou a oliveira com o zoom da máquina. Humm!! As azeitonas no alto da árvore, possuíam um tom diferente das outras, quase avermelhadas sob a incidência dos raios solares, mas daí a afirmar-se que seriam vermelhas por dentro...
A sua formação científica impelia-o a obter respostas, e subiu à árvore com os seus calções de caqui e o seu chapéu de Gunga Din. Desajeitadamente, tentou alcançar as olivas da discórdia, um pé resvalou dum ramo e, enquanto amaldiçoava a puta da árvore, o seu corpo seguiu o exemplo do seu pé e foi atraído pelo solo, sustido na queda pela correia da máquina fotográfica, que se enrolara caprichosamente nos ramos, e que provocou um puxão no seu pescoço, quebrando-o como a um fino ramo seco.

As lendas falavam confusamente de um enforcado, de alguém inocente que aí fora justiçado em tempos, e que amaldiçoara a oliveira com o último sopro do seu peito.

Pêndulo

Da primeira vez que foi visitar o tio ao IPO de Lisboa, lembrou-se que devia levar-lhe jornais, sabia que ele, leão dos quatro costados, gostava de futebol e por isso comprou-lhe dois jornais desportivos e um semanário tirado à sorte. Pediu indicações e lá aportou ao quarto onde ele convalescia da operação, um quarto grande que ele partilhava com outro paciente que, nesse momento recebia a visita de uma senhora sexagenária, talvez esposa dele.
Saudou a todos no geral, e deu um abraço ao tio, inteirou-se da operação e de como se sentia, falaram da casa na terra, de Lisboa e do Tejo, dos familiares que já tinham vindo e dos que tinham anunciado a sua visita iminente, às páginas tantas, acusando o barafustar do vizinho de quarto, o tio confidenciou-lhe - "as coisas não correram muito bem com ele, vai outra vez à faca antes do final da semana", acto imediato, como se sentisse culpado por estar a cochichar, elevou a voz e apresentou-o ao vizinho; "Senhor Silveira, minha senhora, este é o meu sobrinho, o Mateus, falei-vos dele, é caixeiro-viajante e vem muitas vezes à capital". O outro grunhiu um "prazer" mal-humorado e replicou: "Já sei que o senhor tem filhos e sobrinhos, não precisa de os estar sempre a exibir, eu também tenho filhos e noras e netos e netas, e são tantos que, quando aqui chegarem, vão encher este quarto de tal forma que a gente nem vai conseguir mexer-se cá dentro. Você vai ver!". O tio e ele concordaram tacitamente, e prosseguiram a conversa paralela até ao final da visita.
Uma semana depois, regressou ao IPO, a volta levara-o ali e ele aproveitou, já que o tio estava quase a ter alta, entrou no quarto e viu o vizinho de quarto deitado no seu leito.
- É filho, genro, ou sobrinho? - perguntou ele, de chofre, ao tio.
- Sobrinho!
- Mais um! Não tenho inveja nenhuma. Quando a minha prole entrar por essa porta, você vai desejar estar noutro quarto, porque quase não se conseguirá respirar com tanta gente! Você vai ver!

epitáfio

Em setenta e oito anos e trinta e dois dias de vida, precisou de, sensivelmente, dois biliões e meio de palavras para descobrir que não cabia em nenhuma delas,

nem mesmo nas da extrema-unção,

(depois disso, não procurou mais)


Iaco

Fernando ia casar-se com Ana, a sua namorada de sempre. Alugara um apartamento usado, de paredes pintadas de um amarelo deprimente, que ele considerava ser "cor de vomitado". Para repintá-la de branco, reuniu entre os amigos uma pequena equipa de pintura e convocou-os para um Domingo à tarde. À sua namorada, Fernando atribuiu o sacral encargo de assegurar o provimento de sanduíches e cervejas.
A brigada de pintura que aí se formou compreendia, para além do próprio Fernando, quatro voluntários. O Luís, antigo colega de escola, moreno e ligeiramente acorcovado pela prática do culturismo, que tinha uma vaidade enorme na sua aparência. A Sandra, a sua namorada, uma adorável ninfa de cabelos louros e formas sinuosas e carnudas, que já curtira com todos dos presentes, sem distinção de género. O Elias, magro e completamente calvo, que era o intelectual do grupo e, por fim, o expansivo Caio, gordo e desajeitado, que trazia vestidas umas jeans muito apertadas com a barriga saliente por cima destas como uma bolsa em formação.
Depois dos momentos iniciais de convívio, Fernando distribuiu o equipamento e dividiu-os em duas equipas. Luís e Elias, com rolos de pintura, ocupar-se-iam das superfícies maiores e, aos restantes, caberia pincelar os cantos e os pequenos detalhes. Iniciaram o trabalho, envolvidos pela música de um CD de Bob Marley.
Luís e Elias trabalharam em harmonia: o primeiro em cima de um escadote pintava a parte superior de cada parede, enquanto Elias, acocorado no chão, completava a outra metade. As garrafas de cerveja iam circulando entre eles, mas Caio superava-os a todos. Desde que entrara no apartamento que Caio vinha devorando, sem descanso, as sandes preparadas por Ana, ao mesmo tempo que bebia cerveja com grandes goles sôfregos.
Quando acabaram a segunda divisão do apartamento, sentaram-se todos no chão da sala de estar, a fumar um charro. Conversaram durante um bocado, trocando piadas sobre o desempenho artístico de cada um, ou secundando Bob Marley com vozes desencontradas. Caio manteve-se quase sempre calado. Com toda aquela cerveja no estômago e o fumo quente do charro a arrepanhar-lhe as costelas, estava a sentir-se desorientado, e, com os olhos muito abertos, fixava ostensivamente os seios da Sandra, que uma camisola apertada tornavam ainda mais arredondados e cheios.
Retomaram o trabalho, rindo e arrotando ruidosamente. Luís sussurrou à namorada que se mantivesse longe de Caio, ela fez uma cara de amuada e afastou-se dele, rebolando as nádegas ao passar pelos outros. Um pouco chateado com aquilo, Luís trocou algumas palavras com Fernando sobre uma das letras de Bob Marley que estavam a ouvir pela quarta vez naquela tarde e foi buscar uma cerveja à cozinha. Mudou de ideias quando viu lá Caio a destroçar o segundo lote de sandes, trazido por Ana da casa da mãe. Tinha desapertado o cinto e o botão das calças, e os cantos dos lábios rebrilhavam com a gordura. Voltou ao seu posto, com inclinações homicidas em relação a ele. Elias estava sentado no topo do escadote, com os olhos em lume. Todos os outros haviam ficado para trás, demorados no seu trabalho minucioso. Luís começou a mexer a tinta num balde grande enquanto ouvia o escadote de alumínio a ranger dolorosamente.
- Precisas de ajuda?
- Não, mas queres saber de uma coisa engraçada? - Replicou Elias e, ante o seu silêncio, continuou – Estou apaixonado pela tua namorada, não me importava de ser um cão, só para ela me puxar pela trela...
Luís foi apanhado de surpresa. Quando tentou falar, as palavras enrolaram-se na garganta. Pigarreou ruidosamente com um ardor aflitivo no peito.
- Eu sei, eu sei - repetiu Elias com tristeza - sei que ela de mim só quer sexo, mas isso não me chega. Se ela quisesse viver comigo, tenho a certeza de que seríamos completos e felizes, eu como o Yang, positivo e solar, ela como o meu pólo negativo, aquífero e envolvente. Há qualquer coisa de alquímico na nossa relação, na cama como fora dela, somos como o mercúrio e o enxofre...
- Acho que o charro te bateu, ou então, andaste a snifar diluente às escondidas - interrompeu o Luís, gracejando, para aligeirar a conversa – eu fui o primeiro homem da Sandra, e ela não teve mais ninguém para além de mim, não nesta encarnação. E dizeres-me isso, é uma ofensa, a pior ofensa que se pode fazer a um amigo.
Elias acusou a censura e fechou-se num silêncio empedernido. Constrangido com o ambiente, Luís muniu-se de um rolo e de um tabuleiro e passou para o quarto ao lado onde começou a pintar sozinho e com rapidez, resmungando baixinho. Mas, aos poucos, a sua energia foi desaparecendo como a de um herói dum jogo vídeo a precisar recarregar. Já não havia energia nem munições para mais lutas, e os cenários estavam deteriorados, com longas paredes nuas mal pintadas, e poças de tinta nos jornais que cobriam o chão.
Como Luís, toda a brigada de pintura estava a acusar o desgaste. Fernando, depois do seu desabafo, sentara-se no chão, com as pernas cruzadas como um yogi, a brincar com um rolo de pintura, deslocando-o à sua volta num círculo fechado. No hall, Fernando, desmotivado, bebia cerveja ao som do eterno disco de reggae, enquanto salpicava a madeira da porta de entrada com a tinta branca de um pincel, rindo-se perdidamente do efeito obtido. Sandra, que momentos antes se permitira estar a flertar com Caio, chorava agora, arrependida, abraçada a Ana, sentadas as duas no mosaico fresco do chão da cozinha, queixando-se do Luís e de como os ciúmes violentos do namorado a haviam levado a deixar que o porco do Caio a amassasse toda com as suas mãos gordas, besuntando-a com os lábios gordurosos. Caio, por seu turno, não se sentia consumido pelo trabalho ou pelos remorsos, muito simplesmente, aliviava a sua sobrecarga, a vomitar ajoelhado diante da sanita.
Uma semana depois, Fernando tentou reunir de novo a equipa para acabar a obra, mas foi ouvindo pelo telefone recusas e desculpas inacreditáveis. De todos, Caio foi o único que se prontificou de imediato a ajudá-lo. Para se ser mais exacto, Caio ficou radiante. Deu a resposta a Fernando, e começou a ulular aos saltos à volta da mesinha do telefone, recriando a dança de guerra dos índios Apaches.

Olhar para dentro

- Estás com má cara, o que é que se passa?
- Descobri que tenho manchas nos pulmões!
- Eu tinha-te dito, que essa introspecção toda te podia causar transtornos!

Apetecia-lhe delir as coisas em volta, e fê-lo, porque isso só depende da vontade, que era muita, e com férrea pertinácia conseguiu expulsar pessoas, lugares e devaneios do alcance da memória, estátuas de cera que se derretiam em afluentes de esquecimento, algumas coisas, no entanto, resistiram a essa operação, as pessoas e experiências de que não conseguia fugir, e são essas que pulsam como um tumor no centro da testa, fazendo-o invocar com os seus gritos os enfermeiros e as suas agulhas sedativas.

Estacionar no meio da cidade, era um quebra-cabeças, mas desta vez, ela já levava a lição estudada. Tinha aberto um novo estacionamento subterrâneo onde, tinha ouvido dizer, a primeira meia-hora era de graça e, meia-hora, era precisamente o tempo que precisava para tratar dos seus assuntos. Dirigindo, desceu a rampa em caracol do estacionamento, retirou o tiquê, após o que, é claro, estacionou a viatura. Saiu disparada pela escada, e foi fazer os recados. Uma carta já com selo na caixa dos Correios, uma fugida ao Banco, o jornal comprado no quiosque. Voltou correndo e foi à caixa do estacionamento apresentar o tiquê. Vinte e oito minutos - disse o funcionário - Se a senhora se colocar na saída em dois minutos, não tem nada a pagar! Sentiu um pico de adrenalina e começou a correr para o carro. Mas dois minutos era muito pouco, porque entre ela e o carro interpôs-se a marcha duma banda, uma roda gigante de crianças de mãos dadas a cantar o Jardim da Celeste, e um dragão festivo chinês a saltar e ondular. Resignada, voltou à caixa e pagou quinze minutos de estacionamento, e foi andando lenta e desalentadamente para o carro. No caminho, ocorreu-lhe que os quinze minutos talvez fosse pouco, dada as dimensões e a lentidão de movimentos da anaconda gigante que evoluía diante de si, esfregando a pele luzidia nas carroçarias metálicas.

Pantagruel

À noite, e depois de uns drinques, todos os gatos são pargos.

extravagância

Os sentimentos são labirintos, de cada vez que ela chegava perto dele, tremia por dentro como se um sismo a varresse de ponta a ponta; não o conseguia evitar, e isto acontecia há anos a fio sem que nenhum gesto, nenhuma palavra, o revelasse a ele, o seu epicentro tranquilo.

Quando nasceu, prematura, foi colocada na incubadora. Os seus pais, antagónicos no que sentiam pela bébé, referiam-se a ela como o pintainho engelhado.

In the jungle

O jaguar fechou os dentes sobre a sua jugular. Logo a ele, que sobrestimava o repelente de insectos que espalhara pelo corpo todo.

Funâmbulo

Nos seus períodos de sonambulismo, procurava sempre andar no funicular.



O novo-falido

Endereçava sempre os cumprimentos ao Chef, depois de comer na Sopa dos Pobres.

O novo-milionário

Só ia a um restaurante de luxo, quando conseguia encher uma mala de viagem com cheques-refeição.

Casa de Passe

Madame Lola, em termos futebolísticos, não era apenas um número dez, jogava em toda a largura do campo e tinha um apurado domínio do jogo.

Dúvida

Nas comunidades enraizadas em terras quentes xistosas, a um referendo, poder-se-á chamar plebixisto?
Reabertura do parlamento, eleições livres, liberdade de imprensa.
O Generalíssimo descalendarizou a calendarização das reformas.
Ficou para calendas gregas.

Trolha espanhol:
- A mí me gusta trabajar!
Trolha português:
- A mim também me custa, e muito!

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...