INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

A supervivência dos mais fortes

O editor armou-se dos óculos quando o manuscrito foi largado à sua frente, no tampo da secretária.
- E o que é isto? Pedimos que o senhor escrevesse uns artigos para a nossa revista, e o senhor traz-me um romance?
- Não é um romance, é um estudo, uma tese de quatrocentas e trinta folhas sobre o principal problema do nosso planeta!
- Que é...?
- A fome, o fantasma crescente e inexorável da fome. Este estudo indica como debelar a fome à escala mundial, e pode, com propriedade, salvar o mundo. Eu vou salvar o mundo!
- Se tiver a gentileza de me explicar a sua teoria, talvez a gente possa apreciar melhor o valor deste material.
- A minha ideia é tão simples que até me surpreende como ninguém ainda pensou nisso. O senhor sabe, com certeza, da quantidade de pessoas que morre à fome todos os dias. Ora, estive a fazer uma análise estratigráfica dos dados, e descobri que uma percentagem considerável das vítimas da fome vive em países do dito terceiro mundo, em regiões de clima quente; e muitas vezes a fome está associada à desertificação de vastos territórios, ou seja, temos Sol com fartura. Pensei no assunto, e cheguei à conclusão que podíamos resolver o problema da fome em duas ou três gerações, o que não é um tempo excessivo, se atendermos às raízes históricas do problema.
- E a solução é?
- Eugenia, manipulação genética. Não sei se o senhor sabe, mas os animais de sangue frio podem passar longos períodos de tempo sem comer, porque os seus organismos não consomem tanta energia como o dos animais de sangue quente, porque o calor dos seus corpos não provém do metabolismo, mas do ambiente. Ou seja, se manipulando os genes, conseguíssemos transformar as pessoas dos países do terceiro mundo em pessoas de sangue frio, elas não morreriam à fome, pelo menos, durariam muito mais tempo quando privadas de alimento. A exposição ao sol abundante condicionaria a sua temperatura corporal, diminuindo a sua necessidade regular de comida.
- Ou seja, a sua solução é transformar pessoas em lagartos humanos, de modo a resistirem mais tempo à fome!?
- Basicamente! Além de resistirem mais, elas precisariam de menos comida, e podiam passar a vida estendidos ao Sol! Uma vida invejável para o comum dos mortais.
- Mas precisariam à mesma de comida, food, entulho, paparoca!
- Sim, mas menos. E os países desenvolvidos poderiam desenvolver estrátégias de ajuda que lhes atribuíssem algum tipo de ocupação ou trabalho, enquanto se incumbiam, os países desenvolvidos, claro, de explorar os recursos naturais desses países de modo a gerar riqueza e excedentes, para lhes matar a fome, se eles não fossem capazes de se alimentar a si mesmos.
- A sua ideia é engenhosa, não é, de modo algum, perfeita, mas demonstra alguma imaginação, enfim, uma dose dilatada de astúcia. Assim postas as coisas, eu, como editor, não estou muito interessado neste material, e preferia que o senhor nos continuasse a escrever uns artigos sobre orquídeas, que é a sua especialidade...
- Não! Nunca mais vou escrever sobre orquídeas para a vossa revista!
- Acantos? Tulipas? Antúrios?
- Não, não e não! Talvez pudesse escrever sobre girassóis...
- Girassóis?
- Sim, geneticamente modificados, girassóis gigantes, criados para servirem de camuflagem aos silos de mísseis ou...
- Traga-me um rascunho, que a gente vê...
- De acordo.
- Mas um rascunho pequeno, duas ou três páginas À quatro, no máximo!
- Só duas ou três páginas?

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...