Sortudo

"Olhe que a minha gata, foi parir para o sótão do seu telheiro" - avisara-me a minha vizinha - "Se apanhar algum dos gatinhos, traga-mo, se faz favor, que tenho a quem os dar. As minhas netinhas querem muito ter um".
"Com certeza!" - concordei eu.
Por descargo de consciência, muni-me de uma escada e subi ao sótão para os ver. Consegui vislumbrar dois na penumbra, que se enfiaram por debaixo duma palete, sob a vigilância hierática da mãe.
"Um dia descem!" - pensei, e nunca mais liguei aos gatos. Fortuitamente, avistava-os lá em cima, a brincar ou junto à mãe; numa outra vez vi a gata a dar de mamar a um deles no meio duns toros de lenha, mas não fiz qualquer intentona para capturar ou raptar os animais.
Uma bela manhã vou para o trabalho e, por acaso, deixei o carro à torreira do Sol. Cumprido o horário, bomba de gasolina com o carro (isto, uns dias antes da afluência geral às bombas). Quando estou a pagar na caixa, o senhor que metera gasolina na bomba ao lado da minha, diz-me com um meio-sorriso.
- O senhor tem um gato no carro!
- Sim, eu sei! Obrigado! - confirmei, para não me desmanchar, pensando logo nos gatitos. Era capaz de ter deixado na véspera uma fresta da janela aberta e um dos sacanas escapulira-se lá para dentro.
Quando me dirigi ao carro, o gato ouvia-se bem, com um miar curto e intenso, de gato pequeno em aflição. E todo o mundo a olhar, à espera de ver a criatura que produzia aqueles sons.
No carro, vistoriei o habitáculo, debaixo dos assentos e no meio dos tapetes, mas não vi nada. Como o banco de trás, rebatível, não estava na posição, calculei que se tivesse esgueirado para a bagageira. Bem, pensei, como a casa está perto, também aguenta mais cinco minutos, e ála para casa!
Coloquei o carro na sombra do telheiro, e reatei a busca do felino, que recomeçara a miar. Bagageira, nada, debaixo dos assentos, nada. Seguindo o som, tive um sobressalto: o desgraçado estava no motor. Abri o capô, e lá estava ele, espalmado sobre a panela do carro, a um palmo da bateria e da ventoinha. Tirei-o com calma, fazendo-lhe festas enquanto o examinava. Não descobri nenhum ferimento, meti-o num cesto e dei-lhe de comer. "Hoje acordaste mal mas, mesmo assim, o dia podia ter sido pior" disse-lhe.
Levei então o gatito à dona da gata, que o achou muito bonito e ficou reconhecida pelo gesto.
"Se quiserem dar um nome ao gato, podem chamá-lo de Gastão, Lucky, ou Sortudo - sugeri - que esses nomes assentam-lhe bem", e expliquei porquê.
Ficou Lucky.
Lucky, eu também.

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue