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Separação (Filmo-grafia)

Cena 23: A heroína está no gabinete do seu médico, olha incrédula as radiografias, enquanto o médico lhe explica que ela só tem quatro semanas de vida. Não chora, é forte, constituição robusta, e muitas sessões de musculação.

Cena 24: Liga para o seu namorado para lhe contar. Enquanto espera que ele atenda o telefone, ouve-se a música do Love Story, e um ruído de fundo que parece o da lâmina duma gadanha a raspar no mosaico do chão. O seu amado atende, e ela marca um almoço.

Cena 26: Os dois almoçam. Ele está mais meloso do que o costume, carícias discretas, sorrisos descosidos na boca, planos para o futuro. Ela não tem coragem, diz só para si mesma: "vou morrer, meu amor, tenho uma doença fatal durante a qual os meus membros e cabeça se vão separar do meu corpo, como as asas e as pernas daquelas moscas que nós mutilamos na nossa primeira noite juntos".

Cena 32: Passaram-se três semanas, e ela ainda não reuniu coragem. Ela insiste para os dois fazerem piqueniques em cemitérios, na esperança de criar um ambiente adequado à confissão, mas não adianta - ele afinal tinha uma fantasia secreta sobre sexo em cemitérios, e basta eles aproximarem-se dum, para ele se sentir em alta.

Cena 33: Ela faz dele beneficiário do seu seguro de vida, mas ele não lhe pergunta a razão; só não se cansa, é de lhe perguntar quando é que vão fazer um novo piquenique.

Cena 36: Ela sabe que o seu fim está muito próximo. Naquela manhã, conseguiu dar várias voltas completas com um braço como se ele estivesse prestes a separar-se do corpo. Pede-lhe para irem até ao campo, para sentir a beleza das giestas em flor e o odor agridoce da bosta das estrumeiras. Ele leva-a lá, mas ela não se sente capaz de lhe contar a verdade atroz. No alto duma colina, ele desafia-a para correrem encosta abaixo. Ela aceita. De mãos dadas, correm com força, a brisa no rosto, os olhos semicerrados, o toque doce e cálido da mão amada. Quando sente aquela mão, fria, ele pára, gelado de terror, na sua mão, apenas a mão e o braço do seu amor. O resto está espalhado pela encosta, consegue distinguir o tronco e uma perna junto a uma balseira, e a cabeça solta, que um escaravelho tenta fazer rolar para o seu buraco.

Cena 37 (final): Ele chora (culpa das hormonas que andou a tomar, para ocupar um lugar de soprano no coro da cidade), seguro ao braço que sobreviveu de um amor tão completo. Enquanto se volta a ouvir o som da gadanha, misturado ao guincho produzido pelo escaravelho em esforço, o herói, de costas para o sol poente, debita a fala que dá o título ao filme: «Deve ser isto o que chamam, o trauma da separação!».

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