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A sede e o pote

Mens sana in corpore sano”, era a máxima preferida do padre Vicente. Naquele final de semestre, ele decidiu exemplificá-la. Reuniu toda a sua classe de seminaristas e com o conluio de dois colegas, organizou uma expedição campestre ao Alentejo.

O padre Vicente era natural da Andaluzia. Malgrado os muitos anos que vivia em Portugal, ainda não se desembaraçara da sua pronúncia carregada. De grande estatura e feições arredondadas, era uma pessoa afável e simpática, mostrando-se possuidor de um amor indefectível por toda a obra divina em todas as suas formas e manifestações. O seu respeito e admiração pelos outros era um dos atributos da sua natureza mística e apaixonada, capaz de se maravilhar do mesmo modo com um salmo da Bíblia ou com o riso de uma pessoa.

O padre Vicente era o nosso mestre preferido. Ele não precisava de usar a autoridade ou a disciplina para travar o nosso ímpeto e a nossa jovialidade, porque todos os seminaristas se submetiam ao seu carisma e à sua inteligência. Nas conversas que desenrolava connosco nos jardins do Seminário, intercalava os seus ensinamentos de doutrina com arrazoados apaixonantes sobre a natureza das estrelas, as propriedades do mercúrio, ou os vestígios de civilizações antigas. Sentíamos alegria em ouvi-lo, e o nosso espanto devia-se tanto aos seus conhecimentos como ao generoso talento com que ele os transmitia

Ultimaram-se os preparativos para a viagem de estudo, e saímos do Seminário numa terça-feira de madrugada. Durante toda a viagem de autocarro, o padre Vicente procurou fazer-nos esquecer o tédio tristonho, inventando jogos ou sugerindo melodias a um dos seminaristas, que era exímio a tocar guitarra. Outra constante, eram as suas chamadas de atenção para os pormenores da paisagem que corria à nossa volta, sublinhados por uma frase que já ouvíramos da sua boca - “A beleza, como o amor de Deus, encontra-se dentro de vocês” - lembrava com a sua pronúncia engraçada - “vocês nunca vão deixar de reencontrá-la no mundo se não a perderem de vista nos vossos corações”.

Rolávamos já por uma planície aparentemente sem fim, quando os três sacerdotes chegaram a acordo e decidiram que podíamos interromper a nossa expedição. Apeamo-nos todos e o padre Vicente explicou-nos a ordem de trabalhos - o motorista do autocarro e os três sacerdotes ficariam dentro dele para debater as virtudes do ensino aliadas à salutar vida campestre, enquanto nós, os seminaristas, iríamos dar um passeio pela planície para activar o sangue e fazê-lo irrigar o cérebro. Ao meio-dia, regressaríamos para um apetecido almoço em grupo, após o que se iria à procura de um lugar fresco para revermos algumas noções de teologia. Concordamos, achando que o plano era interessante, apesar nos ocorrer a todos, que os quatro homens iam aproveitar para dormir um pouco.

O nosso grupo partiu alegremente. A uma cautelosa distância do autocarro, começamos a intercalar algumas canções desafinadas com anedotas picantes sobre padres e freiras. O Sol começou a castigar-nos, dardejando os seus raios do alto de um céu sem nuvens, e uma voz no meio do grupo sugeriu que procurássemos a aldeia mais próxima para verificarmos se possuía mulheres capazes de fazerem o sangue irrigar-nos os membros. Rimos com vontade e continuamos no mesmo ambiente de paródia e brincadeira, mas o calor, a sede e o desconforto da marcha iam-nos vencendo gradualmente. Depois a paisagem era sempre igual e sem detalhes, e só de longe a longe se avistava uma pessoa. E o pó, o pó era insuportável, colando-se ao suor do corpo como uma segunda pele em formação.

Avistamos o que parecia ser um edifício à nossa frente e encaminhamo-nos para ele, para depressa descobrirmos o logro: era uma simples eira circular, sobre a qual haviam erguido um improvisado telhado de tábuas e canas e, espalhados pelo chão, havia restos de lixo e fitas coloridas. Deveria ter havido alguma festa ou romaria, mas não encontramos vivalma em redor. Um de nós descobriu então, num monte próximo, o que nos pareceu tão milagroso como o maná dos céus: um grupo de frondosos medronheiros carregados de frutos. O nosso grupo rodeou os medronheiros com gritos de alegria, e começamos a devastar os arbustos, colhendo os medronhos à mão-cheia e entesourando os frutos nas camisolas dobradas. Os mais rápidos e expeditos, iam-se refugiando na sombra da eira, empanturrando-se deliciadamente com os frutos sumarentos.

Os que haviam ficado no autocarro esperaram longamente pelo nosso regresso, estranhando a nossa demora. Era de supor que nos tivéssemos alongado no passeio, mas parecia-lhes absurdo que fossemos capazes de sacrificar o almoço. Foram no nosso encalço, com o autocarro aos sacalões por uma estrada de terra batida que apontava na direcção que havíamos tomado. Os três sacerdotes perscrutavam a paisagem e, como nós, foram atraídos por aquela estrutura anómala na planície.

Acorreram preocupados e descobriram-nos dentro da eira e em redor. Nenhum de nós estava renitente à ideia de ir almoçar. Estávamos, simplesmente narcotizados pelos medronhos ingeridos, atirados um para cada lado como moribundos, uns a gemer com as mãos agarradas à cabeça, e outros a vomitar ruidosamente sobre a areia. Os nossos mestres cruzaram aquele cenário medonho com uma expressão de grande assombro, fazendo perguntas às quais ninguém era capaz de responder com coerência. O padre Vicente foi o primeiro a aperceber-se da causa daquela momentânea loucura, e quando o fez começou a rir às gargalhadas, acudindo-nos com um sorriso mordaz nos lábios. Carregaram-nos em braços para dentro do autocarro e iniciamos o regresso. O autocarro parecia agora uma ambulância gigantesca carregada de sofrimento e agonia, como se estivesse a evacuar feridos dalguma frente de combate.

Nunca mais nos esquecemos daquela memorável aula campestre, que nos inspirou um aforismo em latim bárbaro que a nossa classe ostentava como uma divisa: “mens medrona in corpore medrono”. E o padre Vicente, o nosso extraordinário e saudoso mestre, enquanto privamos com ele, teve sempre a gentileza de nos oferecer pelo dia de Reis, uma cestinha de vime cheia de polpudos medronhos.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...