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Paralelismos

XX é uma jovem sem grandes angústias ou ansiedades, amadurecida pela vida mas sem estar azedada pela salsugem da frustração. Conseguiu manter o espírito fresco e a retina límpida, conseguindo focar as pessoas no que elas possuem de melhor. Sempre sofreu um pouco com as acções maldosas dalgumas pessoas cínicas, mas, também isso, levou-a a sobrestimar os seus amigos mais leais, em vez de perder tempo a detestar quem a tentou prejudicar.

XY é um homem adulto, vivido, que gosta dos amigos, de música Jazz, de beber um copo de vinho na sua varanda ao entardecer enquanto pensa no dia de amanhã e no muito de bom que - sempre - espera dele.

XX não alimenta fantasias para o dia que ainda está por vir, duas relações duradouras, e falhadas, tiraram-na de alimentar romantismos e ficções de vida. Mas gosta da amizade, de conhecer melhor outras pessoas, de partilhar ideias, experiências e opiniões. É uma solitária, mas não por entrega; no fundo, deseja sempre que a ternura resplandeça de alguma forma no breve viço das relações fortuitas que cultiva. Não espera um Romeu, uma figura irreal, apenas um homem sincero e carinhoso, ao lado do qual se sinta confortável, e que goste de conversar, e tenha sentido de humor.

XY não tem inimigos e acredita que nunca os teve, mas abomina as pessoas falsas e hipócritas e sempre conseguiu manobrar habilmente o leme de forma a não perder muito tempo com elas e, sobretudo, a não as confrontar, o que foi manifestamente decisivo para a sua vida impoluta e sem querelas. Mas é um humanista, preocupado com a sorte do seu semelhante, a quem tenta ajudar, através de acções de voluntariado, em questões sociais e ambientais. A sua vida afectiva é um pouco irregular, talvez por empolamento de expectativas, quer dele, quer das pessoas com quem se envolve. Um dos lados quer sempre mais alguma coisa, ou com mais significado, e nunca ao mesmo tempo, o que conduz a um fim previsível. As sucessivas experiências levaram-no a desejar-esperar apenas, um amiga que perdure, alguém que partilhe a sua vida como se não estivesse ali para ficar ou partir, e que beba um copo de vinho consigo, ou converse apenas, e que se envolva ou não mas que o faça sem argumentos escritos ou invocações.

XX e XY nunca se cruzaram, pelo menos, de forma a conhecerem-se melhor, chocaram um com o outro à saída de um elevador num bloco de escritórios. Duas ou três palavras trocadas, e um fugaz relance, do rosto, da cor do cabelo, da textura das roupas, mais uma palavra de cada lado, à guisa de despedida, e os passos a dirigirem-se em direcções opostas, acrescendo distâncias, abismos intransponíveis no momentâneo sopro de uma vida.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...