O encontro deles foi numa estação de comboios, no intermezzo de horários trocados e truncados por uma greve. Eram para estar em dois cais diferentes, em comboios disparando em diferentes sentidos, e viram-se à mesma mesa de café, matando a fome com sandes colesterólicas embrulhadas em celofane, enquanto, à volta, as pessoas fala-discutiam, enervadas. Começaram a conversar, na tranquilidade pós-coital do seu ócio - o dia já estava perdido de qualquer forma - ele mais contido, sem muito que contar ou a quem, ela transbordando de sorrisos e palavras, falando à boca-cheia dos muitos amigos e família amiga, e livros e músicas pelos quais se sentia apaixonada. Da conversa passaram ao contacto escriturado, o número de telemóvel, para um dia, quem sabe? E esse dia foi logo no dia seguinte. Saíram os dois, deram uma queca, envolveram-se e enovelaram-se. Umas semanas depois, ela, ou ambos, ou cada um à vez, falou em casamento, casar ou juntar os trapinhos, e apanhar o comboio no mesmo sentido, sem greves. Vamos contar às famílias, declarou ela, animada. Não tenho, confessou o rapaz, não que eu conheça, amigos também não, alguns conhecidos, como o chefe da estação onde nos encontramos pela primeira vez. Ele será o teu padrinho, vem conhecer a minha família, dá bem para os dois! E sobejou. Um fim-de-semana inteirinho na estrada, a visitar este e aquele familiar, os tios e primos, as amigas de infância e os infantes dos primeiros namoricos, os pais expansivos, o irmão neurótico, a colega de escola que ainda esperava por ela, o vizinho da rua, que a havia pedido em casamento e jurado amor eterno. Nunca mais acaba? Pensava ele. E ela respondeu-lhe com uma promessa: no próximo fim-de-semana conhecemos o resto...não é bem o resto, mas para, já acho que já chega, e toda esta gente vai fazer parte da nossa vida futura, vais ver que vais gostar. Ele assustou-se, a sua solidão povoada estava a rebentar pelas costuras. Nesse instante, começou a arrepiar caminho para fora daquela relação, pelo seu próprio pé ou, tenho em conta onde se haviam conhecido, manobrando sozinho a zorra na linha férrea.

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