INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página
Não viu de onde ela tinha saído, apenas deu pela sua presença quando sentiu o toque suave da sua mão no ombro. Era alta, toda vestida de negro, com uma cabeleira avermelhada que coroava um rosto magro de uma palidez doentia. Sentaram-se os dois. Na pequena mesa, uma bola de cristal iluminava o ambiente como uma cúpula futurista.
- Agradeço a sua compreensão - começou ele, num falsete nervoso- sei que não faz muitas leituras, nem a muita gente, e é um privilégio estar aqui, e...
Calou-o a ponta dos dedos dela nos seus lábios. A sua expressão mudara, devia ter entrado em transe, e contentou-se em admirar o bailado gracioso dos seus dedos magros na superfície vítrea.
- É um homem sensível, com uma vida preenchida, vejo que se interessa pelos outros, e tem dois cães. Golden Retriever? Não, Cães de Água!
- Não tenho cães, aliás, acho que eles sentem alergia por mim, porque rosnam sempre quando me aproximo.
- Estranho, as imagens eram nítidas, alguém deve querer oferecer-lhe um casal de cães. No que toca às pessoas, duas mulheres, uma mais antiga, esposa decerto, outra mais jovem, brasileira, talvez amante ou simples amiga.
- Deve ser engano. Eu sou sozinho.
A vidente levantou os olhos para ele.
- Não está a brincar comigo, pois não, senhor Bartolomeu?
- Também não é esse o meu nome, chamo-me Francisco Correia. Posso mostrar-lhe os meus papéis, se tiver dúvidas.
- Só um momento, por favor!
A vidente levantou-se de um salto, puxou pela bainha dum cortinado negro, pondo a descoberto uma porta, por onde saiu, fechando-a atrás de si. Passara para uma sala mais ampla, moderna, profusamente iluminada. Onde estava ele?
- Já despachaste o pato, amor?
Encontrou-o deitado no sofá, com o portátil inclinado sobre uma almofada. Ela levantou o portátil com suavidade e pousou-o na mesinha em frente. Quando ele ia abrir a boca, esmagou os dedos da sua mão na face, com tanta violência que o corpo dele rolou para o chão como um boneco de palha.
- Bartolomeu, industrial da Cova da Beira, amante, dívidas...Porque é que eu tenho na sala um tipo chamado Francisco Correia com cara de quem nunca molhou o pincel?
- O Bartolomeu desmarcou há três semanas, a ficha do Correia estava ao lado da ficha dele, eu avisei-te!
Ela atirou-se para cima dele, a esgrimir os punhos. Ele reagiu, tentando segurar-lhe os braços, enquanto lhe assestava uma cabeçada na testa. Rolaram pelo chão, mordendo onde podiam, e as mãos procuraram os pescoços, procurando unir-se numa carícia estranguladora. Ela furtou o pescoço à pressão dos polegares e gritou:
- Espera, espera só um instante!
Desenlearam-se, ofegantes.
- Estou a ficar excitada!
- Eu também! Livra-te dele, diz-lhe para voltar daqui a umas duas horas! Dás uma olhada na ficha, e eu procuro mais alguma coisa, que livros lê na Biblioteca, que lugares frequenta na rede, qual o historial médico. Se quiseres, até te arranjo uma radiografia dos dentes dele, mas seguimos o processo usual, tens os dados, e o resto extrais pela dialéctica.
- Vou despachá-lo. Prepara as coisas.
- Cabedal?
Os olhos dela refulgiram, antevendo o que se seguiria.
- Sim! Black leather, black feather!
Sorrindo, compôs a cabeleira e esfregou o ombro onde sentia o latejar duma dentada. Cruzou a passagem. O simplório estava como o deixara, imóvel como uma estátua.
- Senhor Correia, estive a consultar os meus guias espirituais e este lugar está corrompido, o que explica a desordem das minhas leituras.
- Que guias espirituais? Almas do outro mundo?
- Não! Consciências supremas, você sabe, madame Blavatski, Joana d'Arc, as irmãs Justine e Juliette. Elas comunicaram-me que tenho de purificar este ônfalos, de modo a não me turvar a visão. Se o senhor puder voltar daqui a umas quatro horas, retomaremos a nossa sessão onde a deixamos, e responderei a todas as questões que o trouxeram aqui!
- Se tem de ser...
- É essencial, senhor Correia, tenho de restabelecer o equilíbrio dos subtis fluidos universais. Enquanto faz tempo, tente pensar também em coisas espirituais e elevadas, como Shambalah e Katmandu, estâncias de Dyzan e frases de Júlio Roberto.
- Assim farei, minha senhora. Acha que devo comprar alguma coisa, uma pata de coelho, ou um pouco de incenso?

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...