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Não é facil encontrar refúgio nas noites quentes de Verão, numa cidade ancorada ao lado dum lago quieto. Em todo o lado onde tentava dormir, as melgas atacavam-no sem clemência, picando a sua pele, que logo crescia em borbulhões arroxeados. Quando já desesperava de as sentir, viu diante de si, como numa aparição, um contentor de lixo, ainda reluzente de ter sido lavado. Abriu-o. Como suspeitava, nenhum lixo dentro, apenas algumas gotículas de água no fundo. Quase não tinha cheiro de lixo, apenas um vestígio ténue, menos intenso do que se desprendia da sua própria roupa. Sacudindo os braços em volta para afugentar as perseguidoras, saltou lá para dentro e fechou a tampa até sentir que ela ficava selado. Enroscou-se a um canto, esmagou uma melga infiltrada que o picara na bochecha, e pegou no sono. Umas horas depois acordou, sobressaltado. Ouvira um ruído. Alguém que ia despejar lixo? Não, a tampa não se abriu. Em vez disso, ouviu um farfalhar no plástico do contentor, parecia o ir e vir de uma trincha. Alguém pintava alguma coisa. Seria um graffiti? Uma frase incendiária? Um repto anarquista? Enquanto pensava no assunto, a obra terminou. Com os dedos, tentou reconstituir a memória auditiva do trajecto da trincha. Não tinha dúvidas, eram círculos, uns dentro de outros. Porque é que alguém pintaria círculos num contentor de lixo? A resposta veio com a primeira bala que atravessou o plástico.

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