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Depois de várias tentativas frustradas de suicídio, um dia acertou, e morreu mesmo. Esteve a ser velado na casa mortuária mas, na hora de enterrar, a família e os amigos tiveram uma surpresa. O padre e o autarca se haviam posto de acordo, e aquele corpo não podia descer à terra em solo consagrado, porque havia morrido às suas próprias mãos, e isso era contrário à vontade de Deus. De nada valeram os protestos, os argumentos, ou as súplicas, porque os dois poderes estavam unidos e o princípio era sumário: no cemitério residiam os cristãos, aqueles que seriam ressuscitados no último dia. Para o suicida, que perdera o direito de entrar no reino dos céus, só havia um lugar - um quinhão de terreno na parte de fora do cemitério, a alguns passos da linha férrea.
Resignada, a família aceitou, ainda que isso mexesse com os fígados de muitos. Numa cerimónia simples, o corpo desceu à terra, depois dum irmão seu ler em voz alta, um texto de desalento que ele escrevera em vida.
Compareceram muitas pessoas ao funeral, família, amigos de ambos os sexos e de diferentes fases da vida, conhecidos, namoradas antigas, a sua professora da Primária, os colegas do trabalho. No coração dessas pessoas, não havia nenhum muro de cimento a separá-las do jovem que era enterrado.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...