Dá muito trabalho, não fazer nada, o pessoal acha que é fácil ser desocupado, mas engana-se. Há muitas horas vazias para preencher, e se não temos método, podemos dar em malucos. O meu, é o método estatístico.
Deixo-me dormir e adormentar pela manhã até me doer o corpo de estar tantas horas deitado, então, levanto-me na casa vazia de sons, e visto-me sem olhar o relógio - só respeito ritmos orgânicos, da fome e sede, do sono, do cio; e por eles me guio. As manhãs são tenras, fáceis de roer, um pouco de roça-esquinas pela cidade, os conhecidos nas ruas ou junto à praça do mercado, com os quais se faz um update do universo, há sempre alguém que esbanjou dinheiro com um jornal, ou me convida para um café ou um copo de vinho - caso contrário, tenho eu de suportar a dolorosa - e deriva-se para a tasca da ordem, onde as novas se ouvem, e entre falatórios e notícias de jornal, os assuntos nunca faltam. Também é uma boa hora para cobiçar as fêmeas, estudar a anatomia, ser simpático e meter conversa, ou ser uma real besta e lançar um cumprimento brejeiro, que há delas que só assim é que engrenam.
Quando aperta a fome, e isso depende do que comi a meio da manhã, dou um salto a casa, quase sempre a desoras. Nunca lá apanho a mulher, mas isso é propositado. Se já por lá passou, e ela é um doce, deixa-me a comida num pratinho para aquecer no microondas, ou então, é um tacho ainda quente que me aguarda na grelha do fogão; se ainda não chegou, devoro qualquer coisa num ápice, uma sandes ou uma salada, e desapareço de cena antes que ela me venha encerar os ouvidos com os problemas do emprego e as chocalhices das colegas.
Uma vez na rua, enfrento a longa travessia das tardes. É aí, que os espíritos fracos vacilam e começam a repetir as mesmas rotinas da manhã, até elas se esvaziarem de sentido. Eu não. Retiro-me para o meu pequeno eremitério - uma esplanada de café onde me deixam ficar mesmo que não tome nada - puxo dos papéis da minha pasta e entretenho-me com as minhas estatísticas. Faço estatísticas de tudo, da frequência com que determinados números se repetem nas chaves dos jogos - e isso vai-me fazer rico, um dia - do número de vezes que uma determinada palavra é usada numa dada obra literária, a incidência de um nome pessoal no jornal do dia, das marcas dos carros estacionados na rua defronte, de tudo e de nada. Escrevo, escrituro, escrevinho, faço tabelas, somatórios, conclusões. Dou bom tom ao café, acho eu, atraindo outras almas emburradas com as suas leituras compulsivas e os seus rascunhos envergonhados; e, por esse motivo, sou um cliente-mascote bem tolerado. Depois de manter exercitados os meus neurónios durante umas horas, singro para o mesmo estaminé onde estive pela manhã, para reencontrar os restantes ócionautas, para bebermos uns copos e provar uns petiscos da casa, enquanto falamos com animação das nossas peripécias do dia.
Quando se faz noite - quase sempre, porque às vezes não me apetece - regresso ao ninho, aí por umas nove ou dez horas, que é a hora ideal, os t.p.c's dos miúdos já feitos, eles já deitados ou a caminho, o jantar feito ou por requentar, e a mulher exausta, ansiando por uma cama e um pouco de companhia. Aí, aí sim, faço o meu papel, porque a vida é feita de enormes cedências, e lá ouço dela as trivialidades do emprego, as coisas que viu pelo caminho, o que a directora da escola disse, os preços das coisas, isto e aquilo sem qualquer interesse, mas do qual as mulheres conseguem falar sem parar. Quando ela desliga, entretenho-me com a televisão, escalonando canais e programas até não conseguir manter os olhos abertos. Só então me concedo algum repouso, porque o trabalho aplicado requer muito equilíbrio pessoal.

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue