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"Custa vê-lo assim, para aqui deitado e cheio de tubos e cabos. É chocante, ele era uma pessoa cheia de vida...levantava-se sempre de madrugada, estivesse a trabalhar ou de férias, comia o sua refeição matinal e, quando dava por ele, estava sentado à mesa da cozinha a ler um livro que interrompera na véspera ou a ver as notícias, não conseguia estar quieto e inventava sempre coisas para fazer, era muito habilidoso com madeiras, passeava pelos pinhais e recolhia pedaços de madeira, ramos ou raízes, que talhava em figurinhas imaginárias, obedecendo às sugestões do material, às formas sugeridas pela natureza, os contornos, as nervuras. Tinha caixas cheias desses objectos, e ofereci-ao ás mãos-cheias aos amigos que revelavam algum interesse. Mas não era um solitário, metido em copas ou espadas, gostava das pessoas, de conviver com os amigos e de dar umas boas gargalhadas...»

Obrigado, amor, sei que a minha mão está fria como a mão de um cadáver, e que não consigo mover um músculo que seja, mas deixa estar a tua mão sobre a minha, que me sabe bem, como um Sol que me aquece através das imensas camadas sob as quais estou prisioneiro.

«Ainda há pouco tempo lhe dizia - desacelera um pouco, porque não somos nada, há alturas em que somos rios e há outras em que precisamos de aprender a ser lagos, a reflectir a luz, e descobrir as múltiplas formas de vida que albergamos em nós. Ele estava convencido de que ia desaparecer de um momento para o outro, e queria espremer o sumo da vida antes que fosse tarde de mais, mas era uma paranóia, logo ele que nunca teve uma doença que lhe conhecesse e que nunca vi tomar um remédio!».

Só aqueles que me deste nos últimos tempos, amor, porque eu tinha o sono muito agitado, e eles iam-me acalmar. Não prestavam aqueles remédios, faziam-me vomitar, mas dizias que era para o meu bem, para dormir melhor e viver mais tempo. Sempre preocupada comigo!

«Já vê como as coisas são, um homem sem doenças e, dum momento para o outro está em coma e sem dar sinais de vida. A vida é uma merda, mesmo! O querido doutor acha então que não vale a pena prolongar a espera?»
«Não, o cérebro dele é um vegetal, e não dá sinais de vida. As máquinas não mentem, como todos podemos ver. Desligar as máquinas e conceder-lhe o repouso final depende apenas da vossa vontade».
«Bem, se não há nada que se possa fazer, mais vale acabar com tudo e dar-lhe paz»

Não, amor! Estou aqui, estou vivo, olhem as máquinas, olhem as minhas ondas cerebrais. ESSTOOU AQQUIIII!

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