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A pequena povoação de umas vinte casas, estava quase afastada do mundo. Todas as outras povoações em volta tinham um nome digno, sobre o qual se podia rezar uma história ou historieta, verdadeira ou inventada, mas àquela, chamavam apenas o Casalinho, sem mais sobrenomes ou apelidos. O seu centro e a sua Baixa, era uma taberna, onde se bebia um copo, apostava-se no Euromilhões e se lia os jornais de há duas semanas que alguém ali deixara; e, nas traseiras, na cocorva da casa, tinha ainda um cubículo a servir de mercearia, onde todos viam a validade dos produtos antes de os pagar. Num banco corrido à porta, sentavam-se as pessoas, sobretudo ao entardecer, depois da faina dos campos e de dar de comer à bicharada. Sentavam-se e conversavam longamente até serem horas de jantar, ou se desagradarem com a aragem fria que ameaçava debilitar os ossos gastos. Foi numa dessas conversas que se gerou o equívoco. Alguém que lia imperfeitamente um jornal pretérito, anunciou que já havia um milionário na terra - o nome do Zé Alberto estava no jornal como um dos vencedores do Euromilhões. Todos se levantaram e rodearam o leitor entusiasmado, como benévolos conspiradores. O Zé Alberto, o filho da Francelina, rico! De repente, o Zé Alberto era de todos e todos se lembravam de alguma dívida de gratidão que o Zé Alberto tinha para com eles, um havia-o ensinado a andar de bicicleta quando ele era puto, outro levara-o na boleia do camião quando fizera uma carga de abóboras até à fábrica, a outros devia uns euros duma grade de cerveja, a desforra no snooker, ou um Bom-Dia omitido.
No dia seguinte, o Casalinho era o feudo do Zé Alberto. Uma modesta multidão esperava-o à porta de casa. Saudaram em coro o jovem, obrigaram-no a deixar a enxada e a acompanhá-los. Outro conterrâneo pegou na sua enxada e foi amanhar generosamente o seu bocado de terra, enquanto uma matrona informava a mulher dele que o marido enriquecera, e logo ela deitou-se a meter em sacos de lixo toda a roupa e sapatos dos armários, convencida de que receberia um guarda-roupa novo. Na taberna, o vinho sublimou a exaltação de todos, fizeram-se discursos, gritou-se Vivas, e anteviu-se um futuro radioso para a terra - o Casalinho iria tornar-se um Casal, mas não um casal qualquer, mas sim o Casal do Zé Alberto. Só ao fim de cinco ou seis copos de vinho, é que o aludido, o alegado milionário, se apercebeu da causa de tanta festa, e caiu em si. Aclarando a voz, pediu a palavra. Os conterrâneos não só lha concederam, mas fizeram questão de levá-lo em ombros até ao banco da praça, para que ele a partilhasse com todos. E ele, envergonhado, desferiu a machadada. É tudo uma confusão, eu não sou milionário, gritou, para consternação geral, eu nunca joguei no Euromilhões! Num ápice, todos se dispersaram, e o Casalinho pareceu ter ficado sem ninguém como se tivessem partido; todos, à excepção do taberneiro, que contrariando o movimento geral, aproximou-se solitariamente dele para lhe enfiar num bolso, um papelinho com a conta da despesa.
Ostracizado, regressou a casa, que também não parecia sua. A mulher e os filhos choravam amargamente, sentados nos degraus da frente, e quando fez menção de entrar, viu o seu caminho barrado pelo seu próprio cão, que rosnava como se ele fosse um ladrão.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...