Atarôtado

Junto ao aeroporto, olhou num relance a paragem dos táxis e escolheu um, o único preto de tejadilho verde, numa irmandade de táxis amarelos. Indicou uma morada ao condutor, e acomodou-se no banco de trás, depositando ao seu lado, no assento, uma pequena mala de viagem.
O taxista conduziu-o através da cidade, num passeio quase turístico, não fora a velocidade com que o carro flertava com a proximidade doutros carros e pessoas. Um olhar atento pelo espelho retrovisor foi o suficiente para o taxista constatar pela cara de desagrado do passageiro que ele não estava a apreciar as vistas e, resignadamente, deixou-se de rodeios e obedeceu tardiamente à solicitação do passageiro.
Deixou para trás as largas avenidas arborizadas, e saíram da cidade. Uma hora de viagem por estradas secundárias através de vilas e vilórias, até atingirem uma aldeia, encastelada na encosta dum monte. Quando ia recorrer ao GPS, o passageiro fez o papel de guia e indicou-lhe o caminho a seguir naquele meandro de ruas estreitas, com casinhas pequenas de jardim fronteiro, e crianças a jogar à bola no alcatrão, e velhas de negro como corvos decrépitos, a olhar o mundo por janelas de madeira pintada.
Rua do Moinho, quarenta e dois. Quarenta e oito, seis, quatro. Parou o carro onde devia ser o quarenta e dois. Um terreno aberto com uma casa em ruínas.
- Aguarde um minuto, e já voltamos à cidade!
Concordou -tanto melhor! E desligou o carro, mantendo a companhia do rádio.
O passageiro saiu do carro com gestos lentos e aproximou-se da casa. O telhado abatera, e as silvas haviam conquistado o espaço, pintalgadas pelo vermelho de sangue das papoilas. Caminhou à volta dela, apanhou do meio das ervas um fragmento de louça dalgum prato antigo, e revirou-o na mão, como se o tivesse identificado, a cor esverdeada ou o desenho truncado duma flor-de-lis.
Encaminhou-se para o carro. Junto ao que restava do muro da frente, uma caixa de correio em cimento e pedra ainda se mantinha sobre uma coluna quadrada. A chapa da testa pendia, mas a porta do lado de dentro ainda estava intacta, soldada pela ferrugem. Apanhou uma pedra do chão e deu-lhe uma martelada a um canto, fazendo-o saltar. Abaixou-se junto a ela, com os dedos a esquadrinhar-lhe ansiosamente o ventre, mas não encontrou nada. Colocou a pedra no muro e voltou ao carro.
O motorista, que o observava, ficara espevitado pelo inesperado daquele acto.
- Estava à procura de carta? Era importante?
- Podia ter sido...há vinte anos!
E calou-se, calando o olhar expectante do motorista. Uma carta, a porcaria dum pedaço de papel, teria feito toda a diferença, a subtil e brutal diferença entre apenas existir, carregando com os dias, e viver plenamente como se todos os dias duma vida não chegassem para tal.
- Para onde, agora?
- Para a cidade, um sítio qualquer, onde possa alugar um quarto.

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