INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página
Não é facil encontrar refúgio nas noites quentes de Verão, numa cidade ancorada ao lado dum lago quieto. Em todo o lado onde tentava dormir, as melgas atacavam-no sem clemência, picando a sua pele, que logo crescia em borbulhões arroxeados. Quando já desesperava de as sentir, viu diante de si, como numa aparição, um contentor de lixo, ainda reluzente de ter sido lavado. Abriu-o. Como suspeitava, nenhum lixo dentro, apenas algumas gotículas de água no fundo. Quase não tinha cheiro de lixo, apenas um vestígio ténue, menos intenso do que se desprendia da sua própria roupa. Sacudindo os braços em volta para afugentar as perseguidoras, saltou lá para dentro e fechou a tampa até sentir que ela ficava selado. Enroscou-se a um canto, esmagou uma melga infiltrada que o picara na bochecha, e pegou no sono. Umas horas depois acordou, sobressaltado. Ouvira um ruído. Alguém que ia despejar lixo? Não, a tampa não se abriu. Em vez disso, ouviu um farfalhar no plástico do contentor, parecia o ir e vir de uma trincha. Alguém pintava alguma coisa. Seria um graffiti? Uma frase incendiária? Um repto anarquista? Enquanto pensava no assunto, a obra terminou. Com os dedos, tentou reconstituir a memória auditiva do trajecto da trincha. Não tinha dúvidas, eram círculos, uns dentro de outros. Porque é que alguém pintaria círculos num contentor de lixo? A resposta veio com a primeira bala que atravessou o plástico.

Sabes que o cavalo é um bicho divino? Ela sabia. Não me canso de os olhar, era capaz de estar aqui horas, dias, a olhar para eles. Sabes disso, não sabes? Sabia! Os olhos dele saciavam-se no movimento dos animais lá embaixo, a pastar morosamente, belíssimas criaturas de pêlo castanho fulvo que de tempos a tempos erguiam a cabeça, em resposta a algum som diferente, ou procurando a sua figura reclinada na cadeira de espaldar do alpendre, uma figura pequena mas familiar, um detalhe da paisagem que a esposa mantinha, alimentando-o e lavajando o seu corpo jovem e atrofiado.

tocar a terra

Na perpendicular da rua, recta e chã, havia uma rua muito inclinada, onde a garotada da rua fazia corridas, cronometrando a descida em carros de rolamentos. O equipamento era rudimentar, uma tábua pintada, um eixo fixo atrás e um, manobrável, à frente, domado por umas rédeas em corda.

O carro do Pedro não era dos melhores, e era uma bondade dizê-lo dessa forma, porque ficava sempre para trás nas provas, logo à frente do Ruizinho, que não tinha carro e arbitrava meticulosamente as corridas com o relógio-cronómetro que o pai mandara do Canadá.

Cansado de ser um derrotado, Pedro acrescentou ao carro duas asas em contraplacado, e prometeu a todos que iria ser o melhor. O autódromo de rua encheu-se de gente para ver a prova. O Pedro atacou a descida íngreme com uma fezada terrível, e a cara de todos acusou o assombro de assistir àquela descida insólita.

Cumprido o percurso, Ruizinho, o árbitro, enfrentou dúvidas de índole técnico. Não sabia, se havia de apontar a passagem do Pedro a sobrevoar a meta, ou o instante em que Pedro, o carro e as asas, se enfeixaram na copa da alfarrobeira do senhor Marques.

Ne me quitte pas - Jacques Brel

(…)
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'apres ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
(…)
Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
À te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
(…)

"Custa vê-lo assim, para aqui deitado e cheio de tubos e cabos. É chocante, ele era uma pessoa cheia de vida...levantava-se sempre de madrugada, estivesse a trabalhar ou de férias, comia o sua refeição matinal e, quando dava por ele, estava sentado à mesa da cozinha a ler um livro que interrompera na véspera ou a ver as notícias, não conseguia estar quieto e inventava sempre coisas para fazer, era muito habilidoso com madeiras, passeava pelos pinhais e recolhia pedaços de madeira, ramos ou raízes, que talhava em figurinhas imaginárias, obedecendo às sugestões do material, às formas sugeridas pela natureza, os contornos, as nervuras. Tinha caixas cheias desses objectos, e ofereci-ao ás mãos-cheias aos amigos que revelavam algum interesse. Mas não era um solitário, metido em copas ou espadas, gostava das pessoas, de conviver com os amigos e de dar umas boas gargalhadas...»

Obrigado, amor, sei que a minha mão está fria como a mão de um cadáver, e que não consigo mover um músculo que seja, mas deixa estar a tua mão sobre a minha, que me sabe bem, como um Sol que me aquece através das imensas camadas sob as quais estou prisioneiro.

«Ainda há pouco tempo lhe dizia - desacelera um pouco, porque não somos nada, há alturas em que somos rios e há outras em que precisamos de aprender a ser lagos, a reflectir a luz, e descobrir as múltiplas formas de vida que albergamos em nós. Ele estava convencido de que ia desaparecer de um momento para o outro, e queria espremer o sumo da vida antes que fosse tarde de mais, mas era uma paranóia, logo ele que nunca teve uma doença que lhe conhecesse e que nunca vi tomar um remédio!».

Só aqueles que me deste nos últimos tempos, amor, porque eu tinha o sono muito agitado, e eles iam-me acalmar. Não prestavam aqueles remédios, faziam-me vomitar, mas dizias que era para o meu bem, para dormir melhor e viver mais tempo. Sempre preocupada comigo!

«Já vê como as coisas são, um homem sem doenças e, dum momento para o outro está em coma e sem dar sinais de vida. A vida é uma merda, mesmo! O querido doutor acha então que não vale a pena prolongar a espera?»
«Não, o cérebro dele é um vegetal, e não dá sinais de vida. As máquinas não mentem, como todos podemos ver. Desligar as máquinas e conceder-lhe o repouso final depende apenas da vossa vontade».
«Bem, se não há nada que se possa fazer, mais vale acabar com tudo e dar-lhe paz»

Não, amor! Estou aqui, estou vivo, olhem as máquinas, olhem as minhas ondas cerebrais. ESSTOOU AQQUIIII!

«Quatro Estações, à Carbonara, Napolitana, Calzone, Maravilha...Gosto de todas. Escolhe tu e eu sigo-te as pizzadas!».

O ammor sem Prontuário Ortográfico

A sede e o pote

Mens sana in corpore sano”, era a máxima preferida do padre Vicente. Naquele final de semestre, ele decidiu exemplificá-la. Reuniu toda a sua classe de seminaristas e com o conluio de dois colegas, organizou uma expedição campestre ao Alentejo.

O padre Vicente era natural da Andaluzia. Malgrado os muitos anos que vivia em Portugal, ainda não se desembaraçara da sua pronúncia carregada. De grande estatura e feições arredondadas, era uma pessoa afável e simpática, mostrando-se possuidor de um amor indefectível por toda a obra divina em todas as suas formas e manifestações. O seu respeito e admiração pelos outros era um dos atributos da sua natureza mística e apaixonada, capaz de se maravilhar do mesmo modo com um salmo da Bíblia ou com o riso de uma pessoa.

O padre Vicente era o nosso mestre preferido. Ele não precisava de usar a autoridade ou a disciplina para travar o nosso ímpeto e a nossa jovialidade, porque todos os seminaristas se submetiam ao seu carisma e à sua inteligência. Nas conversas que desenrolava connosco nos jardins do Seminário, intercalava os seus ensinamentos de doutrina com arrazoados apaixonantes sobre a natureza das estrelas, as propriedades do mercúrio, ou os vestígios de civilizações antigas. Sentíamos alegria em ouvi-lo, e o nosso espanto devia-se tanto aos seus conhecimentos como ao generoso talento com que ele os transmitia

Ultimaram-se os preparativos para a viagem de estudo, e saímos do Seminário numa terça-feira de madrugada. Durante toda a viagem de autocarro, o padre Vicente procurou fazer-nos esquecer o tédio tristonho, inventando jogos ou sugerindo melodias a um dos seminaristas, que era exímio a tocar guitarra. Outra constante, eram as suas chamadas de atenção para os pormenores da paisagem que corria à nossa volta, sublinhados por uma frase que já ouvíramos da sua boca - “A beleza, como o amor de Deus, encontra-se dentro de vocês” - lembrava com a sua pronúncia engraçada - “vocês nunca vão deixar de reencontrá-la no mundo se não a perderem de vista nos vossos corações”.

Rolávamos já por uma planície aparentemente sem fim, quando os três sacerdotes chegaram a acordo e decidiram que podíamos interromper a nossa expedição. Apeamo-nos todos e o padre Vicente explicou-nos a ordem de trabalhos - o motorista do autocarro e os três sacerdotes ficariam dentro dele para debater as virtudes do ensino aliadas à salutar vida campestre, enquanto nós, os seminaristas, iríamos dar um passeio pela planície para activar o sangue e fazê-lo irrigar o cérebro. Ao meio-dia, regressaríamos para um apetecido almoço em grupo, após o que se iria à procura de um lugar fresco para revermos algumas noções de teologia. Concordamos, achando que o plano era interessante, apesar nos ocorrer a todos, que os quatro homens iam aproveitar para dormir um pouco.

O nosso grupo partiu alegremente. A uma cautelosa distância do autocarro, começamos a intercalar algumas canções desafinadas com anedotas picantes sobre padres e freiras. O Sol começou a castigar-nos, dardejando os seus raios do alto de um céu sem nuvens, e uma voz no meio do grupo sugeriu que procurássemos a aldeia mais próxima para verificarmos se possuía mulheres capazes de fazerem o sangue irrigar-nos os membros. Rimos com vontade e continuamos no mesmo ambiente de paródia e brincadeira, mas o calor, a sede e o desconforto da marcha iam-nos vencendo gradualmente. Depois a paisagem era sempre igual e sem detalhes, e só de longe a longe se avistava uma pessoa. E o pó, o pó era insuportável, colando-se ao suor do corpo como uma segunda pele em formação.

Avistamos o que parecia ser um edifício à nossa frente e encaminhamo-nos para ele, para depressa descobrirmos o logro: era uma simples eira circular, sobre a qual haviam erguido um improvisado telhado de tábuas e canas e, espalhados pelo chão, havia restos de lixo e fitas coloridas. Deveria ter havido alguma festa ou romaria, mas não encontramos vivalma em redor. Um de nós descobriu então, num monte próximo, o que nos pareceu tão milagroso como o maná dos céus: um grupo de frondosos medronheiros carregados de frutos. O nosso grupo rodeou os medronheiros com gritos de alegria, e começamos a devastar os arbustos, colhendo os medronhos à mão-cheia e entesourando os frutos nas camisolas dobradas. Os mais rápidos e expeditos, iam-se refugiando na sombra da eira, empanturrando-se deliciadamente com os frutos sumarentos.

Os que haviam ficado no autocarro esperaram longamente pelo nosso regresso, estranhando a nossa demora. Era de supor que nos tivéssemos alongado no passeio, mas parecia-lhes absurdo que fossemos capazes de sacrificar o almoço. Foram no nosso encalço, com o autocarro aos sacalões por uma estrada de terra batida que apontava na direcção que havíamos tomado. Os três sacerdotes perscrutavam a paisagem e, como nós, foram atraídos por aquela estrutura anómala na planície.

Acorreram preocupados e descobriram-nos dentro da eira e em redor. Nenhum de nós estava renitente à ideia de ir almoçar. Estávamos, simplesmente narcotizados pelos medronhos ingeridos, atirados um para cada lado como moribundos, uns a gemer com as mãos agarradas à cabeça, e outros a vomitar ruidosamente sobre a areia. Os nossos mestres cruzaram aquele cenário medonho com uma expressão de grande assombro, fazendo perguntas às quais ninguém era capaz de responder com coerência. O padre Vicente foi o primeiro a aperceber-se da causa daquela momentânea loucura, e quando o fez começou a rir às gargalhadas, acudindo-nos com um sorriso mordaz nos lábios. Carregaram-nos em braços para dentro do autocarro e iniciamos o regresso. O autocarro parecia agora uma ambulância gigantesca carregada de sofrimento e agonia, como se estivesse a evacuar feridos dalguma frente de combate.

Nunca mais nos esquecemos daquela memorável aula campestre, que nos inspirou um aforismo em latim bárbaro que a nossa classe ostentava como uma divisa: “mens medrona in corpore medrono”. E o padre Vicente, o nosso extraordinário e saudoso mestre, enquanto privamos com ele, teve sempre a gentileza de nos oferecer pelo dia de Reis, uma cestinha de vime cheia de polpudos medronhos.

Contículo

A pequena povoação de umas vinte casas, estava quase afastada do mundo. Todas as outras povoações em volta tinham um nome digno, sobre o qual se podia rezar uma história ou historieta, verdadeira ou inventada, mas àquela, chamavam apenas o Casalinho, sem mais sobrenomes ou apelidos. O seu centro e a sua Baixa, era uma taberna, onde se bebia um copo, apostava-se no Euromilhões e se lia os jornais de há duas semanas que alguém ali deixara; e, nas traseiras, na cocorva da casa, tinha ainda um cubículo a servir de mercearia, onde todos viam a validade dos produtos antes de os pagar. Num banco corrido à porta, sentavam-se as pessoas, sobretudo ao entardecer, depois da faina dos campos e de dar de comer à bicharada. Sentavam-se e conversavam longamente até serem horas de jantar, ou se desagradarem com a aragem fria que ameaçava debilitar os ossos gastos. Foi numa dessas conversas que se gerou o equívoco. Alguém que lia imperfeitamente um jornal pretérito, anunciou que já havia um milionário na terra - o nome do Zé Alberto estava no jornal como um dos vencedores do Euromilhões. Todos se levantaram e rodearam o leitor entusiasmado, como benévolos conspiradores. O Zé Alberto, o filho da Francelina, rico! De repente, o Zé Alberto era de todos e todos se lembravam de alguma dívida de gratidão que o Zé Alberto tinha para com eles, um havia-o ensinado a andar de bicicleta quando ele era puto, outro levara-o na boleia do camião quando fizera uma carga de abóboras até à fábrica, a outros devia uns euros duma grade de cerveja, a desforra no snooker, ou um Bom-Dia omitido.
No dia seguinte, o Casalinho era o feudo do Zé Alberto. Uma modesta multidão esperava-o à porta de casa. Saudaram em coro o jovem, obrigaram-no a deixar a enxada e a acompanhá-los. Outro conterrâneo pegou na sua enxada e foi amanhar generosamente o seu bocado de terra, enquanto uma matrona informava a mulher dele que o marido enriquecera, e logo ela deitou-se a meter em sacos de lixo toda a roupa e sapatos dos armários, convencida de que receberia um guarda-roupa novo. Na taberna, o vinho sublimou a exaltação de todos, fizeram-se discursos, gritou-se Vivas, e anteviu-se um futuro radioso para a terra - o Casalinho iria tornar-se um Casal, mas não um casal qualquer, mas sim o Casal do Zé Alberto. Só ao fim de cinco ou seis copos de vinho, é que o aludido, o alegado milionário, se apercebeu da causa de tanta festa, e caiu em si. Aclarando a voz, pediu a palavra. Os conterrâneos não só lha concederam, mas fizeram questão de levá-lo em ombros até ao banco da praça, para que ele a partilhasse com todos. E ele, envergonhado, desferiu a machadada. É tudo uma confusão, eu não sou milionário, gritou, para consternação geral, eu nunca joguei no Euromilhões! Num ápice, todos se dispersaram, e o Casalinho pareceu ter ficado sem ninguém como se tivessem partido; todos, à excepção do taberneiro, que contrariando o movimento geral, aproximou-se solitariamente dele para lhe enfiar num bolso, um papelinho com a conta da despesa.
Ostracizado, regressou a casa, que também não parecia sua. A mulher e os filhos choravam amargamente, sentados nos degraus da frente, e quando fez menção de entrar, viu o seu caminho barrado pelo seu próprio cão, que rosnava como se ele fosse um ladrão.

Não viu de onde ela tinha saído, apenas deu pela sua presença quando sentiu o toque suave da sua mão no ombro. Era alta, toda vestida de negro, com uma cabeleira avermelhada que coroava um rosto magro de uma palidez doentia. Sentaram-se os dois. Na pequena mesa, uma bola de cristal iluminava o ambiente como uma cúpula futurista.
- Agradeço a sua compreensão - começou ele, num falsete nervoso- sei que não faz muitas leituras, nem a muita gente, e é um privilégio estar aqui, e...
Calou-o a ponta dos dedos dela nos seus lábios. A sua expressão mudara, devia ter entrado em transe, e contentou-se em admirar o bailado gracioso dos seus dedos magros na superfície vítrea.
- É um homem sensível, com uma vida preenchida, vejo que se interessa pelos outros, e tem dois cães. Golden Retriever? Não, Cães de Água!
- Não tenho cães, aliás, acho que eles sentem alergia por mim, porque rosnam sempre quando me aproximo.
- Estranho, as imagens eram nítidas, alguém deve querer oferecer-lhe um casal de cães. No que toca às pessoas, duas mulheres, uma mais antiga, esposa decerto, outra mais jovem, brasileira, talvez amante ou simples amiga.
- Deve ser engano. Eu sou sozinho.
A vidente levantou os olhos para ele.
- Não está a brincar comigo, pois não, senhor Bartolomeu?
- Também não é esse o meu nome, chamo-me Francisco Correia. Posso mostrar-lhe os meus papéis, se tiver dúvidas.
- Só um momento, por favor!
A vidente levantou-se de um salto, puxou pela bainha dum cortinado negro, pondo a descoberto uma porta, por onde saiu, fechando-a atrás de si. Passara para uma sala mais ampla, moderna, profusamente iluminada. Onde estava ele?
- Já despachaste o pato, amor?
Encontrou-o deitado no sofá, com o portátil inclinado sobre uma almofada. Ela levantou o portátil com suavidade e pousou-o na mesinha em frente. Quando ele ia abrir a boca, esmagou os dedos da sua mão na face, com tanta violência que o corpo dele rolou para o chão como um boneco de palha.
- Bartolomeu, industrial da Cova da Beira, amante, dívidas...Porque é que eu tenho na sala um tipo chamado Francisco Correia com cara de quem nunca molhou o pincel?
- O Bartolomeu desmarcou há três semanas, a ficha do Correia estava ao lado da ficha dele, eu avisei-te!
Ela atirou-se para cima dele, a esgrimir os punhos. Ele reagiu, tentando segurar-lhe os braços, enquanto lhe assestava uma cabeçada na testa. Rolaram pelo chão, mordendo onde podiam, e as mãos procuraram os pescoços, procurando unir-se numa carícia estranguladora. Ela furtou o pescoço à pressão dos polegares e gritou:
- Espera, espera só um instante!
Desenlearam-se, ofegantes.
- Estou a ficar excitada!
- Eu também! Livra-te dele, diz-lhe para voltar daqui a umas duas horas! Dás uma olhada na ficha, e eu procuro mais alguma coisa, que livros lê na Biblioteca, que lugares frequenta na rede, qual o historial médico. Se quiseres, até te arranjo uma radiografia dos dentes dele, mas seguimos o processo usual, tens os dados, e o resto extrais pela dialéctica.
- Vou despachá-lo. Prepara as coisas.
- Cabedal?
Os olhos dela refulgiram, antevendo o que se seguiria.
- Sim! Black leather, black feather!
Sorrindo, compôs a cabeleira e esfregou o ombro onde sentia o latejar duma dentada. Cruzou a passagem. O simplório estava como o deixara, imóvel como uma estátua.
- Senhor Correia, estive a consultar os meus guias espirituais e este lugar está corrompido, o que explica a desordem das minhas leituras.
- Que guias espirituais? Almas do outro mundo?
- Não! Consciências supremas, você sabe, madame Blavatski, Joana d'Arc, as irmãs Justine e Juliette. Elas comunicaram-me que tenho de purificar este ônfalos, de modo a não me turvar a visão. Se o senhor puder voltar daqui a umas quatro horas, retomaremos a nossa sessão onde a deixamos, e responderei a todas as questões que o trouxeram aqui!
- Se tem de ser...
- É essencial, senhor Correia, tenho de restabelecer o equilíbrio dos subtis fluidos universais. Enquanto faz tempo, tente pensar também em coisas espirituais e elevadas, como Shambalah e Katmandu, estâncias de Dyzan e frases de Júlio Roberto.
- Assim farei, minha senhora. Acha que devo comprar alguma coisa, uma pata de coelho, ou um pouco de incenso?
Dá muito trabalho, não fazer nada, o pessoal acha que é fácil ser desocupado, mas engana-se. Há muitas horas vazias para preencher, e se não temos método, podemos dar em malucos. O meu, é o método estatístico.
Deixo-me dormir e adormentar pela manhã até me doer o corpo de estar tantas horas deitado, então, levanto-me na casa vazia de sons, e visto-me sem olhar o relógio - só respeito ritmos orgânicos, da fome e sede, do sono, do cio; e por eles me guio. As manhãs são tenras, fáceis de roer, um pouco de roça-esquinas pela cidade, os conhecidos nas ruas ou junto à praça do mercado, com os quais se faz um update do universo, há sempre alguém que esbanjou dinheiro com um jornal, ou me convida para um café ou um copo de vinho - caso contrário, tenho eu de suportar a dolorosa - e deriva-se para a tasca da ordem, onde as novas se ouvem, e entre falatórios e notícias de jornal, os assuntos nunca faltam. Também é uma boa hora para cobiçar as fêmeas, estudar a anatomia, ser simpático e meter conversa, ou ser uma real besta e lançar um cumprimento brejeiro, que há delas que só assim é que engrenam.
Quando aperta a fome, e isso depende do que comi a meio da manhã, dou um salto a casa, quase sempre a desoras. Nunca lá apanho a mulher, mas isso é propositado. Se já por lá passou, e ela é um doce, deixa-me a comida num pratinho para aquecer no microondas, ou então, é um tacho ainda quente que me aguarda na grelha do fogão; se ainda não chegou, devoro qualquer coisa num ápice, uma sandes ou uma salada, e desapareço de cena antes que ela me venha encerar os ouvidos com os problemas do emprego e as chocalhices das colegas.
Uma vez na rua, enfrento a longa travessia das tardes. É aí, que os espíritos fracos vacilam e começam a repetir as mesmas rotinas da manhã, até elas se esvaziarem de sentido. Eu não. Retiro-me para o meu pequeno eremitério - uma esplanada de café onde me deixam ficar mesmo que não tome nada - puxo dos papéis da minha pasta e entretenho-me com as minhas estatísticas. Faço estatísticas de tudo, da frequência com que determinados números se repetem nas chaves dos jogos - e isso vai-me fazer rico, um dia - do número de vezes que uma determinada palavra é usada numa dada obra literária, a incidência de um nome pessoal no jornal do dia, das marcas dos carros estacionados na rua defronte, de tudo e de nada. Escrevo, escrituro, escrevinho, faço tabelas, somatórios, conclusões. Dou bom tom ao café, acho eu, atraindo outras almas emburradas com as suas leituras compulsivas e os seus rascunhos envergonhados; e, por esse motivo, sou um cliente-mascote bem tolerado. Depois de manter exercitados os meus neurónios durante umas horas, singro para o mesmo estaminé onde estive pela manhã, para reencontrar os restantes ócionautas, para bebermos uns copos e provar uns petiscos da casa, enquanto falamos com animação das nossas peripécias do dia.
Quando se faz noite - quase sempre, porque às vezes não me apetece - regresso ao ninho, aí por umas nove ou dez horas, que é a hora ideal, os t.p.c's dos miúdos já feitos, eles já deitados ou a caminho, o jantar feito ou por requentar, e a mulher exausta, ansiando por uma cama e um pouco de companhia. Aí, aí sim, faço o meu papel, porque a vida é feita de enormes cedências, e lá ouço dela as trivialidades do emprego, as coisas que viu pelo caminho, o que a directora da escola disse, os preços das coisas, isto e aquilo sem qualquer interesse, mas do qual as mulheres conseguem falar sem parar. Quando ela desliga, entretenho-me com a televisão, escalonando canais e programas até não conseguir manter os olhos abertos. Só então me concedo algum repouso, porque o trabalho aplicado requer muito equilíbrio pessoal.

Da poesia

DECLAMADOR: Que os versos deste senhor, estejam convosco.
AUDIÊNCIA, EM CORO: Tamen!!!
Sentia uma saudade indefinida de algo que nunca teve ou nunca amou.
Vivia na esperança de que o seu passado pudesse ser reinventado.

«Não é o que tu estás a pensar! É aquele tratamento de fertilidade que eu te falei!».

Frase 1

Quem come carne, tem de matar duas vezes a fome.

Frase 2

Quando o coração se gangrena de ódio, não há luz que seque o pus.

- Agora, só um milagre! - disse-lhe o médico no sala de desespera.
Ela retirou-se, da sala e do Hospital; fugiu para o passeio movimentado onde chovia e, à sua maneira, sem palavras decoradas - apenas lágrimas e agonia - rezou por um.

Jogo

- Doeu assim tanto? - perguntou o dentista, depois de lhe arrancar o dinheiro todo da carteira.
- Nem imaginas quanto!
- Se soubesse, tinha usado anestesia.
Flertaram sem mais consequências durante tantos anos, que continuavam a ver-se e a conversar nos mesmos cafés e cinemas, aproveitando os descontos do cartão 65.

Na sua vida próspera, colunável e invejada, erguida sobre a morte da esposa rica, teve de usar tampões nos ouvidos para calar a voz da consciência.

Da Angi:


(Gravura de M. C. Escher: Dia e Noite)

O encontro deles foi numa estação de comboios, no intermezzo de horários trocados e truncados por uma greve. Eram para estar em dois cais diferentes, em comboios disparando em diferentes sentidos, e viram-se à mesma mesa de café, matando a fome com sandes colesterólicas embrulhadas em celofane, enquanto, à volta, as pessoas fala-discutiam, enervadas. Começaram a conversar, na tranquilidade pós-coital do seu ócio - o dia já estava perdido de qualquer forma - ele mais contido, sem muito que contar ou a quem, ela transbordando de sorrisos e palavras, falando à boca-cheia dos muitos amigos e família amiga, e livros e músicas pelos quais se sentia apaixonada. Da conversa passaram ao contacto escriturado, o número de telemóvel, para um dia, quem sabe? E esse dia foi logo no dia seguinte. Saíram os dois, deram uma queca, envolveram-se e enovelaram-se. Umas semanas depois, ela, ou ambos, ou cada um à vez, falou em casamento, casar ou juntar os trapinhos, e apanhar o comboio no mesmo sentido, sem greves. Vamos contar às famílias, declarou ela, animada. Não tenho, confessou o rapaz, não que eu conheça, amigos também não, alguns conhecidos, como o chefe da estação onde nos encontramos pela primeira vez. Ele será o teu padrinho, vem conhecer a minha família, dá bem para os dois! E sobejou. Um fim-de-semana inteirinho na estrada, a visitar este e aquele familiar, os tios e primos, as amigas de infância e os infantes dos primeiros namoricos, os pais expansivos, o irmão neurótico, a colega de escola que ainda esperava por ela, o vizinho da rua, que a havia pedido em casamento e jurado amor eterno. Nunca mais acaba? Pensava ele. E ela respondeu-lhe com uma promessa: no próximo fim-de-semana conhecemos o resto...não é bem o resto, mas para, já acho que já chega, e toda esta gente vai fazer parte da nossa vida futura, vais ver que vais gostar. Ele assustou-se, a sua solidão povoada estava a rebentar pelas costuras. Nesse instante, começou a arrepiar caminho para fora daquela relação, pelo seu próprio pé ou, tenho em conta onde se haviam conhecido, manobrando sozinho a zorra na linha férrea.

Nunca é fácil começar uma história

(...)
à terceira tentativa conseguiu tirar o balde de dentro do poço, alumiada na noite densa pelo quadrado de luz da janela da sala. Mergulhou na sua água fresca a pele gravada a vermelho pela corda de sisal, e não soube mais o que fazer, porque as mãos haviam-se liquefeito na água, fundiram-se os dois elementos numa simpatia alquímica, isso era o que sabia, e esse conhecimento ainda lhe deixou uns segundos de lucidez, o bastante para que um grito inútil se soltasse da sua garganta, antes de toda ela se liquefazer também num charco efémero aos pés da roseira, e do regador de lata - que era para regar a roseira depois do calor do dia, que era isso que viera fazer.

Desejos 1

- Gosto tanto de ti, que só estar perto de ti me faz doer o coração. Pede-me o que quiseres e eu consigo-te!
- A lua
- Vou comprar-te a lua. Vai-me custar uma fortuna, tenho de subornar umas quantas pessoas e mover uma guerra burocrática, mas trago-te a lua; não volto para ti sem ela.
E saiu para ir comprar a lua. Uns meses depois voltou, teso e cheio de cicatrizes, mas com um recibo e um certificado comprovativo como despojos de guerra.
- A lua é minha?
- É toda tua! Quis mudar-lhe o nome, e baptizei-a com o teu: Malia.

Desejos 2

- Quem és tu?
- Eu sou o Eugénio da Lâmpada, e tenho dois desejos para te conceder!
- Queria um iate, e um apartamento de luxo em Cannes!
- Não percebeste. Eu sou o Eugénio da Lâmpada, e os dois desejos que te posso conceder são, ou acender-apagar-acender, ou apagar-acender-apagar.

Freak Show

Barno, o homem das três orelhas, abriu muito os seus dois olhos quando o Babador Torrencial prestou provas no palco. Aquilo impressionava.
- Acho-o um encanto - confessou a sua companheira de espectáculo.
- Não te aproximes muito dele, porque ele dá-te água pela barba! - avisou.

Sortudo

"Olhe que a minha gata, foi parir para o sótão do seu telheiro" - avisara-me a minha vizinha - "Se apanhar algum dos gatinhos, traga-mo, se faz favor, que tenho a quem os dar. As minhas netinhas querem muito ter um".
"Com certeza!" - concordei eu.
Por descargo de consciência, muni-me de uma escada e subi ao sótão para os ver. Consegui vislumbrar dois na penumbra, que se enfiaram por debaixo duma palete, sob a vigilância hierática da mãe.
"Um dia descem!" - pensei, e nunca mais liguei aos gatos. Fortuitamente, avistava-os lá em cima, a brincar ou junto à mãe; numa outra vez vi a gata a dar de mamar a um deles no meio duns toros de lenha, mas não fiz qualquer intentona para capturar ou raptar os animais.
Uma bela manhã vou para o trabalho e, por acaso, deixei o carro à torreira do Sol. Cumprido o horário, bomba de gasolina com o carro (isto, uns dias antes da afluência geral às bombas). Quando estou a pagar na caixa, o senhor que metera gasolina na bomba ao lado da minha, diz-me com um meio-sorriso.
- O senhor tem um gato no carro!
- Sim, eu sei! Obrigado! - confirmei, para não me desmanchar, pensando logo nos gatitos. Era capaz de ter deixado na véspera uma fresta da janela aberta e um dos sacanas escapulira-se lá para dentro.
Quando me dirigi ao carro, o gato ouvia-se bem, com um miar curto e intenso, de gato pequeno em aflição. E todo o mundo a olhar, à espera de ver a criatura que produzia aqueles sons.
No carro, vistoriei o habitáculo, debaixo dos assentos e no meio dos tapetes, mas não vi nada. Como o banco de trás, rebatível, não estava na posição, calculei que se tivesse esgueirado para a bagageira. Bem, pensei, como a casa está perto, também aguenta mais cinco minutos, e ála para casa!
Coloquei o carro na sombra do telheiro, e reatei a busca do felino, que recomeçara a miar. Bagageira, nada, debaixo dos assentos, nada. Seguindo o som, tive um sobressalto: o desgraçado estava no motor. Abri o capô, e lá estava ele, espalmado sobre a panela do carro, a um palmo da bateria e da ventoinha. Tirei-o com calma, fazendo-lhe festas enquanto o examinava. Não descobri nenhum ferimento, meti-o num cesto e dei-lhe de comer. "Hoje acordaste mal mas, mesmo assim, o dia podia ter sido pior" disse-lhe.
Levei então o gatito à dona da gata, que o achou muito bonito e ficou reconhecida pelo gesto.
"Se quiserem dar um nome ao gato, podem chamá-lo de Gastão, Lucky, ou Sortudo - sugeri - que esses nomes assentam-lhe bem", e expliquei porquê.
Ficou Lucky.
Lucky, eu também.

O Mundo Misterioso de Arthur C Clarke: A Caveira de Cristal; e o Mecanismo de Antikythera

(escolhi este pelas legendas ;)

O reino DAS caveiras de cristal

O novo filme da saga Indiana Jones, tem um título que não é estranho aos que apreciam temas ligados ao fantástico e ao "misterioso desconhecido".

As alegadas caveiras de cristal, encontradas em locais arqueológicos dos antigos Maias, causaram assombro no seu tempo, e continuam ainda hoje a suscitar questões sobre o modo como foram criadas e a função que lhes destinavam os sacerdotes Maias.

A primeira vez que tomei contacto com o assunto foi através de um livro que ainda hoje possuo, escrito por Kurt Benesch (Enigmas da Arqueologia, Círculo dos Leitores, Lisboa); depois disso, encontrei algumas referências próximas em outras obras, antes de assistir ao episódio alusivo na série televisiva "O Mundo Misterioso, de Artur C. Clarke". Na primeira parte desse episódio, é-nos mostrada a mais célebre das caveiras de cristal, a que teria sido encontrada nas ruínas de um templo em Lubbantun pelo arqueólogo F. A. Mitchell-Hedges; o episódio começa, aliás, com chegada a Londres da dita caveira de cristal, acompanhada pela idosa Anna, a filha do arqueólogo que, com treze anos, a teria retirado da cave dum templo Maia, suspensa por uma corda. Uma história muito cinematográfica, que ainda hoje cintila no imaginário de muitas pessoas.

Parece plausível a existência entre os Maias, de objectos religiosos com a forma de crânio. Porque o crânio aparece constantemente na sua arte e escrita, e o seu deus da morte, que os primeiros americanistas intitulavam de Deus A, aparecia nos códices maias como um deus cadavérico, mas ostentando na cabeça um signo-caracol cujo significado é "nascimento". Para os Maias, morte e vida estavam inextrincavelmente associadas (também no cristianismo, enfim), e era do mundo inferior, morada dos deuses e dos mortos, que surgia toda a vida. O mundo da superfície, era presa e domínio do mundo inferior, tal como se pode constatar nos códices tardios dos Chilam-Balam, e no Popol Vuh, livro sagrado dos Maias-Quichés. Ao Chilam, o sacerdote-aúgure Maia, cabia não só auscultar a vontade dos deuses e dos mortos do submundo, como influenciar a sua acção na vida das pessoas e no crescimento do milho. Função para a qual, seria muito útil um craniozinho de cristal.

Mas vamos apertar a malha da rede! As ideias tradicionais sobre os crânios de cristal dos Maias, não mudaram muito em quarenta anos e continuam a ser desenvolvidas em páginas da Web, como esta, em português, dum sítio dedicado aos "Fatos da História" (sic). E é normal que continuem a aparecer outras abordagens, semelhantes ou policopiadas, devido ao efeito publicitário do mais recente filme da saga Indiana Jones. Mas também dá para perceber, que os crânios de cristal podem ser uma gigantesca fraude dos tempos modernos, forjados desde o século dezanove. A fonte é este artigo da revista Archaelogy, escrito por Jane MacLaren Walsh, uma antropóloga do Smithsonian, que classifica os inúmeros crânios de cristal que estão à guarda de diferentes museus, apresentando os fundamentos científicos da sua rejeição como artefactos genuínos da cultura Maia, Asteca ou tibetana. Ao ritmo a que as pessoas digerem a verdade, de certeza que ainda vai levar uns dez anos, para vermos modificado, o texto das muitas páginas web sobre esse grande mistério.

A supervivência dos mais fortes

O editor armou-se dos óculos quando o manuscrito foi largado à sua frente, no tampo da secretária.
- E o que é isto? Pedimos que o senhor escrevesse uns artigos para a nossa revista, e o senhor traz-me um romance?
- Não é um romance, é um estudo, uma tese de quatrocentas e trinta folhas sobre o principal problema do nosso planeta!
- Que é...?
- A fome, o fantasma crescente e inexorável da fome. Este estudo indica como debelar a fome à escala mundial, e pode, com propriedade, salvar o mundo. Eu vou salvar o mundo!
- Se tiver a gentileza de me explicar a sua teoria, talvez a gente possa apreciar melhor o valor deste material.
- A minha ideia é tão simples que até me surpreende como ninguém ainda pensou nisso. O senhor sabe, com certeza, da quantidade de pessoas que morre à fome todos os dias. Ora, estive a fazer uma análise estratigráfica dos dados, e descobri que uma percentagem considerável das vítimas da fome vive em países do dito terceiro mundo, em regiões de clima quente; e muitas vezes a fome está associada à desertificação de vastos territórios, ou seja, temos Sol com fartura. Pensei no assunto, e cheguei à conclusão que podíamos resolver o problema da fome em duas ou três gerações, o que não é um tempo excessivo, se atendermos às raízes históricas do problema.
- E a solução é?
- Eugenia, manipulação genética. Não sei se o senhor sabe, mas os animais de sangue frio podem passar longos períodos de tempo sem comer, porque os seus organismos não consomem tanta energia como o dos animais de sangue quente, porque o calor dos seus corpos não provém do metabolismo, mas do ambiente. Ou seja, se manipulando os genes, conseguíssemos transformar as pessoas dos países do terceiro mundo em pessoas de sangue frio, elas não morreriam à fome, pelo menos, durariam muito mais tempo quando privadas de alimento. A exposição ao sol abundante condicionaria a sua temperatura corporal, diminuindo a sua necessidade regular de comida.
- Ou seja, a sua solução é transformar pessoas em lagartos humanos, de modo a resistirem mais tempo à fome!?
- Basicamente! Além de resistirem mais, elas precisariam de menos comida, e podiam passar a vida estendidos ao Sol! Uma vida invejável para o comum dos mortais.
- Mas precisariam à mesma de comida, food, entulho, paparoca!
- Sim, mas menos. E os países desenvolvidos poderiam desenvolver estrátégias de ajuda que lhes atribuíssem algum tipo de ocupação ou trabalho, enquanto se incumbiam, os países desenvolvidos, claro, de explorar os recursos naturais desses países de modo a gerar riqueza e excedentes, para lhes matar a fome, se eles não fossem capazes de se alimentar a si mesmos.
- A sua ideia é engenhosa, não é, de modo algum, perfeita, mas demonstra alguma imaginação, enfim, uma dose dilatada de astúcia. Assim postas as coisas, eu, como editor, não estou muito interessado neste material, e preferia que o senhor nos continuasse a escrever uns artigos sobre orquídeas, que é a sua especialidade...
- Não! Nunca mais vou escrever sobre orquídeas para a vossa revista!
- Acantos? Tulipas? Antúrios?
- Não, não e não! Talvez pudesse escrever sobre girassóis...
- Girassóis?
- Sim, geneticamente modificados, girassóis gigantes, criados para servirem de camuflagem aos silos de mísseis ou...
- Traga-me um rascunho, que a gente vê...
- De acordo.
- Mas um rascunho pequeno, duas ou três páginas À quatro, no máximo!
- Só duas ou três páginas?

Depois:
"Não quero estar aqui, enfiado numa prateleira alta, a ganhar ácaros e bichos. Ninguém me pega, ninguém me lê, nem mesmo quem me deu a ler. As minhas páginas ainda estão coladas no topo, a capa dura é como porta duma cela, e o pior, é que do outro lado não há ninguém, pessoas como as que eu via frente ao monitor, vida, como eu já conheci em tempos".

Antes:
"Não quero estar aqui" protestou o texto formatado "mereço mais, muito mais, ser lido por uma noiva no carro a caminho da igreja, por um médico sem fronteiras na solidão da sua tenda, por um astronauta às voltas na estação orbital. Tenho de ser publicado, gravado em papel, lido e rebuçado por olhos e dedos, inalado por narinas com o cheiro do papel, sentido e amado como se só eu fosse digno e só eu fizesse sentido".

Depois de várias tentativas frustradas de suicídio, um dia acertou, e morreu mesmo. Esteve a ser velado na casa mortuária mas, na hora de enterrar, a família e os amigos tiveram uma surpresa. O padre e o autarca se haviam posto de acordo, e aquele corpo não podia descer à terra em solo consagrado, porque havia morrido às suas próprias mãos, e isso era contrário à vontade de Deus. De nada valeram os protestos, os argumentos, ou as súplicas, porque os dois poderes estavam unidos e o princípio era sumário: no cemitério residiam os cristãos, aqueles que seriam ressuscitados no último dia. Para o suicida, que perdera o direito de entrar no reino dos céus, só havia um lugar - um quinhão de terreno na parte de fora do cemitério, a alguns passos da linha férrea.
Resignada, a família aceitou, ainda que isso mexesse com os fígados de muitos. Numa cerimónia simples, o corpo desceu à terra, depois dum irmão seu ler em voz alta, um texto de desalento que ele escrevera em vida.
Compareceram muitas pessoas ao funeral, família, amigos de ambos os sexos e de diferentes fases da vida, conhecidos, namoradas antigas, a sua professora da Primária, os colegas do trabalho. No coração dessas pessoas, não havia nenhum muro de cimento a separá-las do jovem que era enterrado.

"...uuh, ahhhh, uhhhh, ik ik, uuuuuhhhhh, hihihihi, uuhhhhhhhhhh, hihihihi, ik, ik , aauuhhhh, uuhh, uhhhh, hihihihihi, uuhh-uuuuuhhhh...".*


*Nota do intérprete: trecho de fábula com humanos, contada num círculo de hienas.

O poeta e o alquimista


O poeta é o guardião do mito e da imagem até que cheguem tempos melhores”.
Jorge Teillier

«Que confusão de trânsito hoje, só gente lerda e estúpida, olha mais um, mete-se de marcha-atrás como se a rua fosse dele, nem penses, man, assim mesmo! Piano, pianinho, esperas que eu passe porque eu tenho mais que fazer, agora outro, um tipo tão lento que só lhe falta meter a marcha-atrás, vou passá-lo a seguir à paragem, ouve o rosnar do motor, a fera quer correr... Agora! Já está, papei-te! Vou dar um cheirinho de acelerador para veres como se anda na estrada. Bolas! Só me faltava esta, uma mulher a fazer-se à passadeira, acho que consigo atravessar a passadeira antes que ela chegue ao meio. Vou conseguir! Vou conseguuuiiiiiiiiirrr!»

Atarôtado

Junto ao aeroporto, olhou num relance a paragem dos táxis e escolheu um, o único preto de tejadilho verde, numa irmandade de táxis amarelos. Indicou uma morada ao condutor, e acomodou-se no banco de trás, depositando ao seu lado, no assento, uma pequena mala de viagem.
O taxista conduziu-o através da cidade, num passeio quase turístico, não fora a velocidade com que o carro flertava com a proximidade doutros carros e pessoas. Um olhar atento pelo espelho retrovisor foi o suficiente para o taxista constatar pela cara de desagrado do passageiro que ele não estava a apreciar as vistas e, resignadamente, deixou-se de rodeios e obedeceu tardiamente à solicitação do passageiro.
Deixou para trás as largas avenidas arborizadas, e saíram da cidade. Uma hora de viagem por estradas secundárias através de vilas e vilórias, até atingirem uma aldeia, encastelada na encosta dum monte. Quando ia recorrer ao GPS, o passageiro fez o papel de guia e indicou-lhe o caminho a seguir naquele meandro de ruas estreitas, com casinhas pequenas de jardim fronteiro, e crianças a jogar à bola no alcatrão, e velhas de negro como corvos decrépitos, a olhar o mundo por janelas de madeira pintada.
Rua do Moinho, quarenta e dois. Quarenta e oito, seis, quatro. Parou o carro onde devia ser o quarenta e dois. Um terreno aberto com uma casa em ruínas.
- Aguarde um minuto, e já voltamos à cidade!
Concordou -tanto melhor! E desligou o carro, mantendo a companhia do rádio.
O passageiro saiu do carro com gestos lentos e aproximou-se da casa. O telhado abatera, e as silvas haviam conquistado o espaço, pintalgadas pelo vermelho de sangue das papoilas. Caminhou à volta dela, apanhou do meio das ervas um fragmento de louça dalgum prato antigo, e revirou-o na mão, como se o tivesse identificado, a cor esverdeada ou o desenho truncado duma flor-de-lis.
Encaminhou-se para o carro. Junto ao que restava do muro da frente, uma caixa de correio em cimento e pedra ainda se mantinha sobre uma coluna quadrada. A chapa da testa pendia, mas a porta do lado de dentro ainda estava intacta, soldada pela ferrugem. Apanhou uma pedra do chão e deu-lhe uma martelada a um canto, fazendo-o saltar. Abaixou-se junto a ela, com os dedos a esquadrinhar-lhe ansiosamente o ventre, mas não encontrou nada. Colocou a pedra no muro e voltou ao carro.
O motorista, que o observava, ficara espevitado pelo inesperado daquele acto.
- Estava à procura de carta? Era importante?
- Podia ter sido...há vinte anos!
E calou-se, calando o olhar expectante do motorista. Uma carta, a porcaria dum pedaço de papel, teria feito toda a diferença, a subtil e brutal diferença entre apenas existir, carregando com os dias, e viver plenamente como se todos os dias duma vida não chegassem para tal.
- Para onde, agora?
- Para a cidade, um sítio qualquer, onde possa alugar um quarto.

Conto

A Hambúrguer Vermelha dirigiu-se à cabana da floresta para ir levar o lanche à avó, e o lobito papa-hambúrgueres foi atrás dela, seguindo os pingos do Ketchup.
Quando chegou à cabana, já o lobito tinha dado uma curva e tomado o lugar da avó, deitada na cama.
- Ó avó! Porque estás ás escuras?
- É para não se notar as tuas manchas de óleo queimado.
- O avó, porque é que tens as unhas tão compridas?
- É para rasgar a embalagem plástica do brinquedo!
- Ó avó, porque é que tens os dentes tão feios?
- É do colesterol, minha netinha, é do colesterol!

Separação (Filmo-grafia)

Cena 23: A heroína está no gabinete do seu médico, olha incrédula as radiografias, enquanto o médico lhe explica que ela só tem quatro semanas de vida. Não chora, é forte, constituição robusta, e muitas sessões de musculação.

Cena 24: Liga para o seu namorado para lhe contar. Enquanto espera que ele atenda o telefone, ouve-se a música do Love Story, e um ruído de fundo que parece o da lâmina duma gadanha a raspar no mosaico do chão. O seu amado atende, e ela marca um almoço.

Cena 26: Os dois almoçam. Ele está mais meloso do que o costume, carícias discretas, sorrisos descosidos na boca, planos para o futuro. Ela não tem coragem, diz só para si mesma: "vou morrer, meu amor, tenho uma doença fatal durante a qual os meus membros e cabeça se vão separar do meu corpo, como as asas e as pernas daquelas moscas que nós mutilamos na nossa primeira noite juntos".

Cena 32: Passaram-se três semanas, e ela ainda não reuniu coragem. Ela insiste para os dois fazerem piqueniques em cemitérios, na esperança de criar um ambiente adequado à confissão, mas não adianta - ele afinal tinha uma fantasia secreta sobre sexo em cemitérios, e basta eles aproximarem-se dum, para ele se sentir em alta.

Cena 33: Ela faz dele beneficiário do seu seguro de vida, mas ele não lhe pergunta a razão; só não se cansa, é de lhe perguntar quando é que vão fazer um novo piquenique.

Cena 36: Ela sabe que o seu fim está muito próximo. Naquela manhã, conseguiu dar várias voltas completas com um braço como se ele estivesse prestes a separar-se do corpo. Pede-lhe para irem até ao campo, para sentir a beleza das giestas em flor e o odor agridoce da bosta das estrumeiras. Ele leva-a lá, mas ela não se sente capaz de lhe contar a verdade atroz. No alto duma colina, ele desafia-a para correrem encosta abaixo. Ela aceita. De mãos dadas, correm com força, a brisa no rosto, os olhos semicerrados, o toque doce e cálido da mão amada. Quando sente aquela mão, fria, ele pára, gelado de terror, na sua mão, apenas a mão e o braço do seu amor. O resto está espalhado pela encosta, consegue distinguir o tronco e uma perna junto a uma balseira, e a cabeça solta, que um escaravelho tenta fazer rolar para o seu buraco.

Cena 37 (final): Ele chora (culpa das hormonas que andou a tomar, para ocupar um lugar de soprano no coro da cidade), seguro ao braço que sobreviveu de um amor tão completo. Enquanto se volta a ouvir o som da gadanha, misturado ao guincho produzido pelo escaravelho em esforço, o herói, de costas para o sol poente, debita a fala que dá o título ao filme: «Deve ser isto o que chamam, o trauma da separação!».

Acordo Semântico

Seguindo um vestígio na web sobre o novo Centro Cultural de Caldas da Rainha, arribei a este texto sobre o novo Acordo Ortográfico, escrito por Mia Couto, que vale a pena ler, reproduzido no blogue Correntes.
Reproduzo uma fracção do infra-texto que acompanha a caricatura do escritor:

(...) O importante é criar condições para aumentar a facilidade de circulação do livro, revendo as taxas quando circula de um país para o outro. Não tem de haver acordo, a riqueza está em encontrar diferentes sabores na grafia".

Ó fofa! - gostava de dizer, sempre que se referia às amigas, e às nem tanto assim, a qualquer mulher de qualquer idade. Fofa para aqui, fofa para ali, estás uma criança linda, ó fofa, olha que esse penteado é uma fofura; as pessoas habituavam-se, ela na bilheteira do museu, ela nas escadas do museu a limpar, sempre com as suas fofices. No meio duma falha de energia, achou-se a fofa cercada pela escuridão nos laboratórios do museu, fósforo aceso, fósforo apagado, tacteou os quadris de uma múmia egípcia.
- Quem és tu, ó fof..? - começou por perguntar, e tacteando melhor, continuou - sejas tu quem fores, ó fofa, acho melhor parares com a lipoaspiração!

Paralelismos

XX é uma jovem sem grandes angústias ou ansiedades, amadurecida pela vida mas sem estar azedada pela salsugem da frustração. Conseguiu manter o espírito fresco e a retina límpida, conseguindo focar as pessoas no que elas possuem de melhor. Sempre sofreu um pouco com as acções maldosas dalgumas pessoas cínicas, mas, também isso, levou-a a sobrestimar os seus amigos mais leais, em vez de perder tempo a detestar quem a tentou prejudicar.

XY é um homem adulto, vivido, que gosta dos amigos, de música Jazz, de beber um copo de vinho na sua varanda ao entardecer enquanto pensa no dia de amanhã e no muito de bom que - sempre - espera dele.

XX não alimenta fantasias para o dia que ainda está por vir, duas relações duradouras, e falhadas, tiraram-na de alimentar romantismos e ficções de vida. Mas gosta da amizade, de conhecer melhor outras pessoas, de partilhar ideias, experiências e opiniões. É uma solitária, mas não por entrega; no fundo, deseja sempre que a ternura resplandeça de alguma forma no breve viço das relações fortuitas que cultiva. Não espera um Romeu, uma figura irreal, apenas um homem sincero e carinhoso, ao lado do qual se sinta confortável, e que goste de conversar, e tenha sentido de humor.

XY não tem inimigos e acredita que nunca os teve, mas abomina as pessoas falsas e hipócritas e sempre conseguiu manobrar habilmente o leme de forma a não perder muito tempo com elas e, sobretudo, a não as confrontar, o que foi manifestamente decisivo para a sua vida impoluta e sem querelas. Mas é um humanista, preocupado com a sorte do seu semelhante, a quem tenta ajudar, através de acções de voluntariado, em questões sociais e ambientais. A sua vida afectiva é um pouco irregular, talvez por empolamento de expectativas, quer dele, quer das pessoas com quem se envolve. Um dos lados quer sempre mais alguma coisa, ou com mais significado, e nunca ao mesmo tempo, o que conduz a um fim previsível. As sucessivas experiências levaram-no a desejar-esperar apenas, um amiga que perdure, alguém que partilhe a sua vida como se não estivesse ali para ficar ou partir, e que beba um copo de vinho consigo, ou converse apenas, e que se envolva ou não mas que o faça sem argumentos escritos ou invocações.

XX e XY nunca se cruzaram, pelo menos, de forma a conhecerem-se melhor, chocaram um com o outro à saída de um elevador num bloco de escritórios. Duas ou três palavras trocadas, e um fugaz relance, do rosto, da cor do cabelo, da textura das roupas, mais uma palavra de cada lado, à guisa de despedida, e os passos a dirigirem-se em direcções opostas, acrescendo distâncias, abismos intransponíveis no momentâneo sopro de uma vida.

Mau jogo

Cilinha, muito franzina e amarelinha, desenhou a macaca com um giz no alcatrão da estrada, lançou a malha para a casa da terra e começou a jogar.
Saltitava feliz, quando o pára-choques do carro a apanhou, lançando-a em arco pelos ares até cair na casa do céu.

Prestável

No meio dum centro comercial a abarrotar de gente, refugiei-me numa livraria, neste caso a Bertrand. Encontrei um livro do mestre Lima de Freitas que me suscitou o interesse, mas estava muito ensanduichado no meio de outros livros sobre esoterismo e, quando o puxei, provoquei uma pequena cascata de livros. Apanhei-os à pressa e arrumei-os o mais depressa que consegui, reagindo ao meu pânico inato de entrar em pânico diante de estranhos. Depois de os arrumar, procurei o dito livro na des-ordem da estante e, quando o fazia, senti que me puxavam pela manga da camisa. O segurança? Não! Apenas um ancião de óculos encavalitados na ponta do nariz, como os olhos grandes da coruja sábia.
- Precisava de uma pequena ajuda...
Discorri - a minha camisa beje confundia-se com o uniforme dos empregados da livraria, e estava a arrumar livros. Era natural a confusão.
- Se eu souber...
- Procurava um livro sobre celenterados, algo pedagógico, mas bem ilustrado, que possa interessar a um adolescente.
Celenterados? Seria celerados? Era a resposta imediata do meu corrector ortográfico biológico. Celerados, bandidos, faroeste, Jesse James, Billy the Kid.
- Já procurou na secção de História? Deve ter alguma coisa sobre a conquista do Oeste e os pistoleiros.
- Não, por acaso não.
Acompanhei-o lá. Não encontrei nada sobre os assaltos a comboios e diligências. Celenterados, celerados, acelerados.
- Na secção de álbuns com fotos de carros e marcas de carros?
- Não por acaso não.
Acompanhei-o lá. Carros de corrida...sim, carros de corrida! Encontrara!
- Aqui tem um, com muitas fotos, o tipo de livros que um adolescente adora!
- Mas tem celenterados?
- Deve ter, tem tantos modelos! Tem todas as probalidades de ter um celenterado!
- Não sei...se me pudesse dar uma segunda sugestão...
Carros de corrida, oficinas, mecânica, reparações, chaves francesas, alicates, limas.
- Por acaso, quando me pediu ajuda estava mesmo a arrumar um livro de Lima de Freitas, é um óptimo plano bê. Eu acompanho-o lá!

Primeiro de Junho

Hoje era o seu dia,

A mamãe, uma trintona bem arrumada, encheu-o de mimos. Circo, jogos Arcade, pizza, gelado.

Para humanizar a coisa, ela deitou-o no seu colo, deu-lhe uns beijos repuxados e exibiu os seus mamilos para ele os desfrutar,

Que bom, ser uma criança e só ter trinta anos!

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...