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A mostrar mensagens de Junho, 2008
Não é facil encontrar refúgio nas noites quentes de Verão, numa cidade ancorada ao lado dum lago quieto. Em todo o lado onde tentava dormir, as melgas atacavam-no sem clemência, picando a sua pele, que logo crescia em borbulhões arroxeados. Quando já desesperava de as sentir, viu diante de si, como numa aparição, um contentor de lixo, ainda reluzente de ter sido lavado. Abriu-o. Como suspeitava, nenhum lixo dentro, apenas algumas gotículas de água no fundo. Quase não tinha cheiro de lixo, apenas um vestígio ténue, menos intenso do que se desprendia da sua própria roupa. Sacudindo os braços em volta para afugentar as perseguidoras, saltou lá para dentro e fechou a tampa até sentir que ela ficava selado. Enroscou-se a um canto, esmagou uma melga infiltrada que o picara na bochecha, e pegou no sono. Umas horas depois acordou, sobressaltado. Ouvira um ruído. Alguém que ia despejar lixo? Não, a tampa não se abriu. Em vez disso, ouviu um farfalhar no plástico do contentor, parecia o ir e vi…
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Sabes que o cavalo é um bicho divino? Ela sabia. Não me canso de os olhar, era capaz de estar aqui horas, dias, a olhar para eles. Sabes disso, não sabes? Sabia! Os olhos dele saciavam-se no movimento dos animais lá embaixo, a pastar morosamente, belíssimas criaturas de pêlo castanho fulvo que de tempos a tempos erguiam a cabeça, em resposta a algum som diferente, ou procurando a sua figura reclinada na cadeira de espaldar do alpendre, uma figura pequena mas familiar, um detalhe da paisagem que a esposa mantinha, alimentando-o e lavajando o seu corpo jovem e atrofiado.

tocar a terra

Na perpendicular da rua, recta e chã, havia uma rua muito inclinada, onde a garotada da rua fazia corridas, cronometrando a descida em carros de rolamentos. O equipamento era rudimentar, uma tábua pintada, um eixo fixo atrás e um, manobrável, à frente, domado por umas rédeas em corda.

O carro do Pedro não era dos melhores, e era uma bondade dizê-lo dessa forma, porque ficava sempre para trás nas provas, logo à frente do Ruizinho, que não tinha carro e arbitrava meticulosamente as corridas com o relógio-cronómetro que o pai mandara do Canadá.

Cansado de ser um derrotado, Pedro acrescentou ao carro duas asas em contraplacado, e prometeu a todos que iria ser o melhor. O autódromo de rua encheu-se de gente para ver a prova. O Pedro atacou a descida íngreme com uma fezada terrível, e a cara de todos acusou o assombro de assistir àquela descida insólita.

Cumprido o percurso, Ruizinho, o árbitro, enfrentou dúvidas de índole técnico. Não sabia, se havia de apontar a passagem do Pedro a sobrevoar…

Ne me quitte pas - Jacques Brel

(…)
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'apres ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
(…)
Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
À te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
(…)
"Custa vê-lo assim, para aqui deitado e cheio de tubos e cabos. É chocante, ele era uma pessoa cheia de vida...levantava-se sempre de madrugada, estivesse a trabalhar ou de férias, comia o sua refeição matinal e, quando dava por ele, estava sentado à mesa da cozinha a ler um livro que interrompera na véspera ou a ver as notícias, não conseguia estar quieto e inventava sempre coisas para fazer, era muito habilidoso com madeiras, passeava pelos pinhais e recolhia pedaços de madeira, ramos ou raízes, que talhava em figurinhas imaginárias, obedecendo às sugestões do material, às formas sugeridas pela natureza, os contornos, as nervuras. Tinha caixas cheias desses objectos, e ofereci-ao ás mãos-cheias aos amigos que revelavam algum interesse. Mas não era um solitário, metido em copas ou espadas, gostava das pessoas, de conviver com os amigos e de dar umas boas gargalhadas...»

Obrigado, amor, sei que a minha mão está fria como a mão de um cadáver, e que não consigo mover um músculo que …
«Quatro Estações, à Carbonara, Napolitana, Calzone, Maravilha...Gosto de todas. Escolhe tu e eu sigo-te as pizzadas!».

O ammor sem Prontuário Ortográfico

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A sede e o pote

Mens sana in corpore sano”, era a máxima preferida do padre Vicente. Naquele final de semestre, ele decidiu exemplificá-la. Reuniu toda a sua classe de seminaristas e com o conluio de dois colegas, organizou uma expedição campestre ao Alentejo.

O padre Vicente era natural da Andaluzia. Malgrado os muitos anos que vivia em Portugal, ainda não se desembaraçara da sua pronúncia carregada. De grande estatura e feições arredondadas, era uma pessoa afável e simpática, mostrando-se possuidor de um amor indefectível por toda a obra divina em todas as suas formas e manifestações. O seu respeito e admiração pelos outros era um dos atributos da sua natureza mística e apaixonada, capaz de se maravilhar do mesmo modo com um salmo da Bíblia ou com o riso de uma pessoa.

O padre Vicente era o nosso mestre preferido. Ele não precisava de usar a autoridade ou a disciplina para travar o nosso ímpeto e a nossa jovialidade, porque todos os seminaristas se submetiam ao seu carisma e à sua inteligência. Nas …

Contículo

A pequena povoação de umas vinte casas, estava quase afastada do mundo. Todas as outras povoações em volta tinham um nome digno, sobre o qual se podia rezar uma história ou historieta, verdadeira ou inventada, mas àquela, chamavam apenas o Casalinho, sem mais sobrenomes ou apelidos. O seu centro e a sua Baixa, era uma taberna, onde se bebia um copo, apostava-se no Euromilhões e se lia os jornais de há duas semanas que alguém ali deixara; e, nas traseiras, na cocorva da casa, tinha ainda um cubículo a servir de mercearia, onde todos viam a validade dos produtos antes de os pagar. Num banco corrido à porta, sentavam-se as pessoas, sobretudo ao entardecer, depois da faina dos campos e de dar de comer à bicharada. Sentavam-se e conversavam longamente até serem horas de jantar, ou se desagradarem com a aragem fria que ameaçava debilitar os ossos gastos. Foi numa dessas conversas que se gerou o equívoco. Alguém que lia imperfeitamente um jornal pretérito, anunciou que já havia um milionário…
Não viu de onde ela tinha saído, apenas deu pela sua presença quando sentiu o toque suave da sua mão no ombro. Era alta, toda vestida de negro, com uma cabeleira avermelhada que coroava um rosto magro de uma palidez doentia. Sentaram-se os dois. Na pequena mesa, uma bola de cristal iluminava o ambiente como uma cúpula futurista.
- Agradeço a sua compreensão - começou ele, num falsete nervoso- sei que não faz muitas leituras, nem a muita gente, e é um privilégio estar aqui, e...
Calou-o a ponta dos dedos dela nos seus lábios. A sua expressão mudara, devia ter entrado em transe, e contentou-se em admirar o bailado gracioso dos seus dedos magros na superfície vítrea.
- É um homem sensível, com uma vida preenchida, vejo que se interessa pelos outros, e tem dois cães. Golden Retriever? Não, Cães de Água!
- Não tenho cães, aliás, acho que eles sentem alergia por mim, porque rosnam sempre quando me aproximo.
- Estranho, as imagens eram nítidas, alguém deve querer oferecer-lhe um casal de cães. No…

Fresco

A equipa da Minguante acaba de lançar As Metamorfoses de ouvido um e-book com uma quinzena de contos meus.

A todas as pessoas envolvidas, os meus agradecimentos!

Dá muito trabalho, não fazer nada, o pessoal acha que é fácil ser desocupado, mas engana-se. Há muitas horas vazias para preencher, e se não temos método, podemos dar em malucos. O meu, é o método estatístico. Deixo-me dormir e adormentar pela manhã até me doer o corpo de estar tantas horas deitado, então, levanto-me na casa vazia de sons, e visto-me sem olhar o relógio - só respeito ritmos orgânicos, da fome e sede, do sono, do cio; e por eles me guio. As manhãs são tenras, fáceis de roer, um pouco de roça-esquinas pela cidade, os conhecidos nas ruas ou junto à praça do mercado, com os quais se faz um update do universo, há sempre alguém que esbanjou dinheiro com um jornal, ou me convida para um café ou um copo de vinho - caso contrário, tenho eu de suportar a dolorosa - e deriva-se para a tasca da ordem, onde as novas se ouvem, e entre falatórios e notícias de jornal, os assuntos nunca faltam. Também é uma boa hora para cobiçar as fêmeas, estudar a anatomia, ser simpático e meter co…

Da poesia

DECLAMADOR: Que os versos deste senhor, estejam convosco.
AUDIÊNCIA, EM CORO: Tamen!!!
Sentia uma saudade indefinida de algo que nunca teve ou nunca amou. Vivia na esperança de que o seu passado pudesse ser reinventado.

«Não é o que tu estás a pensar! É aquele tratamento de fertilidade que eu te falei!».

Frase 1

Quem come carne, tem de matar duas vezes a fome.

Frase 2

Quando o coração se gangrena de ódio, não há luz que seque o pus.

- Agora, só um milagre! - disse-lhe o médico no sala de desespera. Ela retirou-se, da sala e do Hospital; fugiu para o passeio movimentado onde chovia e, à sua maneira, sem palavras decoradas - apenas lágrimas e agonia - rezou por um.

Jogo

- Doeu assim tanto? - perguntou o dentista, depois de lhe arrancar o dinheiro todo da carteira. - Nem imaginas quanto! - Se soubesse, tinha usado anestesia.
Flertaram sem mais consequências durante tantos anos, que continuavam a ver-se e a conversar nos mesmos cafés e cinemas, aproveitando os descontos do cartão 65.

Na sua vida próspera, colunável e invejada, erguida sobre a morte da esposa rica, teve de usar tampões nos ouvidos para calar a voz da consciência.

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O encontro deles foi numa estação de comboios, no intermezzo de horários trocados e truncados por uma greve. Eram para estar em dois cais diferentes, em comboios disparando em diferentes sentidos, e viram-se à mesma mesa de café, matando a fome com sandes colesterólicas embrulhadas em celofane, enquanto, à volta, as pessoas fala-discutiam, enervadas. Começaram a conversar, na tranquilidade pós-coital do seu ócio - o dia já estava perdido de qualquer forma - ele mais contido, sem muito que contar ou a quem, ela transbordando de sorrisos e palavras, falando à boca-cheia dos muitos amigos e família amiga, e livros e músicas pelos quais se sentia apaixonada. Da conversa passaram ao contacto escriturado, o número de telemóvel, para um dia, quem sabe? E esse dia foi logo no dia seguinte. Saíram os dois, deram uma queca, envolveram-se e enovelaram-se. Umas semanas depois, ela, ou ambos, ou cada um à vez, falou em casamento, casar ou juntar os trapinhos, e apanhar o comboio no mesmo sentido, …

Nunca é fácil começar uma história

(...) à terceira tentativa conseguiu tirar o balde de dentro do poço, alumiada na noite densa pelo quadrado de luz da janela da sala. Mergulhou na sua água fresca a pele gravada a vermelho pela corda de sisal, e não soube mais o que fazer, porque as mãos haviam-se liquefeito na água, fundiram-se os dois elementos numa simpatia alquímica, isso era o que sabia, e esse conhecimento ainda lhe deixou uns segundos de lucidez, o bastante para que um grito inútil se soltasse da sua garganta, antes de toda ela se liquefazer também num charco efémero aos pés da roseira, e do regador de lata - que era para regar a roseira depois do calor do dia, que era isso que viera fazer.

Desejos 1

- Gosto tanto de ti, que só estar perto de ti me faz doer o coração. Pede-me o que quiseres e eu consigo-te! - A lua - Vou comprar-te a lua. Vai-me custar uma fortuna, tenho de subornar umas quantas pessoas e mover uma guerra burocrática, mas trago-te a lua; não volto para ti sem ela. E saiu para ir comprar a lua. Uns meses depois voltou, teso e cheio de cicatrizes, mas com um recibo e um certificado comprovativo como despojos de guerra. - A lua é minha? - É toda tua! Quis mudar-lhe o nome, e baptizei-a com o teu: Malia.

Desejos 2

- Quem és tu? - Eu sou o Eugénio da Lâmpada, e tenho dois desejos para te conceder! - Queria um iate, e um apartamento de luxo em Cannes! - Não percebeste. Eu sou o Eugénio da Lâmpada, e os dois desejos que te posso conceder são, ou acender-apagar-acender, ou apagar-acender-apagar.

F.D.P.

Freak Show

Barno, o homem das três orelhas, abriu muito os seus dois olhos quando o Babador Torrencial prestou provas no palco. Aquilo impressionava. - Acho-o um encanto - confessou a sua companheira de espectáculo. - Não te aproximes muito dele, porque ele dá-te água pela barba! - avisou.

Sortudo

"Olhe que a minha gata, foi parir para o sótão do seu telheiro" - avisara-me a minha vizinha - "Se apanhar algum dos gatinhos, traga-mo, se faz favor, que tenho a quem os dar. As minhas netinhas querem muito ter um". "Com certeza!" - concordei eu. Por descargo de consciência, muni-me de uma escada e subi ao sótão para os ver. Consegui vislumbrar dois na penumbra, que se enfiaram por debaixo duma palete, sob a vigilância hierática da mãe. "Um dia descem!" - pensei, e nunca mais liguei aos gatos. Fortuitamente, avistava-os lá em cima, a brincar ou junto à mãe; numa outra vez vi a gata a dar de mamar a um deles no meio duns toros de lenha, mas não fiz qualquer intentona para capturar ou raptar os animais. Uma bela manhã vou para o trabalho e, por acaso, deixei o carro à torreira do Sol. Cumprido o horário, bomba de gasolina com o carro (isto, uns dias antes da afluência geral às bombas). Quando estou a pagar na caixa, o senhor que metera gasolina na b…

O Mundo Misterioso de Arthur C Clarke: A Caveira de Cristal; e o Mecanismo de Antikythera

(escolhi este pelas legendas ;)

O reino DAS caveiras de cristal

O novo filme da saga Indiana Jones, tem um título que não é estranho aos que apreciam temas ligados ao fantástico e ao "misterioso desconhecido". As alegadas caveiras de cristal, encontradas em locais arqueológicos dos antigos Maias, causaram assombro no seu tempo, e continuam ainda hoje a suscitar questões sobre o modo como foram criadas e a função que lhes destinavam os sacerdotes Maias.A primeira vez que tomei contacto com o assunto foi através de um livro que ainda hoje possuo, escrito por Kurt Benesch (Enigmas da Arqueologia, Círculo dos Leitores, Lisboa); depois disso, encontrei algumas referências próximas em outras obras, antes de assistir ao episódio alusivo na série televisiva "O Mundo Misterioso, de Artur C. Clarke". Na primeira parte desse episódio, é-nos mostrada a mais célebre das caveiras de cristal, a que teria sido encontrada nas ruínas de um templo em Lubbantun pelo arqueólogo F. A. Mitchell-Hedges; o episódio começa, aliás, com chegada a Londres d…

A supervivência dos mais fortes

O editor armou-se dos óculos quando o manuscrito foi largado à sua frente, no tampo da secretária. - E o que é isto? Pedimos que o senhor escrevesse uns artigos para a nossa revista, e o senhor traz-me um romance? - Não é um romance, é um estudo, uma tese de quatrocentas e trinta folhas sobre o principal problema do nosso planeta! - Que é...? - A fome, o fantasma crescente e inexorável da fome. Este estudo indica como debelar a fome à escala mundial, e pode, com propriedade, salvar o mundo. Eu vou salvar o mundo! - Se tiver a gentileza de me explicar a sua teoria, talvez a gente possa apreciar melhor o valor deste material. - A minha ideia é tão simples que até me surpreende como ninguém ainda pensou nisso. O senhor sabe, com certeza, da quantidade de pessoas que morre à fome todos os dias. Ora, estive a fazer uma análise estratigráfica dos dados, e descobri que uma percentagem considerável das vítimas da fome vive em países do dito terceiro mundo, em regiões de clima quente; e muitas vezes…
Depois: "Não quero estar aqui, enfiado numa prateleira alta, a ganhar ácaros e bichos. Ninguém me pega, ninguém me lê, nem mesmo quem me deu a ler. As minhas páginas ainda estão coladas no topo, a capa dura é como porta duma cela, e o pior, é que do outro lado não há ninguém, pessoas como as que eu via frente ao monitor, vida, como eu já conheci em tempos".

Antes: "Não quero estar aqui" protestou o texto formatado "mereço mais, muito mais, ser lido por uma noiva no carro a caminho da igreja, por um médico sem fronteiras na solidão da sua tenda, por um astronauta às voltas na estação orbital. Tenho de ser publicado, gravado em papel, lido e rebuçado por olhos e dedos, inalado por narinas com o cheiro do papel, sentido e amado como se só eu fosse digno e só eu fizesse sentido".

Depois de várias tentativas frustradas de suicídio, um dia acertou, e morreu mesmo. Esteve a ser velado na casa mortuária mas, na hora de enterrar, a família e os amigos tiveram uma surpresa. O padre e o autarca se haviam posto de acordo, e aquele corpo não podia descer à terra em solo consagrado, porque havia morrido às suas próprias mãos, e isso era contrário à vontade de Deus. De nada valeram os protestos, os argumentos, ou as súplicas, porque os dois poderes estavam unidos e o princípio era sumário: no cemitério residiam os cristãos, aqueles que seriam ressuscitados no último dia. Para o suicida, que perdera o direito de entrar no reino dos céus, só havia um lugar - um quinhão de terreno na parte de fora do cemitério, a alguns passos da linha férrea. Resignada, a família aceitou, ainda que isso mexesse com os fígados de muitos. Numa cerimónia simples, o corpo desceu à terra, depois dum irmão seu ler em voz alta, um texto de desalento que ele escrevera em vida. Compareceram muitas pe…
"...uuh, ahhhh, uhhhh, ik ik, uuuuuhhhhh, hihihihi, uuhhhhhhhhhh, hihihihi, ik, ik , aauuhhhh, uuhh, uhhhh, hihihihihi, uuhh-uuuuuhhhh...".*


*Nota do intérprete: trecho de fábula com humanos, contada num círculo de hienas.

O poeta e o alquimista

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O poeta é o guardião do mito e da imagem até que cheguem tempos melhores”.
Jorge Teillier

«Que confusão de trânsito hoje, só gente lerda e estúpida, olha mais um, mete-se de marcha-atrás como se a rua fosse dele, nem penses, man, assim mesmo! Piano, pianinho, esperas que eu passe porque eu tenho mais que fazer, agora outro, um tipo tão lento que só lhe falta meter a marcha-atrás, vou passá-lo a seguir à paragem, ouve o rosnar do motor, a fera quer correr... Agora! Já está, papei-te! Vou dar um cheirinho de acelerador para veres como se anda na estrada. Bolas! Só me faltava esta, uma mulher a fazer-se à passadeira, acho que consigo atravessar a passadeira antes que ela chegue ao meio. Vou conseguir! Vou conseguuuiiiiiiiiirrr!»

Atarôtado

Junto ao aeroporto, olhou num relance a paragem dos táxis e escolheu um, o único preto de tejadilho verde, numa irmandade de táxis amarelos. Indicou uma morada ao condutor, e acomodou-se no banco de trás, depositando ao seu lado, no assento, uma pequena mala de viagem. O taxista conduziu-o através da cidade, num passeio quase turístico, não fora a velocidade com que o carro flertava com a proximidade doutros carros e pessoas. Um olhar atento pelo espelho retrovisor foi o suficiente para o taxista constatar pela cara de desagrado do passageiro que ele não estava a apreciar as vistas e, resignadamente, deixou-se de rodeios e obedeceu tardiamente à solicitação do passageiro. Deixou para trás as largas avenidas arborizadas, e saíram da cidade. Uma hora de viagem por estradas secundárias através de vilas e vilórias, até atingirem uma aldeia, encastelada na encosta dum monte. Quando ia recorrer ao GPS, o passageiro fez o papel de guia e indicou-lhe o caminho a seguir naquele meandro de ruas e…

Conto

A Hambúrguer Vermelha dirigiu-se à cabana da floresta para ir levar o lanche à avó, e o lobito papa-hambúrgueres foi atrás dela, seguindo os pingos do Ketchup. Quando chegou à cabana, já o lobito tinha dado uma curva e tomado o lugar da avó, deitada na cama. - Ó avó! Porque estás ás escuras? - É para não se notar as tuas manchas de óleo queimado. - O avó, porque é que tens as unhas tão compridas? - É para rasgar a embalagem plástica do brinquedo! - Ó avó, porque é que tens os dentes tão feios? - É do colesterol, minha netinha, é do colesterol!

Separação (Filmo-grafia)

Cena 23: A heroína está no gabinete do seu médico, olha incrédula as radiografias, enquanto o médico lhe explica que ela só tem quatro semanas de vida. Não chora, é forte, constituição robusta, e muitas sessões de musculação.

Cena 24: Liga para o seu namorado para lhe contar. Enquanto espera que ele atenda o telefone, ouve-se a música do Love Story, e um ruído de fundo que parece o da lâmina duma gadanha a raspar no mosaico do chão. O seu amado atende, e ela marca um almoço.

Cena 26: Os dois almoçam. Ele está mais meloso do que o costume, carícias discretas, sorrisos descosidos na boca, planos para o futuro. Ela não tem coragem, diz só para si mesma: "vou morrer, meu amor, tenho uma doença fatal durante a qual os meus membros e cabeça se vão separar do meu corpo, como as asas e as pernas daquelas moscas que nós mutilamos na nossa primeira noite juntos".

Cena 32: Passaram-se três semanas, e ela ainda não reuniu coragem. Ela insiste para os dois fazerem piqueniques em cemitérios,…

Acordo Semântico

Seguindo um vestígio na web sobre o novo Centro Cultural de Caldas da Rainha, arribei a este texto sobre o novo Acordo Ortográfico, escrito por Mia Couto, que vale a pena ler, reproduzido no blogue Correntes. Reproduzo uma fracção do infra-texto que acompanha a caricatura do escritor:

(...) O importante é criar condições para aumentar a facilidade de circulação do livro, revendo as taxas quando circula de um país para o outro. Não tem de haver acordo, a riqueza está em encontrar diferentes sabores na grafia".

Ó fofa! - gostava de dizer, sempre que se referia às amigas, e às nem tanto assim, a qualquer mulher de qualquer idade. Fofa para aqui, fofa para ali, estás uma criança linda, ó fofa, olha que esse penteado é uma fofura; as pessoas habituavam-se, ela na bilheteira do museu, ela nas escadas do museu a limpar, sempre com as suas fofices. No meio duma falha de energia, achou-se a fofa cercada pela escuridão nos laboratórios do museu, fósforo aceso, fósforo apagado, tacteou os quadris de uma múmia egípcia.
- Quem és tu, ó fof..? - começou por perguntar, e tacteando melhor, continuou - sejas tu quem fores, ó fofa, acho melhor parares com a lipoaspiração!

Paralelismos

XX é uma jovem sem grandes angústias ou ansiedades, amadurecida pela vida mas sem estar azedada pela salsugem da frustração. Conseguiu manter o espírito fresco e a retina límpida, conseguindo focar as pessoas no que elas possuem de melhor. Sempre sofreu um pouco com as acções maldosas dalgumas pessoas cínicas, mas, também isso, levou-a a sobrestimar os seus amigos mais leais, em vez de perder tempo a detestar quem a tentou prejudicar.
XY é um homem adulto, vivido, que gosta dos amigos, de música Jazz, de beber um copo de vinho na sua varanda ao entardecer enquanto pensa no dia de amanhã e no muito de bom que - sempre - espera dele.
XX não alimenta fantasias para o dia que ainda está por vir, duas relações duradouras, e falhadas, tiraram-na de alimentar romantismos e ficções de vida. Mas gosta da amizade, de conhecer melhor outras pessoas, de partilhar ideias, experiências e opiniões. É uma solitária, mas não por entrega; no fundo, deseja sempre que a ternura resplandeça de alguma forma …

Mau jogo

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Cilinha, muito franzina e amarelinha, desenhou a macaca com um giz no alcatrão da estrada, lançou a malha para a casa da terra e começou a jogar. Saltitava feliz, quando o pára-choques do carro a apanhou, lançando-a em arco pelos ares até cair na casa do céu.

Prestável

No meio dum centro comercial a abarrotar de gente, refugiei-me numa livraria, neste caso a Bertrand. Encontrei um livro do mestre Lima de Freitas que me suscitou o interesse, mas estava muito ensanduichado no meio de outros livros sobre esoterismo e, quando o puxei, provoquei uma pequena cascata de livros. Apanhei-os à pressa e arrumei-os o mais depressa que consegui, reagindo ao meu pânico inato de entrar em pânico diante de estranhos. Depois de os arrumar, procurei o dito livro na des-ordem da estante e, quando o fazia, senti que me puxavam pela manga da camisa. O segurança? Não! Apenas um ancião de óculos encavalitados na ponta do nariz, como os olhos grandes da coruja sábia.
- Precisava de uma pequena ajuda...
Discorri - a minha camisa beje confundia-se com o uniforme dos empregados da livraria, e estava a arrumar livros. Era natural a confusão.
- Se eu souber...
- Procurava um livro sobre celenterados, algo pedagógico, mas bem ilustrado, que possa interessar a um adolescente.
Celenter…

Primeiro de Junho

Hoje era o seu dia,

A mamãe, uma trintona bem arrumada, encheu-o de mimos. Circo, jogos Arcade, pizza, gelado.

Para humanizar a coisa, ela deitou-o no seu colo, deu-lhe uns beijos repuxados e exibiu os seus mamilos para ele os desfrutar,

Que bom, ser uma criança e só ter trinta anos!