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Vivia e funcionava com uma fidelidade maníaca aos seus ritos e calendários próprios, tinha horas cronometradas para tudo o que fazia, e intrincados e canónicos ritos para as coisas mais simples, como vestir-se ou lavar os dentes. Habituara-se a viver sozinho e não conseguiria viver com mais ninguém, não podia ceder um décimo das suas rotinas ao turbilhão indomável das rotinas e hábitos doutra pessoa. A sua casa, os percursos de todos os dias, estavam já povoados por uma multidão de deveres e gestos fixados por relógios com alarmes que nunca eram desactivados, e que passavam de um dia para o outro com a mesma fixidez tirânica.
Quando chegou a sua hora de partir, a morte correspondeu ao seu modo regrado de viver. Chegou a um fim-de-semana, um Domingo, quando ele cochilava no sofá, quinze minutos de repouso antes que o alarme do relógio de pulso soasse para o arrancar dali e pô-lo a caminho da missa. A morte suspendeu os seus ritmos orgânicos num momento oportuno. Estava bem-vestido e perfumado, adornado com os únicos bens que estimava - o seu duplo anel de viúvo e o relógio de bracelete metálica com o nome gravado no verso.
Ficou um cadáver irrepreensível. Era só transferi-lo para dentro do caixão, que guardava há anos num anexo. Depois de abotoarem o botão das calças que sempre desapertava para dormitar. E quando o encontrassem, um dia.


Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...