"Sinto saudades de outros tempos, do tempo em que abriam as portadas das janelas como se descerrassem as minhas pálpebras e o sol entrava, indicando o caminho ao perfume das rosas do jardim e a alguma ocasional vareja ou borboleta, e os jantares elaborados no salão onde se conversava e comia sem pressas, antes do Porto que os homens bebiam na biblioteca enquanto as mulheres se juntavam em volta do piano da sala onde a senhora tocava uma sonata, e as crianças inocentes no quarto das brincadeiras, com os seus brinquedos com rodas, bonecas de porcelana, e carros de lata, sinto saudades das noites à lareira onde se falava de colheitas e peças de caça, do calendário e dos dias da novena, e sinto saudades daquela criadinha triste que o patrão violentava e que tantas vezes chorou no meu peito na solidão do seu quarto antes de derramar o seu sangue no lugar onde antes derramava as suas lágrimas, mas...espera! Está alguém a entrar, tantos anos depois, tiveram de deitar abaixo a porta porque a fechadura se soldou com a ferrugem, um homem engravatado e uma senhora, muito loura, como Lourdes, a criadinha, estão a olhar para mim, para todos os meus recantos e escaninhos, espero que consigam perceber a minha beleza por trás de tanta ruína...espera...a senhora, não, a Lourdes, está a falar...o que é que ela diz?: «...acho que podemos recuperá-la!»".


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