- Queres ir praticar queda livre?
Olhou os dois rapazes, sem saber o que lhes responder, mas seguiu-os à mesma quando eles começaram a subir as escadas da Escola, com as mochilas a sacolejar nas costas.
Primeiro, segundo, terceiro piso, o último, com uma varanda a todo o comprimento. Notando que ele vinha atrás, estudaram atentamente o solo lá em baixo, dando tempo para recuperarem o fôlego. Num ápice, estava um de cada lado e ele pensou de imediato: "Estou feito, vão-me atirar aqui de cima!".
- O nosso pai tem uma empresa, tem muito dinheiro - contaram em voz baixa.
E como se o quisessem demonstrar, abriram as mochilas e mostraram-lhe o material de desenho praticamente novo, os compassos, esquadros, caixas de minas; mais os livros e cadernos, e um MP3 de serviço enfiado numa divisória da mochila. Em seguida, fecharam as mochilas e arremessaram-nas no vácuo e ficaram a admirar o seu trajecto até chocarem com o solo numa nuvem de pó.
Ficou pasmado, os irmãos saltavam de alegria, dando-lhe palmadas nas costas. Quando a onda passou, explicaram.
- O pai compra outras - e esperaram uns segundos, a ver se ele os imitava. Depois, saíram a correr em direcção às escadas, de novo a rir e a gritar.
Abriu a sua própria mochila, remexeu no conteúdo até encontrar uma borracha quadrangular de um verde desmaiado. Vergando-a no dedo indicador, lançou-a pelos ares como se atirasse um seixo.
"O meu pai não tem dinheiro, mas tem muita porrada para dar" - justificou-se.

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue