post-cards

Como subproduto de andar a vasculhar livros em alfarrabistas, de quando em vez comprava um postal antigo como o da ilustração, que usava como marcador de livro. Juntei alguns (não é uma colecção) de fins do século XIX, princípios do seguinte. Os temas onde recaía a minha escolha, eram quase sempre fotos "turísticas", alguns retratos, uma ou outra foto artística que, se fosse mais esfumada, pareceria as fotos de fantasmas que figuram nos livros da especialidade.

Admiro a caligrafia cuidada dalguns desses postais. Dispondo de um espaço reduzido para escrever, por vezes escrevia-se sobre a foto e, noutras, num recurso curioso, em vez de se apertar a distância entre as linhas, escrevia-se regularmente como se isso não fosse um problema e, acabando o espaço, escrevia-se na perpendicular sobre o texto anterior, e o espantoso, é que as palavras nos dois sentidos se lêem com nitidez apesar dos cruzamentos.

Muitos postais nunca chegaram a ser escritos, outros encerram uma mensagem formal: a resposta agradecida a um postal que se recebeu, os postais a desejarem felicidades no aniversário ou casamento, outros, a perguntar como decorreu uma dada viagem, ou como vai a saúde dum familiar.

Fortuitamente, alguns postais que se encontra transmitem histórias, dramas, ausências magoadas, e fazem-nos escutar pessoas como as que existem hoje, comuns, formais, sofridas ou patéticas.

Um, para uma dona Izabel Tavares, de Lisboa, com a foto duma matrona a ler um livro ao lado de uma mesa com flores, reza assim: Minha querida avôzinha. Dezeijo que passe um ano muito feliz na companhia da sua netinha, visto que os outros netos não quizeram saber da vozinha, ai lhe mando esse livro para se enterter e não pensar no meu mano malvado, e esse raminho de flôres para pôr na meza.

O de um 1922, de um Sergio Pinto para seu pae, no seu aniversário natalício, deseja-lhe, com uma elegância que perdemos, um "porvir ridente de prosperidades".

Tenho um postal com a foto duma adolescente com um enorme chapéu branco, hirta e de semblante triste. Escrito para Felizberto Guedes, Benguella-Bihé, Africa Occiddental, deixa-nos esta mensagem: Meu querido papá / O que mais desejo é que esteja de saude. Participo que fiz exame do 2º grau e fiquei approvada com distinção Peço-lhe que veinha em breve para nos matar as saudades porque faz cá muita falta. Há já muito tempo que não recebemos noticias suas. Espero que assim que receber este meu bilhete me responda logo. Sua filha m. to amiga. Judith.

Um outro postal, de teor mais leve, exibe o nome Gabriela rubricado sobre a figura de uma senhora de vestido branco com um livro aberto e um ramo de flores no regaço. O texto é curioso: Meu querido maridinho/ Tua mulher deseija-te que passes as tuas 29 primaveras muito feliz e que para o ano que vem já tenhas dinheiro para comprares um colchão de arame para me não doêr tanto os meus ossos, aceita um beijo por escrito visto não ser em carne, da tua mulher muito amiga, Gabriela Reis, Lisboa.

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