Os cegos e o elefante

Os amigos haviam-se reunido à mesma mesa, no comes-e-bebes de um casamento. Já não se viam há alguns anos, tinham vivido sempre perto uns outros mas seguindo trajectórias distintas como fios paralelos e incruzáveis duma mesma trama.
Somos todos amigos e todos gostamos de fotografia, disse o Luís, porque não juntamos os nossos trabalhos e compomos um livro? Deve haver editoras que pegam nesse tipo de trabalho, cada uma escrevia também umas frases ou haicais para enriquecer as imagens. Os amigos gostaram da ideia, linquaram-se durante meses, trabalharam no projecto, e o livro saiu, melhor do que qualquer um deles esperava. E vendeu-se bem, coisa insólita e, por arrrrastamento, a editora propôs que compusessem um novo livro.
Desta vez, o Luís puxou dos galões, a ideia fora dele, era o seu projecto, que nascera de si como um filho, e isso tinha de ficar bem explícito na introdução, a sua ideia era o elefante, o todo, enquanto o trabalho dele e dos amigos representava partes individualizadas desse trabalho cego, o ventre, a cabeça ou os membros do paquiderme. Os amigos concordaram, mas, quando chegou o momento de seleccionarem uma foto para a capa, o Luís exclamou que já tinha uma e mostrou-lhes: ele, Luís, nuzinho e com uma barba postiça, tocando com a ponta de um dedo a mão dum bebé, como Deus e Adão no fresco de Michelangelo da Capela Sistina. Os amigos não se atreveram a contestar aquela escolha paternalista, mas ficaram certos, de que não era ali que morava a tromba do elefante.


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