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O homem era de compleição branquíssima, talvez fosse um albino, ela não sabia dizer como era um albino porque não sabia como os reconhecer, mas talvez fosse um, só podia ser. Como todas as semanas, lá estava ele ao balcão do Vídeo clube, empilhando um monte de Dvd's para alugar. E as suas mãos! Magras e ossudas, de uma brancura anémica, ela achava que se tocasse numa delas, a pele pareceria farinha ao tacto.
A jovem começou a resgatar os filmes pelas capas empilhadas no balcão. A pergunta aflorava-lhe teimosamente aos lábios como um eflúvio do espírito e, por fim, não foi capaz de a reprimir mais e ela saiu como um arroto.
- Desculpe a pergunta, senhor, mas de onde vem o seu nome, Jerome?
- Como de onde vem? Fui baptizado assim...os meus pais eram muito originais em tudo!
- É que Jerome não é um nome muito comum, aliás, até acho que é um dos nomes que não são aceites nos registos de nascimento. E o senhor, sempre assim bem vestido, suscita-me divagações cinematográficas.
- Não percebo, se puder explicar-me do que fala...
- Jerome, como Thomas Jerome Newton, o personagem de David Bowie no Homem Que Caiu na Terra, o filme de culto de Nicolas Roeg. Thomas Jerome é um extraterrestre que nos visita para conseguir água para o planeta de onde vem. Há uma cena fabulosa onde David Bowie está sentado diante duma parede repleta de ecrãs de televisão e vê aquelas imagens e aborve-as todas ao mesmo tempo. Como é um extraterrestre, ele consegue!
- Ainda não atingi a iluminação, ou melhor, estou à espera que me solucione o mistério.
- O senhor vem aqui e aluga uma média de vinte filmes e, menos de cinco horas depois, vem entregá-los. A única maneira de os conseguir ver a todos era colocando-os num painel de televisões como o de Thomas Jerome, e assistir simultaneamente a todas as cenas com a sua mente extraordinária. É a única explicação possível, ou isso, ou alguma tara em gastar dinheiro com filmes que não vai ver...
Jerome sorriu, com esforço, sentia as palmas das mãos a suar.
- Você tem um papel e uma caneta?
Ela deu-lhos. Jerome começou por desenhar um H maiúsculo como nos exercícios de caligrafia, em seguida, uniu as pontas, desenhou um símbolo imaginário colado à letra e coroou o conjunto com uma estrela estilizada.
- É assim que se escreve o meu nome no planeta de onde venho.
Ela agradeceu, aparentemente emocionada.
- É curioso que a sua pele, afinal, é macia. Não ligue, são divagações, mais umas - e riu-se com vontade, acrescentando ainda - num dia como este, chego a trabalhar doze horas seguidas neste buraco. Se o Jerome, um dia destes, lhe apetecer pagar-me uma bebida ou um almoço, não se acanhe. Isso são coisas a que a gente dá muito valor neste planeta!

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...