- Fui feliz - é isso que te digo - mas já passou tudo!
- Ah! Não seja tonto, o senhor ainda é uma pessoa nova e com saúde, tem tanto pela frente, vai ver, ainda arranja aqui uma companhia para lhe aquecer os pés, e olhe que candidatas não faltam...
- Não, Maria da Luz, as pessoas são como as estrelas que eu tanto estudei, passam metade da sua vida a crescer e irradiar, ameaçando engolir os planetas e as luas que iluminam, depois, começam a regredir, a meter-se para dentro, sempre mais pequenos e concentrados e, por fim, a implosão torna-se completa e não são mais do que uma esfera infinitamente densa onde está encerrada todo o seu espírito e todo o seu desejo. Essa esfera, esse microscópico buraco negro, permanece com os ossos debaixo da terra, no lugar do coração, do cérebro ou do fígado, até um dia desaparecer dali para reaparecer na massa de uma outra estrela em formação. Eu estou quase lá, Maria da Luz, os meus olhos azuis só irradiam a luz mortiça e condenada de uma estrela anã.
- Lá está você, senhor Silva! Eu gosto de o ouvir falar de estrelas e de Aristóteles, mas se continua assim triste, começo a ficar preocupada. Todos nós aqui na Casa de Repouso gostamos muito do senhor, e não gostaríamos que lhe acontecesse alguma coisa. Durma bem, senhor Silva, e não pense em disparates!
- Maria da Luz!
Ela parou com a mão na maçaneta da porta. Sentia o seu olhar como a proximidade quase epidérmica duns dedos ansiosos.
- Ilumina-me, Maria da Luz, só mais esta vez!
A mulherona soltou um suspiro, e deitando as mãos à saia, levantou-a até ao peito, desvelando as pernas altas e esguias e a cuequinha preta de onde se rebelavam uns quantos pêlos. Maria da Luz folgou o elástico das cuecas, para lhe permitir uma mirada fugaz do seu sexo. Silva chorava, ao mesmo tempo que, da sua boca, escorria baba.
Logo depois se compôs, alisou as pregas da saia e abriu a porta para o corredor.
- Durma bem, senhor Silva!

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