Farol, e farol

O estranho de estar num quarto de Hotel de frente para o mar, era o foco cíclico da luz do Farol que varria as vidraças. Estava abafado, levantei-me na semi-obscuridade, tentando não acordar os meus irmãos, e cheguei-me à janela. Levantei uma ponta do cortinado. Havia cacimba lá fora, espessa como rama de algodão esfiado, mas conseguia-se ver o contorno da marginal da Beira, as palmeiras junto à praia e o Farol a dominar tudo como um ciclope ínsone. Em trechos iluminados da praia havia silhuetas que se moviam, e achei que deviam ser pescadores, a enfrentar as águas do Índico. Devia ser quase manhã, porque já se distinguia uma faixa mais clara de céu na linha do horizonte.

Aquela cacimba fazia um contraste terrível com o bom tempo da véspera! Eu e os meus irmãos havia-mo-nos aventurado no mar com uns rapazes amigos, empoleirados na câmara-de-ar dum pneu de tractor que nos servia de bóia gigante. Agarrávamo-nos às cordas que envolviam a borracha e assim resistíamos as sacudidelas das ondas, os mais afoitos mergulhavam de cabeça no mar em volta, davam braçadas enérgicas até ao pneu, e içavam-se para a garupa com a ajuda dos outros. Eu não, não me aventurava, mal sabia dar três braçadas seguidas mas, logo a mim, calhou-me escorregar na borracha e cair para o centro do pneu, esbracejei e sacudiu-me como um doido no meio da água salgada, engolindo um bom quinhão dela, até os outros interromperem as gargalhadas e içarem-me por fim.
De regresso à praia, os rapazes mais velhos trouxeram cervejas que haviam desencantado não sei onde, cervejas Laurentina, de lata, abriram umas quantas e beberam-nas como gente grande, uma delas veio parar-me às mãos, mas não cheguei a provar, bastou-me o cheiro para me revolver á água salgada do estômago e vomitar tudo no tronco recurvado duma palmeira. A seguir senti-me mais aliviado, e acompanhei os outros. Uns jogos de matraquilhos, um passeio pela marginal e o regresso ao Motel Estoril para nos vestirmos para o jantar. A noite estava estupenda, o jantar uma delícia e houve música durante o jantar; quase para o fim, as coisas correram menos bem, um irmão meu, mais velho, teve uma reacção alérgica que já lhe era habitual, rebentou-lhe a cara em borbulhas e começou a sentir a febre a galgar. Recolhemos apressadamente aos quartos - aquilo acontecia de vez em quando e os médicos nunca descobriram a causa, diziam que era alergia a algum fruto ou a um tipo qualquer de pólen, nunca se determinou qual ou quais, continuou a sofrer aqueles acessos durante alguns anos até desaparecerem por si. No quarto, ele foi medicado e recolheu à cama, e nós fizemos o mesmo, rezando para que ele melhorasse depressa para podermos ter outro valente dia de praia.

Pelo mesmo motivo, achei que devia tentar dormir mais um pouco. Quando me estava a enfiar na cama, reparei, com um susto, que não estávamos sós, mas logo sosseguei, quando descobri que era apenas a minha mãe, sentada numa cadeira ao lado da cama do meu irmão doente, ainda vestida com as roupas do jantar. Ela acenou-me, e reparei que segurava um termómetro entre o polegar e a palma da mão. Quando já me havia acomodado no colchão, a minha mãe veio e aconchegou-me os lençóis, coisa que já deixara de fazer há um tempo, porque eu já não era nenhuma criança; mas era a sua maneira mística, silenciosa, de me dizer que estava ali por todos nós, não apenas pelo meu irmão doente, mas por todos nós, fanal de ternura que incendeia de luz os rochedos ameaçadores e que vive para nos conduzir sempre a bom porto. Eu sorri e desejei-lhe: "Boa noite, mãe!".


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