Eva

Ele (passando a lingua sobre as gotículas de sangue nos lábios): «Não me canso de o fazer e acredito que é uma obsessão recalcada dos humanos, o beijo nasceu da mordida e eu não me canso de te morder, morder-te as faces, os lábios, os ombros. Sou um etólogo com um profundo conhecimento da psicologia humana, e este meu trabalho vai levar as pessoas a redescobrirem-se. O beijo é a mordidela espiritualizada, ao marfim dos dentes adicionou-se a ígnea humidade da carne, da carne dos lábios e da língua; tornando o beijo, a sublimação metafísica da dentada».

Ela (tentando estancar o sangue do lábio fendido): "Gostava de te poder aplaudir e recomendar o teu ensaio aos amigos, mas não sei se o farei. A minha maneira de contribuir será acrescentar-lhe uma experiência nova, não escrita - a do beijo da morte. Que descerá sobre ti uma destas noites, quando a tua maçã-de-Adão fulgurar no escuro como uma presa apetecível".

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