Catársis

Um ovo é um ovo, mesmo um ovo grande como o da avestruz mas, quando uma colega lhe ofereceu um desses ovos, Fânia disse logo para o marido: "Esqueça a omelete. Não o vamos comer, ovos destes não são para comer!", e inspirada pelas suas inclinações herméticas, arranjou uma base em louça para suster o ovo em pé numa prateleira da sala e, com esmero, desenhou na sua superfície branca os aneis de uma serpente, e no espaço deixado entre eles, as palavras em grego dum verso de um hino órfico.
Sentiu-se orgulhosa do resultado. Mas um ovo é um ovo, mesmo um ovo grande de avestruz dedicado ao vencedor da morte. Semanas depois, começaram a sentir um cheiro estranho na casa, cheiro a coisa podre, talvez um ratito nalgum sofá, ou um resto de hambúrger largado nalguma gaveta. Vasculharam a casa de uma ponta à outra, fizeram limpezas e arejaram tapetes e cortinados, mas o cheiro persistia. Só ao fim de dias de trabalho incansável é que lhes ocorreu qual podia ser a causa: o ovo apodrecera. Bastou aproximarem o nariz do ovo, para descobrirem que estavam certos.
Muito condoída, Fânia, enfiou o ovo num saco, muito bem fechado, e levou-o para o contentor do lixo, abriu a tampa e depositou o ovo no fundo, com cuidado, para não se partir. Depois, regressou a casa, inquirindo-se porque alguém escrevera no contentor verde do lixo, uma palavra tão em desuso como Zeus.

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