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Boris Vian - 2

De "O Outono em Pequim" (1956), de Boris Vian, um trecho da odisseia do protagonista, Amadis Dudu, para apanhar o autocarro 975:

«O quinto [autocarro] vinha cheio e todos os passageiros deitaram a língua de fora a Amadis e aos outros que estavam à espera.
«(...)Ia tentar apanhá-lo na paragem seguinte, onde costumava sair mais gente. Começou a andar de lado, de propósito, para que vissem que estava encolerizado. Tinha de percorrer aproximadamente uns quatrocentos metros e, enquanto isso, foi ultrapassado por vários outros 975 quase vazios. Quando finalmente chegou à loja verde que havia a dez metros da paragem, desembocaram, de um portão mesmo em frente, sete padres novos e doze crianças da escola com auriflamas idolátricas e fitas de cor. Dispuseram-se em volta da paragem e os padres colocaram dois lança-hóstias a servir de bateria, para que os transeuntes perdessem a vontade de esperar pelo 975. Amadis Dudu procurava lembrar-se da palavra de passe, mas do catecismo para cá já tinham decorrido uma boa porção de anos, e assim não conseguiu lembrar-se da palavra. Tentou aproximar-se às arrecuas, mas apanhou com uma hóstia enrolada nas costas, lançada com tal força que lhe cortou a respiração e o fez começar a tossir. Os padres riam e andavam numa azáfama em volta dos lança-hóstias que escarravam projécteis uns a seguir aos outros. Passaram dois 975 e os garotos ocuparam quase todos os lugares vazios.
«(...)Correu então a toda a velocidade para a paragem seguinte. Em frente, lá ao longe, podia ver a retaguarda do 975 e as chispas que levantava, e atirou-se para o chão porque o padre assestava o lança-hóstias na sua direcção. Ouviu a hóstia passar-lhe por cima com um barulho de seda queimada, e rolar na valeta.
«Amadis levantou-se todo sujo. Quase hesitava em ir para o escritório num tal estado de imundície, mas que diria o relógio de ponto? Doía-lhe o costureiro direito, tentou espetar um alfinete na face para fazer passar a dor; o estudo da acupunctura nas obras do doutor Bottine de Mourant era um dos seus passatempos; infelizmente não acertou bem com o sítio e curou, na barriga da perna, uma doença que ainda não contraíra, o que o faz atrasar».

(Boris Vian, O Outono em Pequim, Dom Quixote/Público, 1989)

1 comentário:

  1. É um excelente livro. Não sei porque acabei por não ler mais do Boris Vian, mas tenho, realmente, de o fazer.

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