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As sandálias do pescador

Pascoal não sabia o que fazer à vida, era pescador mas já não havia peixe no seu lago, nem para vender nem para comer, e, sem peixe, não tinha como alimentar a sua família e comprar roupa e livros para os filhos. A mulher lá ia cultivando a machamba, para as necessidades mais urgentes, haviam caído as primeiras chuvadas e isso era uma boa ajuda para ela. Mas ele precisava de uma solução, talvez procurar trabalho nas obras da estrada nova, ou ir até à cidade, a ver se encontrava onde ganhar dinheiro.
Pensava em tudo isso, à noite, na sua palhota, quando viu uma gravura no livro escolar da sua filha mais nova: um belo arco-íris que terminava num grande pote com moedas de ouro. Podia ser? Adormeceu a pensar nisso e, na manhã seguinte, como ouvisse chover, saiu a correr para o exterior e deu de caras com um lindo arco-íris, como o da gravura, uma faixa colorida a dividir ao meio a cúpula do céu. Observou melhor. Uma das pontas perdia-se no infinito, parecia nem tocar o solo, mas a outra acabava bem próximo, na outra margem do rio Zambeze, no meio duns montes com grandes penedos na crista.
Ás pressas, reuniu um pequeno farnel - umas côdeas de pão, farinha e peixe seco, juntou-lhe um pequeno tacho enegrecido pelo fumo, e o isqueiro. Calçou as suas sandálias remendadas e avisou a mulher ensonada que ia sair.
Perseguiu a cauda do arco-íris, andando o mais depressa que podia pelo capim cheio de pedras. Sempre que conseguia, corria um pouco, para susto das cobras no mato e dos lacraus nas rochas. Quando chegou à margem do Zambeze, o arco-íris tinha-se desvanecido, mas não desanimou, as nuvens no horizonte mantinham a sua esteira de chuva e ele havia de aparecer outra vez. Andando ao longo da margem, encontrou uns pescadores que se faziam à água num barco, pediu-lhes transporte em troca de um pouco de peixe seco, e eles levaram-no até ao outro lado, onde ele saltou do barco mal viu que tinha pé. Na viagem, contara ao que vinha e, enquanto agradecia, na margem, os pescadores cantavam alto, rindo-se muito dele.
Procurou um monte alto, donde tivesse uma boa vista do que o rodeava, e esperou, roendo uma côdea de pão. Não tardou e o arco-íris fez uma nova aparição, e Pascoal soube que tinha acertado no trajecto. O arco-íris acabava mesmo perto dele, uns dois montes para oeste. Largou tudo e começou a correr, venceu a primeira subida, atravessou um vale com bananeiras e subiu o segundo monte. Quando chegou ao cimo, viu onde acabava o arco-íris, ao mesmo tempo que ouviu um disparo e sentiu uma bala silvar junto à sua orelha.
No fundo do vale, estava o lugar do ouro, mas não era um pote, mas sim um monte, tão grande que se admirou de não o ter visto de mais longe, uma pilha de objectos de ouro e prata cravejados de jóias - crucifixos, turíbulos e palanquins, arcas a abarrotar de moedas de ouro, tendas douradas gravadas com versículos do Corão, e ídolos em ouro maciço das mais diversas formas e dimensões.
Várias pessoas montavam guarda ao tesouro, armadas com kalashnikovs e bazookas. O que o tentara alvejar era um frade, que o avisou num português anasalado, usando um megafone.
- Não tente aproximar-se, o chão está minado. Você não tem nada a fazer aqui, isto é ouro de Deus!
Sentou-se no chão, as forças haviam desaparecido dos seus membros. Em desespero, elevou a voz e expôs o seu caso.
- Sou pescador, mas já não há peixe no meu lago. Os meus filhos têem fome, não me podem dar uma moeda desse ouro todo?
- Espere! Tenho de falar com o Chefe! - Disse, olhando a medo para o alto.
Viu-o aproximar-se de uma pequena mesa coberta com um manto de veludo, sobre a qual repousava um interfone. Premiu um botão e, após vários salamaleques, começou a falar, de cabeça baixa e reverente. Finalmente, viu-o assentir mudamente com a cabeça, benzer-se e recuar até ao megafone.
- O Chefe diz que não, nada feito, todas as riquezas que aqui existem são para o Seu exclusivo deleite. Mas disse também para você voltar a casa e não se preocupar. O seu lago tem peixes outra vez, e os seus filhos não voltam a passar fome.
Agradeceu, com lágrimas nos olhos, e tomou o caminho de volta. Ao chegar ao rio, teve uma surpresa, o rio tinha o dobro da largura de antes, deviam ter aberto as comportas da Barragem. Foi difícil encontrar um transporte para o outro lado, mas conseguiu-o.
A euforia inicial deu lugar a uma indizível angústia, que se confirmou quando se viu de novo diante do lago. As águas haviam subido, e tinham coberto a sua palhota quase até ao cimo e afogado toda a sua família. De novo com lágrimas nos olhos, mas de dor, retirou das águas os corpos da mulher e dos filhos e sepultou-os nas margens enlameadas do lago. Tomou banho no lago para descascar a lama seca e procurou o que restava das suas redes de pesca, para as reparar. Sempre, sem olhar o céu.

(fantasia inspirada na novela homónima de Morris West)

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