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A mostrar mensagens de Maio, 2008

Amy Winehouse - Rehab

Quem a viu no palco ontem, viu uma sombra, num suplício com a duração de uma hora.
Esta é a Amy que esperamos de volta, em cuja voz ressoam gerações de cantores Soul

Coração mole

- Não sou um insensível, um tosco, percebes? É verdade, que faço tudo pela carne, que vivo para a perseguir, que vivo dia e noite para isso, percebes? Mas não sou indiferente, eu preocupo-me contigo, procuro dar-te sustento e abrigo, quero que te sintas confortável porque tenho sentimentos, tinha de deixar-te a minha marca mas custou-me muito, como me vai custar muito, perder-te um dia. Percebes? - Muuu! - respondeu a vaca.

Asiram

Cansado de não ter dinheiro e andar sempre a fazer contas, semeou no jardim umas sementes que lhe trouxeram de Macau, da árvore das patacas. Regou a terra, cuidou da sementeira, mas as sementes deviam estar estragadas e não nasceu nada.
Sem desistir, revolveu e adubou outro quinhão de terra, e semeou Euromelões.

post-cards

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Como subproduto de andar a vasculhar livros em alfarrabistas, de quando em vez comprava um postal antigo como o da ilustração, que usava como marcador de livro. Juntei alguns (não é uma colecção) de fins do século XIX, princípios do seguinte. Os temas onde recaía a minha escolha, eram quase sempre fotos "turísticas", alguns retratos, uma ou outra foto artística que, se fosse mais esfumada, pareceria as fotos de fantasmas que figuram nos livros da especialidade.

Admiro a caligrafia cuidada dalguns desses postais. Dispondo de um espaço reduzido para escrever, por vezes escrevia-se sobre a foto e, noutras, num recurso curioso, em vez de se apertar a distância entre as linhas, escrevia-se regularmente como se isso não fosse um problema e, acabando o espaço, escrevia-se na perpendicular sobre o texto anterior, e o espantoso, é que as palavras nos dois sentidos se lêem com nitidez apesar dos cruzamentos.

Muitos postais nunca chegaram a ser escritos, outros encerram uma mensagem form…
João tem Sida e esconde-o, transmitindo-a deliberadamente à sua mulher e mulheres. Quando se descobre, elas incriminam-no, todas, a legítima e as de belas legs. No tribunal, João justifica-se: «Sempre tive medo de morrer sozinho!».

O sensível protesto de uma buzina, tirou-a de se enfiar na estrada, voltou ao passeio, compôs a saia, alisou uma prega, olhou-se com asseio, desviou-se de um cão, chamou um conhecido que passava num carro, olhou o seu rosto angular na vitrina arredondada de uma loja de puzzles cúbicos, voltou à estrada, pisou as listas da zebra, insultou a fumarada contínua de um camião de bebidas, sorriu a um desconhecido e pôs o primeiro pé no passeio da margem oposta e logo voou de repelão, o motociclista segurava a sua mala, de esticão, e ela voando, esticada atrás dela, os cabelos revoltos, ela ainda mais revoltada, gritando no alcatrão: Meu cofrinho não! Te faço um servicinho!
Traiu o marido num acampamento de montanha nos Himalaias, e logo com o guia Sherpa.
O marido iniciou um divórcio litigioso, acusando-a de alta traição.

Viveu tantos anos a virar as costas à luz e a pisar a sua própria sombra que, quando precisou dela, a sua sombra tinha-o abandonado.
Morreu nas areias, ao meio-dia.

A pizzaria orgulhava-se de apostar na inovação e surpreender os clientes fiéis. Nos últimos dias, suprimiu da ementa a pizza Bella Napoli, oferecendo, em seu lugar, a Bella Camorra.

Mar de Sargaços

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Uma sala ampla, com mesas decoradas com búzios envernizados e limos secos, as pessoas andam de um lado para o outro, de polegar ao alto com um triângulo de pano branco atado a ele, como a vela dum navio.
Passam por mim, que estou quieto a querenar, e exclamam:
- Não é a ti que eu procuro!!
Ao que eu respondo, num sussurro de confessionário:
- Não sou eu quem aqui está!

Boddah

Na sua infância, descobriu ao seu lado um amigo imaginário, e deu-lhe um nome, Boddah. Brincava com ele, conversavam, inventavam jogos, mas Boddah não podia sair do seu quarto - o Sol, o barulho, a simples respiração das outras pessoas eram o suficiente para o envenenar e matar.
Enquanto foi pequeno, conseguiu cuidar do amigo e fazer-lhe companhia, para ele não se sentir só. Trazia-lhe coisas da rua, pedrinhas engraçadas e brinquedos, e deixava-lhe biscoitos no topo do roupeiro, para o seu amigo trincar. Eram felizes como muitas pessoas nunca conseguem ser.
Quando entrou para a escola, as coisas complicaram-se, havia cada vez mais coisas para ser e fazer na rua, e o escárnio dos amigos ao seu amigo imaginário fez com que tentasse negar para si mesmo que Boddah existia, e o tempo que passava no seu quarto transformou-se numa desconfortável sucessão de silêncios, a ponto de só ir para o quarto na hora convencionada para dormir, e já com o sono a pesar-lhe nos olhos.
Quando já tinha complet…

As sandálias do pescador

Pascoal não sabia o que fazer à vida, era pescador mas já não havia peixe no seu lago, nem para vender nem para comer, e, sem peixe, não tinha como alimentar a sua família e comprar roupa e livros para os filhos. A mulher lá ia cultivando a machamba, para as necessidades mais urgentes, haviam caído as primeiras chuvadas e isso era uma boa ajuda para ela. Mas ele precisava de uma solução, talvez procurar trabalho nas obras da estrada nova, ou ir até à cidade, a ver se encontrava onde ganhar dinheiro.
Pensava em tudo isso, à noite, na sua palhota, quando viu uma gravura no livro escolar da sua filha mais nova: um belo arco-íris que terminava num grande pote com moedas de ouro. Podia ser? Adormeceu a pensar nisso e, na manhã seguinte, como ouvisse chover, saiu a correr para o exterior e deu de caras com um lindo arco-íris, como o da gravura, uma faixa colorida a dividir ao meio a cúpula do céu. Observou melhor. Uma das pontas perdia-se no infinito, parecia nem tocar o solo, mas a outra ac…
Vivia e funcionava com uma fidelidade maníaca aos seus ritos e calendários próprios, tinha horas cronometradas para tudo o que fazia, e intrincados e canónicos ritos para as coisas mais simples, como vestir-se ou lavar os dentes. Habituara-se a viver sozinho e não conseguiria viver com mais ninguém, não podia ceder um décimo das suas rotinas ao turbilhão indomável das rotinas e hábitos doutra pessoa. A sua casa, os percursos de todos os dias, estavam já povoados por uma multidão de deveres e gestos fixados por relógios com alarmes que nunca eram desactivados, e que passavam de um dia para o outro com a mesma fixidez tirânica. Quando chegou a sua hora de partir, a morte correspondeu ao seu modo regrado de viver. Chegou a um fim-de-semana, um Domingo, quando ele cochilava no sofá, quinze minutos de repouso antes que o alarme do relógio de pulso soasse para o arrancar dali e pô-lo a caminho da missa. A morte suspendeu os seus ritmos orgânicos num momento oportuno. Estava bem-vestido e per…

Passa a palavra

De José Eduardo Agualusa:

«Regressamos sempre aos velhos lugares aonde amámos a vida. E só então compreendemos que não voltarão jamais todas as coisas que nos foram queridas. O amor é simples, e o tempo devora as coisas simples».

Cão Maior

Na minha vizinhança há dois cães rafeiros de pouca-estimação, que são ícones habituais nas andanças e paranças dos nossos passos. Há um mais pequeno de pernas finas e orelhas arrebitadas, que não enfrenta as pessoas, mas também não as teme, talvez por ninguém ainda se ter lembrado de o maltratar. Parece-me um cão de caça perdido, deixado para trás nalguma caneira enquanto procurava tenazmente a presa abatida pelo seu dono. E depois, há um cão maior, de pelo castanho lustroso e com uma coleira descolorada que já foi vermelha. É grande e um pouco intratável, ladra aos carros e, por vezes, lembra-se de rosnar quando passamos, desaconselhando familiaridades de maior. Este não é propriamente um rafeiro, e também não é um perfeito desconhecido. O cão era do Mendes, que morava na casa alpendrada junto à estrada. Já era assim com o Mendes vivo, gostava de se perfilar no pequeno alpendre e ladrar a tudo quanto passava, mas o Mendes mandava-lhe dois berros e ele calava-se e ia de mansinho deita…

Cão Menor

Já tinha saído de casa para o seu passeio matinal, quando reparou bem nas nuvens - escuras, a cobrir quase todo o céu, com o Sol a insinuar-se nos interstícios. Voltou para dentro, trocou os ténis por umas botas, vestiu um impermeável com capuz, e saiu novamente à rua. Já tinha andado uns cinquenta metros quando achou que ainda faltava qualquer coisa, voltou ao seu quintal, deixou o Boxer que ia levar a passear, e colocou antes na trela o seu Cão de Água.

Um livro que gostamos mesmo de ler, que nos apaixona, não importa se é velho de séculos ou se foi traduzido dezenas de vezes para milhares de leitores, faz-nos sempre sentir, como na frase de Thoreau: a primeira aranha numa casa nova.

Mar da cor do fogo

Scilax, o geógrafo trácio dos portos do Eritreu, podia descender desses primeiros sapiens que se refugiaram nas grutas do Cáucaso, e que conheciam o fogo prometaico e sabiam como talhar o sílex.

Às duas por três não é um bom argumento para explicar a santíssima trindade nem nada que seja santo ou trinitário como o concílio de trento e o santo lenho que o pastor usa na sua lareira para se aquecer, não é nem poderia ser porque duas é um número redondo, perfeito, como as mulheres que vão juntas aos sanitários e as putas que juntas andam a polir as esquinas, ofício polido e meticuloso onde concorrem com os polícias, duúnviros de polícias, que acordam mais cedo do que elas para reservarem e ocuparem as esquinas mais soalhentas e com menos fumo, tão entretidos na sua garbosa idiotia que as deixam vagas sob as estrelas;
O às duas por três sugere um encadeamento histórico, primeiro havia o velhote e a pomba e às duas por três apareceu o filho concebido a meias pelos dois, mas que já existia antes do princípio dos tempos, tal-qal a galinha deprimida que vê nascer do seu ovinho o tataravô falecido com barba e caveira e tudo; DUAS, a pomba e o velhote porque ninguém me diz que o velhote não é uma velhot…

The Deer Hunter

Deer Hunter - Final Hunt

Fechado numa jaula do Zoo, sem a visão do Kilimanjaro e comendo amendoins, o elefante bravio teve uma morte macaca.

Éssémeésse oblige

- Queres sair este fim-de-semana, amor? Podíamos dar um passeio, alugar um quarto numa pensão à beira-mar, dar longos passeios pela praia, comer e beber vinho num restaurante com vista sobre o azul, fazer amor. - Não, não posso, aderi a uma promoção da operadora e deram-me duzentos Sms's para gastar em dois dias. Estava a ver se me lembrava de nomes...

Os cegos e o elefante

Os amigos haviam-se reunido à mesma mesa, no comes-e-bebes de um casamento. Já não se viam há alguns anos, tinham vivido sempre perto uns outros mas seguindo trajectórias distintas como fios paralelos e incruzáveis duma mesma trama. Somos todos amigos e todos gostamos de fotografia, disse o Luís, porque não juntamos os nossos trabalhos e compomos um livro? Deve haver editoras que pegam nesse tipo de trabalho, cada uma escrevia também umas frases ou haicais para enriquecer as imagens. Os amigos gostaram da ideia, linquaram-se durante meses, trabalharam no projecto, e o livro saiu, melhor do que qualquer um deles esperava. E vendeu-se bem, coisa insólita e, por arrrrastamento, a editora propôs que compusessem um novo livro. Desta vez, o Luís puxou dos galões, a ideia fora dele, era o seu projecto, que nascera de si como um filho, e isso tinha de ficar bem explícito na introdução, a sua ideia era o elefante, o todo, enquanto o trabalho dele e dos amigos representava partes individualizad…

Aranhices

Alguém que queria saber, procurou por canções de embalar gregas. O browser pegou em fracções de frases e links e compôs estas frases enigmáticas:

As letras gregas - revolucionarias por sua própria natureza - provocam sismos ... Poesia Para Embalar e Abalar - Poemas & Poetas: Camões, Bocage, Carlos Drummont, ...

Filme de embalar infâncias, a idade, porém, torna-o num ícone da pior lamechiche ... As canções, todavia, escondem-se algures nas memórias e persistem na guerrilha. ...

No meu sonho de Alexandria, encontro livros, muitos livros, em rolo, arrumados em nichos na parede, e eu consigo lê-los, eu, medíocre monoglota, consigo lê-los, e leio na sua forma copiada, mas também na sua forma original, do exacto modo como viajaram no bojo de veleiros e trirremes até ali chegarem,
o meu guia emprestou-me a sua bengala, a bengala com que percorre os jardins suspensos, com ela, todas as línguas e todos os géneros de escrita se tornam compreensíveis, e não só me revelam as suas palavras em toda a vastidão do seus múltiplos significados, como, diante dos meus olhos, o que leio nesses livros se enriquece e se expande, gerando novas narrativas e descrições.
No meu sonho de Alexandria, a alegria de conseguir ler todos esses livros prodigiosos, só tem par na gratidão que sinto pelo guia que me franqueou as suas portas, ele, que me olha sem olhar, e que esboça um sorriso tranquilo quando lhe digo: "Obrigado, Borges!".

Boris Vian - 2

De "O Outono em Pequim" (1956), de Boris Vian, um trecho da odisseia do protagonista, Amadis Dudu, para apanhar o autocarro 975:

«O quinto [autocarro] vinha cheio e todos os passageiros deitaram a língua de fora a Amadis e aos outros que estavam à espera. «(...)Ia tentar apanhá-lo na paragem seguinte, onde costumava sair mais gente. Começou a andar de lado, de propósito, para que vissem que estava encolerizado. Tinha de percorrer aproximadamente uns quatrocentos metros e, enquanto isso, foi ultrapassado por vários outros 975 quase vazios. Quando finalmente chegou à loja verde que havia a dez metros da paragem, desembocaram, de um portão mesmo em frente, sete padres novos e doze crianças da escola com auriflamas idolátricas e fitas de cor. Dispuseram-se em volta da paragem e os padres colocaram dois lança-hóstias a servir de bateria, para que os transeuntes perdessem a vontade de esperar pelo 975. Amadis Dudu procurava lembrar-se da palavra de passe, mas do catecismo para cá j…
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O homem era de compleição branquíssima, talvez fosse um albino, ela não sabia dizer como era um albino porque não sabia como os reconhecer, mas talvez fosse um, só podia ser. Como todas as semanas, lá estava ele ao balcão do Vídeo clube, empilhando um monte de Dvd's para alugar. E as suas mãos! Magras e ossudas, de uma brancura anémica, ela achava que se tocasse numa delas, a pele pareceria farinha ao tacto.
A jovem começou a resgatar os filmes pelas capas empilhadas no balcão. A pergunta aflorava-lhe teimosamente aos lábios como um eflúvio do espírito e, por fim, não foi capaz de a reprimir mais e ela saiu como um arroto.
- Desculpe a pergunta, senhor, mas de onde vem o seu nome, Jerome?
- Como de onde vem? Fui baptizado assim...os meus pais eram muito originais em tudo!
- É que Jerome não é um nome muito comum, aliás, até acho que é um dos nomes que não são aceites nos registos de nascimento. E o senhor, sempre assim bem vestido, suscita-me divagações cinematográficas.
- Não percebo…

Minguante

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O número 10 da revista Minguante já está nas bancas, tendo por virtude os Vícios. Se o tema lhe parece redutor, verifique o que se consegue fazer com ele! (o meu vício ao círculo)

(imagem pilhada aqui)
- Fui feliz - é isso que te digo - mas já passou tudo! - Ah! Não seja tonto, o senhor ainda é uma pessoa nova e com saúde, tem tanto pela frente, vai ver, ainda arranja aqui uma companhia para lhe aquecer os pés, e olhe que candidatas não faltam... - Não, Maria da Luz, as pessoas são como as estrelas que eu tanto estudei, passam metade da sua vida a crescer e irradiar, ameaçando engolir os planetas e as luas que iluminam, depois, começam a regredir, a meter-se para dentro, sempre mais pequenos e concentrados e, por fim, a implosão torna-se completa e não são mais do que uma esfera infinitamente densa onde está encerrada todo o seu espírito e todo o seu desejo. Essa esfera, esse microscópico buraco negro, permanece com os ossos debaixo da terra, no lugar do coração, do cérebro ou do fígado, até um dia desaparecer dali para reaparecer na massa de uma outra estrela em formação. Eu estou quase lá, Maria da Luz, os meus olhos azuis só irradiam a luz mortiça e condenada de uma estrela anã. - L…

Eva

Ele (passando a lingua sobre as gotículas de sangue nos lábios): «Não me canso de o fazer e acredito que é uma obsessão recalcada dos humanos, o beijo nasceu da mordida e eu não me canso de te morder, morder-te as faces, os lábios, os ombros. Sou um etólogo com um profundo conhecimento da psicologia humana, e este meu trabalho vai levar as pessoas a redescobrirem-se. O beijo é a mordidela espiritualizada, ao marfim dos dentes adicionou-se a ígnea humidade da carne, da carne dos lábios e da língua; tornando o beijo, a sublimação metafísica da dentada».
Ela (tentando estancar o sangue do lábio fendido): "Gostava de te poder aplaudir e recomendar o teu ensaio aos amigos, mas não sei se o farei. A minha maneira de contribuir será acrescentar-lhe uma experiência nova, não escrita - a do beijo da morte. Que descerá sobre ti uma destas noites, quando a tua maçã-de-Adão fulgurar no escuro como uma presa apetecível".

Catársis

Um ovo é um ovo, mesmo um ovo grande como o da avestruz mas, quando uma colega lhe ofereceu um desses ovos, Fânia disse logo para o marido: "Esqueça a omelete. Não o vamos comer, ovos destes não são para comer!", e inspirada pelas suas inclinações herméticas, arranjou uma base em louça para suster o ovo em pé numa prateleira da sala e, com esmero, desenhou na sua superfície branca os aneis de uma serpente, e no espaço deixado entre eles, as palavras em grego dum verso de um hino órfico. Sentiu-se orgulhosa do resultado. Mas um ovo é um ovo, mesmo um ovo grande de avestruz dedicado ao vencedor da morte. Semanas depois, começaram a sentir um cheiro estranho na casa, cheiro a coisa podre, talvez um ratito nalgum sofá, ou um resto de hambúrger largado nalguma gaveta. Vasculharam a casa de uma ponta à outra, fizeram limpezas e arejaram tapetes e cortinados, mas o cheiro persistia. Só ao fim de dias de trabalho incansável é que lhes ocorreu qual podia ser a causa: o ovo apodrecera.…
- O su marido manda sôdade - anunciou a médium com o seu sotaque dos Balcãs.
-Saudade de quê? De quê?
- Do cozidu, da cadêrra do quarrto, do licô de maçã casêirro, do tabaco denrrolar, do biquinho de Sábado à nôte!
- Pergunte a ele do ouro, onde é que ele guardava o ouro?
- ...Nô se lembrra, o coitado...vou terminarr a ligassom, over and out...seu marrido muito trriste, casa sua muito suja, muito trriste...
- É verdade, não tenho tido cabeça para nada...
- Sua casa terr cave, nom?
- Sim, tem uma cave, foi ele que disse?
- Nom, nom, estava a pensarr, minha nora faz limpeza, muito barrato, se senhora quiserr eu vô lá com ela e nós limpa tudo, cave e tudo, muito barrato, e passarr a ferro, se precisarr...
- Está bem, pode ser, eu vou dar-lhe a morada e podemos falar do pagamento.
- Pag'mento pequeno, senhorra dar a chave e irr sua vida, nós trabalharr melhó sozinha...

Marlboro Transformer II

(o inimigo entre nós)

Transformers 2 Trailer (2009)

(A Grande Ameaça)

Farturinha

Comprei livros para encher uma estante de sala. (A estante é enorme). Comprei um Dicionário de Sinónimos, largo, mas não descomunal. Depois, um Dicionário de Antónimos, descomunal, mas que, ainda assim, não cobriu um vigésimo da largura da estante. Por fim, apliquei o dinheiro num Dicionário de Anónimos, e não precisei de comprar mais livros, porque já não cabiam.


(P.S.: leva-se mais tempo e dispendem-se mais palavras a explicar o que uma coisa não é, do que a explicar o que ela significa)

«Canção Simples»

- Ana, sabes que eu gosto do Luís?
- Sei, Teresa, vocês andam sempre juntos, a comer na mesa, quando estão a jogar, nos passeios que a gente faz. Onde anda um, anda o outro.
- O meu pai não gosta do Luís, diz que ele tem os dentes feios.
- Mas tu gostas?
- Sim, muito! Ele ontem deu-me um beijo aqui - contou, encostando uma unha ao canto do lábio - eu gostei muito.
- Isso é que importa, que tu gostes dele. E vocês já se conhecem há mais de trinta anos.
- O meu pai ficou chateado comigo...
- Por causa do beijo?
- Não, porque eu lhe disse que, um dia, eu vou casar com o Luís.

- Então, que tal te estás a dar com o novo director?
- Mal chegou, e já me pôs debaixo da asa!
- Não me digas!
- É verdade, fechou-se comigo no gabinete e, a falar da precariedade dos postos de trabalho e da dinâmica da ascensão na empresa, forçou-me, por assim dizer, a fazer coisas...
- Que coisas?
- Minutas de cartas...
- O porco, mete-nojo!
"...uma circular para os empregados,
- Tarado dum raio, lá em casa deve ser o jardineiro que cuida da mulher dele.
"Ah, e ainda me fez fazer uma gravação dos assuntos que ele quer que constem da acta da próxima reunião de direcção!".
- E tu? Não reagiste?
- Eu? Eu só lhe disse a meio da coisa, que se não me aumentasse no fim do mês, não lhe fazia mais nenhum.

Arma secreta

- Senhores e senhoras, apresento-vos o Óscar, o nosso mais recente nadador olímpico, já devidamente registado e inscrito. Estou confiante que o Óscar vai-nos conseguir uma medalha, aliás, não uma mera medalhinha, mas o medalhão, o mais alto, a medalha do Sol. Agora, libertem a piscina, para ele fazer uma demonstração. Abriu o saco com água e despejou-o na piscina; liberto, o Óscar saiu a nadar, veloz mas desorientado, o seu corpinho ágil pintado com as cores da bandeira correu em ziguezagues toda a piscina para lhe conhecer os limites. Entre as risadas dos consagrados e o desespero do treinador, foi chamado o cozinheiro da equipa, que apanhou o Óscar com uma rede de limpeza e o levou para a roulote-cozinha. No seu antro pantagruélico, o cozinheiro contemplou indeciso o corpo do Óscar. Não sabia se o ia preparar, ou deitá-lo fora, e, por fim, acendeu o lume a uma frigideira e limpou o corpo morto, cortando-o em olímpicos medalhões.

- Queres ir praticar queda livre?
Olhou os dois rapazes, sem saber o que lhes responder, mas seguiu-os à mesma quando eles começaram a subir as escadas da Escola, com as mochilas a sacolejar nas costas.
Primeiro, segundo, terceiro piso, o último, com uma varanda a todo o comprimento. Notando que ele vinha atrás, estudaram atentamente o solo lá em baixo, dando tempo para recuperarem o fôlego. Num ápice, estava um de cada lado e ele pensou de imediato: "Estou feito, vão-me atirar aqui de cima!".
- O nosso pai tem uma empresa, tem muito dinheiro - contaram em voz baixa.
E como se o quisessem demonstrar, abriram as mochilas e mostraram-lhe o material de desenho praticamente novo, os compassos, esquadros, caixas de minas; mais os livros e cadernos, e um MP3 de serviço enfiado numa divisória da mochila. Em seguida, fecharam as mochilas e arremessaram-nas no vácuo e ficaram a admirar o seu trajecto até chocarem com o solo numa nuvem de pó.
Ficou pasmado, os irmãos saltavam de alegria, d…

Farol, e farol

O estranho de estar num quarto de Hotel de frente para o mar, era o foco cíclico da luz do Farol que varria as vidraças. Estava abafado, levantei-me na semi-obscuridade, tentando não acordar os meus irmãos, e cheguei-me à janela. Levantei uma ponta do cortinado. Havia cacimba lá fora, espessa como rama de algodão esfiado, mas conseguia-se ver o contorno da marginal da Beira, as palmeiras junto à praia e o Farol a dominar tudo como um ciclope ínsone. Em trechos iluminados da praia havia silhuetas que se moviam, e achei que deviam ser pescadores, a enfrentar as águas do Índico. Devia ser quase manhã, porque já se distinguia uma faixa mais clara de céu na linha do horizonte.

Aquela cacimba fazia um contraste terrível com o bom tempo da véspera! Eu e os meus irmãos havia-mo-nos aventurado no mar com uns rapazes amigos, empoleirados na câmara-de-ar dum pneu de tractor que nos servia de bóia gigante. Agarrávamo-nos às cordas que envolviam a borracha e assim resistíamos as sacudidelas das ond…

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Lucky Luke não era daltónico: ele nunca se esquecia de contar os irmãos Dalton.


«força da natureza»

O parque da cidade é o único espaço verde digno de nota, não era apenas o pulmão da cidade, era a terra, o húmus, a alma, o único ponto onde as energias telúricas emergiam sem serem asfixiadas por uma malha de cimento, gravilha e alcatrão. Quem visitasse apressadamente o parque, poderia achá-lo um parque convencional, com os seus relvados, lagos artificiais, passeios marginados por canteiros de flores, e bancos com memória para velhos ociosos e jovens namorados. Mas quem nele se demorasse um pouco mais, acabava por encontrar e intrigar-se com a figura do Vargas. O Vargas não era um sem-abrigo, a sua casa era o parque e, como não conseguisse tirá-lo dali, a municipalidade deu-lhe um uniforme de guarda; e de um outro guarda, que morava ao pé do parque, recebeu as facilidades de poder ir a sua casa para comer e tomar banho. O Vargas não fazia mais nada senão andar e divagar pelo parque, e gostava de se sentar no chão, entre as raízes das árvores, rodeado de pássaros e esquilos que cirand…

Projecto

Nascido numa família de pescadores, passou os primeiros meses de vida num berço de vime com o formato de um barco, as suas canções de embalar eram toadas de marinheiros; barcos e peixes os enfeites dos seus guizos e pulseirinhas de prata. Enquanto crescia, todos esperavam que ele se fizesse homem de mar, mas a sua vocação deu um nó cego quando ele experimentou a paixão de navegar na Web.

Professor Balthazar (Bal-Bal-Baltazar)

Não me lembrava muito bem da série, mas a música é outra história, e é a razão pela qual, em cerimónias solenes e velórios, não se deve repetir a sílaba "Bal" a um português de trinta ou quarenta anos.

or

A sua antiga namorada apareceu em sua casa com uma criança pequena pela mão, dois anos apenas.
- Chama-se Luís, e é teu. Tem os teus olhos, o sinal no ombro, o teu riso áspero, as pernas arqueadas e a pele de lixa nos joelhos e cotovelos.
-...
- Não dizes nada?
- Não sou uma ovelha, e não podes andar por aí a clonar-me sem o meu consentimento.


"Sinto saudades de outros tempos, do tempo em que abriam as portadas das janelas como se descerrassem as minhas pálpebras e o sol entrava, indicando o caminho ao perfume das rosas do jardim e a alguma ocasional vareja ou borboleta, e os jantares elaborados no salão onde se conversava e comia sem pressas, antes do Porto que os homens bebiam na biblioteca enquanto as mulheres se juntavam em volta do piano da sala onde a senhora tocava uma sonata, e as crianças inocentes no quarto das brincadeiras, com os seus brinquedos com rodas, bonecas de porcelana, e carros de lata, sinto saudades das noites à lareira onde se falava de colheitas e peças de caça, do calendário e dos dias da novena, e sinto saudades daquela criadinha triste que o patrão violentava e que tantas vezes chorou no meu peito na solidão do seu quarto antes de derramar o seu sangue no lugar onde antes derramava as suas lágrimas, mas...espera! Está alguém a entrar, tantos anos depois, tiveram de deitar abaixo a porta porq…