INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Amy Winehouse - Rehab

Quem a viu no palco ontem, viu uma sombra, num suplício com a duração de uma hora.
Esta é a Amy que esperamos de volta, em cuja voz ressoam gerações de cantores Soul

Coração mole

- Não sou um insensível, um tosco, percebes? É verdade, que faço tudo pela carne, que vivo para a perseguir, que vivo dia e noite para isso, percebes? Mas não sou indiferente, eu preocupo-me contigo, procuro dar-te sustento e abrigo, quero que te sintas confortável porque tenho sentimentos, tinha de deixar-te a minha marca mas custou-me muito, como me vai custar muito, perder-te um dia. Percebes?
- Muuu! - respondeu a vaca.

Asiram

Cansado de não ter dinheiro e andar sempre a fazer contas, semeou no jardim umas sementes que lhe trouxeram de Macau, da árvore das patacas. Regou a terra, cuidou da sementeira, mas as sementes deviam estar estragadas e não nasceu nada.
Sem desistir, revolveu e adubou outro quinhão de terra, e semeou Euromelões.

post-cards

Como subproduto de andar a vasculhar livros em alfarrabistas, de quando em vez comprava um postal antigo como o da ilustração, que usava como marcador de livro. Juntei alguns (não é uma colecção) de fins do século XIX, princípios do seguinte. Os temas onde recaía a minha escolha, eram quase sempre fotos "turísticas", alguns retratos, uma ou outra foto artística que, se fosse mais esfumada, pareceria as fotos de fantasmas que figuram nos livros da especialidade.

Admiro a caligrafia cuidada dalguns desses postais. Dispondo de um espaço reduzido para escrever, por vezes escrevia-se sobre a foto e, noutras, num recurso curioso, em vez de se apertar a distância entre as linhas, escrevia-se regularmente como se isso não fosse um problema e, acabando o espaço, escrevia-se na perpendicular sobre o texto anterior, e o espantoso, é que as palavras nos dois sentidos se lêem com nitidez apesar dos cruzamentos.

Muitos postais nunca chegaram a ser escritos, outros encerram uma mensagem formal: a resposta agradecida a um postal que se recebeu, os postais a desejarem felicidades no aniversário ou casamento, outros, a perguntar como decorreu uma dada viagem, ou como vai a saúde dum familiar.

Fortuitamente, alguns postais que se encontra transmitem histórias, dramas, ausências magoadas, e fazem-nos escutar pessoas como as que existem hoje, comuns, formais, sofridas ou patéticas.

Um, para uma dona Izabel Tavares, de Lisboa, com a foto duma matrona a ler um livro ao lado de uma mesa com flores, reza assim: Minha querida avôzinha. Dezeijo que passe um ano muito feliz na companhia da sua netinha, visto que os outros netos não quizeram saber da vozinha, ai lhe mando esse livro para se enterter e não pensar no meu mano malvado, e esse raminho de flôres para pôr na meza.

O de um 1922, de um Sergio Pinto para seu pae, no seu aniversário natalício, deseja-lhe, com uma elegância que perdemos, um "porvir ridente de prosperidades".

Tenho um postal com a foto duma adolescente com um enorme chapéu branco, hirta e de semblante triste. Escrito para Felizberto Guedes, Benguella-Bihé, Africa Occiddental, deixa-nos esta mensagem: Meu querido papá / O que mais desejo é que esteja de saude. Participo que fiz exame do 2º grau e fiquei approvada com distinção Peço-lhe que veinha em breve para nos matar as saudades porque faz cá muita falta. Há já muito tempo que não recebemos noticias suas. Espero que assim que receber este meu bilhete me responda logo. Sua filha m. to amiga. Judith.

Um outro postal, de teor mais leve, exibe o nome Gabriela rubricado sobre a figura de uma senhora de vestido branco com um livro aberto e um ramo de flores no regaço. O texto é curioso: Meu querido maridinho/ Tua mulher deseija-te que passes as tuas 29 primaveras muito feliz e que para o ano que vem já tenhas dinheiro para comprares um colchão de arame para me não doêr tanto os meus ossos, aceita um beijo por escrito visto não ser em carne, da tua mulher muito amiga, Gabriela Reis, Lisboa.

João tem Sida e esconde-o, transmitindo-a deliberadamente à sua mulher e mulheres.
Quando se descobre, elas incriminam-no, todas, a legítima e as de belas legs. No tribunal, João justifica-se: «Sempre tive medo de morrer sozinho!».

O sensível protesto de uma buzina, tirou-a de se enfiar na estrada, voltou ao passeio, compôs a saia, alisou uma prega, olhou-se com asseio, desviou-se de um cão, chamou um conhecido que passava num carro, olhou o seu rosto angular na vitrina arredondada de uma loja de puzzles cúbicos, voltou à estrada, pisou as listas da zebra, insultou a fumarada contínua de um camião de bebidas, sorriu a um desconhecido e pôs o primeiro pé no passeio da margem oposta e logo voou de repelão, o motociclista segurava a sua mala, de esticão, e ela voando, esticada atrás dela, os cabelos revoltos, ela ainda mais revoltada, gritando no alcatrão: Meu cofrinho não! Te faço um servicinho!
Traiu o marido num acampamento de montanha nos Himalaias, e logo com o guia Sherpa.
O marido iniciou um divórcio litigioso, acusando-a de alta traição.

Viveu tantos anos a virar as costas à luz e a pisar a sua própria sombra que, quando precisou dela, a sua sombra tinha-o abandonado.
Morreu nas areias, ao meio-dia.

A pizzaria orgulhava-se de apostar na inovação e surpreender os clientes fiéis. Nos últimos dias, suprimiu da ementa a pizza Bella Napoli, oferecendo, em seu lugar, a Bella Camorra.

Mar de Sargaços

Uma sala ampla, com mesas decoradas com búzios envernizados e limos secos, as pessoas andam de um lado para o outro, de polegar ao alto com um triângulo de pano branco atado a ele, como a vela dum navio.
Passam por mim, que estou quieto a querenar, e exclamam:
- Não é a ti que eu procuro!!
Ao que eu respondo, num sussurro de confessionário:
- Não sou eu quem aqui está!

Boddah

Na sua infância, descobriu ao seu lado um amigo imaginário, e deu-lhe um nome, Boddah. Brincava com ele, conversavam, inventavam jogos, mas Boddah não podia sair do seu quarto - o Sol, o barulho, a simples respiração das outras pessoas eram o suficiente para o envenenar e matar.
Enquanto foi pequeno, conseguiu cuidar do amigo e fazer-lhe companhia, para ele não se sentir só. Trazia-lhe coisas da rua, pedrinhas engraçadas e brinquedos, e deixava-lhe biscoitos no topo do roupeiro, para o seu amigo trincar. Eram felizes como muitas pessoas nunca conseguem ser.
Quando entrou para a escola, as coisas complicaram-se, havia cada vez mais coisas para ser e fazer na rua, e o escárnio dos amigos ao seu amigo imaginário fez com que tentasse negar para si mesmo que Boddah existia, e o tempo que passava no seu quarto transformou-se numa desconfortável sucessão de silêncios, a ponto de só ir para o quarto na hora convencionada para dormir, e já com o sono a pesar-lhe nos olhos.
Quando já tinha completado sete anos, perdeu Boddah, chegou ao quarto e descobriu que ele já não estava lá. Como o amigo não podia sair do quarto, soube de imediato que o tinham arrancado dali para o matarem. Perguntou à família e aos amigos mas ninguém lhe soube dizer nada, sem que ele conseguisse confiar na sinceridade das suas respostas.
Na solidão do seu quarto, tributou a Boddah as suas lágrimas, convencido de que a humanidade inteira se pusera de acordo para destruir para sempre o seu mundo.

As sandálias do pescador

Pascoal não sabia o que fazer à vida, era pescador mas já não havia peixe no seu lago, nem para vender nem para comer, e, sem peixe, não tinha como alimentar a sua família e comprar roupa e livros para os filhos. A mulher lá ia cultivando a machamba, para as necessidades mais urgentes, haviam caído as primeiras chuvadas e isso era uma boa ajuda para ela. Mas ele precisava de uma solução, talvez procurar trabalho nas obras da estrada nova, ou ir até à cidade, a ver se encontrava onde ganhar dinheiro.
Pensava em tudo isso, à noite, na sua palhota, quando viu uma gravura no livro escolar da sua filha mais nova: um belo arco-íris que terminava num grande pote com moedas de ouro. Podia ser? Adormeceu a pensar nisso e, na manhã seguinte, como ouvisse chover, saiu a correr para o exterior e deu de caras com um lindo arco-íris, como o da gravura, uma faixa colorida a dividir ao meio a cúpula do céu. Observou melhor. Uma das pontas perdia-se no infinito, parecia nem tocar o solo, mas a outra acabava bem próximo, na outra margem do rio Zambeze, no meio duns montes com grandes penedos na crista.
Ás pressas, reuniu um pequeno farnel - umas côdeas de pão, farinha e peixe seco, juntou-lhe um pequeno tacho enegrecido pelo fumo, e o isqueiro. Calçou as suas sandálias remendadas e avisou a mulher ensonada que ia sair.
Perseguiu a cauda do arco-íris, andando o mais depressa que podia pelo capim cheio de pedras. Sempre que conseguia, corria um pouco, para susto das cobras no mato e dos lacraus nas rochas. Quando chegou à margem do Zambeze, o arco-íris tinha-se desvanecido, mas não desanimou, as nuvens no horizonte mantinham a sua esteira de chuva e ele havia de aparecer outra vez. Andando ao longo da margem, encontrou uns pescadores que se faziam à água num barco, pediu-lhes transporte em troca de um pouco de peixe seco, e eles levaram-no até ao outro lado, onde ele saltou do barco mal viu que tinha pé. Na viagem, contara ao que vinha e, enquanto agradecia, na margem, os pescadores cantavam alto, rindo-se muito dele.
Procurou um monte alto, donde tivesse uma boa vista do que o rodeava, e esperou, roendo uma côdea de pão. Não tardou e o arco-íris fez uma nova aparição, e Pascoal soube que tinha acertado no trajecto. O arco-íris acabava mesmo perto dele, uns dois montes para oeste. Largou tudo e começou a correr, venceu a primeira subida, atravessou um vale com bananeiras e subiu o segundo monte. Quando chegou ao cimo, viu onde acabava o arco-íris, ao mesmo tempo que ouviu um disparo e sentiu uma bala silvar junto à sua orelha.
No fundo do vale, estava o lugar do ouro, mas não era um pote, mas sim um monte, tão grande que se admirou de não o ter visto de mais longe, uma pilha de objectos de ouro e prata cravejados de jóias - crucifixos, turíbulos e palanquins, arcas a abarrotar de moedas de ouro, tendas douradas gravadas com versículos do Corão, e ídolos em ouro maciço das mais diversas formas e dimensões.
Várias pessoas montavam guarda ao tesouro, armadas com kalashnikovs e bazookas. O que o tentara alvejar era um frade, que o avisou num português anasalado, usando um megafone.
- Não tente aproximar-se, o chão está minado. Você não tem nada a fazer aqui, isto é ouro de Deus!
Sentou-se no chão, as forças haviam desaparecido dos seus membros. Em desespero, elevou a voz e expôs o seu caso.
- Sou pescador, mas já não há peixe no meu lago. Os meus filhos têem fome, não me podem dar uma moeda desse ouro todo?
- Espere! Tenho de falar com o Chefe! - Disse, olhando a medo para o alto.
Viu-o aproximar-se de uma pequena mesa coberta com um manto de veludo, sobre a qual repousava um interfone. Premiu um botão e, após vários salamaleques, começou a falar, de cabeça baixa e reverente. Finalmente, viu-o assentir mudamente com a cabeça, benzer-se e recuar até ao megafone.
- O Chefe diz que não, nada feito, todas as riquezas que aqui existem são para o Seu exclusivo deleite. Mas disse também para você voltar a casa e não se preocupar. O seu lago tem peixes outra vez, e os seus filhos não voltam a passar fome.
Agradeceu, com lágrimas nos olhos, e tomou o caminho de volta. Ao chegar ao rio, teve uma surpresa, o rio tinha o dobro da largura de antes, deviam ter aberto as comportas da Barragem. Foi difícil encontrar um transporte para o outro lado, mas conseguiu-o.
A euforia inicial deu lugar a uma indizível angústia, que se confirmou quando se viu de novo diante do lago. As águas haviam subido, e tinham coberto a sua palhota quase até ao cimo e afogado toda a sua família. De novo com lágrimas nos olhos, mas de dor, retirou das águas os corpos da mulher e dos filhos e sepultou-os nas margens enlameadas do lago. Tomou banho no lago para descascar a lama seca e procurou o que restava das suas redes de pesca, para as reparar. Sempre, sem olhar o céu.

(fantasia inspirada na novela homónima de Morris West)
Vivia e funcionava com uma fidelidade maníaca aos seus ritos e calendários próprios, tinha horas cronometradas para tudo o que fazia, e intrincados e canónicos ritos para as coisas mais simples, como vestir-se ou lavar os dentes. Habituara-se a viver sozinho e não conseguiria viver com mais ninguém, não podia ceder um décimo das suas rotinas ao turbilhão indomável das rotinas e hábitos doutra pessoa. A sua casa, os percursos de todos os dias, estavam já povoados por uma multidão de deveres e gestos fixados por relógios com alarmes que nunca eram desactivados, e que passavam de um dia para o outro com a mesma fixidez tirânica.
Quando chegou a sua hora de partir, a morte correspondeu ao seu modo regrado de viver. Chegou a um fim-de-semana, um Domingo, quando ele cochilava no sofá, quinze minutos de repouso antes que o alarme do relógio de pulso soasse para o arrancar dali e pô-lo a caminho da missa. A morte suspendeu os seus ritmos orgânicos num momento oportuno. Estava bem-vestido e perfumado, adornado com os únicos bens que estimava - o seu duplo anel de viúvo e o relógio de bracelete metálica com o nome gravado no verso.
Ficou um cadáver irrepreensível. Era só transferi-lo para dentro do caixão, que guardava há anos num anexo. Depois de abotoarem o botão das calças que sempre desapertava para dormitar. E quando o encontrassem, um dia.


Passa a palavra

De José Eduardo Agualusa:

«Regressamos sempre aos velhos lugares aonde amámos a vida. E só então compreendemos que não voltarão jamais todas as coisas que nos foram queridas. O amor é simples, e o tempo devora as coisas simples».

Cão Maior

Na minha vizinhança há dois cães rafeiros de pouca-estimação, que são ícones habituais nas andanças e paranças dos nossos passos. Há um mais pequeno de pernas finas e orelhas arrebitadas, que não enfrenta as pessoas, mas também não as teme, talvez por ninguém ainda se ter lembrado de o maltratar. Parece-me um cão de caça perdido, deixado para trás nalguma caneira enquanto procurava tenazmente a presa abatida pelo seu dono. E depois, há um cão maior, de pelo castanho lustroso e com uma coleira descolorada que já foi vermelha. É grande e um pouco intratável, ladra aos carros e, por vezes, lembra-se de rosnar quando passamos, desaconselhando familiaridades de maior.
Este não é propriamente um rafeiro, e também não é um perfeito desconhecido. O cão era do Mendes, que morava na casa alpendrada junto à estrada. Já era assim com o Mendes vivo, gostava de se perfilar no pequeno alpendre e ladrar a tudo quanto passava, mas o Mendes mandava-lhe dois berros e ele calava-se e ia de mansinho deitar-se aos seus pés para um afago. O Mendes morreu há uns três anos e ele ficou por ali. O filho do Mendes não o quis levar, ladrava muito e ele tinha medo que lhe mordesse a filha pequena. O filho do Mendes só parou por ali para emparedar as janelas da casa para os drogados não se acoitarem nela, e nunca mais o vi, nem eu nem o cão de guarda da casa.
A casa tem vindo a ficar degradada e, nestes últimos meses, com a chuva, o telhado do alpendre soltou-se dum dos pilares e ficou suspenso como uma aba do que resta. O cão mantém-se nas imediações, e quando não está a vasculhar os caixotes de lixo ou a cheirar os sacos que encontra abandonados na valeta, dá largas ao mau feitio e mantém os carros e as pessoas afastados da sua casa. Por vezes, ladra sem parar, para desespero de quem mora perto e, dum momento para o outro, cala-se e vai deitar-se no chão do alpendre, como se o Mendes ainda ali estivesse para lhe fazer festas.
Estes cães de rua são muito estranhos, deve ser das porcarias que comem.

Cão Menor

Já tinha saído de casa para o seu passeio matinal, quando reparou bem nas nuvens - escuras, a cobrir quase todo o céu, com o Sol a insinuar-se nos interstícios. Voltou para dentro, trocou os ténis por umas botas, vestiu um impermeável com capuz, e saiu novamente à rua. Já tinha andado uns cinquenta metros quando achou que ainda faltava qualquer coisa, voltou ao seu quintal, deixou o Boxer que ia levar a passear, e colocou antes na trela o seu Cão de Água.

Um livro que gostamos mesmo de ler, que nos apaixona,
não importa se é velho de séculos ou se foi traduzido
dezenas de vezes para milhares de leitores,
faz-nos sempre sentir, como na frase de Thoreau:
a primeira aranha numa casa nova.

Mar da cor do fogo

Scilax, o geógrafo trácio dos portos do Eritreu, podia descender desses primeiros sapiens que se refugiaram nas grutas do Cáucaso, e que conheciam o fogo prometaico e sabiam como talhar o sílex.

Às duas por três
não é um bom argumento para explicar a santíssima
trindade nem nada que seja santo ou
trinitário como
o concílio de
trento e o santo lenho que o pastor usa
na sua lareira para se aquecer, não
é nem poderia ser porque duas é um
número redondo, perfeito, como as mulheres
que vão juntas aos sanitários
e as putas que juntas andam
a polir as esquinas, ofício
polido e meticuloso
onde concorrem com os
polícias, duúnviros de polícias,
que acordam mais cedo do que elas para
reservarem e ocuparem
as esquinas mais soalhentas e com menos
fumo, tão entretidos na sua garbosa
idiotia que as deixam vagas sob as estrelas;
O às duas por três sugere um encadeamento
histórico,
primeiro havia o velhote e a pomba e às duas por três
apareceu o filho concebido a meias
pelos dois, mas que já existia
antes do princípio dos tempos,
tal-qal a galinha deprimida que vê nascer
do seu ovinho
o tataravô falecido
com barba e caveira e tudo;
DUAS, a pomba e o velhote
porque ninguém me diz
que o velhote não é uma velhota,
das simpáticas, que nos fazem a autobiografia das suas
patologias enquanto esperamos
à porta do Posto Médico,
e travam a fundo dentro
das rotundas, para deixarem passar o próximo
enquanto lhes acenam da moldura do
Fiat 127 ferrugento, ao mesmo
tempo que causam um
pavoroso
choque em cadeia; mas isso sempre
chocou algumas pessoas,
o deus-mulher foi escondido
sob as penas da pomba e nós,
às duas por três,
hesitamos no género e apontamos
os holofotes a uma mulher que engravidou
do nada,
e que também existia antes
do princípio dos tempos,
tal-qal Neit e Pacha-Mamma;

às três por duas não tinha nada
para escrever,
às duas por três, escrevi nada

The Deer Hunter

Deer Hunter - Final Hunt

Fechado numa jaula do Zoo, sem a visão do Kilimanjaro e comendo amendoins, o elefante bravio teve uma morte macaca.

Éssémeésse oblige

- Queres sair este fim-de-semana, amor? Podíamos dar um passeio, alugar um quarto numa pensão à beira-mar, dar longos passeios pela praia, comer e beber vinho num restaurante com vista sobre o azul, fazer amor.
- Não, não posso, aderi a uma promoção da operadora e deram-me duzentos Sms's para gastar em dois dias. Estava a ver se me lembrava de nomes...

Os cegos e o elefante

Os amigos haviam-se reunido à mesma mesa, no comes-e-bebes de um casamento. Já não se viam há alguns anos, tinham vivido sempre perto uns outros mas seguindo trajectórias distintas como fios paralelos e incruzáveis duma mesma trama.
Somos todos amigos e todos gostamos de fotografia, disse o Luís, porque não juntamos os nossos trabalhos e compomos um livro? Deve haver editoras que pegam nesse tipo de trabalho, cada uma escrevia também umas frases ou haicais para enriquecer as imagens. Os amigos gostaram da ideia, linquaram-se durante meses, trabalharam no projecto, e o livro saiu, melhor do que qualquer um deles esperava. E vendeu-se bem, coisa insólita e, por arrrrastamento, a editora propôs que compusessem um novo livro.
Desta vez, o Luís puxou dos galões, a ideia fora dele, era o seu projecto, que nascera de si como um filho, e isso tinha de ficar bem explícito na introdução, a sua ideia era o elefante, o todo, enquanto o trabalho dele e dos amigos representava partes individualizadas desse trabalho cego, o ventre, a cabeça ou os membros do paquiderme. Os amigos concordaram, mas, quando chegou o momento de seleccionarem uma foto para a capa, o Luís exclamou que já tinha uma e mostrou-lhes: ele, Luís, nuzinho e com uma barba postiça, tocando com a ponta de um dedo a mão dum bebé, como Deus e Adão no fresco de Michelangelo da Capela Sistina. Os amigos não se atreveram a contestar aquela escolha paternalista, mas ficaram certos, de que não era ali que morava a tromba do elefante.


Aranhices

Alguém que queria saber, procurou por canções de embalar gregas. O browser pegou em fracções de frases e links e compôs estas frases enigmáticas:

As letras gregas - revolucionarias por sua própria natureza - provocam sismos ... Poesia Para Embalar e Abalar - Poemas & Poetas: Camões, Bocage, Carlos Drummont, ...

Filme de embalar infâncias, a idade, porém, torna-o num ícone da pior lamechiche ... As canções, todavia, escondem-se algures nas memórias e persistem na guerrilha. ...

No meu sonho de Alexandria, encontro livros, muitos livros, em rolo, arrumados em nichos na parede, e eu consigo lê-los, eu, medíocre monoglota, consigo lê-los, e leio na sua forma copiada, mas também na sua forma original, do exacto modo como viajaram no bojo de veleiros e trirremes até ali chegarem,

o meu guia emprestou-me a sua bengala, a bengala com que percorre os jardins suspensos, com ela, todas as línguas e todos os géneros de escrita se tornam compreensíveis, e não só me revelam as suas palavras em toda a vastidão do seus múltiplos significados, como, diante dos meus olhos, o que leio nesses livros se enriquece e se expande, gerando novas narrativas e descrições.

No meu sonho de Alexandria, a alegria de conseguir ler todos esses livros prodigiosos, só tem par na gratidão que sinto pelo guia que me franqueou as suas portas, ele, que me olha sem olhar, e que esboça um sorriso tranquilo quando lhe digo: "Obrigado, Borges!".

Boris Vian - 2

De "O Outono em Pequim" (1956), de Boris Vian, um trecho da odisseia do protagonista, Amadis Dudu, para apanhar o autocarro 975:

«O quinto [autocarro] vinha cheio e todos os passageiros deitaram a língua de fora a Amadis e aos outros que estavam à espera.
«(...)Ia tentar apanhá-lo na paragem seguinte, onde costumava sair mais gente. Começou a andar de lado, de propósito, para que vissem que estava encolerizado. Tinha de percorrer aproximadamente uns quatrocentos metros e, enquanto isso, foi ultrapassado por vários outros 975 quase vazios. Quando finalmente chegou à loja verde que havia a dez metros da paragem, desembocaram, de um portão mesmo em frente, sete padres novos e doze crianças da escola com auriflamas idolátricas e fitas de cor. Dispuseram-se em volta da paragem e os padres colocaram dois lança-hóstias a servir de bateria, para que os transeuntes perdessem a vontade de esperar pelo 975. Amadis Dudu procurava lembrar-se da palavra de passe, mas do catecismo para cá já tinham decorrido uma boa porção de anos, e assim não conseguiu lembrar-se da palavra. Tentou aproximar-se às arrecuas, mas apanhou com uma hóstia enrolada nas costas, lançada com tal força que lhe cortou a respiração e o fez começar a tossir. Os padres riam e andavam numa azáfama em volta dos lança-hóstias que escarravam projécteis uns a seguir aos outros. Passaram dois 975 e os garotos ocuparam quase todos os lugares vazios.
«(...)Correu então a toda a velocidade para a paragem seguinte. Em frente, lá ao longe, podia ver a retaguarda do 975 e as chispas que levantava, e atirou-se para o chão porque o padre assestava o lança-hóstias na sua direcção. Ouviu a hóstia passar-lhe por cima com um barulho de seda queimada, e rolar na valeta.
«Amadis levantou-se todo sujo. Quase hesitava em ir para o escritório num tal estado de imundície, mas que diria o relógio de ponto? Doía-lhe o costureiro direito, tentou espetar um alfinete na face para fazer passar a dor; o estudo da acupunctura nas obras do doutor Bottine de Mourant era um dos seus passatempos; infelizmente não acertou bem com o sítio e curou, na barriga da perna, uma doença que ainda não contraíra, o que o faz atrasar».

(Boris Vian, O Outono em Pequim, Dom Quixote/Público, 1989)
O homem era de compleição branquíssima, talvez fosse um albino, ela não sabia dizer como era um albino porque não sabia como os reconhecer, mas talvez fosse um, só podia ser. Como todas as semanas, lá estava ele ao balcão do Vídeo clube, empilhando um monte de Dvd's para alugar. E as suas mãos! Magras e ossudas, de uma brancura anémica, ela achava que se tocasse numa delas, a pele pareceria farinha ao tacto.
A jovem começou a resgatar os filmes pelas capas empilhadas no balcão. A pergunta aflorava-lhe teimosamente aos lábios como um eflúvio do espírito e, por fim, não foi capaz de a reprimir mais e ela saiu como um arroto.
- Desculpe a pergunta, senhor, mas de onde vem o seu nome, Jerome?
- Como de onde vem? Fui baptizado assim...os meus pais eram muito originais em tudo!
- É que Jerome não é um nome muito comum, aliás, até acho que é um dos nomes que não são aceites nos registos de nascimento. E o senhor, sempre assim bem vestido, suscita-me divagações cinematográficas.
- Não percebo, se puder explicar-me do que fala...
- Jerome, como Thomas Jerome Newton, o personagem de David Bowie no Homem Que Caiu na Terra, o filme de culto de Nicolas Roeg. Thomas Jerome é um extraterrestre que nos visita para conseguir água para o planeta de onde vem. Há uma cena fabulosa onde David Bowie está sentado diante duma parede repleta de ecrãs de televisão e vê aquelas imagens e aborve-as todas ao mesmo tempo. Como é um extraterrestre, ele consegue!
- Ainda não atingi a iluminação, ou melhor, estou à espera que me solucione o mistério.
- O senhor vem aqui e aluga uma média de vinte filmes e, menos de cinco horas depois, vem entregá-los. A única maneira de os conseguir ver a todos era colocando-os num painel de televisões como o de Thomas Jerome, e assistir simultaneamente a todas as cenas com a sua mente extraordinária. É a única explicação possível, ou isso, ou alguma tara em gastar dinheiro com filmes que não vai ver...
Jerome sorriu, com esforço, sentia as palmas das mãos a suar.
- Você tem um papel e uma caneta?
Ela deu-lhos. Jerome começou por desenhar um H maiúsculo como nos exercícios de caligrafia, em seguida, uniu as pontas, desenhou um símbolo imaginário colado à letra e coroou o conjunto com uma estrela estilizada.
- É assim que se escreve o meu nome no planeta de onde venho.
Ela agradeceu, aparentemente emocionada.
- É curioso que a sua pele, afinal, é macia. Não ligue, são divagações, mais umas - e riu-se com vontade, acrescentando ainda - num dia como este, chego a trabalhar doze horas seguidas neste buraco. Se o Jerome, um dia destes, lhe apetecer pagar-me uma bebida ou um almoço, não se acanhe. Isso são coisas a que a gente dá muito valor neste planeta!

Minguante


O número 10 da revista Minguante já está nas bancas, tendo por virtude os Vícios.
Se o tema lhe parece redutor, verifique o que se consegue fazer com ele!
(o meu vício ao círculo)


(imagem pilhada aqui)

- Fui feliz - é isso que te digo - mas já passou tudo!
- Ah! Não seja tonto, o senhor ainda é uma pessoa nova e com saúde, tem tanto pela frente, vai ver, ainda arranja aqui uma companhia para lhe aquecer os pés, e olhe que candidatas não faltam...
- Não, Maria da Luz, as pessoas são como as estrelas que eu tanto estudei, passam metade da sua vida a crescer e irradiar, ameaçando engolir os planetas e as luas que iluminam, depois, começam a regredir, a meter-se para dentro, sempre mais pequenos e concentrados e, por fim, a implosão torna-se completa e não são mais do que uma esfera infinitamente densa onde está encerrada todo o seu espírito e todo o seu desejo. Essa esfera, esse microscópico buraco negro, permanece com os ossos debaixo da terra, no lugar do coração, do cérebro ou do fígado, até um dia desaparecer dali para reaparecer na massa de uma outra estrela em formação. Eu estou quase lá, Maria da Luz, os meus olhos azuis só irradiam a luz mortiça e condenada de uma estrela anã.
- Lá está você, senhor Silva! Eu gosto de o ouvir falar de estrelas e de Aristóteles, mas se continua assim triste, começo a ficar preocupada. Todos nós aqui na Casa de Repouso gostamos muito do senhor, e não gostaríamos que lhe acontecesse alguma coisa. Durma bem, senhor Silva, e não pense em disparates!
- Maria da Luz!
Ela parou com a mão na maçaneta da porta. Sentia o seu olhar como a proximidade quase epidérmica duns dedos ansiosos.
- Ilumina-me, Maria da Luz, só mais esta vez!
A mulherona soltou um suspiro, e deitando as mãos à saia, levantou-a até ao peito, desvelando as pernas altas e esguias e a cuequinha preta de onde se rebelavam uns quantos pêlos. Maria da Luz folgou o elástico das cuecas, para lhe permitir uma mirada fugaz do seu sexo. Silva chorava, ao mesmo tempo que, da sua boca, escorria baba.
Logo depois se compôs, alisou as pregas da saia e abriu a porta para o corredor.
- Durma bem, senhor Silva!

Eva

Ele (passando a lingua sobre as gotículas de sangue nos lábios): «Não me canso de o fazer e acredito que é uma obsessão recalcada dos humanos, o beijo nasceu da mordida e eu não me canso de te morder, morder-te as faces, os lábios, os ombros. Sou um etólogo com um profundo conhecimento da psicologia humana, e este meu trabalho vai levar as pessoas a redescobrirem-se. O beijo é a mordidela espiritualizada, ao marfim dos dentes adicionou-se a ígnea humidade da carne, da carne dos lábios e da língua; tornando o beijo, a sublimação metafísica da dentada».

Ela (tentando estancar o sangue do lábio fendido): "Gostava de te poder aplaudir e recomendar o teu ensaio aos amigos, mas não sei se o farei. A minha maneira de contribuir será acrescentar-lhe uma experiência nova, não escrita - a do beijo da morte. Que descerá sobre ti uma destas noites, quando a tua maçã-de-Adão fulgurar no escuro como uma presa apetecível".

Catársis

Um ovo é um ovo, mesmo um ovo grande como o da avestruz mas, quando uma colega lhe ofereceu um desses ovos, Fânia disse logo para o marido: "Esqueça a omelete. Não o vamos comer, ovos destes não são para comer!", e inspirada pelas suas inclinações herméticas, arranjou uma base em louça para suster o ovo em pé numa prateleira da sala e, com esmero, desenhou na sua superfície branca os aneis de uma serpente, e no espaço deixado entre eles, as palavras em grego dum verso de um hino órfico.
Sentiu-se orgulhosa do resultado. Mas um ovo é um ovo, mesmo um ovo grande de avestruz dedicado ao vencedor da morte. Semanas depois, começaram a sentir um cheiro estranho na casa, cheiro a coisa podre, talvez um ratito nalgum sofá, ou um resto de hambúrger largado nalguma gaveta. Vasculharam a casa de uma ponta à outra, fizeram limpezas e arejaram tapetes e cortinados, mas o cheiro persistia. Só ao fim de dias de trabalho incansável é que lhes ocorreu qual podia ser a causa: o ovo apodrecera. Bastou aproximarem o nariz do ovo, para descobrirem que estavam certos.
Muito condoída, Fânia, enfiou o ovo num saco, muito bem fechado, e levou-o para o contentor do lixo, abriu a tampa e depositou o ovo no fundo, com cuidado, para não se partir. Depois, regressou a casa, inquirindo-se porque alguém escrevera no contentor verde do lixo, uma palavra tão em desuso como Zeus.

- O su marido manda sôdade - anunciou a médium com o seu sotaque dos Balcãs.
-Saudade de quê? De quê?
- Do cozidu, da cadêrra do quarrto, do licô de maçã casêirro, do tabaco denrrolar, do biquinho de Sábado à nôte!
- Pergunte a ele do ouro, onde é que ele guardava o ouro?
- ...Nô se lembrra, o coitado...vou terminarr a ligassom, over and out...seu marrido muito trriste, casa sua muito suja, muito trriste...
- É verdade, não tenho tido cabeça para nada...
- Sua casa terr cave, nom?
- Sim, tem uma cave, foi ele que disse?
- Nom, nom, estava a pensarr, minha nora faz limpeza, muito barrato, se senhora quiserr eu vô lá com ela e nós limpa tudo, cave e tudo, muito barrato, e passarr a ferro, se precisarr...
- Está bem, pode ser, eu vou dar-lhe a morada e podemos falar do pagamento.
- Pag'mento pequeno, senhorra dar a chave e irr sua vida, nós trabalharr melhó sozinha...

Marlboro Transformer II

(o inimigo entre nós)

Transformers 2 Trailer (2009)

(A Grande Ameaça)

Farturinha

Comprei livros para encher uma estante de sala.
(A estante é enorme).
Comprei um Dicionário de Sinónimos, largo, mas não descomunal.
Depois, um Dicionário de Antónimos, descomunal, mas que, ainda assim, não cobriu um vigésimo da largura da estante.
Por fim, apliquei o dinheiro num Dicionário de Anónimos, e não precisei de comprar mais livros, porque já não cabiam.



(P.S.: leva-se mais tempo e dispendem-se mais palavras a explicar o que uma coisa não é, do que a explicar o que ela significa)


«Canção Simples»

- Ana, sabes que eu gosto do Luís?
- Sei, Teresa, vocês andam sempre juntos, a comer na mesa, quando estão a jogar, nos passeios que a gente faz. Onde anda um, anda o outro.
- O meu pai não gosta do Luís, diz que ele tem os dentes feios.
- Mas tu gostas?
- Sim, muito! Ele ontem deu-me um beijo aqui - contou, encostando uma unha ao canto do lábio - eu gostei muito.
- Isso é que importa, que tu gostes dele. E vocês já se conhecem há mais de trinta anos.
- O meu pai ficou chateado comigo...
- Por causa do beijo?
- Não, porque eu lhe disse que, um dia, eu vou casar com o Luís.

- Então, que tal te estás a dar com o novo director?
- Mal chegou, e já me pôs debaixo da asa!
- Não me digas!
- É verdade, fechou-se comigo no gabinete e, a falar da precariedade dos postos de trabalho e da dinâmica da ascensão na empresa, forçou-me, por assim dizer, a fazer coisas...
- Que coisas?
- Minutas de cartas...
- O porco, mete-nojo!
"...uma circular para os empregados,
- Tarado dum raio, lá em casa deve ser o jardineiro que cuida da mulher dele.
"Ah, e ainda me fez fazer uma gravação dos assuntos que ele quer que constem da acta da próxima reunião de direcção!".
- E tu? Não reagiste?
- Eu? Eu só lhe disse a meio da coisa, que se não me aumentasse no fim do mês, não lhe fazia mais nenhum.

Arma secreta

- Senhores e senhoras, apresento-vos o Óscar, o nosso mais recente nadador olímpico, já devidamente registado e inscrito. Estou confiante que o Óscar vai-nos conseguir uma medalha, aliás, não uma mera medalhinha, mas o medalhão, o mais alto, a medalha do Sol. Agora, libertem a piscina, para ele fazer uma demonstração.
Abriu o saco com água e despejou-o na piscina; liberto, o Óscar saiu a nadar, veloz mas desorientado, o seu corpinho ágil pintado com as cores da bandeira correu em ziguezagues toda a piscina para lhe conhecer os limites. Entre as risadas dos consagrados e o desespero do treinador, foi chamado o cozinheiro da equipa, que apanhou o Óscar com uma rede de limpeza e o levou para a roulote-cozinha.
No seu antro pantagruélico, o cozinheiro contemplou indeciso o corpo do Óscar. Não sabia se o ia preparar, ou deitá-lo fora, e, por fim, acendeu o lume a uma frigideira e limpou o corpo morto, cortando-o em olímpicos medalhões.

- Queres ir praticar queda livre?
Olhou os dois rapazes, sem saber o que lhes responder, mas seguiu-os à mesma quando eles começaram a subir as escadas da Escola, com as mochilas a sacolejar nas costas.
Primeiro, segundo, terceiro piso, o último, com uma varanda a todo o comprimento. Notando que ele vinha atrás, estudaram atentamente o solo lá em baixo, dando tempo para recuperarem o fôlego. Num ápice, estava um de cada lado e ele pensou de imediato: "Estou feito, vão-me atirar aqui de cima!".
- O nosso pai tem uma empresa, tem muito dinheiro - contaram em voz baixa.
E como se o quisessem demonstrar, abriram as mochilas e mostraram-lhe o material de desenho praticamente novo, os compassos, esquadros, caixas de minas; mais os livros e cadernos, e um MP3 de serviço enfiado numa divisória da mochila. Em seguida, fecharam as mochilas e arremessaram-nas no vácuo e ficaram a admirar o seu trajecto até chocarem com o solo numa nuvem de pó.
Ficou pasmado, os irmãos saltavam de alegria, dando-lhe palmadas nas costas. Quando a onda passou, explicaram.
- O pai compra outras - e esperaram uns segundos, a ver se ele os imitava. Depois, saíram a correr em direcção às escadas, de novo a rir e a gritar.
Abriu a sua própria mochila, remexeu no conteúdo até encontrar uma borracha quadrangular de um verde desmaiado. Vergando-a no dedo indicador, lançou-a pelos ares como se atirasse um seixo.
"O meu pai não tem dinheiro, mas tem muita porrada para dar" - justificou-se.

Farol, e farol

O estranho de estar num quarto de Hotel de frente para o mar, era o foco cíclico da luz do Farol que varria as vidraças. Estava abafado, levantei-me na semi-obscuridade, tentando não acordar os meus irmãos, e cheguei-me à janela. Levantei uma ponta do cortinado. Havia cacimba lá fora, espessa como rama de algodão esfiado, mas conseguia-se ver o contorno da marginal da Beira, as palmeiras junto à praia e o Farol a dominar tudo como um ciclope ínsone. Em trechos iluminados da praia havia silhuetas que se moviam, e achei que deviam ser pescadores, a enfrentar as águas do Índico. Devia ser quase manhã, porque já se distinguia uma faixa mais clara de céu na linha do horizonte.

Aquela cacimba fazia um contraste terrível com o bom tempo da véspera! Eu e os meus irmãos havia-mo-nos aventurado no mar com uns rapazes amigos, empoleirados na câmara-de-ar dum pneu de tractor que nos servia de bóia gigante. Agarrávamo-nos às cordas que envolviam a borracha e assim resistíamos as sacudidelas das ondas, os mais afoitos mergulhavam de cabeça no mar em volta, davam braçadas enérgicas até ao pneu, e içavam-se para a garupa com a ajuda dos outros. Eu não, não me aventurava, mal sabia dar três braçadas seguidas mas, logo a mim, calhou-me escorregar na borracha e cair para o centro do pneu, esbracejei e sacudiu-me como um doido no meio da água salgada, engolindo um bom quinhão dela, até os outros interromperem as gargalhadas e içarem-me por fim.
De regresso à praia, os rapazes mais velhos trouxeram cervejas que haviam desencantado não sei onde, cervejas Laurentina, de lata, abriram umas quantas e beberam-nas como gente grande, uma delas veio parar-me às mãos, mas não cheguei a provar, bastou-me o cheiro para me revolver á água salgada do estômago e vomitar tudo no tronco recurvado duma palmeira. A seguir senti-me mais aliviado, e acompanhei os outros. Uns jogos de matraquilhos, um passeio pela marginal e o regresso ao Motel Estoril para nos vestirmos para o jantar. A noite estava estupenda, o jantar uma delícia e houve música durante o jantar; quase para o fim, as coisas correram menos bem, um irmão meu, mais velho, teve uma reacção alérgica que já lhe era habitual, rebentou-lhe a cara em borbulhas e começou a sentir a febre a galgar. Recolhemos apressadamente aos quartos - aquilo acontecia de vez em quando e os médicos nunca descobriram a causa, diziam que era alergia a algum fruto ou a um tipo qualquer de pólen, nunca se determinou qual ou quais, continuou a sofrer aqueles acessos durante alguns anos até desaparecerem por si. No quarto, ele foi medicado e recolheu à cama, e nós fizemos o mesmo, rezando para que ele melhorasse depressa para podermos ter outro valente dia de praia.

Pelo mesmo motivo, achei que devia tentar dormir mais um pouco. Quando me estava a enfiar na cama, reparei, com um susto, que não estávamos sós, mas logo sosseguei, quando descobri que era apenas a minha mãe, sentada numa cadeira ao lado da cama do meu irmão doente, ainda vestida com as roupas do jantar. Ela acenou-me, e reparei que segurava um termómetro entre o polegar e a palma da mão. Quando já me havia acomodado no colchão, a minha mãe veio e aconchegou-me os lençóis, coisa que já deixara de fazer há um tempo, porque eu já não era nenhuma criança; mas era a sua maneira mística, silenciosa, de me dizer que estava ali por todos nós, não apenas pelo meu irmão doente, mas por todos nós, fanal de ternura que incendeia de luz os rochedos ameaçadores e que vive para nos conduzir sempre a bom porto. Eu sorri e desejei-lhe: "Boa noite, mãe!".


1-2-3-4

Lucky Luke não era daltónico: ele nunca se esquecia de contar os irmãos Dalton.


«força da natureza»

O parque da cidade é o único espaço verde digno de nota, não era apenas o pulmão da cidade, era a terra, o húmus, a alma, o único ponto onde as energias telúricas emergiam sem serem asfixiadas por uma malha de cimento, gravilha e alcatrão.
Quem visitasse apressadamente o parque, poderia achá-lo um parque convencional, com os seus relvados, lagos artificiais, passeios marginados por canteiros de flores, e bancos com memória para velhos ociosos e jovens namorados. Mas quem nele se demorasse um pouco mais, acabava por encontrar e intrigar-se com a figura do Vargas. O Vargas não era um sem-abrigo, a sua casa era o parque e, como não conseguisse tirá-lo dali, a municipalidade deu-lhe um uniforme de guarda; e de um outro guarda, que morava ao pé do parque, recebeu as facilidades de poder ir a sua casa para comer e tomar banho.
O Vargas não fazia mais nada senão andar e divagar pelo parque, e gostava de se sentar no chão, entre as raízes das árvores, rodeado de pássaros e esquilos que cirandavam à sua volta e brincavam nos seus ombros, era com eles que se entendia, à linguagem humana, deixara-a cair por considerá-la dispensável. Sorria apenas quando alguém o abordava, um sorriso de alegria que desarmava segundas questões ou réplicas.
Era frequente dormir no parque, com a cumplicidade dos guardas, encolhido como um feto junto às árvores ou na base dos tufos de arbustos. Acima de todos os outros, os guardas, que o conheciam bem, tinham pelo Vargas uma grande estima e amizade e, ciclicamente, não conseguiam evitar de ficarem preocupados com ele quando chegava o Outono, porque então, a sua vida ficava quase suspensa, passava cada vez mais tempo a dormir nos seus esconderijos, magro e descorado, e o cabelo caía-lhe às mãos-cheias da cabeça como se padecesse dalguma doença grave.
Isto, até chegar a Primavera seguinte.

Projecto

Nascido numa família de pescadores, passou os primeiros meses de vida num berço de vime com o formato de um barco, as suas canções de embalar eram toadas de marinheiros; barcos e peixes os enfeites dos seus guizos e pulseirinhas de prata. Enquanto crescia, todos esperavam que ele se fizesse homem de mar, mas a sua vocação deu um nó cego quando ele experimentou a paixão de navegar na Web.


Professor Balthazar (Bal-Bal-Baltazar)

Não me lembrava muito bem da série, mas a música é outra história, e é a razão pela qual, em cerimónias solenes e velórios, não se deve repetir a sílaba "Bal" a um português de trinta ou quarenta anos.

or

A sua antiga namorada apareceu em sua casa com uma criança pequena pela mão, dois anos apenas.
- Chama-se Luís, e é teu. Tem os teus olhos, o sinal no ombro, o teu riso áspero, as pernas arqueadas e a pele de lixa nos joelhos e cotovelos.
-...
- Não dizes nada?
- Não sou uma ovelha, e não podes andar por aí a clonar-me sem o meu consentimento.


"Sinto saudades de outros tempos, do tempo em que abriam as portadas das janelas como se descerrassem as minhas pálpebras e o sol entrava, indicando o caminho ao perfume das rosas do jardim e a alguma ocasional vareja ou borboleta, e os jantares elaborados no salão onde se conversava e comia sem pressas, antes do Porto que os homens bebiam na biblioteca enquanto as mulheres se juntavam em volta do piano da sala onde a senhora tocava uma sonata, e as crianças inocentes no quarto das brincadeiras, com os seus brinquedos com rodas, bonecas de porcelana, e carros de lata, sinto saudades das noites à lareira onde se falava de colheitas e peças de caça, do calendário e dos dias da novena, e sinto saudades daquela criadinha triste que o patrão violentava e que tantas vezes chorou no meu peito na solidão do seu quarto antes de derramar o seu sangue no lugar onde antes derramava as suas lágrimas, mas...espera! Está alguém a entrar, tantos anos depois, tiveram de deitar abaixo a porta porque a fechadura se soldou com a ferrugem, um homem engravatado e uma senhora, muito loura, como Lourdes, a criadinha, estão a olhar para mim, para todos os meus recantos e escaninhos, espero que consigam perceber a minha beleza por trás de tanta ruína...espera...a senhora, não, a Lourdes, está a falar...o que é que ela diz?: «...acho que podemos recuperá-la!»".


A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...