Naipe

-Checa aí as minhas tatuagens!" - pediu a velha, deitada numa cama estreita. O companheiro, tão velho como ela, comparsa da Sueca e do Buraco, examinou atentamente os quilómetros quadrados de pele enrugada no seu corpo nu.
"Vê essa grande nas costas, tem o nome do meu primeiro namorado, nessa área e em outras estão as do Geraldes, do Abel, do Martins, do Vicente, e de mais uns trinta. O do meu primeiro marido mandei gravar depois do divórcio, na parte interna da nádega, pelos motivos que podes supor.
Ele foi lendo como num painel, os nomes estavam truncados, com uma letra ou outra engolida pela dobra da ruga, e as molduras intrincadas dos nomes haviam perdido o efeito por se terem deformado.
- E onde é que vais gravar o meu?
- Nas costas, ficou lá um espacinho entre o Forever do Mendes e o Para Sempre Tua do Adérito. Agrada-te o lugar?
- Como o paraíso para uma ave-do-paraíso. Agora desculpa-me, mas venho já!
- Onde vais com tanta pressa?
- Mudar a fralda, ver-te assim nua fez-me urinar sem querer!


Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue