Estátua caída

O fulano não era muito simpático, cruzava-me ocasionalmente com ele nas ruas da aldeia, e merecia-me um fugaz cumprimento porque se notava que ele parecia exigir isso das pessoas. Vestia sempre fato e gravata, com os olhos ocultos por óculos escuros, e parecia-me uma cópia decadente e balofa dos agentes do FBI das séries de televisão. Como só trocávamos palavras circunstanciais, tudo o que ouvia sobre ele era-me contado por outros, e contava-se muita coisa; que fora informador ou operacional da PIDE no antigo regime, que pusera na cadeia um irmão para ficar com a sua parte da herança, que usara o seu poder e o dos amigos no poder para extorquir dinheiro e terras à custa de ameaças e chantagem; e que era mau como as cobras, ainda que esta afirmação leviana se pudesse dever ao imperfeito conhecimento que temos das ditas. A única vez que lhe ouvi mais do que um Bom-dia ou Boa-tarde, foi numa bela tarde em que o encontrei na paragem das camionetas. Eu já ia um pouco atrasado, mas por sorte, a camioneta ainda estava mais atrasada que eu. Cumprimentei-o por rotina, e tentei compor os livros escolares que trazia de braçado. Quando dei por isso, a figura parda do ex-PIDE estava diante de mim.
- Boa tarde! - gritou.
- Boa tarde! - repeti, acrescentando - já o tinha cumprimentado antes.
O fulano cresceu à minha frente, com uma expressão de fúria na face bexigosa.
- Boa tarde! Você deve sempre dizer-mo com humildade e respeito, e dizê-lo dez vezes, se for necessário. Maldito seja e todos os alunos imbecis deste regime de medíocres e fracos. Já não há respeito por ninguém!
Continuou a monologar, sobre a pátria e o desrespeito, a Mocidade Portuguesa e a hierarquia do Estado. E a tempestade foi-se desanuviando à medida que as nuvens descarregavam o seu excesso de água e energia. Nisto, chega a camioneta e o reinvestido funcionário da nação mandou-a parar com um gesto imperioso. Entrou de rompante na camioneta antes que alguém lhe usurpasse o lugar.
- Caldas da Rainha !- bramiu.
O cobrador estendeu-lhe o bilhete, e ele meteu a mão ao bolso para tirar o dinheiro, meteu e remexeu a mão dentro do bolso mas o dinheiro não aparecia. O cobrador encolheu os ombros e accionou o botão que abria a porta de trás para ele sair. Evitando olhar qualquer um dos outros passageiros, saiu ordeiramente e de cabeça baixa. Enquanto se afastava, notei que o casaco que usava devia ser dos tempos de fausto e glória, com remendos nos cotovelos e a costura a esgarçar-se ao meio das costas.
Com vontade de sorrir, desejei-lhe, entredentes, uma Boa Tarde.
(Já era a terceira vez que o fazia).


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