Abril



Era estranho estar ali outra vez, as janelas partidas deixando exposta a ossatura das grades, a manhã parda e a chuva miudinha a insinuarem-se na cela diminuta. Tocou com a biqueira do sapato numa lata vazia de Cola, atirando-a para um charco fétido que se formara a um canto.
- Desculpe, senhor, mas não pode estar aqui - olhou à procura de quem o interpelara e viu um jovem engravatado à porta da cela, tenso como se tivesse uma arma apontada à cabeça - se faz parte dalgum grupo de visitantes, terá de se juntar aos seus companheiros e esperar pelo guia. De qualquer das formas, este não é o circuito habitual das visitas ao Forte de Peniche.
Aproximou-se dele, e apercebeu-se do seu medo mal dissimulado. Não o surpreendia, encontrar um homem de gabardina e boné na penumbra e desolação daquelas celas, não deveria ser muito tranquilizador. Saiu para o corredor, e tirou o boné, descobrindo a calva com alguns cabelos escorridos a atravessá-la de um lado ao outro.
- Desculpe a invasão - falou por fim - Fui convidado para uma palestra sobre o vinte e cinco de Abril, a decorrer aqui no Forte, e estava a dar uma volta para matar o tempo.
- Foi um prisioneiro político?
- Sim, soa bem dizer prisioneiro político, soa a comunicado da Amnistia Internacional. Estive aqui preso, seis anos, e aquela cela foi a minha suite principal, mas também estive em outras, e passei uma temporada no Segredo. O piar de loucos das gaivotas do Forte ficou-me, ainda hoje, por vezes, acordo a ouvi-las.
- Já cá tinha voltado antes?
- Há pouco tempo, vim mostrar o Forte aos meus netos. Um deles, que está agora a acabar a licenciatura, fez-me uma pergunta que me tem assombrado desde então.
- Qual?
- Onde é que estão as chaves destas celas todas? Elas tinham chave, por isso devem estar guardadas em algum lugar. Talvez o senhor saiba, uma vez que trabalha aqui...
- Estou cá a estagiar, serei, espero ser um dia, técnico de museologia, mas estou aqui há pouco tempo e há muita coisa que não sei. Quanto às chaves, desconheço por completo, suponho que ainda existam. Na exposição permanente que rodeia o Parlatório, sei que não estão. Mas qual o motivo do seu interesse nelas?
- Essas chaves deviam ser atiradas ao mar, não vá o diabo tecê-las e serem precisas outra vez. Mas atiradas para longe, onde ninguém as recupere, talvez não aqui mas na península da Papoa, que possui gargantas onde elas poderiam ficar alojadas até se desfazerem, como ficou durante séculos o ouro dos Incas.
- Não vejo qual o interesse nisso, são apenas chaves...Se é por medo que a ditadura volte, isso é apenas um delírio. O progresso, a Europa, a Web, nunca este país poderia voltar à atmosfera de feudo onde a ditadura se petrificou. Não há qualquer possibilidade disso acontecer, a História nunca se repete!
- Já vi coisas mais estranhas, acontecer. E o senhor poderia ajudar, está cá dentro, move-se à vontade. Se o senhor quisesse...
- Decididamente, o senhor deve estar a delirar. Eu sou um técnico e encaro como sagrado qualquer item de um património museológico, e o senhor espera que, precisamente eu, vá como um gatuno em busca de umas chaves ferrugentas para atirá-las ao mar?
- Já vi coisas mais estranhas, acontecer...


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