INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página
Palavras velhas, gastas, mortas, relíquias.
- Vais ver que, com o tempo, tudo passa, temos de viver um dia atrás do outro e as coisas voltam aos eixos - atrás? ou um dia à frente do outro? - A morte do pai foi uma coisa dura para todos nós, principalmente para ti, que estavas com ele há mais de quarenta anos, mas tudo se há-de compor, hoje foi o funeral, daqui a uns dias é a missa do Sétimo Dia, depois as missas pela intenção da sua alma e, não tarda, a gente quase não se lembra. Só tens de ter muita calma, e vigiar a tensão.
Agradeceu e libertou as mãos da filha, estavam frias, sempre foram frias as mãos daquela mulher.
A filha e o genro saíram, para ela descansar. Ficaria ali uns dias para se recompor, no quarto vago do neto que estudava em Madrid. Esteve muito tempo, horas, imóvel entre os lençóis, com o olhar divagando entre o tecto nu e as paredes cobertas de posteres - Pink Floyd, Marx, Jim Morrison, o sono não chegava, e começou a sentir-se gelada. Nunca se ia habituar à ideia, parecia que tudo era mentira, irreal. Levantou-se, vestiu o roupão e esgueirou-se para o corredor. A casa estava silenciosa e, pé ante pé, chegou à grande sala despovoada onde o único som audível provinha da bomba ronronante do grande aquário. Sentou-se no sofá e empunhou o telefone. Com os dedos trémulos premiu o número da sua própria casa. Ouviu o bip da chamada, e esperou, com o coração nas mãos.
Talvez ele atendesse.


"Corrida ao Ouro"

Movimento migratório despoletado pela descoberta de ouro em terras da Califórnia (para a caracterização sociológica ver o estudo de Duke e Williams; para o impacto da migração no consumo de milho e azeitonas vide também, no mesmo estudo, o capítulo "Comezainas"); e que se traduziu no chegada à Califórnia de dezenas de milhares de pessoas, transportadas em carroções e barcos. Por volta de 1849, e durante décadas, essas pessoas invadiram as joalharias e casas de prego da baixa de Los Angeles, explorando filões riquíssimos com as suas peneiras e picaretas...».


"Geralmente, gosto mesmo é de jogar o Solitário - confessou Onan - mas hoje apetece-me um banho de multidão e vou jogar uma Bisca de Três".


Pensamento de salmão de viveiro,
encravado num tanque com outros oitocentos e cinquenta salmões:
"Só espero que, agora, não me venham cobrar despesas de condomínio!".


Modus operandi

Fazia cortes nos braços, de onde sugava o seu próprio sangue. Deixou-se disso quando se tornou vegetariano mas, fiel aos seus métodos, começou a fazer cortes em arbustos e árvores para beber seiva e resina.


Histórias Zen 2

1

No meio de um jardim Zen, com a areia moldada em espirais e ondas em volta de rochas e Bonsais, um monge faz de estátua, com os cabelos cheios de laca para que o vento não agite as espirais e ondas dos seus caracóis.

2

- Mestre, eu ando há anos à procura de mim mesmo...
- Fico feliz por ti, se és capaz de reconhecer isso, é porque já te encontraste!
- Mas, Mestre, se assim é, porque é que eu continuo a procurar-me?
- Hum! Deixa-me ver...Será que é porque nunca encontraste as chaves do carro?

Abono 1

"É um homem mau e cruel, capaz de maltratar e torturar o seu semelhante, e sentir nisso um prazer desmedido - declarou a mais generosa das suas testemunhas abonatórias - mas tenho a dizer em seu favor, que ele tem umas mãos de ouro para abrir frascos de vidro de Ketchup".


Abono 2

O caranguejo amputado:

"Quanto ao carácter e conduta do mariscador, não tenho nada a apontar".


Trocou a prisão por uma prisão domiciliária,
trocou esta por uma pulseira electrónica,
e esta por um chip no seu nariz de batata,
(e assim tem permanecido,
assaltado por um apetite crescente
por batata frita).


THX 1138

O primeiro filme de George Lucas (quanto a mim, o melhor), que sempre me pareceu inspirado na Alegoria da Caverna (com "1984" à mistura)

O dia seguinte

O Que Platão se esqueceu de contar:

Que o homem que quebrou as correntes e saiu da caverna para conhecer o mundo do alto iluminado pelo Sol, regressou, de facto, para junto dos seus companheiros para os libertar.

Que os seus companheiros não o tentaram agarrar nem matar, antes se deixaram ficar, porque se haviam habituado às suas grilhetas como se fizessem parte deles e não as trocariam pelos delírios de um dos seus.

Que o homem liberto regressou ao mundo da superfície, e aceitou as grilhetas de lã de servir outros homens em troca de pão, e a violência íntima de calar o que ninguém queria ouvir.

Abril



Era estranho estar ali outra vez, as janelas partidas deixando exposta a ossatura das grades, a manhã parda e a chuva miudinha a insinuarem-se na cela diminuta. Tocou com a biqueira do sapato numa lata vazia de Cola, atirando-a para um charco fétido que se formara a um canto.
- Desculpe, senhor, mas não pode estar aqui - olhou à procura de quem o interpelara e viu um jovem engravatado à porta da cela, tenso como se tivesse uma arma apontada à cabeça - se faz parte dalgum grupo de visitantes, terá de se juntar aos seus companheiros e esperar pelo guia. De qualquer das formas, este não é o circuito habitual das visitas ao Forte de Peniche.
Aproximou-se dele, e apercebeu-se do seu medo mal dissimulado. Não o surpreendia, encontrar um homem de gabardina e boné na penumbra e desolação daquelas celas, não deveria ser muito tranquilizador. Saiu para o corredor, e tirou o boné, descobrindo a calva com alguns cabelos escorridos a atravessá-la de um lado ao outro.
- Desculpe a invasão - falou por fim - Fui convidado para uma palestra sobre o vinte e cinco de Abril, a decorrer aqui no Forte, e estava a dar uma volta para matar o tempo.
- Foi um prisioneiro político?
- Sim, soa bem dizer prisioneiro político, soa a comunicado da Amnistia Internacional. Estive aqui preso, seis anos, e aquela cela foi a minha suite principal, mas também estive em outras, e passei uma temporada no Segredo. O piar de loucos das gaivotas do Forte ficou-me, ainda hoje, por vezes, acordo a ouvi-las.
- Já cá tinha voltado antes?
- Há pouco tempo, vim mostrar o Forte aos meus netos. Um deles, que está agora a acabar a licenciatura, fez-me uma pergunta que me tem assombrado desde então.
- Qual?
- Onde é que estão as chaves destas celas todas? Elas tinham chave, por isso devem estar guardadas em algum lugar. Talvez o senhor saiba, uma vez que trabalha aqui...
- Estou cá a estagiar, serei, espero ser um dia, técnico de museologia, mas estou aqui há pouco tempo e há muita coisa que não sei. Quanto às chaves, desconheço por completo, suponho que ainda existam. Na exposição permanente que rodeia o Parlatório, sei que não estão. Mas qual o motivo do seu interesse nelas?
- Essas chaves deviam ser atiradas ao mar, não vá o diabo tecê-las e serem precisas outra vez. Mas atiradas para longe, onde ninguém as recupere, talvez não aqui mas na península da Papoa, que possui gargantas onde elas poderiam ficar alojadas até se desfazerem, como ficou durante séculos o ouro dos Incas.
- Não vejo qual o interesse nisso, são apenas chaves...Se é por medo que a ditadura volte, isso é apenas um delírio. O progresso, a Europa, a Web, nunca este país poderia voltar à atmosfera de feudo onde a ditadura se petrificou. Não há qualquer possibilidade disso acontecer, a História nunca se repete!
- Já vi coisas mais estranhas, acontecer. E o senhor poderia ajudar, está cá dentro, move-se à vontade. Se o senhor quisesse...
- Decididamente, o senhor deve estar a delirar. Eu sou um técnico e encaro como sagrado qualquer item de um património museológico, e o senhor espera que, precisamente eu, vá como um gatuno em busca de umas chaves ferrugentas para atirá-las ao mar?
- Já vi coisas mais estranhas, acontecer...





De Pablo Neruda:


«...Tudo o que você quiser, sim senhor, mas são as palavras que cantam, que sobem e descem...Prosterno-me diante delas...Amo-as, abraço-as, persigo-as, mordo-as, derreto-as...Amo tanto as palavras...As inesperadas...As que glutonamente se amontoam, se espreitam, até que de súbito caem...Vocábulos amados...Brilham como pedras de cores, saltam como irisados peixes, são espuma, fio, metal, orvalho...Persigo algumas palavras...São tão belas que quero pô-las a todas no meu poema...Agarro-as em voo, quando andam a adejar, e caço-as, limpo-as, descasco-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas...E então revolvo-as, agito-as, bebo-as, trago-as, trituro-as, alindo-as, liberto-as...Deixo-as como estalactites no meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes das ondas...Tudo está na palavra...Uma ideia inteira altera-se porque uma palavra mudou de lugar, ou porque outra se sentou como um reizinho dentro de uma frase que não a esperava, mas que lhe obedeceu...Elas têm sombra, transparência, peso, penas, pêlos, têm de tudo quanto se lhes foi agregando de tanto rolar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto serem raízes...São antiquíssimas e recentíssimas...Vivem no féretro escondido e na flor que desponta (...)»


Pablo Neruda, "Confesso que Vivi", Publicações Europa-América, 1993


Foto de Matej Kren, colhida aqui

Fausto, em pequenas doses

- Vá lá! - exortou o orador - digam o que vos falta para serem felizes, para se redigir os contratos!
- Eu só queria ser chefe da Repartição onde trabalho há vinte anos, sem que as pessoas se lembrem do meu nome...
- Feito! Escreva e assine!
- Eu queria muito a paz mundial!
- Fale com o seu guru ou entre num concurso de beleza! Algum sonho comum?
- Queria estudar os clássicos nas ilhas gregas, com muito sol, muito vinho e muito sexo!
- Feito! Escreva e assine!
- Eu queria ser um cantor famoso - gritou uma jovem - estar nos festivais de música de Verão, mas no palco, com os meus amigos a aplaudir e a gritar pelo meu nome!
- Ok, piece of fake, escreva e assine!
- E eu queria ter uma madeixa dos cabelos da Beyoncé, e um Honda todo artilhado. Mas tenho um pequeno problema, tenho horror a sangue, não sou capaz de assinar o contrato com sangue!
- Caros amigos, essa é uma condição inegociável, não vos peço que escrevam em papiro ou papel timbrado, mas devem assinar com o próprio sangue, uma gotita apenas para a rubrica. Quanto a si, meu amigo, se você assinar com sangue, consigo arranjar-lhe dois carros em vez de um!
- Altamente! Dois carros, e a velha vai cair! Altamente! Dê-me a agulha que tiro já o sangue!
- E a anciã? Está muito pensativa e só falta você. Diga-me o que procura e farei, a contar com o seu, um milhão de contratos nesta viagem. Aliás, nunca pensei que fosse tão fácil!
- Eu queria salvar a humanidade, ou o que quer que isso signifique, mas dar a minha vida para ajudar os outros, fazer a diferença, não ser apenas mais um que vende a alma por coisa pouca.
- Nada feito! Eu sou apenas um escrivão, projectos megalómanos têm de ser com os meus superiores - justificou o orador, coçando a nuca com a lança da cauda - nenhum projecto alternativo, como o das ilhas gregas?
- Não! Não mesmo! Não devia ter vindo, foi por engano! Fico com a minha alma!
- Que lhe faça bom proveito! - desejou o orador e, a um sinal seu, os outros participantes da palestra saltaram sobre a mulher, tirando-lhe a vida com punhadas e agulhadas. Depois de examinar a obra, concluiu: "Há-de ser sempre assim, aparece sempre alguém para nos estragar um belo dia de trabalho!".

Versátil

O meu amigo Estevão, que andava pelas feiras a vender "coletes reflectores amolgados", converteu o negócio para vender DVD's das Caraíbas.

Para combinar bem

De O Amor dos Homens de Vinicius de Moraes:

(...)Interiormente
Procuro afastar meus receios: "Não, ela me ama..."
Digo-me, para me convencer, enquanto sinto
Teus seios despontarem em minhas mãos
E se crisparem tuas nádegas. Queres ficar grávida
Imediatamente. Há em ti um desejo súbito de alcachofras. Desejarias
Fazer o parto-sem-dor à luz da teoria dos reflexos condicionados
De Pavlov. Depois, sorrindo
Silencias. Odeio o teu silêncio
Que não me pertence, que não é
De ninguém: teu silêncio
Povoado de memórias. Esbofeteio-te
E vou correndo cortar o pulso com gilete-azul; meu sangue
Flui como um pedido de perdão. Abres tua caixa de costura
E coses com linha amarela o meu pulso abandonado, que é para
Combinar bem as cores; em seguida
Fazes-me sugar tua carótida, numa longa, lenta
Transfusão. (...)


Estátua caída

O fulano não era muito simpático, cruzava-me ocasionalmente com ele nas ruas da aldeia, e merecia-me um fugaz cumprimento porque se notava que ele parecia exigir isso das pessoas. Vestia sempre fato e gravata, com os olhos ocultos por óculos escuros, e parecia-me uma cópia decadente e balofa dos agentes do FBI das séries de televisão. Como só trocávamos palavras circunstanciais, tudo o que ouvia sobre ele era-me contado por outros, e contava-se muita coisa; que fora informador ou operacional da PIDE no antigo regime, que pusera na cadeia um irmão para ficar com a sua parte da herança, que usara o seu poder e o dos amigos no poder para extorquir dinheiro e terras à custa de ameaças e chantagem; e que era mau como as cobras, ainda que esta afirmação leviana se pudesse dever ao imperfeito conhecimento que temos das ditas. A única vez que lhe ouvi mais do que um Bom-dia ou Boa-tarde, foi numa bela tarde em que o encontrei na paragem das camionetas. Eu já ia um pouco atrasado, mas por sorte, a camioneta ainda estava mais atrasada que eu. Cumprimentei-o por rotina, e tentei compor os livros escolares que trazia de braçado. Quando dei por isso, a figura parda do ex-PIDE estava diante de mim.
- Boa tarde! - gritou.
- Boa tarde! - repeti, acrescentando - já o tinha cumprimentado antes.
O fulano cresceu à minha frente, com uma expressão de fúria na face bexigosa.
- Boa tarde! Você deve sempre dizer-mo com humildade e respeito, e dizê-lo dez vezes, se for necessário. Maldito seja e todos os alunos imbecis deste regime de medíocres e fracos. Já não há respeito por ninguém!
Continuou a monologar, sobre a pátria e o desrespeito, a Mocidade Portuguesa e a hierarquia do Estado. E a tempestade foi-se desanuviando à medida que as nuvens descarregavam o seu excesso de água e energia. Nisto, chega a camioneta e o reinvestido funcionário da nação mandou-a parar com um gesto imperioso. Entrou de rompante na camioneta antes que alguém lhe usurpasse o lugar.
- Caldas da Rainha !- bramiu.
O cobrador estendeu-lhe o bilhete, e ele meteu a mão ao bolso para tirar o dinheiro, meteu e remexeu a mão dentro do bolso mas o dinheiro não aparecia. O cobrador encolheu os ombros e accionou o botão que abria a porta de trás para ele sair. Evitando olhar qualquer um dos outros passageiros, saiu ordeiramente e de cabeça baixa. Enquanto se afastava, notei que o casaco que usava devia ser dos tempos de fausto e glória, com remendos nos cotovelos e a costura a esgarçar-se ao meio das costas.
Com vontade de sorrir, desejei-lhe, entredentes, uma Boa Tarde.
(Já era a terceira vez que o fazia).


Naipe

-Checa aí as minhas tatuagens!" - pediu a velha, deitada numa cama estreita. O companheiro, tão velho como ela, comparsa da Sueca e do Buraco, examinou atentamente os quilómetros quadrados de pele enrugada no seu corpo nu.
"Vê essa grande nas costas, tem o nome do meu primeiro namorado, nessa área e em outras estão as do Geraldes, do Abel, do Martins, do Vicente, e de mais uns trinta. O do meu primeiro marido mandei gravar depois do divórcio, na parte interna da nádega, pelos motivos que podes supor.
Ele foi lendo como num painel, os nomes estavam truncados, com uma letra ou outra engolida pela dobra da ruga, e as molduras intrincadas dos nomes haviam perdido o efeito por se terem deformado.
- E onde é que vais gravar o meu?
- Nas costas, ficou lá um espacinho entre o Forever do Mendes e o Para Sempre Tua do Adérito. Agrada-te o lugar?
- Como o paraíso para uma ave-do-paraíso. Agora desculpa-me, mas venho já!
- Onde vais com tanta pressa?
- Mudar a fralda, ver-te assim nua fez-me urinar sem querer!


«»

Fosse porque não eram dali, ou porque as soltara uma garganta humana, as palavras resguardaram-se no escudo duplo das aspas, que as defendiam com a eficiência dos escudos latinos, para mais estavam em itálico, não em latim, mas em vernáculo itálico, distintas de todas as outras palavras profanas e calhostras que se arrumavam no texto entre vírgulas e pontos que mais se assemelhavam ao cascalho e à brita das calçadas imperiais. Mas a sua vida foi breve, pulverizada pela ira anglo-saxónica de uma tecla chamada Delete, que as projectou num limbo onde a informação que veiculavam ainda pairou durante alguns nano segundos antes deixar de se ouvir.
O autor, ainda pensava nelas, e pensava consigo mesmo: sou um tipo selecto, não posso iniciar nem acabar um texto com «Foda-se esta merda!».

Nos últimos tempos, tenho tido a crescente sensação de estar a repetir os mesmos gestos, rotinas, palavras, situações.

Não deve ser isso, sou antes um backup de alguém que, de repente, se apercebeu de si mesmo.


Sentiu uma vontade premente, abriu uma bolsa de papel plastificado, enfiou nela os seus dedos sujos e enrugados e tirou algum tabaco que meteu na boca para mascar; não podia ser muito, do tamanho de uma noz, para poder mastigá-lo bem, e passar de um lado para o outro da boca. Rilhou e rilhou a bola enriquecida com saliva até sentir que as paredes da boca estavam a ficar dormentes, e cuspiu para o chão o excedente.
Quando tinha acabado de o fazer, junto ao monte de saibro de uma obra, deu de caras com uma jovem estudante que o olhava com nojo. Aquela expressão meteu-lhe pena, era estudante e, por isso, com um fio de saliva a pender-lhe dos lábios, beneficiou-a com a sua filosofia de tasca:
«Isto é como a vida, eu sempre disse que somos uma bola de tabaco nas mandíbulas da existência, mastiga-nos repetidamente até estarmos secos, e podermos ser cuspidos para longe»


Equívoco

Na curva da pista, o carro de corrida saiu disparado e embate contra os pneus. A mulher do piloto grita e leva as mãos à cara, numa angústia que só se atenua quando vê outro piloto a tirá-lo do carro e erguer o polegar direito.
Tradução do polegar erguido: "este já era, agora já tenho lugar na equipa".


Cafca

Andava escondida pelos cantos mas ficou pior que uma barata e, enquanto praguejava, viram-na aos saltos pelo chão.


Bum!

Na sua provecta idade, já não era nenhum Sex Bomb, mas tomava bombas para continuar sexualmente activo e...


Learning Centre

Para enriquecer a metodologia do seu ofício, saiu de casa para ir ver um filme de horror.


História repetitiva

Uma das mãos de Escher desenhou a outra, que desenhou a primeira, que desenhou a outra, que desenhou a primeira, que desenhou a outra, que desenhou a primeira, que desenhou a outra, que desenhou a primeira...

Isto, até uma das mãos, a primeira ou a outra, deixar de desenhar a outra ou a primeira...

E largar o lápis, para coçar os tomates.


Duas vagas

No meio do Centro Comercial, o pai passou-se com o filho adolescente.
«Chega! - gritou - Não te quero ouvir nem mais um pedido ou uma exigência! Chega! Foi sempre assim desde criança, quero isto, quero aquilo, hoje uma bicicleta, amanhã outra, brinquedos telecomandados, caixas e caixas de coisas que nunca usaste ou soubeste brincar e, mais uma guitarra eléctrica e um DVD novo todas as semanas, mais o MP3, o MP4, o MP5, sei lá. Chega! Eu e a tua mãe não queremos ouvir-te pedir seja o que for! Percebeste bem?»
Percebeu!
E despediu os pais.


Plano B

Segundo se diz, a morte é democrática e não distingue os pobres dos ricos; mas é sempre recomendável ser-se enterrado com o livro de cheques e todos os cartões de crédito nos bolsos.


Na multidão

Presos por linhas finas a um tecido ténue,
abotoamos
no rosto uma expressão afável e é como se nos sentíssemos
em casa


She - Charles Aznavour

«Se tu me ligasses alguma, poderíamos até combinar uma saída, beber um copo num bar com música ao vivo, falar dos festivais de música do Brasil ou do pit-bull que abocanhou o santo-e-senha de um rapaz que jogava à bola, ou simplesmente curtir a música, como dois apaixonados em viagem de núpcias.
Se gostasses de estar comigo, podia ser que a noite não acabasse ali, e te levasse a casa depois de te dar uns apalpões desajeitados no parque de estacionamento e roubar-te um beijo de língua que parecia pensado para colar selos.
Se à porta da tua casa, me deixasses entrar, podia ser que a coisa levasse rumo e nos amássemos naquele sofá grande sob o lagarto empalhado na parede onde o teu irmão colocou um cigarro na boca do animal.
Se a coisa corresse bem, podia ser que continuássemos a noite inteira no love e a beber cerveja com o travo da erva na boca; e,
se tudo isso acontecesse, quem sabe ? Nós repetíamos em outras noites decadentes e deliciadas, e pudesse pensar em ti como minha amante, e meu sonho pulsante.
She...
se..
se.
se eu não fosse um assistente de pornógrafo agarrado a uma cadeira de rodas, e tu, uma estrela do celulóide que eu não consigo sequer olhar de frente, nem mesmo quando estou por detrás das câmaras e tu gritas e uivas em sofás de cetim enquanto és fodida, enrabada e espancada por uma chusma de homens».


Apagão

No dia em que faltou a luz, a escola especial teve um dia diferente.
A professora deixou-os sair, e as crianças dispararam para o pátio anoitecido; emitiam pequenos guinchos alegres enquanto corriam por entre os brinquedos e objectos espalhados pelo chão, não tinham medo, como toda a criança que brinca correndo.
A professora era a única pessoa preocupada e, da porta da sala de aulas, gritou-lhes: «Se a luz voltar, protejam os olhos com as mãos»
«Sim, professora!» - responderam em uníssono as crianças-morcego, elevando a voz acima do eco dos sonares.


Entrou no quarto e encostou a porta, para cortar a luz do corredor, o marido dormia, atravessado na cama, um braço imenso como um ramo quebrado prendia os lençóis; despiu-se na penumbra, cheirou o seu próprio hálito na palma da mão, e refugiou-se na casa de banho; encostou a porta, abriu a torneira e ligou a escova de dentes eléctrica, uma cortina de sons para as palavras proibidas...mesmo assim...entrou para a banheira e acocorou-se com o telemóvel na mão, lista de endereços, um nome fictício, feminino - chegaste bem?...sim, claro...amanhã falamos...amo-te muito - saiu da sua trincheira, desligou a escova e regressou ao quarto, o marido dormia ainda, na mesma posição, a silhueta de um tronco a deslizar na corrente, levantou-lhe o braço tenso e enfiou-se na cama ao lado dele, ele despertou e abraçou-a, ela sentiu o desejo no seu beijo, a tesão, beijaram-se novamente, os lábios dele deslizaram para o seu pescoço, e começaram a beijar-lhe os seios, afagou-lhe os cabelos - amo-te muito! - confessou.


contra-senso

Ao vigésimo terceiro dia nas ilhas Galápagos, Darwin encontrou uma sub-espécie de tartaruga que correspondia aos registos fósseis da espécie que encontrara na ilha. Era surpreendente, não evoluíra nada em milhões de anos, nada mesmo. Uma membro atávico de uma grande família de espécies.
Para classificá-la pediu sugestões a toda a tripulação do Beagle. A hipótese mais votada foi a de "G. nigra lusitanorum".


Reequilíbrio

Dois irmãos partilham muita informação genética comum, informação que conforma as semelhanças que se podem encontrar entre os dois. Mas o Abel e o Luís nem pareciam irmãos, tantas eram as diferenças entre os dois, fisiológicas e de comportamento. Abel era o mais stressado e neurótico, preocupava-se com o que encontrava e com o que estava para vir, dando cada passo como se um abismo se fosse rasgar entre os seus pés. Luís era o seu oposto, descontraído, bon-vivant, apostado em viver bem a vida, fazia-lhe confusão os pavores do irmão e o seu caminhar sobre a lâmina mas, ao mesmo tempo, sentia que isso não era problema seu e seguia em frente sem remorsos ou vincos na testa.
As diferenças entre os dois irmãos tornava-se notória no trabalho. Os dois haviam montado um negócio de aluguer e assistência a máquinas para salas de jogo. Era Abel que carregava às costas o negócio e os problemas que ele gerava mas, enquanto o seu irmão abria e reparava uma máquina como se manuseasse objectos inertes e sem carga, para Abel, reparar uma máquina era um suplício, estava sempre a sofrer descargas eléctricas como se as atraísse, e os seus braços estavam cheios de marcas que elas lhe haviam deixado. Atraía a electricidade, mas esse era o menor dos seus males.
Abel nunca se desligava do trabalho. Em casa, no seu apartamento de solteirão, via e revia os serviços e as contas, criando lembretes no seu PC para o que tinha de fazer nas semanas e meses seguintes. Por vezes, esquecia-se das horas e ligava a meio da noite para o seu irmão ou para o contabilista, para esclarecer uma dúvida pendente. Num desses telefonemas para o irmão, atendeu-o uma voz feminina e arrastada, enquanto conseguia ouvir, ao fundo, os risos de Luís. Desligou de imediato, e sentiu-se furioso, frustrado e furioso. Ele ali a queimar as pestanas e o Luís a divertir-se com uma das suas namoradas, logo o Luís que tinha uma assistência agendada para a manhã seguinte, e tinha de seguir viagem logo de madrugada. Será que ele sabia? Experimentou o telemóvel, mas estava desligado, e nada de messenger nem quejandos, que o tipo estava incontactável. Também não ia voltar a telefonar, a última coisa que precisava, era de ouvir a voz orgásmica da fulana.
Vestiu-se à pressa, e conduziu o carro até à porta da casa dele. Na certa, devia ser alguma mulher casada, ou uma relação de horas, ela devia sair entretanto, e ele aproveitava e ligava-lhe para o telefone. Ainda ficou de plantão umas horas, e ela lá acabou por sair, uma mulher loura vestida de hospedeira, com uma gabardina azul pelas costas. Era de esperar, e a gabardina era a do irmão, um verdadeiro cavalheiro, parecia que o dinheiro para a roupa não lhe custava a ganhar, a oferecer assim roupas...
Ela entrou para um táxi, e Abel saiu do carro num impulso e chamou pelo irmão, atravessando a rua sob uma súbita bátega de água. O irmão abriu mais a porta e entraram. Não pareceu admirado por vê-lo, deixara há muito de se admirar com as bizarrias do irmão.
Abel falou-lhe na assistência agendada para a manhã que estava próxima. Sim, Luís lembrava-se e ia-se deitar naquele preciso momento. Abel desinchou de raiva, começara a pedir desculpas ao irmão quando o telefone tocou. Luís atendeu, encetando um diálogo em voz baixa. Devia ser outra fêmea. Abel ainda se foi contendo, até ouvir a frase que o fez explodir: "Qual bar?". CABBOOOUM! Explodiu mesmo, começou aos gritos, forçando o irmão a suspender a conversa. Falou da crise global, das obrigações da empresa, da papelada que tinha de processar todos os dias, das desavenças de infância entre os dois, da Úrsula, a namorada que ele lhe havia roubado na Primária e que hoje podia ser sua mulher. Enquanto nomeava finanças e dramas pessoais numa espiral crescente de gritos e protestos, o seu corpo gerava energia, irradiava como uma antena a emitir para o espaço. Sobre eles, a electricidade das nuvens escuras foi atraída por aquele dínamo com figura humana, e o resultado foi um raio desferido sob a casa, que os surpreendeu como uma explosão de luz na sala. A televisão e as tomadas explodiram com fragor, e viram-se mergulhados numa quase-escuridão, alumiados pelo fogo que se apoderara dos cortinados da sala. Correram a apagá-lo com a ajuda dum pequeno extintor. Quando o conseguiram, sentaram-se no sofá, exaustos e mascarrados. Mantiveram-se em silêncio durante longos minutos, até Abel dirigir-se à saída, depois de murmurar uma despedida ao irmão.
Luís desistiu do encontro amoroso. Tentou sem sucesso, dormir as poucas horas que lhe restavam até ter de partir, mas sem conseguir. Logo aos primeiros raios da manhã, coroando uma directa, partiu para o cliente depois de beber duas chávenas cheias de café. A caminho de lá, recebeu um sms. Achou que seria do Abel, a lembrar-lhe da assistência, e pela primeira vez em muitos anos, isso enfureceu-o. Só quando chegou à sala de jogos, é que se deu ao trabalho de consultar o telemóvel. Era do Abel, mas o conteúdo surpreendeu-o.
"Vou para a estrada, c/a mochila de campista k nunca usei. Ñ sei qd volto. O negócio fica por tua conta"

Rebotalho

Gosto da palavra bátega para designar uma chuvada violenta, soa como a água que nos bate na cabeça, lançada de um balde ou bacia, e é uma palavra aquosa, líquida, uma bátega d'água, violenta e repentina como o golpe de um látego.
Uma outra palavra aquosa, mas distinta, orvalho, suave e paciente, como uma madrugada que desponta, a sorvar os resíduos de sonho que a noite nos deixou.

priva(publi)cidade

Foi logo no final do jantar, que surgiu a repreensão esperada.
- Meu filho - começou o pai, enquanto a mãe repetia as suas palavras em surdina - não queremos que feches à chave a porta do teu quarto. Pode ser perigoso, pode acontecer-te alguma coisa e depois não temos como te acudir. Não vamos lá entrar, perturbar o teu reino sagrado, mas tens de deixar a porta destrancada. Enquanto viveres nesta casa, é assim que as coisas tem de se passar.
- Está bem, pai! - concordou.
O pai deu-lhe um abraço, à homem, que o filho já não era nenhum garoto, e a mãe deu-lhe um abraço de mãe, distribuindo equitativamente chochos nas suas faces.
Retirou-se para o quarto, onde fechou a porta até ouvir o estalido do trinco. Hesitou com os dedos na chave, mas não a rodou, sabia que os pais deveriam estar à escuta. A esposa esperava-o, deitada na cama com uma transparente camisa de dormir sobre o corpo nu.
- Demoraste...sabes, hoje está-me mesmo a apetecer.
Ele ouviu-a, mas levantou o edredão, para avaliar o espaço sob a cama.
- Queres que seja outra vez no chão, por causa do barulho das molas?
- Sim, mas do outro lado da cama. Eles não me deixam fechar a porta à chave.

Com grau

Como purista da linguagem, nunca teve a certeza se devia empregar labareda ou lavareda. A pessoa que era em primeira instância aprendera a relativizar essa dúvida: com bê ou com vê, elas o haviam queimado.

O joio e o trigo

A prosa avulso no post, como nele a poesia espúria, a crónica esburgada, a narrativa desregrada,

são formas correntes de
paraliteratura, da literatura dos pára-raios, dos pára-quedas e dos paralelepípedos, dos parasitas e dos piolhos, dos pantomimeiros de versos e dos paralogicadores de ensaios, dos papagaios de prosadores de bem, e dos papa-léguas de caminhos de cabras.

A prosa avulso no post, como nele a poesia espúria, a crónica esburgada, a narrativa desregrada,

nunca são, formas aceites de literatura, da literatura dos papistas e sátrapas, dos papa-prémios e papa-júris, da parlapatice paramentada de rei-que-vai-nu, da tolerada parentalha dos consagrados, e do paparreta que escreve críticas e paparicalhos de badanas de livro.

Boris Vian: Le Deserteur (English Subtitles)

Um link e um poema

Nas minhas andanças pelo browser encontrei este link para uma página sobre Boris Vian (1920-1959), um autor que há muito admiro. Ficcionista, poeta, dramaturgo, tradutor, trompetista, compositor, cantor, actor, "Patafísico" - cultor do absurdo. Quarenta obras e cerca de quinhentas composições, numa vida muito breve (39 anos).
Anexo este poema, Les Isles, que é um bom exemplo da sua capacidade em nos surpreender:

As Ilhas

Há ilhas no mar Negro

Ilhas de pedra fria e pálida

Onde se está sempre só

E entra-se em castelos

Cheios de quartos dentro de paredes

Onde se encontram mulheres moles

Gordas mulheres brancas e doces

Estendidas em camas abertas

Soltam no ar uma fragrância dos seus pêlos

Em esguias volutas frisadas

Azul no ar incolor dos quartos

Nunca se deve parar

Pois elas estão ali, elas esperam

Elas podem fazer não importa o quê

Elas assumem todas as formas

Elas fluem como a água.

Não se deve ir às ilhas do mar Negro

É melhor comprar presunto.



Crónica dos Curtumes

Em pleno dia, em plena cidade, um homem começa aos socos a outro, socos de alto a baixo, para partir ossos, alguém, mais corajoso, tenta apartá-los, o agredido foge e refugia-se numa pastelaria, passa para o lado de dentro do balcão e pede ajuda aos gritos, suplicando que chamem a polícia. O seu perseguidor entra também na pastelaria, a chamar ladrão ao que se esconde por detrás dos sacos de beijinhos e cavacas. Ainda tenta chegar-lhe mais uma vez, mas os clientes da pastelaria interpõem-se entre um e outro, confusos, e a única coisa que consegue é esmigalhar uns doces. O ambiente está carregado, uma empregada diz que já chamou a polícia e que vêem a caminho. O perseguidor não se assusta, a polícia leva sempre um tempo considerável, para ver se a borrasca passa, e ele sabe, não se vai embora, continua a chamar ladrão e vigarista ao outro, diz que vai esperar por ele para o matar, espera o tempo que for preciso, e não se afasta, não tem medo porque não fez nada. Trinta minutos depois, chega um agente, sem pressas. Está tudo calmo. O alegado ladrão refugiou-se dentro da pastelaria e mete conversa com o forneiro para disfarçar que está borrado de medo, e o que vigia os seus movimentos está sentado a uma mesa a beber um café, depois de ter pago os sacos de beijinhos que danificou. A empregada pede desculpas ao polícia, fora só uma pequena briga, mas já passara. O polícia, aliviado, repreende-a, tem de haver mais calma antes de chamar as forças da ordem, porque podem ser precisas noutro lado. Cumprido o seu papel, retira-se. Dez passos, e comunica que foi um falso alarme, vinte passos, e ouve um tiro alarmante.

Um trevo de quatro folhas! Caramba! Um trevo de quatro folhas num emaranhado de trevos com menos uma folha! Que sorte!

Com dois dedos puxou pelas folhinhas do trevo.

Atrás do trevo veio uma toupeira que roía a sua raiz e, atrás da toupeira, uma serpente gigante que a começara a engolir.

Com um movimento para diante, a serpente engoliu o resto da toupeira e apanhou o braço do homem, que começou a engolir também.

Que sorte, a da serpente!

Sentia-se inquieto, com formigueiro na planta dos pés e apanhou um avião. Itália. Foi andar a pé, muito, palmilhar estradas, assistir a concertos, beber vinho, procurar a arte dos etruscos, o povo-sombra. Não serenava, o suor só agravara o seu estado, e apanhou um barco. Córsega. Percorreu os montes com os pastores, leu poesia e livros de História na sombra das oliveiras, e alinhavou mentalmente um ensaio sobre Napoleão. Quando sentiu de novo a comichão nos pés, apanhou outro barco. Barcelona. A Barcelona de, de, e de. Mas antes de mais nada, procurou um médico, que lhe receitou um remédio para o pé-de-atleta, que lhe tirou a comichão dos pés e a premência de se pôr a mexer.

A fonte do absurdo

Os astrónomos sonham em quantificar a matéria negra existente no Universo, porque isso explicaria muita coisa. Mas nenhum deles se lembrou de tentar quantificar a quantidade de matéria negra existente em cada pessoa, nem é conveniente fazê-lo.


Ela recebeu um sms no telémovel, casual, evidentemente enganado: «Temos sessão marcada p/ as 3. Ñ te esqueças, Rui». Não conhecia nenhum Rui, tinha de ser engano, ou podia ser jogada, deixou ficar. Perto das três, novo sms: «Tás atrasada?». Hesitou, com o dedo na setinha a fazer correr o texto. Encheu-se de coragem e ligou. É o Rui? Perguntou. Uma voz masculina respondeu afirmativamente, e ela explicou que tinha recebido dois sms's dele, e que deviam ser engano. Um lamento do outro lado, uma pausa, e a pergunta: Que idade é que tens? Dezassete, respondeu. Estás em casa, sem fazer nada? Não, estou agora a sair das aulas. Olha, eu sou pintor e contava com uma modelo para uma sessão hoje às três e, como podes notar, fiquei dependurado. Se quiseres ganhar um dinheiro extra vens até cá, eu pago-te o autocarro e também um lanche, se quiseres. Não é nada de nus nem obscenidades, é pintura figurativa, clássica. Ela, nem mesmo ela sabia porquê, aceitou. Com a indicação da morada, apanhou o autocarro. Da paragem mais próxima à morada, andou uns cem metros. Correspondia a um armazém abandonado junto à linha férrea, onde ele esperava à porta, roupas negras, barba comprida, um lenço em volta do pescoço, como um pintor ou um aluno de design. Entraram. Desculpa a pobreza das instalações, o dinheiro não dá para mais. Só uma parte do interior, junto à entrada, estava ocupado como estúdio. Telas, dois cavaletes, uma pequena plataforma iluminada. Ele disse-lhe para se por à vontade e desapareceu na penumbra. Ela folheou as telas, cruentas, corpos retalhados e em sangue, membros decepados a sangrar no topo de colunas jónicas ou dentro dum círculo de figuras monstruosas. Não te assustes com esses quadros, ouviu-se a sua voz, pertencem a uma fase artística anterior em que estive muito influenciado por Bacon. Ele voltou à luz, trazia uma bata enfiada na cabeça, com uma paleta de manchas de tinta, nas quais sobressaía o vermelho, sanguíneo e espesso. Vamos trabalhar? Ela assentiu. É melhor desligares o telemóvel, para ninguém nos perturbar!

O graxa / lambe-botas

Se fosse um barco,
seria um rebocador, que ajuda os pesos-pesados a entrar e sair dos portos e zarpar nas suas viagens transoceânicas.

Se fosse um peixe,
seria uma rémora que se cola ao tubarão, alimentando-se dos restos de comida presos aos dentes.

Palavras ímpares

A morte e a loucura são palavras ímpares, de solidão...

Aviso à navegação

Os lóbulos das minhas orelhas não têm ascendentes que lhes conheça, foram enjeitados, largados na roda da Santa Casa, ainda recém-nascidos. Por tal facto, e digo-o com tristeza, não se encontrará neste espaço muita informação sobre a árvore genealógica do lóbulo da orelha.


Hoje pus de parte os livros e o absinto. Apetecia-me reagir ao Sol como uma planta ou uma flor. Fui para o jardim logo pela manhã, arranquei as folhas amarelas das couves da horta, reguei o tabuleiro de sementes hortícolas (as da alface rebentam como ervas daninhas) e, finalmente, cortei a relva, ou a erva do relvado, que aquilo cria tanta e tantas variedades de ervas e plantas que um ervanário meu conhecido costuma aqui vir para colher malvas e erva de S. Roberto. Não me dando por satisfeito, e como não costumo ir à missa, fui cozer pão, sempre se anda para um lado e para o outro ao Sol entre a cozinha e o alpendre do forno, e como o Senhor está em todo o lado, também como o pão da sua Ceia. Amassei quatro quilos de farinha, no meu forno cabem cinco mas gosto de deixar um punhado de brasas junto à porta para manter constante a temperatura, e quatro chegava, era só para tirar daí o sentido. Faço o pão à antiga, como gosto, massudo e pesado, uma pessoa come uns nacos dele ainda quente, com manteiga, e dispensa mais almoços (quando faço pão com chouriço, o que não foi hoje o caso, também dispenso o jantar). Tapado dentro do alguidar de barro onde o amasso, o pão conserva-se quente durante cinco ou seis horas, o que sempre me pareceu um milagre, dos verdadeiros. Já me sinto mais sereno, já fiz mais hoje do que em muitas semanas e o cansaço torna o repouso mais apetecido. Agora, já marcha um absinto.

La Lys

(imagem daqui)

A meio da noite, a chuva voltou, miudinha e persistente. Estava encharcado dos pés à cabeça mas, ainda assim, aproximou mais os calcanhares das nádegas como se isso adiantasse alguma coisa. Estava há horas de sentinela na trincheira, sentado na lama como uma esponja podre fedendo sob um oleado rasgado. Tossia a espaços, por obra e graça das bombas químicas, e tinha uma ferida num ombro a querer gangrenar.

Parecia estar ali desde sempre, há gerações, como um ressurgimento atávico de si mesmo.

Um camarada tocou-lhe no ombro, para tomar o seu lugar, mas não saiu de onde estava, e o outro posicionou-se ao seu lado, verificando o fuzil. Semi-adormecido na aba da trincheira, o espírito resvalou para o âmago cálido da memória, para os dias quentes e irreais da sua terra próximo ao mar. Enquanto a manhã rompia à sua volta como uma luz pálida e intrusa sobre a terra dos mortos, ele passeava-se e cirandava com os amigos, bebendo vinho e comendo na feira de Santa Susana, a namoriscar a Adelaide no adro da igreja, ou a tasquinhar um pão com toucinho, sentado ao lado da enxada à sombra de um cipreste na sua leira de terra nas Devas.

Bateram-lhe no ombro, desta vez com força. Olhou em volta, os homens estavam em posição de combate, uns ao lado dos outros com as baionetas a desafiar a chuva que caía, todos à espera de ordens para sair daquele buraco. Tomou o seu lugar. Iam fazer uma investida sobre as forças inimigas, atacá-las sem surpresa para uma batalha encarniçada em terra-de-ninguém, matar-se uns aos outros com tiros e golpes de baioneta para conquistar alguns metros de terreno, que se voltaria a perder um dia ou uma semana depois.

Fitou o sargento que o acordara, a mascar tabaco a uns dois metros dele. Naquele instante, odiava-o mais do que os alemães que não conhecia, por o ter arrancado do seu sonho.

De uma forma ou de outra

Quando morrer quero ir para o Céu! - disse ele à saída do confessionário, entregando-lhe uma nota dobrada para ser colocada na caixa de esmolas. Dizia sempre aquilo, logo a seguir a confessar-lhe os seus segredos sórdidos, que envolviam desumanas barbaridades e crimes de sangue.
Impedido de revelar o que lhe confessava aquele homem, da mesma forma que não era capaz de frustar as suas esperanças piedosas, achou por bem oferecer-lhe um croquis que parecia saído dum caderno de Da Vinci, representando uma catapulta gigantesca com um homem deitado na concha.

Anti-Anteu

Depois de lhe cartografarem as zonas do seu íntimo que as coisas do mundo ocupam, ele pediu que o ajudassem, que o levassem à faca e extraíssem dele umas quantas coisas que sentia poder alienar. Acederam à sua vontade e seccionaram e tiraram de si, as responsabilidades que a sociedade lhe incutira, a culpa pelo que não era culpa sua, o sofrimento pela dor de gente estranha nas antípodas, os deveres com o Estado e o género humano. Todas essas coisas possuíam um peso imenso. Terminada a intervenção, passou a convalescença numa cama, seguro a esta por correias de couro. Quando lhe deram finalmente alta, experimentou a insólita sensação de levitar pelo mundo como uma pluma, bailando entre os pardais ao sabor da brisa.


(Hyeronimus Bosch, detalhe do tríptico "O Jardim das Delícias")


Donovan: Atlantis

The continent of Atlantis was an island
which lay before the great flood
in the area we now call the Atlantic Ocean.
So great an area of land, that from her western shores
those beautiful sailors journeyed
to the South and the North Americas with ease,
in their ships with painted sails.

To the East Africa was a neighbour, across a short strait of sea miles.
The great Egyptian age is but a remnant of The Atlantian culture.
The antediluvian kings colonised the world
All the Gods who play in the mythological dramas
In all legends from all lands were from fair Atlantis.
Knowing her fate, Atlantis sent out ships to all corners of the Earth.
On board were the Twelve:
The poet, the physician, the farmer, the scientist,
The magician and the other so-called Gods of our legends.
Though Gods they were -
And as the elders of our time choose to remain blind
Let us rejoice and let us sing and dance and ring in the new
Hail Atlantis!
Way down below the ocean where I wanna be she may be,
Way down below the ocean where I wanna be she may be,
Way down below the ocean where I wanna be she may be.
Way down below the ocean where I wanna be she may be,
Way down below the ocean where I wanna be she may be.
My antediluvian baby, oh yeah yeah, yeah yeah yeah,
I wanna see you some day
My antediluvian baby, oh yeah yeah, yeah yeah yeah,
My antediluvian baby,
My antediluvian baby, I love you, girl,
Girl, I wanna see you some day.
My antediluvian baby, oh yeah
I wanna see you some day, oh
My antediluvian baby.
My antediluvian baby, I wanna see you
My antediluvian baby, gotta tell me where she gone
I wanna see you some day
Wake up, wake up, wake up, wake up, oh yeah
Oh glub glub, down down, yeah

Veredas

Dois mini-contos editados na revista Veredas (Bissectriz e Ruína).
Um abraço aos editores, em especial, à Ana Mello, que me desafiou a participar no projecto.

Substituto

García, o sem-abrigo, morreu atropelado junto ao contentor de lixo, onde andava à cata de roupa velhas e restos de comida, morreu na berma do passeio, sujo e andrajoso. Uma limusina de vidros fumados parou perto, e carregaram o seu corpo para o interior. Levou apenas perto de meia hora para que toda a nação o soubesse, porque se interromperam as transmissões televisivas e radiofónicas para informar da tragédia.
Foi nomeado um Presidente interino para suprir a lacuna, que ordenou de imediato que as bandeiras ficassem a meia-haste e que se prestasse luto nacional durante três dias, dispondo-se então a receber no seu gabinete representantes de embaixadas e consulados, que vinham prestar condolências.
Toda o país se pungiu pela morte de García: um minuto de silêncio em sua honra nos trabalhos da Assembleia legislativa e no jogo da Selecção de futebol, fumos no braço de diplomatas e professores, varredores de rua e mulheres-a-dias, luto simbólico ou carregado em pessoas que nunca o tinham conhecido pessoalmente mas que reagiam como se lhes tivesse morrido um pai ou um irmão. Uma correnteza de gente ilustre e anónima passou pelo velório para se despedir do seu amado líder e, ao seu funeral solene, compareceu uma multidão impressionante para acompanhar o caixão até ao cemitério. Teve direito a salvas militares, e discursos, e a viúva atraiu a atenção de todos, grave e distinta como Jacqueline no funeral de Kennedy.
Descido o corpo e cumprido o luto nacional, a nação voltou aos poucos à normalidade. Exigiam-se reformas democráticas e o fim dos desmandos do exército, enquanto os mais arrojados falavam mesmo em incriminar os cúmplices do Presidente que o haviam ajudado durante anos a prender e matar os críticos do regime.
Longe da confusão, num refúgio de luxo, o Presidente que todos julgavam morto aguardava a chegada da esposa, com a conta bancária bem recheada e sem temer que o viessem a julgar por crimes de guerra ou por atropelos aos direitos humanos. García, o sem-abrigo, que tomara o seu lugar no féretro, repousava num panteão luxuoso que era maior e melhor do que todas as casas que conhecera em vida.

Dica

Se usar a expressão Dia das Mentiras vos parecer muito extenso, mesmo para ser abreviada em SMS's, substituam-na por Dia das Vidas.

O mentor

Desenho anatómico executado por Leonardo Da Vinci (Royal Library, Castelo de Windsor)                 - Acorda, meu pequeno! Vais c...