INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Empreitada

Foram contratad0s e pagos de antemão para iniciarem a obra. Estava tudo legalizado, as licenças e o comprovativo da aquisição do imóvel, o projecto com a planta e as confrontações.
Socorrendo-se de fotos e testemunhos orais, de notas em cadernos e vagas referências, desmontaram o que havia sido construído. Demoliu-se as paredes novas do prédio de apartamentos, de varandas com gradeamentos de alumínio, e a golpes de esfera d'aço veio tudo abaixo. Limpo o terreno de entulho e materiais, começou-se a arvorar o que ali havia antes: uma torre velha, sineira, ruída. Trouxeram as pedras que haviam sido amontoadas a cem metros dali, para emparelhar muros, e começaram a sobrepô-las nas linhas e ângulos retidos na memória - Aqui havia uma porta, tinha por cima aquela laje, e uma janela diminuta na face voltada a nascente, não, as pedras mais grossas e mais escuras estavam por baixo, numa faixa à volta, eram o pé da torre - As paredes e detalhes começaram a ganhar forma e a crescer, e novas pedras iam surgindo, as que um vizinho ratonou para a propriedade dele para construir um pátio, as que o alcaide levara por serem bonitas, umas e mais outras e a torre foi reconstruída e acabada, como ninguém naquela geração ou nas gerações anteriores tivera a felicidade de ver com os seus próprios olhos.
Quando os operários abandonaram a obra, a torre permaneceu vazia e trancada. Era um mistério como alguém gastara uma fortuna para reconstruir uma torre para ficar abandonada e, como todos os mistérios, gerou lendas, prolíferas como ninhadas de gatos. Diziam que a torre devia ser habitada por almas penadas ou por monges de outros tempos, que fazia as pessoas falarem a mesma linguagem como a de Babel, ou que serviria de farol quando se iniciasse o dilúvio do fim dos tempos.
E com estas historietas as pessoas teciam o seu tempo, o álgido da insónia ou as horas cálidas dos serões em família, enquanto lá fora, o vento que varria a torre oca, espalhava pelo vale o repicar de sinos ausentes.

Era um pessoa letrada e literata, bibiliófilo, amante de obras, coca-bichinhos e coça-metáforas. Analisava as obras dos outros, descobria-lhes sentidos novos e significados eternos. Rendilhava estudos, críticas, ensaios.

Um dia, talvez transposto de um sonho, surgiu-lhe na mente um verso, um único e solitário verso, secreto e indizível,

que enovelou a sua mente em dúvidas incessantes sobre a sua autoria e o seu valor intrínseco,

e secou o manancial do seu espírito.

A comunicação entre as pessoas faz-se vomitando e esbanjando palavras, como jogadores numa batalha de Paintball.

O que as lava, é o silêncio.


Estandarte

«Mesmo em dias como este em que me sinto revolver na escória e na imundície como uma lesma de lixeira, tenho bem presente a fortuna que é, ter quem goste de nós, e a gratidão que lhes devo por existirem na minha vida, como aves-do-paraíso a esvoaçar no dorso das nuvens sobre o meu reino de gusanos e sarrafanos».

Nota dissonante

Sob o céu rubro do entardecer, subir as escadas-de-incêndio dum prédio, para fugir à água das cheias que ascende desde o solo empapado.



Entrou na camioneta ao colo de um homem, que a colocou num assento antes de ir desarmar a cadeira-de-rodas para a arrumar no porta-bagagens. Eu estava sentado de lado, uns lugares mais à frente e pude mirá-la. Ela olhou em volta, distraidamente. A sua cara estava deformada, talvez em consequência da ablação dalgum tumor, havia uma cova grande na face onde deveriam existir ossos, e o seu olho direito resumia-se a um traço oblíquo onde se adivinhava, mais do que se via, o brilho vítreo da pupila. O companheiro sentou-se no banco da frente, porque o banco ao lado dela estava ocupado por um menino com uma mochila enorme aos pés. Ela o viu e achou-lhe graça. Com o seu modo enviesado de sorrir, passou-lhe a mão pelos ombros.
- Devia tratar dessa caspa, isso pode tornar-se um problema sério!

Reflexo

Habituou-se a viver a sua vida como se fosse uma rotina de computador, alguém que fora programado para executar uma tarefa e que a levaria a cabo enquanto existisse. Homem de família, trabalhador responsável, paroquiano empenhado, contribuinte sem mácula. As muitas coisas que tinha de fazer e que se esperava que ele fizesse, preenchiam todos os espaços e todos os segundos do seu tempo até ao gargalo, e exigiam a submissão de cada átomo e de cada molécula do seu ser.
Enquanto isso, os seus sonhos ficavam de fora, despejados na rua, crescendo e agigantando-se sozinhos, até serem maiores do que os muros estanques que delimitavam a sua vida, e caírem em refluxo sobre ela como uma maré de luz. Só aí é que ele se apercebeu deles, e se aplicou a saciar-se do seu néctar opiáceo.
Os outros, os que rodeavam e condicionavam a sua vida ordeira e certinha, não foram capazes de entender essa transformação e, uns para os outros, vivem lamentando que ele tenha enlouquecido.



A modelo tinha desaparecido e foi encontrada morta, três dias depois nas águas de uma represa. Ao iniciar a autópsia ao corpo, o médico-legista não resistiu a dirigir-lhe um gracejo: agora é que estás mesmo podre de boa.

Himeneu

O industrial apagou a cigarrilha e chamou um dos empregados de mesa. O homem chegou-se ao pé dele, tão perto que o poderia ouvir segredar. E era como um segredo, um assunto só deles: "Dá os parabéns ao cozinheiro, o jantar estava soberbo. A Rita está boa?". O outro respondeu afirmativamente, pressentia o que vinha por aí. "Diz-lhe que não vou mais visitá-la, mas não temas, vai ficar tudo como antes, o vosso apartamento, a pensão, aquela conta, tudo!". Apertaram as mãos, como honrados cavalheiros, e atrás do aperto de mão veio uma generosa gorjeta para selar o entendimento.
Horas mais tarde, o restaurante fechou as portas. O empregado voltou ao lar, um apartamento com cobertura, de custos muito superiores ao que o seu exíguo salário permitiria. A mulher estava plantada na sala, vestida e maquilhada para sair. Beijou-a nos lábios e esgueirou-se como um rato até à cozinha, para colocar no frio uma caixa plástica com comida que trouxera do serviço. Ainda não fechara a porta do frigorífico, e já a mulher estava ao seu lado, a polir as unhas.
- Viste o Jorge?
Ele encolheu os ombros, não sabia como lhe dizer, maquinalmente lavou na pia um prato e dois talheres sujos que ali haviam sido deixados.
- Viste-o ou não?
- O Jorge não quer ver-te mais, Rita, disse-mo hoje.
Ela soltou um grito e saiu da cozinha em pranto.
Enxugou a louça lavada antes de a procurar, levou consigo o pano, para lhe enxugar as lágrimas. Encontrou-a deitada no sofá, aos soluços, uma maja desfeita.
- Ele diz que não vai mudar nada, continuamos com o apartamento e com o dinheiro. Acho que vou conseguir continuar como sócio no clube e suponho que podemos converter o vosso quarto num escritório.
Ela fitou-o, finalmente, enraivecida.
- Estúpido, anormal! Eu gosto do Jorge, e tens de me ajudar a recuperá-lo!
- Como?
- Ele tem uma nova amante, já te tinha falado nela. São sempre três, e eu saltei fora. Sei onde mora, tem um apartamento novo e um jipe. Segui-a durante três dias e sei que ela deixa o carro na rua. Tens de fazer alguma coisa, sabotar-lhe os travões, colocar uma bomba...qualquer coisa...
- Estás a pedir muito, a outra ficou desfigurada por causa da panela de pressão, mas não vou matar ninguém. Além do mais, suspeitavam logo de nós.
- Não se telefonares de manhã ao Jorge. Diz-lhe que não tiveste coragem de me dizer nada, que estás em casa daquela empregadinha de mesa que trabalha contigo. Que me dizes outro dia, no fim-de-semana. Nessa altura, a nova misse tem de estar a flores e velas.
- Não, Rita, não vou matar ninguém! Sou um homem de princípios!
Ela soltou um novo pranto, convulsivo, que só acalmou quando sentiu os braços dele a envolvê-la.
- Eu não sou nada sem os meus dois homens, nada! E não vos quero perder...mais valia matarem-me.


Olhou pra cima.
Sinto-me transparente quando estou contigo, sinto que vês através de mim.
E, num longo suspiro de prazer, arqueou o corpo, erguendo os seus seios nus que as suas próprias mãos acariciavam, ela e o seu carinho solitário reflectidos no amplo espelho de tecto.

Small is beautiful

Em vida, sonhava ser coroado monarca dos umbigólatras. Por ironia, é o seu esqueleto anónimo que repousa no Túmulo do Soldado Desconhecido.


O psiquiatra queria recorrer à regressão por hipnose para descobrir qual o trauma que perturbava a sua paciente, mas ela se opôs. Não queria voltar ao tempo em que mijava de pé.


Badanas
Era quase um autor, a sua profissão era escrever resumos na capa dos livros, e era muito bem sucedido no seu campo. Recebeu mesmo um Prémio Capel.


Queria muito trabalhar como actor num filme pornográfico, e enviou para uma produtora, uma foto de corpo inteiro com seu rosto colado sobre o de Conan-Scwarzenegger. A produtora agradeceu a candidatura, e pediu-lhe que voltasse a tentar quando tivesse perdido a cabeça.


O senhorio quezilento, habituou-se a mijar para um bacio, só para poder iniciar todos os dias, uma Acção de Despejo.


Por um certo determinismo do meio, o casal aprendeu aos poucos a falar alto, a só falar alto. A sua casinha humilde, abria as portadas para a linha do caminho-de-ferro, mesmo junto à Estação, e dia e noite era uma bateria de decibéis elevados, das máquinas a rufar e dos choques metálicos, os apitos, as vozes das pessoas que se despediam de outras pessoas e que conseguiam fazer mais barulho que tudo o mais. Dizia, pois, que o casal só falava alto, porque só assim é que se entendia. Mesmo que estivessem rodeados pelo silêncio mais quieto, um dirigia a palavra ao outro a gritar a plenos pulmões, e o outro respondia no mesmo tom, satisfeito por ainda conseguir entender e fazer-se entender. E aos gritos lidavam com tudo o mais, com os vizinhos e as meninas da caixa do hipermercado, e a rezar o credo na missa ou a chamar o bichano que, por prudência, fugia primeiro a sete pés, antes de regressar com rodeios, averiguando a cada passada se aquilo era um chamamento ou um grito irado.
Nesta realidade gritante, entrou um forasteiro, um personagem estranho àquela casa, um homenzinho pequeno que era guarda-fios há pouco tempo e que se lembrou de prevenir o casal que vira no seu portátil um alerta de asteróide em queda, cujas coordenadas, verificara, correspondiam à casa deles, pelo menos, pelo que fora previsto pela Agência Espacial Europeia, porque podia haver alterações de rota e cair noutro lado qualquer. O homenzinho falou tudo aquilo numa voz tão pequena e discreta como ele, mas nenhum deles o ouviu.
O QUÊ? Gritaram em uníssono, e o homem repetiu o que dissera, acrescentando detalhes, um pequeno asteróide com o tamanho de duas casas estava em rota de colisão com a casa deles, e todo o bairro estava a ser evacuado há horas, e ele achou por bem avisá-los antes que acontecesse a tragédia.
POBRE HOMEM! É MUDO! JÁ VISTE O ESFORÇO QUE FAZ PARA FALAR CONNOSCO? Riram-se os dois, achando piada ao murmurante homem patético. Abraçaram-no, deram-lhe palmadas no ombro e foram com ele até à porta, não sem antes lhe colocarem nas mãos um copo de vinho e uma sandes de pão caseiro com presunto. O homem foi-se embora, convencido que cumprira a sua incumbência, e o casal ficou à janela a acenar-lhe.
SABES? ACHO QUE NUNCA VI ESTE BAIRRO TÃO SOSSEGADO!

Últimas palavras de
Vincent van Gogh:

La tristesse durera toujours


Interrupção

Foi atingido enquanto dormitava na praia deserta, uma única vez, e sentiu uma dor funda sob a orelha. Não havia testemunhas, daquelas que descrevem diversamente os factos com grande confusão de sujeitos e verbos, nem fotógrafos entediados. A impunidade parecia possível, contrariando os desígnios e a vigília da divina Providência, com único senão: a bola. Era uma bola nova, que o atingido aferrolhava nos braços, com rancor. Os miúdos que jogavam na praia, ainda esperaram uns segundos a ver se o tipo mudava de ideias e a devolvia, depois, encolheram os ombros e abandonaram a praia, e a bola confiscada.

Brincando com Coisas Beras

Os raptores não tinham motivos políticos para os seus actos, raptaram um industrial e a única coisa que queriam era dinheiro. Os familiares negociaram com eles através de um emissário, mas quiseram regatear no valor do resgate e eles cortaram a orelha do desgraçado para lhes ser entregue. Os parentes caíram em si, e concordaram com tudo. Ao intermediário, que o tinha visto pessoalmente, informaram-se do estado do abduzido.
- Ele parece-me bem - relatou - diz que se sente diferente desde que lhe cortaram a orelha e perguntou aos seus guardas se não tinham materiais de pintura, porque sentia uma necessidade obsessiva de pintar.

Smile por extenso

A jovem vivia a sua vida comum e ordinária, desconhecendo que num universo paralelo vivia uma jovem exactamente como ela, vivendo uma vida idêntica com sonhos paralelos aos seus. As duas jovens, a que vivia na Terra e a que vivia em Terra II, viram as suas existências serem pulverizadas de todas as faces do Universo, por terem encontrado pela frente uma terceira jovem semelhante a elas, que vivia num universo perpendicular com o qual acabaram por colidir.

Overdose

Foi enganado quando comprou a mercadoria. Inalou quantidades apreciáveis de Pó de Talco, e ficou a cheirar a fralda nova de bebé.
Quebrando a tradição, a noiva chegou primeiro à igreja, isto, depois de dar voltas e mais voltas na limusina, na esperança que o noivo aparecesse. Na igreja, a espera enervante transformou-se em tragédia grega quando as suas tias lhe contaram em pranto que o noivo havia sido visto a caminho do terminal de autocarros com um mala de viagem na mão. Convergiram todos para lá, a noiva com os familiares, os amigos, as beatas e os anjinhos das alianças. No exacto momento em que lá chegaram, avistaram o fugitivo dentro de um autocarro que saía da Garagem, a acenar com um sorriso indecifrável nos lábios. Entre gritos e fanicos, ficou concluída a despedida de solteiro.

Pescara um robalo, enorme, devia ter mais de sete quilos. Ficou tão orgulhoso da sua pescaria que achou que seria um desperdício comer aquele exemplar, e decidiu compartilhá-lo, para sua glória pessoal. Cortou-o em postas, congelou-o e enviou postas do robalo para três amigos, acondicionado em embalagens estanques. O que restava do robalo, enviou-o para a sua hostil ex-mulher, para a posta-restante.


Repasto

Horas mortas do fim do turno, o restaurante fechado e os empregados a recompor-se à volta da mesa da cozinha. Em cima da mesa, uma tachada de carne guisada. Vanessa, a empregada de mesa, é a primeira a provar, calhando-lhe logo um bocado de carne com nervo que rói com dificuldade.
- O que é que achas do novo Maître que nos arranjaram? - pergunta o cozinheiro.
- Já vi piores...enfim...come-se!


(também Aqui)

Dá-lhe corda!

Ditado:

Em casa de autor não-publicado,
não se fala em literatura de cordel.



Bastião

Roberto era um empresário caseiro -a mulher prostituía-se e ele era o mediador. Para não dar muito nas vistas, eles mantinham a casa comum fora daquele comércio. Mesmo assim, ele foi abordado por um vizinho, um pilar da comunidade, daqueles que trazem um terço pendurado no espelho do carro, e bufam com cheiro de alfazema. Em privado, perguntou a Roberto se não estranhava as ausências nocturnas da esposa, as roupas diminutas, a maquilhagem carregada. Roberto negou, não era ciumento, ela saía com amigos, tal como ele próprio saía também, para beber uns copos ou dançar, ou ir ao teatro. Mas as horas! Ela ficava fora quase toda a noite! "Isso não me preocupa" - tranquilizou o empresário - "É tudo uma questão de confiança, e eu sei bem quem tenho em casa!"

Fuga

De um momento para outro, a jovem começou a falar em outras línguas, com diferentes tons de voz. Os familiares distinguiram quatro tipos diferentes, e concluíram que estava possuída por quatro almas do Outro Mundo; e chamaram um exorcista para limpar a casa. Quando este acabou o seu trabalho, a única alma que ficou no condomínio, era doutro bairro.

Post-respost@ ;)

"São fases!" - explicou a Lua deprimida, enquanto minguava.

War-Export

Num primeiro estádio e em condições experimentais, foram enviados andróides para colonizar o planeta Petra, único por ser semelhante à Terra, embora contivesse uma atmosfera tóxica.
Inactivos durante a viagem, os seres mecânicos foram despertados com a nave já pousada na superfície.
Os andróides haviam sido concebidos com uma falsa memória: todos eles recordavam a seu modo o seu lugar de origem, com as formações rochosas, os ventos fortes e os vulcões no horizonte, uma memória montada com as imagens de Petra colhidas pelas sondas que haviam explorado previamente o planeta. Essas memórias eram diferentes de um andróide para outro, porque as imagens inculcadas em cada um, diziam respeito a diferentes regiões de Petra, e o intuito dos seus criadores era obter a maior quantidade de informação possível.
Deixados na superfície, mas monitorizados à distância, os andróides dispersaram-se e vaguearam pelo planeta até reconhecerem o seu lar na topografia e características de um lugar, aquele que a sua memória apontava como sendo o seu berço, o ponto de eclosão. Satisfeitos - de uma forma que se aproximava da felicidade sentida por uma pessoa - construíam o seu abrigo, e começaram a colher dados e a transmiti-los para o espaço exterior, para a sua "família".
Os efeitos de uma longínqua supernova interromperam o contacto entre os andróides e os seus criadores, num espaço de tempo que para estes se traduziu por uma angustiante espera. Quando a comunicação foi retomada, descobriram que quase todos os andróides haviam sido destruídos, e só restava um, o autor do massacre. Este andróide, devido a uma falha no software causado por um acidente ou contacto com alguma fonte de radiação, vira desvanecer-se a sua memória artificial a ponto de quase a perder por completo e, incapaz de encontrar o lugar a que pertencia e onde tinha de operar, ocupou-se a destruir todos aqueles que poderiam ameaçar a posse desse lugar.

espaço

Vivendo durante gerações no mesmo sítio, o habitat da família Soure cristalizou-se ao longo dos anos - um casarão comprido de dois pisos, de paredes grossas, com os quartos e casas-de-banho no primeiro andar e o amplo piso térreo vocacionado para outros fins: cozinha, sala de refeições, adega, forno de pão, curral de porcos.
A casa era a matriz da família, as crianças cresciam ali até à idade adulta e, quando sentiam a pulsão de ser livres, saíam da casa para casar, para viver longe, mas os laços que mantinham com as suas paredes eram indissolúveis, e acabavam por voltar a morar na mesma casa, adaptar os quartos dos parentes entretanto falecidos, e criar por ali os seus próprios filhos, retomando os hábitos e ocupações dos pais e avós.
Quando a geração mais nova considerou a hipótese de interromper esse ciclo familiar e demolir a velha casa para erguer um prédio moderno que desse para todos viverem com conforto, convocaram uma reunião de toda a família para votar sobre o assunto. Instalaram-se na velha eira do pátio e, no instante em que deliberavam, favoravelmente, pela demolição, ouviram um estrondo dentro de casa acompanhado de uma nuvem de fuligem e pó.Na casa, deram de caras com um buraco fundo que se havia rasgado no meio da sala, diante da lareira. Espreitando para dentro dele, só conseguiram divisar a grande laje quebrada da lápide que sempre estivera sob os seus pés, e que marcava o sepulcro do primeiro casal Soure que ali morara, aquele que erguera as paredes da casa com as suas próprias mãos, e emprestara-lhe as suas almas. Todos os presentes, mesmo os mais novos, sentiram a íntima convicção de que a nova casa, o moderno prédio de apartamentos, não seria mais do que um ninho efémero e transitório de tijolos e cimento.

08/03

De uma poetisa, Soledade Santos, um poema sobre mulheres:

Deram-me o nome
deram-me o nome
da mãe
da avó
e de outras ancestrais que não conheci

a avó fez jus ao nome
e de Andaluzia onde foi menina
trouxe a espantosa solidão
da cama desabitada
dos filhos
perdidos
na guerra

a mãe foi artesã
da alegria
(da minha – não da sua)
e passou breve
cisne ao sol
sacrificado

e agora
eu herança
no longe dos seus olhos

Tributo público

Aclarou a garganta diante da campa da mulher, no meio do cemitério vazio. Abriu o jornal e começou o discurso;
- Olha, já se passaram dez anos e fiz-te uma homenagem de página inteira no jornal local. Chama bem a atenção, letras grandes, uma orla de flores e anjos e uma fotografia tua, uma das boas, antes daquela operação plástica aos lábios que correu mal. E elaborei um texto, queres ouvir?...Bem, começa assim, com o teu nome: "Mingu «cãozinho» Antunes - Dez Anos de Eterna Saudade". Pus a tua alcunha, viste!? Aquela que usávamos nos nossos jogos. Depois, o texto: "Minha amada, amada minha, já faleceste mas em mim nunca pereceste, bendito sejas entre as mulheres e benditos os frutos do teu ventre, a Micaela e o Gasparito. Boa mulher, trabalhadora, sustento do lar e do teu amado. Estamos todos cheios de soidades tuas", viste esta? Soidades, linguagem erudita, não é para qualquer um. E acaba assim: "Que fique mudo se agora mentir, mas dava dez anos da minha vida em troca de uma hora passada contigo!". Gostaste?
Ouviu um som estranho e sentiu um arrepio. Parecia que alguma coisa estava a raspar, e pensou de imediato que era a mulher a raspar no granito da campa, imaginou-lhe as mãos descarnadas, o esqueleto todo, a fazer pressão contra a tampa para sair dali.
- Mas escrevi aquilo só para o jornal, é poesia, não é para tomares à letra, deixa-te ficar aí descansada, que estás muito bem!
Continuava a ouvir raspar. Com os nervos em franja, tentou dobrar o jornal mas debalde, e acabou por largá-lo e correr para a saída com fogo no rabo. Quando estava quase a alcançá-la, ouviu raspar de novo e imobilizou-se, gelado. Olhou para trás, mas não estava a ser perseguido por nenhum esqueleto. Descobriu então um homem meio agachado entre as campas. Era o zelador do cemitério, a sachar ervas à volta dos túmulos - o som que ouvira era produzido pelo atrito da lâmina do sacho contra a pedra.

(também aqui)
Um jantar de mulheres, com revelações operadas na câmara escura do vinho tinto.
- E como foi o teu primeiro orgasmo?
- Foi lindo - respondeu - senti-me assim no alto, com a brisa nos ouvidos e os pássaros a chilrear nas janelas, também ouvi sinos a tocar...
- Tens a certeza de que já tiveste algum? É que isso dos sinos parece-me palavreado desinformativo...
- Não quando o primeiro orgasmo foi com um padre no cimo da torre sineira.

Paúl

O padeiro saiu do seu turno de trabalho pela madrugada, e caminhou pelo parque de estacionamento até ao carro. Ergueu os olhos e viu dois patos bravos a voar sobre os caniços, de silhueta dourada pelo sol. O seu primeiro pensamento foi: «Belo, quase um quadro», o seu segundo pensamento foi mais linneico: «H5N1».
(Nada como a gripe das aves, para tirar a tesão poética a uma pessoa)

Formiga

- Sou um trabalhador independente!
- A recibos?
- Não, descolonizado!

Irene



     Quando regressou de férias à terra onde nascera, tentou redescobrir o valor das coisas que assumira como suas nos primeiros vinte anos de existência, as ruas da aldeia, os amigos de infância, o casal idoso da pequena mercearia, os lugares onde se desenrolaram as suas brincadeiras de criança, e também, os cenários e pessoas dos primeiros afectos e experiências sensuais.
     Tentava acima de tudo passar o mais tempo possível com o pai, um ancião trôpego de pernas e já um pouco desmemoriado, que por vezes o confundia com o irmão mais velho - que partira para o Brasil e nunca mais dera sinais de vida - e que pedia a ele ou ao seu irmão, que o levasse a passear.
     Passear, para aquele homem, era percorrer sempre o mesmo caminho ritual: por estreitas ruelas até ao adro da igreja e, daí, por um caminho íngreme com degraus a espaços, subir até ao miradouro do cruzeiro, no outeiro por detrás do templo. O pai cismava em ir ali, ainda que as suas pernas já não aguentassem a jornada. Parava sempre a meio do caminho, no limite das forças, golpeando com a bengala nodosa no cascalho, e a soltar imprecações. Ele passava o braço do velho sobre os seus ombros e segurava-o sobre a axila de modo que ele pudesse coxear apoiado na perna mais sã. Por vezes, nem isso servia o propósito, e acabava por pegá-lo ao colo, e transportá-lo a resfolegar até ao cruzeiro. Chegados lá, sentavam-se no soco de cimento da cruz e olhavam os campos e o mar, com o ancião a repetir histórias longínquas, tratando-o ora pelo seu nome, ora pelo nome do irmão desaparecido. Outras vezes, o velho ficava em silêncio, ouvindo as suas próprias confidências. Quando voltavam para casa, ele acabava sempre por perguntar ao pai a razão daquele passeio, e ele respondia de forma enigmática: «porque é bonita, muito bonita!», fazendo-o interrogar-se se falava da vista ou se peregrinava, como ele por vezes o fazia, até uma memória íntima que aquele lugar reavivava.
     No último dia que passou na aldeia, o pai pediu-lhe novamente que o levasse a passear, garantindo-lhe que era a última vez que o fazia. Quando lhe perguntou por perguntar, se o passeio era até ao cruzeiro, o pai respondeu de forma mais precisa: «É até à Irene!». Irene, Irene não era o nome da mãe, mas devia, tinha de ser, um nome poderoso, para arrastar um velho que mal conseguia andar até à cruz na crista do monte.


Arca

Na génese da humanidade,

a palavra Noé,

é um arcaísmo da linguagem



[pintura de Edward Hicks (1780-1849]

Descanso

O seu preâmbulo era sempre o mesmo:
"Vou contar-te um segredo, mas não o contes a mais ninguém...".
Obtida a aquiescência, desfiava o seu entre comas segredo com ar de conspiradora, e repetia a cena com todas as pessoas que encontrava. Na prática, os seus segredos eram do conhecimento geral, mas transmitidos com um sigilo próprio de sociedade secreta.

Com o mesmo secretismo, anunciou a todos e a cada um, por gestos, que perdera a voz e não conseguia falar.

E todos e cada um dos amigos lhe seguraram as aflitas mãos gesticulantes, e diante dela, levaram o dedo aos lábios.

Praia dos Salgados.

Uma extensão de areia que nunca mais acaba, e onde o mar é muito azul, e indomável, com um ventre de desfiladeiros e ravinas esfomeados por vidas humanas; um areal inóspito e belo que propicia passeios solitárias e furtivos encontros amorosos.

Um amigo meu, que faleceu há uns poucos anos, costumava dizer-me que a felicidade, para ele, traduzia-se, simplesmente, nisto: admirar os Salgados, enquanto fumava uma broca, com Bob Marley nos fones.

Voltei aos Salgados, para uma longa caminhada, num dia ventoso em que o céu se assemelhava a uma lente côncava, e pensei como deve ser bom não precisar de um milhão de coisas, para pôr um pé à frente do outro.

Paixonetas,
o rosado
dos mamilos,
a curva do calcanhar,
o ombro com sardas,
o cheiro das axilas,
o sinal na face,
o cinto de cabedal,
a cicatriz na cintura,
um olhar distante,
o gemer enquanto caga,
a inteligência,
a indigência de palavras,
o zangar-se sem motivo,
o perdão entrelaçado com sexo,
os laços que a língua faz no coiso,
a voz, o reencontro,
a secreta fantasia
com a prima gorda
num affaire a três,
as tenras brincadeiras dos dois,
o estaladão,
o correr no calçadão,
a meia, a meia-leca, a meleca nas unhas,
as unhas pintadas que ela crava nas suas
costas durante o acto,
o acto falhado que ela compensa
fazendo de mãe, o dormir exausto sobre o peito,
o desejar que ela fosse mais imperfeita,
o não desejar nada e ainda assim
sentir prazer, a funda gratidão
por ela existir

(O coração tem rações
que a própria razão desconhece)

Se fosse hoje

Comentário 1:

Olá, passei por aqui e achei o seu blogue muito interessante. É sobre arquitectura? Fornos de tijolo? Não consigo perceber, também, está escrito em alemão, quando em inglês podia ter muito mais visitas. Mas não importa, adorei as plantas de casas e as fotografias neo-realistas a preto e branco, aquela dos comboios parece um quadro. Adorei, vou voltar de certeza!

Comentário 2:

Oi, meu nome é Linda, espero que você entenda português. Visite meu blogue em http://poemasdeamorefotospirosas.blogspot.com/.Te estou esperando.

Comentário 3:

Não percebi grande coisa da solução final. Surpreendido? Eu consigo ler alemão, escrever é outra história. Sei que vivemos em guerra, mas podia arranjar umas imagens menos pesadas para o blog, a cores e sem militares e comboios. Adorei ler no seu blog o NACH NEUEN MEEREN de Nietzsche. Já agora, como é que você se lembrou desse nick: Eichmann?

A última amante

Enquanto a névoa se adensava e a sua consciência ainda
lumejava no meio dela, fantasiou sobre névoas e smogs, pensou
de imediato no nevoeiro sebastiânico com o rei redentor
a emergir às portas de um centro comercial com a
sua armadura de prata e a espada
flamejante, mas logo essa fantasia artificial foi substituída por uma outra, vívida e sensual,
a de uma mulher a caminhar nua sobre lava fundente como se andasse sobre
gelo, sentia o halo do seu corpo, a um tempo gelado e ardente, o cheiro
da sua pele,
a maciez dos seus lábios.
Beijou-a e aquele beijo aspirou do seu peito as últimas moléculas de oxigénio, e encostou docemente a cabeça sobre o descanso
do banco, mergulhando no seu nevoeiro íntimo de monóxido de carbono, dentro do carro escondido na garagem fechada.



(também
aqui)

«Meios de comunicação»

Na noite de Halloween do ano de 1938, Orson Welles encenou na rádio a "Guerra dos Mundos" e levou ao pânico milhares de pessoas que acreditaram que a Terra estava a ser invadida por marcianos assassinos. Desfeito o equívoco, Orson Welles viu abrirem-se perante si as portas do cinema, isto, apesar de um misterioso director da CBS ter tentado convencê-lo a ser pivot de noticiário, durante uma estranha entrevista que manteve com Welles num gabinete mergulhado na escuridão. Não fosse ser pouco impressionável e acreditar que era mais uma partida de Halloween, e Welles poderia jurar que durante a entrevista nas trevas, conseguia vislumbrar a silhueta gigantesca e fosforescente do seu interlocutor, e o vrupt-vrupt produzido no mosaico pelos seus pés com ventosas.

Hábitos

Os magnatas do século XXI, entraram na onda da criogenia. Estão podres, cancerosos, biliosos - mas pagam uma fortuna e são congelados até uma data futura, onde despertarão para serem curados dos seus males e viverem uma nova vida, quiçá?, de juventude eterna. Para que o seu cérebro seja preservado, são congelados de cabeça para baixo - porque assim, a faltar oxigénio, será nos dedões dos pés e não no seu precioso intelecto.
No século XXII, os lazarentos magnatas do século anterior vivem num bairro à parte. Não é um ghetto. Despertados e curados das suas maleitas, andam à força de braços, de pernas para o ar, num bairro próprio onde todos os sinais e dizeres estão, como eles, virados do avesso.


Para haver muitos golos (ou Débil derby)

Uma constatação:
Quando, em futebol, se defrontam duas equipas vocacionadas para jogar para trás e para o lado, a única solução é criar balizas suplementares a meio-campo.

Minguante nº 9


Está online o novo número da revista Minguante, subordinada ao tema O Desemprego, e contando com as participações de:

Adelaide Amorim, Alberto Oliveira, aNa B, Ana Mendes, Ana Ramalhete, André Domingues, Angela Schnoor, APC, Avery Veríssimo, Carlos Seabra, Débora Regadas, Eduardo Oliveira Freire, Elisabete Patrícia Andrade, Enrique Bóveda, Fernando Gomes, Gustavo do Carmo, Helder F. Raimundo, Inês Sousa Santos, João Carlos Silva, João Pereira de Matos, Jorge Castro, Laís Chaffe, Luís Ene, Luís Serra, Luísa L., Manuel A. Domingos, Márcio Ezequiel, Marco Antônio de Araújo Bueno, Margarida Delgado, Maria João Fernandes, Mário Calado Pedro, Mário Lisboa Duarte, Mauro Paz, Miguel Alves, Osvaldo Ferreyra, Paulo Rodrigues Ferreira, Pedro Chagas Freitas, Rita Cunha Travassos, Rita Tavares de Melo, Rui Silva Santos, Susana Lopes, e Wilson Gorj.

Copy/Paste

Para assinalar o tema do Minguante n.º 9, reproduzo um mini-conto de Gonçalo M. Tavares, extraído d' "O Senhor Brecht":


O desempregado com filhos

Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.

Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão que te resta.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.

Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.


(“O Senhor Brecht”, Gonçalo M. Tavares, Editorial Caminho, Colecção “O Bairro”, 2004)

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...