INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Capo

Olhando muito atento para todos os lados, cruzou o laranjal da Escola até à parede de fundo dos balneários. O anafado Vito estava no seu escritório bucólico: uma caixa de fruta emborcada na terra e um cepo a servir de banco.
- O que é queres?
- Preciso que falsifiques a assinatura da minha mãe no boletim de notas! Trago um papel com a assinatura dela para copiares.
- Cinco euros, ou um jogo de cartas Beyblade, ou a tua colecção de fotos de Anna Kournikova!
- Isso é muito, é só uma assinatura...
- Ou servires de banco com as tuas costas para eu espreitar pela janela das raparigas, ou perguntares à peste da Cruella qual é a cor das cuecas dela. Já sabes como é, hoje por ti, amanhã por mim, e uma mão lava a outra.
Avaliou os custos e os estragos, enquanto Vito analisava o papel com a assinatura.
- Está bem, dou-te os cinco euros - concordou acabrunhado, sacando a nota do bolso
- Como foste simpático, vou fazer-te mais um favor: quando chegares a casa, pedes cem euros à tua mãe. Se ela recusar, mostras este teste de ADN e ameaças dizer ao teu pai que ele não é teu pai. E, é claro, amanhã rachamos os cem euros.
«São prioritários todos os veículos que transitem em missão urgente, quando assinalem adequadamente a sua marcha. Estão entre eles, carros de polícia e veículos de socorro (Bombeiros, ambulâncias e camiões de transporte de cervejas)».

Parvoíce x memória

- Onde estavas tu, quando se deu o vinte e cinco de Abril?
- Oh! Isso foi há imenso tempo! Devia estar ainda no cu dos franceses - respondeu a ténia.

Um luxo

...6...5...4...3...2...1...Partida. O engenho espacial eleva-se do Cabo Canaveral, com o seu único ocupante sujeito a uma pressão de 24 G's. Ensaio de novo propulsor. Saída da atmosfera a correr como esperado, mas os sinais vitais do astronauta são confusos, ainda está vivo, mas o cérebro parece ter derretido. É cancelada a transmissão em directo para o mundo das imagens do interior da nave. Estas mostram que o corpo do homem ficara reduzido a uma lâmina que se fundira com a cadeira onde estava deitado. Ao ser dirigida para a Estação Espacial, a energia electomagnética gerada pelo novo propulsor abre uma fresta na estrutura do cosmos e projecta-a para outro canto da galáxia, para a atmosfera de um planeta semelhante à Terra, onde se despenha.
Em Houston, todos ficam abismados, esquadrinha-se o espaço, formulam-se teorias, fala-se insistentemente em extraterrestres e raptos.
No outro canto da galáxia, os extraterrestres de que todos falam, desmontam a nave abandonada e aproveitam o metal de que é feito, para as suas próprias casas e corpos e, entre eles, licitam a cadeira da nave, que todos cobiçam por ser forrada a pele.

Tex Willer


Meio-dia, o Sol a pino, Tex entra na cidade como o seu fiel aliado Jack Uuaaggh Tigre. Ouvem tiros, Pow, Pow, estão a assaltar o Banco, Pow, Pow, os dois disparam, Pow, Pow, Pow, os assaltantes respondem, os cavalos relincham, HIIIIII. Tex vê uma senhora apanhada no meio do tiroteio e salta sobre ela e derruba-a, rolando com ela pela poeira: vvvvvvvvvv (onomatopeia da erecção de Tex). Nisto, um dos assaltantes dispara sobre eles e Pow, atinge Tex perto do coração. HIIIIIII, os assaltantes fogem a cavalo. Jack Uuaaggh Tigre socorre Tex, que não quer sair de cima da mulher.
-Estás bem, Tex?
- Não te preocupes, não é esta mísera bala que me vai impedir de continuar a fazer Pow, Pow, vvvvvvvvvvvvv.

Aspiração inconfessada:

A da sua página na Internet compaginar uns quantos autores, em letra não-impressa.

"Sabes, mulher, fiz um desfalque no banco e ninguém deu por nada!". Era uma confiada confissão à pessoa errada. A mulher era contadora, contilheira, condrilheira. E não tardou, vieram a sua casa exigir-lhe que devolvesse a perna do banco de jardim, que ele colocara no seu próprio jardim como se fosse uma prótese.

Arrgh!

Fez-se carteiro devido à sua mania de abrir o correio dos outros, de rasgar os envelopes e devassar intimidades. Tirava da motoreta a sacola do correio e levava-a para casa e....rrr, carta de amor...rás, dinheiro, rrás, carta anónima com letras recortadas de jornais, rrrásgh, pó-de-talco, não, Antrax!
- Tenho de dar os parabéns, Vladimir, os exames revelaram que tem uma máquina perfeita, um verdadeiro coração de ferro.
- Obrigado, doutor, não é à toa que me chamam o Coração Potenkim.

DEUTSCHE BUNDEPOST

ou

O POST DA BUNDA

Poder real e poder nominal

A eleição de Raúl Castro como presidente de Cuba, é tão inesperada e revolucionária como a eleição para Papa do Cardeal Joseph Ratzinger, para suceder a ele mesmo.

Eu não vou estar lá, mas ele vai!

De Eduardo White, poeta moçambicano (n. 1963), um excerto d' O Manual das Mãos (Campo das Letras, 2004):

«Deverei ter adormecido, deduzo, enquanto revisito, pelas janelas, o movimento da rua lá em baixo. Há gente que lembro sobre elas, velhas fotografias amarelecidas que vivem ordenadas na memória, e o sol, outra vez, riscando o soalho e acendendo o chão sobre o qual estou de pé e estático, ouvindo gargalhadas e choros de crianças que em algum lugar em mim as conheci. São os meus filhos brincando na nudez infantil da sua beleza, as harpas que as suas mãos vão soltando para que as toque ou cante a relva que de dentro da casa é verde e eu diviso.

«Meu Deus, como é boa esta visão profunda e sentida, as cores com que a construo e respiro, o assobiar levitante dos pássaros rasando-me os pés como se me quisessem erguido acima do equilíbrio e da sóbria gravidade.

«O cão que nunca tive, tenho-o agora e vem correndo ao meu encontro com a alegria canina balanceando-lhe a cauda. Nem nome tem para mim e ele próprio o desconhece. Também para que serve um nome se a gente ama e respeita, para que serve essa identificação se a amizade, aqui, tem a precisão olfactiva da lealdade?

«Ergo-o para o colo, para uma ternura profunda a ladrar-me o coração e o cão agita-se em sua bondade, quase fala, quase grita, quase beija a compreensão que ele entende ver em minhas mãos afagando-o. Ponho-o sobre o chão e vejo-o partir como uma gazela soltando o perfume da mestria e da graciosidade.

«Parte rumo às crianças ou, então, para a ideia que tenho delas. Por isso acendo-me nas luzes que ardo dentro, na clareza juvenil do sangue a trabalhar nas veias todas, no coração que o filtra, o purifica, o devolve à vida da respiração. E a música vem surpreender-me, sentado na mesa, alvo e puro como uma canção e entrando, definitivamente, pela casa dentro».

Venha o diabo e escolha

Fumava charutos e trocou-os por cigarros light, e viciou-se nestes, depois recorreu aos comprimidos de nicotina para deixar de fumar e viciou-se nos comprimidos de nicotina. Agora, deixou-se de rodeios, e recomeçou a fumar Havanos, para comemorar, diz ele, a sucessão de Fidel.

Garanto que esta não é para quem se possa supor que seja, porque já foi ão que deu chuva (ou: O título maior do que o post)

«Eu, em plena posse das minhas Faculdades mentais, declaro como legítimos e indiscutíveis todos os cursos superiores que tirei em cada uma dessas Faculdades».

Guerra Cívica

As donas-de-casa reagiram ao aumento do custo de passar a roupa a ferro, anunciado pela corporação sevilhana de engomadeiras. Diziam, em resposta que, por esse preço, até elas mesmo passavam a ferro.

As engomadeiras, revoltadas, saíram à rua com o seu grito de guerra:
"No passarán! No passarán!".

coelho duracel

Regressada da Califórnia para onde emigrara, ela julgou que os cafés com dísticos azuis anunciavam a oferta de Viagra aos clientes.

Aviso:


A Velha Ceifeira, de esqueleto com capuz, que sega com uma gadanha

NÃO É

um jogo da Sega !

"O mundo é feito de mudança"

No meu pingue-pongue com a existência, já estive envolvido em muitas mudanças, já vivi em casa própria e em casa emprestada, já morei em quartos alugados, e até em casas que nem sequer eram minhas e onde vivia fugazmente como um clandestino. Hoje vivo em casa duma senhora chamada hipoteca, muito digna e de mênstruo regular, mas a sua pele pica como alforreca.
De tudo isto me vem a minha invulgar experiência em mudanças. Mudei-me a mim e a pouco mais, de uma casa para outra, várias vezes, sendo que todas essas casas estavam situadas no mesmo planeta, mas nem sempre no mesmo continente. Também ajudei amigos meus nas suas mudanças, já embrulhei louçaria em papel de cozinha, encaixotei discos e livros (o meu trabalho menos produtivo), carreguei móveis, colchões, caixinhas e caixotões. Na mudança de um amigo para um apartamento de quarto andar, sem elevador, éramos para aparecer cinco e só apareci eu, e os dois tivemos de gramar até às três da noite a carregar móveis escada acima. Quando atingíamos o apartamento, bebíamos uma cerveja para o caminho, carga-cerveja-carga-cerveja-carga-cerveja, chegou a vez da base do roupeiro. Ainda chegamos ao segundo andar mas aí, ficamos empancados na curva do patamar intermédio da escada. Nem para cima, nem para baixo, os dois entalados contra a parede. Duas da manhã, tudo recolhido, e nós a conversar nas escadas à espera não sei de quê. Falamos de futebol, de Pink Floyd, de Jim Morrison e de couves (por esta ordem). Nisto, o meu amigo não aguentou mais a cerveja na bexiga, e desinchou-a nas escadas (ainda bem que eu ia em primeiro). Com a barriga dele mais rasa, deu-se um milagre. Conseguimos dar um safanão no móvel e soltá-lo, para o levar a bom porto (!?).


Mais trabalhoso do que as mudanças podem ser, no entanto, as ficanças. Nas ficanças, mudamos o mundo para dentro da nossa casa, trazemos coisas para o lugar onde vamos ficando e definhando. Há ficanças comezinhas e leves, como adquirir souvenirs mais ou menos iguais, objectos de louça, leques, ícones meteorológicos, relíquias, quadros de paisagens marinhas. Depois há aqueles que querem açambarcar o mundo e levam tudo para dentro de casa - rochedos, sucata, árvores, carrosséis, pneus velhos, cobras, regatos. Sinceramente, em ficanças não tenho muita experiência, e também nunca me pediram ajuda para tal. Mas já uma vez fui em regime de ficanças para casa de uma senhora. Quando ela não precisava de mim como cobertor de aquecimento, tentava usar-me como anti-traça de roupeiro, tapete de quarto, cinzeiro e escarrador. Isto, até ao momento em que me apercebi que ela nunca seria a minha casa, e meti-me de novo em mudanças.

Personagem e pessoa

Rui Silvério é um homem afortunado e invejado, possui o trabalho que sempre desejou, uma mulher linda que adora e duas adoráveis crianças, vive numa bela mansão, passa férias em lugares de sonho e está muitas vezes rodeado de amigos que partilham o seu quotidiano e a sua vida. Recepções, festas, carros potentes, um pequeno iate na marina.

Rui Silvério não se sente uma pessoa muito feliz.

Rui silvério é um actor de televisão e, por vezes, dá consigo a pensar que mesmo que fosse quem representa, também não se sentiria muito feliz na pele do lobo.

Siesta

Sentiu-se mortalmente aborrecido naquelas horas finais do expediente. Abandonou o portátil, onde tentava escrever alguma coisa à socapa no escritório, subiu para cima da secretária, correu a grelha de ventilação e esgueirou-se pela conduta de ventilação do prédio à procura de um sítio sem muito barulho onde pudesse dormir uma soneca. Não era fácil. Ressoavam ali todos os ruídos, o clipe que cai ao chão, a porta que bate, o cão que late, o ruído organizado das vozes, o ronronar do ar-condicionado. Finalmente, encontrou um espaço que lhe agradava, um cochicho, uma reentrância na conduta onde os sons morriam num milagre da acústica. Tirou o casaco e dobrou-o para lhe servir de travesseiro. Enroscou-se no chão e tentou adormecer.

Uma mosca procurava evitá-lo, zumbiu em torno da sua cabeça, descreveu trajectórias angulares diante dos seus olhos e, por fim, pôs-se ao fresco.

A seguir foi uma formiga, ou melhor, um carreiro delas, que lhe subiram pelo antebraço, até à mão que amparava a nuca, aí subiram uma vez mais, cruzaram a sua face, deram a volta à orelha e desceram pelas suas costas. Sentia, ou imaginava, as suas patinhas a dedilharem sobre o tecido da camisa. Deixou-se ficar quieto, e elas desapareceram, não todas, uma, infeliz, saiu do trilho e entrou-lhe pela boca quando bocejava e engoliu-a numa bola de muco.

Quando começou a fazer contas de cabeça, foi a vez da aranha, não era um aranhiço estrelicadito, mas um aranhão, enorme e peludo, pensou se seria uma tarântula, mas não se queria acreditar, seria altamente improvável. E se fosse? Ouvira num documentário que a picada da tarântula paralisa o sistema nervoso central, e um gajo fica assim como um bife consciente onde a tarântula põe os ovos. O aranhão estava a uns quinze centímetros da sua cabeça. Levantou-se muito devagarinho, colocando em riste o seu punho armado com o casaco, como se isso fosse adiantar de muito. O aranhão não se mexeu, parecia ter adormecido. O carreiro de formigas também andava por ali, mas em marcha mais sono-lenta. Vestiu o casaco, sempre com mil-olhos no bicho, e iniciou a viagem de regresso ao gabinete.

Pelo caminho, contornou um porco-espinho, uma ratazana e um escorpião com o ferrão em riste. Todos a caminharem na direcção do seu refúgio de paz.

Não fosse ser tão povoado, e seria mesmo um lugar catita para dormir.
Não conseguia escrever versos com regularidade, como técnica, como alguns aprendem a soltar a voz, ou a baralhar as cartas como um croupier, os versos surgiam-lhe quase sempre de uma frase, de uma imagem, que ele arvorava mentalmente, sem pressas nem preço. Andava nessa confidência íntima com as palavras quando viu as horas. Onze da manhã! Tinha de acordar o seu filho de três anos, caso contrário, ninguém o conseguiria adormecer naquela noite. Foi ao quarto, afagou-lhe os cabelos e quando ele começou a dar sinais de estar acordado, abriu as ripas do estore. O puto senta-se na cama a espreguiçar, faz a ronda pelo quarto com o olhar e descobre as fiadas de pontos luminosos na parede.
- Olha, Pai! - exclama - bolas de Sol!
O pai sorriu-lhe, um sorriso luminoso, diferente, que revelava a deferência sincera de um homem velho e gasto, pela frescura do primeiro verso do filho.

Nocturnidade

Quando anoitecia, gostava de abrir as portas e janelas da casa, e sentar-se na soleira da porta de entrada. A casa e ela, a alualhar.

Aldraba

Recolhida no silêncio da sua velha casa, tecia saudades dos outros e de si mesma, da sua primavera de carnes cheias e faces rosadas, de namoriscar na eira e dançar na festa ao pé do coreto, saudades do seu filho pequeno que cresceu enquanto ela mirrava e que deitou costas à terra e se desvaneceu na estranja. Ouvia o som ténue da aldraba a raspar no batente de bronze, e levantava-se com esforço: "És tu, Miguel?".
Era o vento.

"Abensonhado"

Do contador de histórias Mia Couto, um texto sobre o conto:

«Não existem fórmulas feitas para imaginar e escrever um conto. O meu segredo (e que vale só para mim) é deixar-me maravilhar por histórias que escuto, por personagens com quem me cruzo e deixar-me invadir por pequenos detalhes da vida quotidiana. O segredo do escritor é anterior à escrita. Está na vida, está na forma como ele está disponível a deixar-se tomar pelos pequenos detalhes do quotidiano.
«O conto é feito com pinceladas. É um quadro sem moldura, o início inacabado de uma história que nunca termina. O conto não segue vidas inteiras. É uma iluminação súbita sobre essas vidas. Um instante, um relâmpago. O mais importante não é o que revela mas o que sugere, fazendo nascer a curiosidade cúmplice de quem lê. No conto o que vale não é tanto o enredo mas o surpreender em flagrante a alma humana (...)»

(Mia Couto, "Pensatempos - Textos de Opinião", Caminho, 2005)

contra-corrente

A Maria (saravá!) encadeou-me nesta corrente de doze palavras portuguesas, que com igual gosto recebo, mas deixando o elo aberto (não vou nomear ninguém mas, quem se sentir tentado pelo tema da corrente, que se junte à maralha).
As doze palavras escolhidas, são :
Aldraba
Soleira
Sensaboria
Acróstico
Mulher
Sonido
Vagido
Vagamundo
Caga-lume
Volátil
Amanhã
Pretérito

Nova Era

Começou por se interessar pela viagem astral, logo que se deu conta de que nunca iria ter dinheiro para fazer turismo no vaivém espacial.

“Será que foi um sonho?” - Interrogou-se ao acordar, coçando a cabeça com uma mão ensanguentada.

Enquanto namoravam, oferecia-lhe muitas flores, ramos de flores que, descobriu mais tarde, ela conservava dentro de sacos de lixo pretos, pendurados pelos pés à trave do sótão.
Aquilo fez-lhe uma certa espécie, e sentiu-se feliz por nunca lhe ter chegado a oferecer um caniche que ela lhe pedia insistentemente.

elementar

A sua vida não tinha interesse algum, e compensava isso vendo filmes, muitos filmes. Ia ao cinema, várias vezes ao dia em todos os dias da semana.
Quando foi participado o seu desaparecimento, a polícia começou por procurar o seu nome no genérico dos filmes em cartaz.

Solução

Devido à diminuição dos hábitos de leitura, a editora em crise converteu-se em serviço de trovadoria.

Estava casado há dez anos e ainda não conhecera as alegrias da paternidade. Só uma blenorragia grave, que contraíra misteriosamente, trouxe ao seu quotidiano, o som de passinhos pela casa.

Obscenidade

- Minha senhora, não me vai levar a mal, mas deve tentar que o seu filho assuma uma linguagem e uma compostura adequadas ao evento no qual todos participamos.
- Mas ele tem apenas sete anos, é uma criança! - Ainda tentou protestar
- Isso não é uma desculpa aceitável, as crianças aprendem desde que nascem e mesmo muito antes. Estamos aqui reunidos num jantar de gala durante o qual as pessoas irão contribuir com algum dinheiro para ajudar os mais desfavorecidos da sociedade. Somos pessoas de fino trato e comportamento irrepreensível e, quando permitimos crianças no nosso meio, partimos sempre do princípio de que se irão comportar como pessoas crescidas. Admito que o seu filho possa sentir-se tentado a fazer algumas caretas, é aceitável e ninguém o leva a mal, mas num jantar destes não pode dizer em voz alta aquilo que disse, sobretudo, sendo ele uma criança. As pessoas ficam constrangidas, e pode comprometer o sucesso da iniciativa.
Acenou afirmativamente. O filho, ao seu lado, apercebeu-se que falavam dele e olhava-a, intrigado. Aproximou-se dele o mais que pode, compôs a gravata do fato e sussurrou-lhe:
- Filho, tu és um homenzinho. Prometes-me uma coisa?
- Tudo o que quiseres, mãe!
- Tenta não dizer em voz alta: mãe, tenho fome!

Parvoíce x filmes

«O Bitoque toca sempre duas vezes»

Escatologia vegetal

Está tudo errado - bradou o profeta, em pé sobre um banco de Hyde Park - esta humanidade está errada, as pessoas não se entendem umas às outras e não somos dignos do ar que respiramos e da terra que nos alimenta. Tudo vai convergir e acabar. Os muitos continentes tornar-se-ão num só, todas as raças se fundirão numa que falará a mesma língua e desaparecerá de modo discreto e indolor. Depois de nós, virá uma nova raça, que estudará os nossos livros como se versassem a cultura de um planeta longínquo, e viverá em abundância e não comerá carne nem saberá o que é matar, uma raça pacífica que comoverá as feras com o som da lira e imaginará um deus sem sede nem fome que ama o incenso e a música. Ouçam o que vos digo, a raça que herdará a Terra viverá para restabelecer o equilíbrio que nós rompemos, como quem alimenta e cuida de um doente convalescente, e vingará durante milhares de anos sem excessos populacionais ou crises de fome, até chegar a hora de migrar para as estrelas para abandonar este planeta velho e condenado ou, se isso ocorrer antes, até ser extinta por sua vez, pelos feijoeiros inteligentes.
Ele era uma pessoa muito ambiciosa e quando decidiu fazer paraquedismo urbano, escolheu logo o terraço de um prédio de trinta andares para o seu baptismo de voo. Todos os que observaram o salto, tiveram logo a certeza de que ele nunca iria chegar à primeira comunhão.

Ele e o vizinho discutiam constantemente ao menor pretexto, insultavam-se com ameaças de morte à mistura. Por diversas vezes chegou a pensar em matá-lo, de mil maneiras possíveis. Passava-as em revista a todo o momento, procurando a mais dolorosa ou a menos incriminatória. A mulher, preocupada com aquela situação explosiva, conseguiu convencê-lo a acompanhá-la num longo retiro evangélico, durante o qual a oração e a meditação conseguiram esvaziar a ira do seu coração.
Regressou a casa com o propósito cristão de refazer a sua relação com o vizinho. Na manhã seguinte, quando dirigia o carro na cidade, viu o vizinho no passeio. Este, ficou muito perturbado por vê-lo, trocou os pés e caiu sobre o alcatrão no preciso momento em que o seu carro estava a passar. Foi morte instantânea.
A polícia ainda não conseguiu arrancar dele, uma confissão sincera.

Clone duplo: O palhaço clownou-se.

cidadania

Quis registar o seu filho na Conservatória, e encontrou uma forte resistência dos funcionários. O nome completo que escolhera para o bebé, Joaquim Assurbanípal Silva, não era viável. Era inédito, não tinha precedentes, não podia registar o seu filho com um nome que nunca fora usado em território português. Insistiu, era aquele o nome que escolhera e não via razão para dar ao seu próprio filho, um nome que agradasse a outros. Não! Negaram, depois de consultarem uma e outra vez os calhamaços com os nomes registados, tinha de escolher outro se o queria registar dentro do prazo estipulado pela lei. Pediram-lhe que ele próprio folheasse os livros, porque havia muitos nomes mais ou menos estranhos, no meio dos quais até poderia encontrar algum que agradasse ao seu peculiar palato auditivo.
Sentiu-se ultrajado, e iniciou um processo contra o Estado. Advogado mais advogado, requerimentos, propostas e contra-propostas e, antes que o caso fosse presente a um juiz, foi-lhe apresentada uma solução que considerou aceitável, exposto em duas alíneas.
a) A Conservatória dos Registos Centrais e, por seu intermédio, o Estado português, não se opõem ao uso dos nomes Assurbanípal, e Silva, correntes na nossa cultura, e patentes nos registos.
b) A Conservatória dos Registos Centrais e, por seu intermédio, o Estado português, consideram inaceitável o registo do nome Joaquim, por nunca antes ter sido feito, a não ser que - e atendendo a um precedente único - o nome Joaquim seja grafado com trema.

Matou dois coelhos com uma cajadada só. Está bem, pronto! Não era um cajado, era um taco de basebol, e não eram dois coelhos e um estava a segurar o outro, e até era um homem, mas parecia mesmo um coelho, acocorado, com o narizito a fungar e as duas orelhas afiladas no ar como as do Spock do Star Trek. Mas matou-os, pronto, andava com essa ideia desde que ele lhe pediu que se sentisse como uma coelhinha da Playboy. E não suportava ver coelhos a ser amanhados.
(Se há coisa que me tire do sério, e me aquece o sangue até ao ponto de ebulição, é ir na estrada no meu carrito, e seguir ou cruzar-me com outro carro onde os ocupantes abrem o vidro para deitar fora o seu lixo. Passo-me completamente. Se não têm espaço para o lixo no habitáculo, comam-no, ou guardem-no numa marmita para alimentar os bacorinhos que criam lá em casa. Não há atenuante, e não me peçam para lhes dar um desconto quando o lixo que mandam janela fora, vem embrulhado num invólucro com a cor correspondente: amarelo para o plástico e metal, verde para o vidro...)

S. Valentim: fundamentalismo consumista.

(para muita gente, sem expectativas nem ilusões, este dia, consegue ser um daqueles dias c’um filho da puta).
Celsinho respirou fundo, depois de conseguir enfiar o torso de lado entre dois tubos gigantescos pintados de verde. Aplicou spray sobre as porcas, e ajustou a chave-inglesa, apertando-as. O seu colega, um finlandês de poucas falas, inquiriu como é que estava a correr, e Celsinho levantou o polegar direito para indicar que tivera sucesso. Saiu de entre os tubos e ajudou o finlandês a abrir a válvula que repôs a circulação do petróleo bruto naquela secção de tubo. Sorriram os dois. Tinham conseguido acabar o trabalho antes do fim do turno. Estavam enfarruscados e exaustos, mas era um cansaço bom, misto de satisfação e alívio.
Celsinho subiu até ao camarote, tomou banho e vestiu uma roupa lavada. Sentou-se um pouco na cama a folhear uns desenhos que estivera a fazer com grafite, desenhos de tubos intrincados nas entranhas da plataforma, de gaivotas pousadas na amurada, de dois gregos a jogar aos dados junto a um rolo de cabo-d'aço. Quando subiu ao refeitório ainda lhe doía a barriga das pernas, do esforço daquela tarde.
Comeu numa mesa do canto com outro brasileiro e um português de Tavira, conversaram pouco e sobre trivialidades, e, logo que acabou de comer, esgueirou-se da sala. Não lhe apetecia conversa fiada.
Na sala de convívio, arrumou-se a um canto da sala a ver imagens da CNN, e, só então, reparou em que dia estava: doze de Junho, dia dos namorados. Sorriu, um dia perfeitamente igual aos outros, como o Natal ou o dia de aniversário. Esteve a ver os destaques das notícias, e saiu da sala de convívio, empurrado dali para fora por um segundo convite para jogar às cartas.
Subiu as escadas metálicas até ao topo da plataforma petrolífera, ao deque onde estava o recinto do heliporto. Fazia vento lá em cima e o mar estava picado naquele fim de tarde. Admirou os tons de verde e negro das águas ao anoitecer. Dia dos namorados, que coisa mais brega! Puxou de um cigarro que acendeu, seguro à amurada. Fumou-o deliciado, a pensar em nada, sim, em nada! Que aquela em que pensava, nem merecia nome de gente!

Sonata nº2, Opus 35

Ala dos doentes terminais. Ele, que não estava muito entubado, consegue esticar o braço e segurar a mão dela, sempre fria.
- Olha! Estão a dar outra vez a nossa música!
- Pois estão - consegue ela falar, com uma pérola líquida a escorrer-lhe pela face enrugada.
Ele tenta aquecer-lhe a mão, enquanto a ternura lhes invade o peito ao compasso da marcha fúnebre de Chopin.


(homenagem, enviesada, a Raymond Carver e a um dos seus contos, que devia ser lido por todos os pseudo-românticos: "De que falamos, quando falamos de amor?")

pesadelo-de-trazer-por-casa

A sua casa fora um bom negócio, mesmo para os preços e os padrões da época. Já há dez anos que se mudara para ali, mas ainda não se conseguira habituar. A sua casa parecia uma casa comum, mas o ângulo formado pelo telhado assinalava uma dobra no binómio espaço-tempo, uma esquina. Quando abria a porta da frente, esta e todas as janelas da fachada davam para a rua alcatroada de todos os dias, com um estreito jardim como uma terra-de-ninguém entre a parede da casa e o alcatrão da rua. Atrás, a casa não tinha janelas, apenas uma porta, que dava para uma quintal murado que ele juraria não pertencer a este mundo. O chão em terra ocre-púrpura regurgitava de minhocas de cores metálicas onde plantas sem raízes se equilibravam num caule cónico que parecia suspenso a poucos centímetros do solo, como se fios invisíveis as unissem ao esquadro de madeira de uma manipulador de marionetas, e o céu! O céu que daí podia ver não era parecido com nada que tinha visto até então, irradiava faixas de luz como nas imagens de auroras boreais dos documentários do canal Discovery. Mas não era o mesmo, no tapa-esconde das faixas de luz que dançavam no céu, ele divisava a espaços a silhueta de um planeta de cor amarelada que parecia suspenso dos céus numa órbita estranha.
Não tinha receio de ir até ao quintal das traseiras, mas habituara-se a evitá-lo, era difícil conciliar aquele mundo absurdo com o das suas rotinas diárias, do café e do Metro, o emprego e as idas ao barbeiro, ao talho e à mercearia. Na sua casa não havia barbecue nas traseiras para receber os vizinhos ou os colegas de trabalho, as recepções faziam-se na sala de jantar junto à entrada da casa, com comida trazida de fora ou confeccionada sem grandes alardes na pequena cozinha anexa. A porta para as traseiras ficava fechada à chave.
Quando notou que a humidade nas paredes estava a descascar a tinta do primeiro piso, achou que chegara a altura de fazer reformas na casa. Retirou os cortinados e tapetes das divisões afectadas, tapou os móveis com lençóis e começou a remover a tinta das paredes como uma lixadora e um conjunto de escápulas.
Esta operação conduziu-o a algumas descobertas surpreendentes. Tinha um sótão na casa que até então desconhecia, a entrada ficava no tecto do corredor central do primeiro piso, e fora emparedada. Igualmente fechados com tijolo e cimento, encontrou diversas janelas que davam para as traseiras. Supôs que houvesse outras janelas idênticas no piso térreo e, obedecendo a uma suspeita, examinou o umbral da porta solitária das traseiras. Havia, e nunca dera por isso, uma descontinuidade de materiais de um e doutro lado do limiar da porta, e a madeira da porta nada tinha a ver com a do umbral, conservando esta vestígios de cimento que só se notavam ao tacto. A evidência era forte: também aquela porta estivera em tempos fechada por uma parede de tijolo e cimento. Alguém tivera medo, ou sentira-se a perder o juízo, e fechara-a para se resguardar do que a perturbava. Mas ele já estava muito envolvido, tinha de tirar aquilo a limpo. Arranjou uma escada pequena e, com uma marreta de ferro, demoliu o rectângulo de tijolo que bloqueava o acesso ao sótão. Deixou assentar o pó e a fuligem e entrou nele. O ar estava viciado, de estar aqueles anos todos fechado. Tinha de o arejar. Havia duas clarabóias de telha, uma de cada lado, e abriu-as para o alto. Só depois de o fazer é que reparou numa nova incongruência: o céu que se avistava de ambos os lados era igual, com as cores bizarras e o planeta amarelo no zénite.
Desceu novamente as escadas, tomado por pressentimento angustiante. Quis sair para a rua, mas a porta e as janelas não se abriam, como se estivessem soldadas à parede. Pelos vidros, podia admirar a mesma paisagem estranha que admirara no sótão, em tudo diferente à do planeta em que nascera e que se habituara a chamar seu. O medo de ficar preso dentro da sua própria casa, como num jazigo de cemitério, fê-lo sair para as traseiras, onde permaneceu as horas seguintes, na esperança de que as coisas voltassem ao normal e ele pudesse voltar a sair - fugir para a rua da sua residência. Foi pensando nisso e em opções possíveis - como voltar a fechar a entrada para o sótão ou tentar demolir a parede da frente - que adormeceu pesadamente sobre o solo e, durante o seu sono, as criaturas semelhantes a minhocas povoaram o seu corpo, inoculando substâncias opiáceas na corrente sanguínea antes de o devorarem, enquanto as plantas voláteis pairaram sobre ele, à espera dos nutrientes que sobrariam daquele festim.

Pelo povo

Esta, eu nunca percebi muito bem: o existir em Portugal um partido de direita com o nome de Partido Popular; e uma instituição bancária com outro nome indigesto: Banco Popular.

(Se tivesse viajado no tempo desde o fim do século XIX, acreditaria de imediato que o poder tinha descido à rua).

Out of season

Domingo anterior ao Carnaval, estacionou o carro na marginal, e foi andar um pouco na praia. Apreciava detalhes, o godé caprichoso dos tons da areia e das nuvens, os pequenos lenhos e canas que se embrulhavam na orla das ondas, uma ou outra bóia de rede, quase sempre quebrada.
Sentiu-se, também, quebrado, por ter acordado cedo ou pelo esforço da caminhada. Ancorou ao balcão do primeiro café que encontrou junto à praia. Tinha uma vista magnífica, o mar agitado, um relance da costa que se estende até Peniche, e a silhueta esbatida das Berlengas. Pediu um café, serviram-no com alguma demora, apesar de não estar quase ninguém, o café estava mal tirado, amargo e com borra, e depois veio o amargor do preço: oitenta cêntimos. O seu estômago de protestador, de insatisfeito e justiceiro, andou às voltas. Oitenta cêntimos! Por uma chávena de café que sabia a petróleo! Pagou contrafeito, mas sem levantar ondas. Espiou um jornal, tentando ocupar o seu lugar no balcão por um período alargado de tempo que justificasse o dinheiro que lhe haviam cobrado. Nesse instante, uma aparição saiu de dentro do café, uma mulher alta e linda, trajada para o corso carnavalesco. Pernas longas e perfeitas realçadas por uma mini-saia justa, um brutal decote, o cabelo arranjado e gliterizando, a emoldurar um rosto perfeito. Ela percorreu o balcão do lado de dentro, secundado por uma aia que verificava se estava tudo perfeito. Sem ser necessário. Ela cruzou com ele o seu olhar e teve um sorriso cândido e luminoso, talvez estimulado pela sua cara de parvo. Tão inesperadamente como surgiu, desvaneceu-se noutra porta.
Dobrou o jornal e foi à procura do carro. Encontrara a encarnação da beleza. Como pareciam insignificantes, aqueles oitenta cêntimos!

Africando

A solidão, para ela, não era um conceito, era uma imagem, sempre a mesma, mas viva. O banco de madeira da sua infância onde se sentava junto ao tamarindeiro nas traseiras da casa, o tamarindeiro de sombra fresca e rumorejante que produzia um fruto ácido como a vida. Em volta, o sol quente, o zunir das moscas, o labor babélico das formigas que levantavam, dia após dia, um imenso cone de barro. Primeiro a solidão foi melancolia, doce alheamento, depois, converteu-se em execração, da companhia e dos actos dos outros, anátema que carrega desde então. A causa foi o estupro na sombra do tamarindeiro, no qual ecoaram os seus gritos, que só as formigas puderam escutar.

Má publicidade

A edilidade decidiu encontrar meios para que as pessoas deixassem de se atirar da varanda da torre da Sé, Ex libris da cidade. Primeiro, colocaram na balaustrada trechos bíblicos, depois, citações de filósofos e de poetas, um cubo de Rubik por solucionar, e um painel com a chave do Euromilhões, e não resultou. Em desespero de causa, optou-se por afixar trechos de best-sellers de Margarida Rebelo Pinto e José Rodrigues dos Santos, o que se traduziu num aumento substancial do número de suicídios. Quando os vereadores esgotaram as ideias, foi colocado na base da torre um contentor grande das obras, para suprimir os trabalhos de lavagem do pavimento.
Na ilha do Ferro, quase junto ao mar, no meio de dois montes formosos como tetas, os caprichos do vento e da humidade faziam escorrer água das agulhas de um pinheiro gigantesco que ali existia, e isto durante todo o ano.
Os Guanchos tinham esse pinheiro em grande reverência, e os seus ascetas visionários isolavam-se ali, entoando cânticos às potestades do sol e do trovão enquanto bebiam daquela água que os nutria e os levava ao êxtase. Foram eles que anunciaram ao povo Guancho que o futuro ia ser de mortandade, logo que a água dos céus lhes começou a saber a mijo.

Post-it

De Luís Ene, sobre a brevidade na escrita:

1. Ser breve não é emagrecer um texto até o deixar fraco. Ser breve é transformar toda a sua gordura em músculo até o tornar o mais forte possível.
2. Ser breve não é usar poucas palavras. É conseguir que essas palavras digam muito mais do que delas se esperaria.


Já se sentia meio vazio, quando lhe deram dinheiro para o convencer a legar órgãos para transplante. Era uma inclinação natural - nunca tivera coração!

labirinto

Desde que Ícaro se tomou de amores pelo Sol, o seu pai Dédalo prefere voar na noite fresca. A Lua partilha a sua dor.

Dúbio sacrilégio

"Deus passou por aqui!" - exclamou, apontando com uma expressão de candura as suas pegadas na terra fresca do Jardim e a mancha de urina junto às raízes do plátano grande - "Aposto que está a trabalhar na mesa de pedra, com os seus alfarrábios e os seus prospectos socialistas". Subindo as escadas de pedra, Guilhermina Battaglia foi procurar Deus, cingindo nas mãos enluvadas, as cartas endereçadas a Ele.

classificado

«Homem trabalhador e bem instalado na vida, procura companheira sexualmente permissiva, receptiva a sexo em grupo e participação em filmes Hardcore. Para relacionamento sério»
Somos enquanto estamos.
O senhor X, que não precisa de trabalhar, porque vive de rendas, e mora num apartamento numa cidade-dormitório, cruza-se diariamente em rotinas mais ou menos certas com quinze pessoas, das quais só seis sabem o seu nome com alguma segurança, três das quais conseguem a proeza de, na sua ausência, associar o nome ao rosto, e assim, são os únicos que poderiam indicá-lo a um estranho que o procurasse.
O senhor X não possui filiação politica, religiosa ou clubística.
O senhor X frequenta um restaurante e dois cafés, e um apartamento sobre a farmácia onde a Deolinda tem para servir os clientes, quatro belas moças de origem eslava.
O senhor X deixou de aparecer, logo, de ser visto. Ninguém o procurou, porque seria pedir muito que as poucas pessoas que o conheciam soubessem, precisamente, onde morava. O vizinho do apartamento em frente, lembrou-se de parar um minuto à sua porta para ver se lhe cheirava a podre, e foi tudo.
Três semanas depois, o senhor X reaparece e conta aos (poucos) conhecidos, que fora abduzido por extraterrestres e estivera aquele tempo todo em viagem pelo Cosmos. Como prova, exibe duas queimaduras no peito, e uma marca na nuca de desenho hieroglífico. Ninguém se acredita, pensam que ele esteve em retiro espiritual no apartamento da Deolinda e, com esta história, passa a ser ignorado por desprezo por todos a quem a conta.
O senhor X volta a desaparecer e, como da vez anterior, ninguém o procura à excepção do vizinho do apartamento em frente, desta vez, constipado, que se lembrou de parar um minuto à sua porta para ver se lhe cheirava a podre. E foi tudo.

Ligou-lhe ao fim do dia:
- Olá, estava aqui por casa a ver televisão e lembrei-me de te ligar para ouvir uma voz amiga
- Fizeste mal! Hoje não estou para amizades. Discuti com o Jorge e ele, como de costume, foi para o clube beber uns copos com os amigos, também soube pelo meu médico que tenho um mioma que tem de ser removido, e deram-me um toque no carro, enfim, as coisas estão do piorio.
- Desculpa-me, não fazia ideia...
- Claro que fazias, ou antes, isso não iria alterar nada, tu ligavas à mesma, os homens são todos uns insensíveis. Se eu estivesse no corredor da morte, eras capaz de pedir para falar comigo só para me perguntares, antes que fosse tarde demais, que tipo de arroz uso na cozinha. Tu não queres saber de mim nem de ninguém, só queres ouvir o som da tua voz.
Ela desligou. Ele ficou um pouco a olhar o telemóvel, e depois pousou-o ao lado do televisor desligado. Mirou as horas no relógio, e deu de comer ao peixe-dourado, pensando em deitar-se. Tocou o telemóvel. Era ela, hesitou enquanto tocava uma e outra vez o estúpido toque da Nokia.
- Olá, sou eu outra vez. Queria pedir-te desculpas por aquilo de há bocado, ando um pouco nervosa!
- Não faz mal...
- Como está a tua tensão? Sentes-te bem?
- A enfermeira esteve cá à tarde, diz que eu estou muito bem, para quem teve um enfarte.
- Olha, pai, vê se não te enervas, tá? Eu amanhã, se me lembrar, ligo-te. Tem calma contigo...um beijo grande. Saúde!

Leonor nasceu e criou-se bela, do tipo de não precisar de favores nem condescendência, as coisas saíam-lhe naturalmente ao caminho, as pessoas faziam-lhe as vontadinhas todas, e despertava confusas paixões nos homens com quem convivia. Numa opção que causou alguma estranheza no seu círculo de amigos, escolheu para sua melhor amiga a Rute, a feiazinha da escola, que quis manter ao seu lado quando ambas abandonaram os estudos e seguiram as suas carreiras. Leonor não parecia ligar a preconceitos sobre a aparência física, enquanto que, para Rute, a amizade de Leonor era uma dádiva incompreensível, um achado de que não se considerava merecedora, mas que agradecia em silêncio aos céus por existir, ela era uma deusa entre gnomos, e tudo o que era gente bela ou interessante acabava por gravitar em volta das duas.
Este estado de coisas manteve-se durante anos, Leonor coleccionando namoros e casos, Rute colhendo as sobras ou sendo soberanamente desprezada por elas, mas sem se importar grandemente em qualquer dos casos
Leonor foi a primeira contrair matrimónio, com um homem rude e feio, escolhido pelos pais devido à sua fortuna. Logo em seguida, casou-se Rute, segurando pela aliança um dos antigos namorados da amiga. O casamento e os filhos equilibraram as coisas entre as duas. Rute continuou feia, mas já não pensava nisso, e aprendera a estimar-se pelos olhos amantíssimos do marido, ao mesmo tempo que Leonor decaía durante uns tempos, desleixando-se nos meandros de um casamento absurdo, mas acabou por sair do seu torpor e dedicou-se a coleccionar amantes como antes coleccionava namorados.
A amizade das duas esfriou a ponto de perderem o contacto e deixarem de se ver. Reencontraram-se por mero acaso na entrada de um restaurante concorrido, em noite de S. Valentim. Rute com o seu esposo, Leonor com um novo namorado. Trocaram cumprimentos e riram-se as duas, com uma cumplicidade renascida. Ambas pediram aos seus pares que se adiantassem para ocupar as mesas reservadas e, quando eles desapareceram de cena, as duas abraçaram-se e trocaram um beijo apaixonado.
- Esta nossa separação não tem razão de ser! - declarou Rute.
- Também acho - concordou Leonor - tenho reserva feita num hotel onde nos espera uma bela garrafa de champanhe.

Y

No meio de rochedos numa aba do planalto de Ilíon, erguia-se a sua casa de paredes de adobe e tecto de colmo. Artemísia cultivava ervas raríssimas nos campos para compor os seus filtros e beberagens, e criava aves e cordeiros para os rituais secretos que oficiava. Era feiticeira e meretriz. Até ela vinham os guerreiros, que se faziam passar por inofensivos aldeões, sem as suas espadas e os seus escudos, sem os elmos guarnecidos com marfins em forma de crescente lunar. Vinham por fossos e túneis da altiva Tróia e dos redutos aqueus, em busca do prazer e do transe que Artemísia lhes concedia com a sua lascívia e as suas artes mágicas. Ela sim, agradava a Gregos e a Troianos.
Quando o homem entrou no café, a patroa percebeu logo que algo de sério o atormentava, vinha de olhos rasteiros contemplando as marcas cinzentas dos sapatos no chão rústico, não cumprimentou como era hábito, nem disse nada enquanto cruzava todo o estabelecimento até à mesa mais isolada, no ângulo oposto ao da entrada. Ela conhecia-o desde há muitos anos, dos tempos da mocidade, ainda eram primos e as suas vidas nunca tinham andado muito arredadas, como gatos do mesmo beiral. E nunca o vira assim! Talvez algum sobressalto amoroso...a saúde ameaçada ou a morte de um amigo...Decidiu tirar a limpo. Deu indicações à empregada para tomar conta do movimento e sentou-se à sua beira.

- O que vai beber, Gilberto! Você parece que viu assombração!

- Qualquer coisa, Adelaide - e emudeceu novamente.

Ia ser mais difícil do que ela pensava inicialmente. Foi buscar um cálice e, de caminho, a garrafa da aguardente que ele sempre bebia com o café. Serviu-lhe um, que ele engoliu como se fosse um shot, e ela voltou a enchê-lo. Não o encheu até à borda porque as mãos dele tremiam.

- Há alguma coisa que eu possa fazer por si? Às vezes, quando falamos nas coisas, fazemos que elas percam tamanho - coisas que nos pareciam gigantescas e assustadora acabam se tornando em pequenos problemas, que enfiamos numa algibeira para resolver depois.

- Estou sem emprego, Adelaide, e não sei até quando, ou se alguma vez o terei de volta.

- Parece impossível, Gilberto! Você nunca bebe em serviço, levanta-se tanta vez de noite para fazer as cargas ou pôr-se a caminho. Como é que foi acontecer uma coisa dessas?

- Ainda não sei. Mandaram-me ao norte para fazer um carregamento no camião-frigorífico, e eu lá fui. Compareci onde me mandaram estar, carregaram-me o carro, deram-me as guias e eu não conferi o que lá estava. Os papéis diziam que eram miúdos de frango, e eu não fui ver, como sempre foi meu costume. O que é que se há-de fazer? A gente também tem de confiar nas pessoas, não é? Senão, não havia esperança para o mundo, éramos bichos a morder uns nos outros. Estranhei as caixas serem tão grandes, mas não abri nenhuma, contei o número e conferia; e venho por aí abaixo, só pensando em descarregar a mercadoria e ir para a minha velha casinha de Óbidos.
«Estava quase a chegar cá e apanho a polícia na estrada. Pedem-me as guias, verificam o disco e lembram-se de espreitar a carga. Qual miúdos de frango, qual quê? Eram fetos, Adelaide, fetos de criança! Eram às dezenas, pareciam coxas de carneiro congeladas. Levaram-me à esquadra, interrogaram-me, chamaram o meu patrão, este trouxe um advogado, foi um trinta-e-um. Estive lá uma noite inteira, Adelaide, foi até de madrugada com perguntas e depoimentos. Quando saí da esquadra, o capitão avisou-me que teria de repetir aquilo tudo em tribunal, e eu perguntei ao senhor polícia para que servia aquilo, se havia gente a comer gente.

- E? O que é que ele disse, Gilberto?

- Ele negou, disse que usavam os fetos para fazer cremes para as mulheres, cremes que elas punham na cara para ficarem mais jovens.

- O que é que vais fazer agora?

- Vou esperar. O meu patrão pôs-me de licença e disse que a coisa se estava a por feia e que todos nos tínhamos de preparar para fazer sacrifícios. E o pior, é que eu não sei o que ele quis dizer com isso. Eu fiz tudo de boa-fé, só não vi o que era a carga, mas foi tudo de boa-fé. Uma pessoa tem de fazer tudo para manter o emprego que tem, mesmo que faça cargas que não lembraria ao diabo. Esta, eu não sabia o que era, juro que não sabia! Miúdos de frango, uma ova!

- Caramba, você é tão parecido com uma pessoa com quem andei uns tempos. Talvez seja aquela coisa de alma-gémea de Platão e dos hindus. Você acredita que pode ser reencarnação?
- Sim e não.
- Como assim?
- Sim, acredito na reencarnação! Não, ainda não reencarnei!

hecabombe

- Olha, tão lindo, relâmpagos e estrelas-cadentes! Não devíamos pedir um desejo?
- Não são estrelas! E era bom desejarmos que haja um abrigo por perto...

Ingressou num curso rápido de escrita criativa, porque queria surpreender os que o conheciam.
Os memorandos da empresa começaram a ser elaborados como textos herméticos.

Fazia sempre um check-up mensal e, preocupadíssimo, queixava-se de dores nas vértebras, mas o seu médico relativizava sempre as suas ralações, explicando-lhe repetidamente que essas dores se deviam à circunstância dele ter nascido num berço de ouro.
(Enquanto o Universo e as outras pessoas correm para diante como maratonistas, eu estou rodando em câmara lenta em busca de um momento no passado que não conheço e a partir do qual começei a divagar - sou um reaccionário, reajo nadando contra a corrente, procurando talvez uma manhã sem perguntas, um momento efémero de paz antes do Universo explodir em conflitos e ultimatos, uma praia ao entardecer onde ainda me lembre do som da tua voz, da segurança de saber que estavas viva e por perto)
Sempre se sentira assim, tolhido e amordaçado, uma venda sobre os olhos para não ver o que aos outros parecia impossível de ver, e mordaças e panos na garganta para não falar e gritar o que imperava soltar de si.
Os néscios e os mesquinhos abafavam a sua vida, negavam-lhe o espaço e o pensamento como se lhe tivessem imposto sobre o crânio a pressão de uma pata de Apatossauro que o lacerava por dentro, fazendo o sangue espirrar-lhe da boca e dos ouvidos, e o seu sangue eram as palavras, sangradas no silêncio.
Com movimentos acrobáticos no espaço reduzido conseguiu libertar-se das cordas nos pulsos e da mordaça e dos panos, e começou a gritar alto, gritar as palavras que ninguém mais lhe conseguiria matar, e enquanto falava copiosamente e gritava com alegria, arrancou a venda dos olhos e viu-se no seio das trevas. Respirando com dificuldade, tacteou em volta, e descobriu na flor dos dedos o interior alcochoado de um caixão.

Blocos de pedra

Diante das pirâmides de Gizé, Napoleão exclama para os seus homens: "Do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam!"

Enquanto galopa à volta da pirâmide maior, uma pedra arremessada por alguém atinge-o no sobrolho, fazendo-o sangrar. Desmonta, recolhe a pequena pedra e, depois de estancar o sangue com um lenço, profere para os seus generais:
"Fui atingido por um minuto de História!"

injustiça

O doutor Joseph-Ignace Guillotin inventou a guilhotina para minorar o sofrimento humano, e a sua invenção tornou-se muito popular e recebeu a adesão de milhares de pessoas. Por ironia, nunca chegou a receber os direitos que lhe cabiam de Cutright.
A sua vida sexual era muito pouco imaginativa, ele sempre pedia às amantes para ficarem por baixo e na diagonal da cama, para condizerem com o seu pénis inclinado para o lado.
Era uma workaólica. A conselho do seu psicólogo, tirou férias nas Caraíbas, mas lá, continuava a convidar estranhos em bares para beber do seu uísque aguado.

os laços da terra

Construíram a sua casa no extremo do terreno, junto ao promontório. Um pequeno varandim cimentado permitia-lhes deitarem-se ali nos dias amenos, a olhar o Douro e ler Hölderlin e Rilke. Por vezes amavam-se nas cadeiras de espaldar, embalados pelo farfalhar da brisa nas vinhas.

A casa e a paisagem ficaram mais tristes quando ele partiu, perseguindo um delírio que ele pensava que lhe iria fazer reaver a juventude que se esvaía. Mas não tardou em regressar, como um cão envergonhado, de cabeça baixa e olhos suplicantes. Ela aceitou-o de volta sem retóricas nem questões, achou natural, porque ele pertencia àquele sítio como as encostas abruptas e as águas indómitas.

Quando tudo parecia serenar, e as coisas e os sentimentos reconheciam o lugar a que pertenciam, foi a vez dela se distanciar. A doença acometeu-a e esvaziou-a de vida, tornou-se uma figura magra e seca que ele levava nos braços até ao varandim, onde ficava a contemplar docemente a lonjura.

Os médicos e os medicamentos nada podiam contra o seu mal. Quando sentiu que o fim estava próximo, pediu-lhe que a levasse uma vez mais a espreitar o Douro. Aquela última vez foi sob o luar, e o rio quase não se conseguia ver - franjas prateadas emergindo do ventre das trevas. Expirou assim, enroscada nele, soltou-se de tudo o que amava no mesmo instante em que uma alva coruja sobrevoava o varandim, fazendo ecoar sobre o vale o seu piar lúgubre.

Bronca

Matou o seu marido, à noite, enquanto ele dormia e enrolou-o no tapete grande da sala, grande e persa. Como era uma mulher de armas, colocou o morto ao ombro e o deixou à porta da tinturaria, com um recado escrito para tingirem o persa. Na manhã seguinte, os empregados da tinturaria executaram a encomenda. Depositaram o morto na reciclagem - correctamente, em Resíduos Orgânicos - e tingiram o tapete na cor pretendida. Como ninguém aparecesse para reclamar o tapete, guardaram-no no quarto dos fundos. Na manhã seguinte, tinham à porta um novo corpo enrolado num tapete, este, de mulher. Com a experiência da véspera ainda fresca na memória, os empregados da tinturaria colocaram corpo e tapete na reciclagem, ignorando que este trabalho tinha sido pago adiantado. E foram despedidos por isso.

disfuncional

Festejar o Carnaval com espírito de Quarta-Feira de Cinzas.
O país estava a extravasar de pessoas desempregadas, angustiadas, prontas a arrebentar ou a colidir. O governo, inapto, decidiu criar uma Torre de Descontrole para monitorizar os seus caminhos tortuosos.

Langevin

Embarcou com duas companheiras numa nave espacial que zarpou à velocidade da luz. Como o tempo dentro da nave escorria mais lentamente do que cá fora, a sua ejaculação precoce mais parecia sexo tântrico.

Irish (d)cream

Subiu ao cesto da gávea para avistar terra e se viu rodeado pelo fogo de Sant'Elmo. "Deve ser Avalon", pensou.

E-lowliness

Andava sem saber mais o que fazer, e foi-se entretendo, leu textos e opiniões dos outros, viu os vídeos de sucesso no U-tUbe, e quando o aborrecimento se acentuou, cortou as unhas das mãos diante do monitor, arranjou uma escova de dentes velha e limpou criteriosamente o teclado, virando-o do avesso para lhe dar umas pancadinhas nas costas de modo a soltar os ácaros e lascas de unha. Voltou às teclas, mandou uns mails, inscreveu-se em dois ou três Emailings para garantir que tinha correio, e pôs a correr um vídeo musical enquanto pensava em coisas que podia fazer ali. Ouviu a campainha da porta a tocar. Desceu as escadas de maus-modos e espreitou pelo óculo: um homem com uma pasta, vendedor ou pregador, o que ia dar ao mesmo, só variando na tipologia do artigo. Ignorou-o e voltou ao seu computador enquanto a campainha soava ainda uma e outra vez. Tinha-se instalado novamente e verificava a caixa de entrada (vazia) do seu mail, quando voltou a ouvir a campainha. Nem se deu ao trabalho de se levantar, haviam de desistir. A campainha não parava, retomava o seu besouro insistente, no máximo, como se o visitante estivesse a premir o botão com a biqueira do sapato. Foi espreitar a uma janela e viu um carro de bombeiros diante da casa, havia bombeiros a correr pelo seu quintal, desenrolando mangueiras e bradando ordens, e notou uma grossa coluna de fumo que saía do rés-do-chão, decerto da cozinha. Correu ao W.C., proveu-se de uma toalha embebida em água, enrolou-a à volta da boca e voltou a sentar-se diante do computador. Não ia sair dali, não agora que estava quase a receber o seu primeiro mail depois de cinco anos a cirandar na Net.

Um deus anil

Graus Fahrenheit. Fahrenheit soa a distante mundo perdido, no alto, um planeta gelado de habitantes de corpo translúcido e olhos luminosos, com telescópios com lentes convexas de lâminas de gelo por onde olham arrebatados para as chamas do seu Sol azul.

Desalmado

Esta alma, este casaco velho, tem vincos que se me notam na pele, vincos descosidos e remendados, esgarçados e sem graça. Por uns deixei-me perder da minha infância, por outros perdi a uma só vez a filosofia e a metafísica, e vivo p’ra aqui largado, sem discurso e sem método, sem abrigo e sem porto. Se ao menos fosse algo que se pudesse deixar na berma de um caminho, como a pele de uma cobra ou um fogão velho, e colher outra como se colhe um fruto novo e sem bicho, de pele luzidia e com todas as gramíneas intactas e nos seus lugares predestinados. Diz-me quem me vê, que eu não estimo a minha alma, que não a resguardei do frio e da chuva, que não a pus a assoalhar em terraços de sol, que não cuidei dela como cuido da minha higiene. Idiotas. Não me conhecem, e não conhecem a minha alma. Ela é que me abandona quando eu dormito, descobre-me prostrado de cansaço e evade-se por esse mundo fora, calcorreando caminhos e palavras pedregosas e encharcando-se de luar e orvalho. Esta alma, tem vincos e rasgões de andar no mundo, e pesa-me de tantas coisas que arrasta para dentro de mim.

A Edgar Cayce, o vidente americano, bastava-lhe dormir sobre os livros que, quando acordava, o conteúdo desses livros estava presente na sua mente. Isso explica muitas das suas visões e prodígios, os seus desconcertantes conhecimentos médicos e as visões compósitas que emergiam no seu cérebro como chispas de cor e luz dentro de um caleidoscópio. Até ao dia, em que Edgar Cayce adormeceu sobre o Livro em Branco, que o transformou num obcecado por ermas paisagens Árcticas.

Num futuro próximo




Nomenclatura
Actualmente, a História diferencia, como estádios evolutivos, o Homo Sapiens identificado com o Homem de Neanderthal, que povoou o planeta até ao final da última Idade Glacial, do Homo Sapiens Sapiens cujo ascendente sobre a espécie anterior se tornou evidente pela mesma altura, a ponto de a absorver ou levá-la à extinção.
Entretanto, ainda no primeiro quartel do século vinte e um, a reflexão histórica decidiu modificar a classificação da espécie Homo Sapiens Sapiens, a nossa, substituída nos manuais escolares pela designação moderna de Homo Demens Demens.

A diligência do Minho

Naquela região do interior, há muitos anos, toda a gente andava de camioneta, havia carreiras de hora em hora e sempre cheias, os lugares, e o espaço de carga sob e sobre estes. Havia um motorista, mas também um cobrador que cobrava ou picava os bilhetes, e tinham sempre muito que fazer. Era de camioneta que as pessoas iam para o trabalho, para os mercados, para a escola, passear a família, laurear a pevide e saltear o grelo. Mas esses tempos dourados depressa passaram, havia agora cem vezes mais carros nas estradas, e as pessoas iam umas com as outras, e a clientela foi rareando. Primeiro suprimiu-se o cobrador para poupar despesas, depois começaram a suprimir-se as carreiras uma a uma, a ponto dalgumas terras deixarem de as merecer, enquanto outras, só as viam passar de três em três ou de quatro em quatro horas. As coisas têm vindo a agravar-se e, Sábado passado, a administração iniciou um projecto radical, o das "Carreiras Espontâneas". Deixa de haver carreiras fixas na região, e com elas, desaparece também o lugar de motorista. Na maior parte das terras vai passar a existir uma camioneta com depósito atestado e manutenção feita. O utente só tem que comprar o bilhete numa máquina automática, sentar-se ao volante e deslocar-se ao destino que pretende. Sempre sem atrasos.
No meio do Atlântico, na solidão da pequena ilha sitiada pelas águas, o governador achou que era hora de sacudir o torpor e trazer a animação à vida das suas gentes. Mandou instalar uma tenda de circo com o objectivo de organizar um freak show - aqueles que se sentissem habilitados para entrar nele ocupariam a arena, e os restantes, pagariam entrada para os ver. O governador reuniu toda a população debaixo do toldo gigantesco, e pediu voluntários, toda e qualquer pessoa que possuísse alguma característica peculiar, deveria saltar para o centro do círculo. E os voluntários começaram a descer para a arena. A mulher com três mamilos, o homem com dentes na garganta, o mal-formado e o informe, o que dormia em pé, o gigante, o que via o Holandês Voador nas falésias do norte, a mulher de barbas, o vampiro com sede, o que só andava para trás, o que tinha pavor de narizes humanos...Foram-se juntando no centro, acotovelando-se uns aos outros. Mesmo o governador se juntou a eles, balançando um terceiro braço que lhe saía da peito. Na assistência ficou só uma mulher, que mereceu a atenção de todos. Pediram-lhe que falasse, e parecia normal, soletrava bem as palavras, discorria sem falha sobre qualquer assunto, e não lhe encontraram nada que se apontasse; quatro viúvas levaram-na para o exterior, velaram-na com os seus xailes negros e pediram-lhe que se despisse, palparam-lhe, examinaram as partes íntimas e todos os recôncavos do corpo e nada encontraram de invulgar. Voltaram a vesti-la e sentaram-na no seu lugar enquanto o governador reflectia sobre o assunto, entre cochichos e debates das suas preocupadas gentes.
Ao fim de umas horas, o governador da pequena ilha sitiada pelas águas, decidiu que a tenda de circo seria desmontada novamente e que todos deveriam voltar às suas rotinas diárias, todos, menos aquela mulher anormal, que seria lançada das falésias do norte para fazer companhia ao Holandês Voador.

Sobre amizades e partilhas

(...)
They've got a wall in China
It's a thousand miles long
To keep out the foreigners
They made it strong
I've got a wall around me
You can't even see
It took a little time
To get to me
(...)
(Something So Right de Paul Simon)

DesEN(E)rolar

A vida nem sempre é uma diva, nem uma dádiva

A vida fica para depois...

A vida desiste facilmente de nós.

A vida, é um termo evasivo que usamos para camuflar a nossa inércia e impotência.

A vida nada pode contra aqueles que já não se lembram de quando morreram.

Também há aqueles que sonham e rezam por uma vida-outra, que se vai revelar quando tiverem desistido de acreditar que estão vivos.

Sempre procurou um ou mais sentidos para a vida, demanda graaliana interrompida por um camião que encontrou pela frente quando entrou ao contrário numa rua de sentido único.

Só começou a acreditar que a vida podia talvez tenuamente ter algum sentido quando descobriu que estava grá-vida.

expressamente

Juntou-se a fome à vontade de comer,
e prosseguiram juntas o jejum.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...