Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2008

Capo

Olhando muito atento para todos os lados, cruzou o laranjal da Escola até à parede de fundo dos balneários. O anafado Vito estava no seu escritório bucólico: uma caixa de fruta emborcada na terra e um cepo a servir de banco.
- O que é queres?
- Preciso que falsifiques a assinatura da minha mãe no boletim de notas! Trago um papel com a assinatura dela para copiares.
- Cinco euros, ou um jogo de cartas Beyblade, ou a tua colecção de fotos de Anna Kournikova!
- Isso é muito, é só uma assinatura...
- Ou servires de banco com as tuas costas para eu espreitar pela janela das raparigas, ou perguntares à peste da Cruella qual é a cor das cuecas dela. Já sabes como é, hoje por ti, amanhã por mim, e uma mão lava a outra.
Avaliou os custos e os estragos, enquanto Vito analisava o papel com a assinatura.
- Está bem, dou-te os cinco euros - concordou acabrunhado, sacando a nota do bolso
- Como foste simpático, vou fazer-te mais um favor: quando chegares a casa, pedes cem euros à tua mãe. Se ela recusar, m…
«São prioritários todos os veículos que transitem em missão urgente, quando assinalem adequadamente a sua marcha. Estão entre eles, carros de polícia e veículos de socorro (Bombeiros, ambulâncias e camiões de transporte de cervejas)».

Parvoíce x memória

- Onde estavas tu, quando se deu o vinte e cinco de Abril?
- Oh! Isso foi há imenso tempo! Devia estar ainda no cu dos franceses - respondeu a ténia.

Um luxo

...6...5...4...3...2...1...Partida. O engenho espacial eleva-se do Cabo Canaveral, com o seu único ocupante sujeito a uma pressão de 24 G's. Ensaio de novo propulsor. Saída da atmosfera a correr como esperado, mas os sinais vitais do astronauta são confusos, ainda está vivo, mas o cérebro parece ter derretido. É cancelada a transmissão em directo para o mundo das imagens do interior da nave. Estas mostram que o corpo do homem ficara reduzido a uma lâmina que se fundira com a cadeira onde estava deitado. Ao ser dirigida para a Estação Espacial, a energia electomagnética gerada pelo novo propulsor abre uma fresta na estrutura do cosmos e projecta-a para outro canto da galáxia, para a atmosfera de um planeta semelhante à Terra, onde se despenha.
Em Houston, todos ficam abismados, esquadrinha-se o espaço, formulam-se teorias, fala-se insistentemente em extraterrestres e raptos.
No outro canto da galáxia, os extraterrestres de que todos falam, desmontam a nave abandonada e aproveitam o m…

Tex Willer

Imagem
Meio-dia, o Sol a pino, Tex entra na cidade como o seu fiel aliado Jack Uuaaggh Tigre. Ouvem tiros, Pow, Pow, estão a assaltar o Banco, Pow, Pow, os dois disparam, Pow, Pow, Pow, os assaltantes respondem, os cavalos relincham, HIIIIII. Tex vê uma senhora apanhada no meio do tiroteio e salta sobre ela e derruba-a, rolando com ela pela poeira: vvvvvvvvvv (onomatopeia da erecção de Tex). Nisto, um dos assaltantes dispara sobre eles e Pow, atinge Tex perto do coração. HIIIIIII, os assaltantes fogem a cavalo. Jack Uuaaggh Tigre socorre Tex, que não quer sair de cima da mulher.
-Estás bem, Tex?
- Não te preocupes, não é esta mísera bala que me vai impedir de continuar a fazer Pow, Pow, vvvvvvvvvvvvv.

Aspiração inconfessada:

A da sua página na Internet compaginar uns quantos autores, em letra não-impressa.

"Sabes, mulher, fiz um desfalque no banco e ninguém deu por nada!". Era uma confiada confissão à pessoa errada. A mulher era contadora, contilheira, condrilheira. E não tardou, vieram a sua casa exigir-lhe que devolvesse a perna do banco de jardim, que ele colocara no seu próprio jardim como se fosse uma prótese.

Arrgh!

Fez-se carteiro devido à sua mania de abrir o correio dos outros, de rasgar os envelopes e devassar intimidades. Tirava da motoreta a sacola do correio e levava-a para casa e....rrr, carta de amor...rás, dinheiro, rrás, carta anónima com letras recortadas de jornais, rrrásgh, pó-de-talco, não, Antrax!
- Tenho de dar os parabéns, Vladimir, os exames revelaram que tem uma máquina perfeita, um verdadeiro coração de ferro. - Obrigado, doutor, não é à toa que me chamam o Coração Potenkim.

DEUTSCHE BUNDEPOST

Imagem
ou

O POST DA BUNDA

Poder real e poder nominal

A eleição de Raúl Castro como presidente de Cuba, é tão inesperada e revolucionária como a eleição para Papa do Cardeal Joseph Ratzinger, para suceder a ele mesmo.

Eu não vou estar lá, mas ele vai!

De Eduardo White, poeta moçambicano (n. 1963), um excerto d' O Manual das Mãos (Campo das Letras, 2004):

«Deverei ter adormecido, deduzo, enquanto revisito, pelas janelas, o movimento da rua lá em baixo. Há gente que lembro sobre elas, velhas fotografias amarelecidas que vivem ordenadas na memória, e o sol, outra vez, riscando o soalho e acendendo o chão sobre o qual estou de pé e estático, ouvindo gargalhadas e choros de crianças que em algum lugar em mim as conheci. São os meus filhos brincando na nudez infantil da sua beleza, as harpas que as suas mãos vão soltando para que as toque ou cante a relva que de dentro da casa é verde e eu diviso.

«Meu Deus, como é boa esta visão profunda e sentida, as cores com que a construo e respiro, o assobiar levitante dos pássaros rasando-me os pés como se me quisessem erguido acima do equilíbrio e da sóbria gravidade.

«O cão que nunca tive, tenho-o agora e vem correndo ao meu encontro com a alegria canina balanceando-lhe a cauda. Nem nome tem pa…

Venha o diabo e escolha

Fumava charutos e trocou-os por cigarros light, e viciou-se nestes, depois recorreu aos comprimidos de nicotina para deixar de fumar e viciou-se nos comprimidos de nicotina. Agora, deixou-se de rodeios, e recomeçou a fumar Havanos, para comemorar, diz ele, a sucessão de Fidel.

Garanto que esta não é para quem se possa supor que seja, porque já foi ão que deu chuva (ou: O título maior do que o post)

«Eu, em plena posse das minhas Faculdades mentais, declaro como legítimos e indiscutíveis todos os cursos superiores que tirei em cada uma dessas Faculdades».

Guerra Cívica

As donas-de-casa reagiram ao aumento do custo de passar a roupa a ferro, anunciado pela corporação sevilhana de engomadeiras. Diziam, em resposta que, por esse preço, até elas mesmo passavam a ferro.
As engomadeiras, revoltadas, saíram à rua com o seu grito de guerra:
"No passarán! No passarán!".

coelho duracel

Regressada da Califórnia para onde emigrara, ela julgou que os cafés com dísticos azuis anunciavam a oferta de Viagra aos clientes.

Aviso:

Imagem
A Velha Ceifeira, de esqueleto com capuz, que sega com uma gadanha
NÃO É
um jogo da Sega !

"O mundo é feito de mudança"

No meu pingue-pongue com a existência, já estive envolvido em muitas mudanças, já vivi em casa própria e em casa emprestada, já morei em quartos alugados, e até em casas que nem sequer eram minhas e onde vivia fugazmente como um clandestino. Hoje vivo em casa duma senhora chamada hipoteca, muito digna e de mênstruo regular, mas a sua pele pica como alforreca. De tudo isto me vem a minha invulgar experiência em mudanças. Mudei-me a mim e a pouco mais, de uma casa para outra, várias vezes, sendo que todas essas casas estavam situadas no mesmo planeta, mas nem sempre no mesmo continente. Também ajudei amigos meus nas suas mudanças, já embrulhei louçaria em papel de cozinha, encaixotei discos e livros (o meu trabalho menos produtivo), carreguei móveis, colchões, caixinhas e caixotões. Na mudança de um amigo para um apartamento de quarto andar, sem elevador, éramos para aparecer cinco e só apareci eu, e os dois tivemos de gramar até às três da noite a carregar móveis escada acima. Quando at…

Personagem e pessoa

Rui Silvério é um homem afortunado e invejado, possui o trabalho que sempre desejou, uma mulher linda que adora e duas adoráveis crianças, vive numa bela mansão, passa férias em lugares de sonho e está muitas vezes rodeado de amigos que partilham o seu quotidiano e a sua vida. Recepções, festas, carros potentes, um pequeno iate na marina.
Rui Silvério não se sente uma pessoa muito feliz.
Rui silvério é um actor de televisão e, por vezes, dá consigo a pensar que mesmo que fosse quem representa, também não se sentiria muito feliz na pele do lobo.

Siesta

Sentiu-se mortalmente aborrecido naquelas horas finais do expediente. Abandonou o portátil, onde tentava escrever alguma coisa à socapa no escritório, subiu para cima da secretária, correu a grelha de ventilação e esgueirou-se pela conduta de ventilação do prédio à procura de um sítio sem muito barulho onde pudesse dormir uma soneca. Não era fácil. Ressoavam ali todos os ruídos, o clipe que cai ao chão, a porta que bate, o cão que late, o ruído organizado das vozes, o ronronar do ar-condicionado. Finalmente, encontrou um espaço que lhe agradava, um cochicho, uma reentrância na conduta onde os sons morriam num milagre da acústica. Tirou o casaco e dobrou-o para lhe servir de travesseiro. Enroscou-se no chão e tentou adormecer.

Uma mosca procurava evitá-lo, zumbiu em torno da sua cabeça, descreveu trajectórias angulares diante dos seus olhos e, por fim, pôs-se ao fresco.

A seguir foi uma formiga, ou melhor, um carreiro delas, que lhe subiram pelo antebraço, até à mão que amparava a nuca, …
Não conseguia escrever versos com regularidade, como técnica, como alguns aprendem a soltar a voz, ou a baralhar as cartas como um croupier, os versos surgiam-lhe quase sempre de uma frase, de uma imagem, que ele arvorava mentalmente, sem pressas nem preço. Andava nessa confidência íntima com as palavras quando viu as horas. Onze da manhã! Tinha de acordar o seu filho de três anos, caso contrário, ninguém o conseguiria adormecer naquela noite. Foi ao quarto, afagou-lhe os cabelos e quando ele começou a dar sinais de estar acordado, abriu as ripas do estore. O puto senta-se na cama a espreguiçar, faz a ronda pelo quarto com o olhar e descobre as fiadas de pontos luminosos na parede.
- Olha, Pai! - exclama - bolas de Sol!
O pai sorriu-lhe, um sorriso luminoso, diferente, que revelava a deferência sincera de um homem velho e gasto, pela frescura do primeiro verso do filho.

Nocturnidade

Quando anoitecia, gostava de abrir as portas e janelas da casa, e sentar-se na soleira da porta de entrada. A casa e ela, a alualhar.

Aldraba

Recolhida no silêncio da sua velha casa, tecia saudades dos outros e de si mesma, da sua primavera de carnes cheias e faces rosadas, de namoriscar na eira e dançar na festa ao pé do coreto, saudades do seu filho pequeno que cresceu enquanto ela mirrava e que deitou costas à terra e se desvaneceu na estranja. Ouvia o som ténue da aldraba a raspar no batente de bronze, e levantava-se com esforço: "És tu, Miguel?". Era o vento.

"Abensonhado"

Do contador de histórias Mia Couto, um texto sobre o conto:

«Não existem fórmulas feitas para imaginar e escrever um conto. O meu segredo (e que vale só para mim) é deixar-me maravilhar por histórias que escuto, por personagens com quem me cruzo e deixar-me invadir por pequenos detalhes da vida quotidiana. O segredo do escritor é anterior à escrita. Está na vida, está na forma como ele está disponível a deixar-se tomar pelos pequenos detalhes do quotidiano. «O conto é feito com pinceladas. É um quadro sem moldura, o início inacabado de uma história que nunca termina. O conto não segue vidas inteiras. É uma iluminação súbita sobre essas vidas. Um instante, um relâmpago. O mais importante não é o que revela mas o que sugere, fazendo nascer a curiosidade cúmplice de quem lê. No conto o que vale não é tanto o enredo mas o surpreender em flagrante a alma humana (...)»

(Mia Couto, "Pensatempos - Textos de Opinião", Caminho, 2005)

contra-corrente

A Maria (saravá!) encadeou-me nesta corrente de doze palavras portuguesas, que com igual gosto recebo, mas deixando o elo aberto (não vou nomear ninguém mas, quem se sentir tentado pelo tema da corrente, que se junte à maralha). As doze palavras escolhidas, são :
Aldraba Soleira Sensaboria Acróstico Mulher Sonido Vagido Vagamundo Caga-lume Volátil Amanhã Pretérito

Nova Era

Começou por se interessar pela viagem astral, logo que se deu conta de que nunca iria ter dinheiro para fazer turismo no vaivém espacial.

“Será que foi um sonho?” - Interrogou-se ao acordar, coçando a cabeça com uma mão ensanguentada.

Enquanto namoravam, oferecia-lhe muitas flores, ramos de flores que, descobriu mais tarde, ela conservava dentro de sacos de lixo pretos, pendurados pelos pés à trave do sótão. Aquilo fez-lhe uma certa espécie, e sentiu-se feliz por nunca lhe ter chegado a oferecer um caniche que ela lhe pedia insistentemente.

elementar

A sua vida não tinha interesse algum, e compensava isso vendo filmes, muitos filmes. Ia ao cinema, várias vezes ao dia em todos os dias da semana. Quando foi participado o seu desaparecimento, a polícia começou por procurar o seu nome no genérico dos filmes em cartaz.

Solução

Devido à diminuição dos hábitos de leitura, a editora em crise converteu-se em serviço de trovadoria.

Estava casado há dez anos e ainda não conhecera as alegrias da paternidade. Só uma blenorragia grave, que contraíra misteriosamente, trouxe ao seu quotidiano, o som de passinhos pela casa.

Obscenidade

- Minha senhora, não me vai levar a mal, mas deve tentar que o seu filho assuma uma linguagem e uma compostura adequadas ao evento no qual todos participamos. - Mas ele tem apenas sete anos, é uma criança! - Ainda tentou protestar - Isso não é uma desculpa aceitável, as crianças aprendem desde que nascem e mesmo muito antes. Estamos aqui reunidos num jantar de gala durante o qual as pessoas irão contribuir com algum dinheiro para ajudar os mais desfavorecidos da sociedade. Somos pessoas de fino trato e comportamento irrepreensível e, quando permitimos crianças no nosso meio, partimos sempre do princípio de que se irão comportar como pessoas crescidas. Admito que o seu filho possa sentir-se tentado a fazer algumas caretas, é aceitável e ninguém o leva a mal, mas num jantar destes não pode dizer em voz alta aquilo que disse, sobretudo, sendo ele uma criança. As pessoas ficam constrangidas, e pode comprometer o sucesso da iniciativa. Acenou afirmativamente. O filho, ao seu lado, apercebeu-s…

Parvoíce x filmes

«O Bitoque toca sempre duas vezes»

Escatologia vegetal

Está tudo errado - bradou o profeta, em pé sobre um banco de Hyde Park - esta humanidade está errada, as pessoas não se entendem umas às outras e não somos dignos do ar que respiramos e da terra que nos alimenta. Tudo vai convergir e acabar. Os muitos continentes tornar-se-ão num só, todas as raças se fundirão numa que falará a mesma língua e desaparecerá de modo discreto e indolor. Depois de nós, virá uma nova raça, que estudará os nossos livros como se versassem a cultura de um planeta longínquo, e viverá em abundância e não comerá carne nem saberá o que é matar, uma raça pacífica que comoverá as feras com o som da lira e imaginará um deus sem sede nem fome que ama o incenso e a música. Ouçam o que vos digo, a raça que herdará a Terra viverá para restabelecer o equilíbrio que nós rompemos, como quem alimenta e cuida de um doente convalescente, e vingará durante milhares de anos sem excessos populacionais ou crises de fome, até chegar a hora de migrar para as estrelas para abandonar …
Ele era uma pessoa muito ambiciosa e quando decidiu fazer paraquedismo urbano, escolheu logo o terraço de um prédio de trinta andares para o seu baptismo de voo. Todos os que observaram o salto, tiveram logo a certeza de que ele nunca iria chegar à primeira comunhão.

Ele e o vizinho discutiam constantemente ao menor pretexto, insultavam-se com ameaças de morte à mistura. Por diversas vezes chegou a pensar em matá-lo, de mil maneiras possíveis. Passava-as em revista a todo o momento, procurando a mais dolorosa ou a menos incriminatória. A mulher, preocupada com aquela situação explosiva, conseguiu convencê-lo a acompanhá-la num longo retiro evangélico, durante o qual a oração e a meditação conseguiram esvaziar a ira do seu coração. Regressou a casa com o propósito cristão de refazer a sua relação com o vizinho. Na manhã seguinte, quando dirigia o carro na cidade, viu o vizinho no passeio. Este, ficou muito perturbado por vê-lo, trocou os pés e caiu sobre o alcatrão no preciso momento em que o seu carro estava a passar. Foi morte instantânea. A polícia ainda não conseguiu arrancar dele, uma confissão sincera.

Clone duplo: O palhaço clownou-se.

cidadania

Quis registar o seu filho na Conservatória, e encontrou uma forte resistência dos funcionários. O nome completo que escolhera para o bebé, Joaquim Assurbanípal Silva, não era viável. Era inédito, não tinha precedentes, não podia registar o seu filho com um nome que nunca fora usado em território português. Insistiu, era aquele o nome que escolhera e não via razão para dar ao seu próprio filho, um nome que agradasse a outros. Não! Negaram, depois de consultarem uma e outra vez os calhamaços com os nomes registados, tinha de escolher outro se o queria registar dentro do prazo estipulado pela lei. Pediram-lhe que ele próprio folheasse os livros, porque havia muitos nomes mais ou menos estranhos, no meio dos quais até poderia encontrar algum que agradasse ao seu peculiar palato auditivo.
Sentiu-se ultrajado, e iniciou um processo contra o Estado. Advogado mais advogado, requerimentos, propostas e contra-propostas e, antes que o caso fosse presente a um juiz, foi-lhe apresentada uma solução…
Matou dois coelhos com uma cajadada só. Está bem, pronto! Não era um cajado, era um taco de basebol, e não eram dois coelhos e um estava a segurar o outro, e até era um homem, mas parecia mesmo um coelho, acocorado, com o narizito a fungar e as duas orelhas afiladas no ar como as do Spock do Star Trek. Mas matou-os, pronto, andava com essa ideia desde que ele lhe pediu que se sentisse como uma coelhinha da Playboy. E não suportava ver coelhos a ser amanhados.
(Se há coisa que me tire do sério, e me aquece o sangue até ao ponto de ebulição, é ir na estrada no meu carrito, e seguir ou cruzar-me com outro carro onde os ocupantes abrem o vidro para deitar fora o seu lixo. Passo-me completamente. Se não têm espaço para o lixo no habitáculo, comam-no, ou guardem-no numa marmita para alimentar os bacorinhos que criam lá em casa. Não há atenuante, e não me peçam para lhes dar um desconto quando o lixo que mandam janela fora, vem embrulhado num invólucro com a cor correspondente: amarelo para o plástico e metal, verde para o vidro...)

S. Valentim: fundamentalismo consumista.

(para muita gente, sem expectativas nem ilusões, este dia, consegue ser um daqueles dias c’um filho da puta).
Celsinho respirou fundo, depois de conseguir enfiar o torso de lado entre dois tubos gigantescos pintados de verde. Aplicou spray sobre as porcas, e ajustou a chave-inglesa, apertando-as. O seu colega, um finlandês de poucas falas, inquiriu como é que estava a correr, e Celsinho levantou o polegar direito para indicar que tivera sucesso. Saiu de entre os tubos e ajudou o finlandês a abrir a válvula que repôs a circulação do petróleo bruto naquela secção de tubo. Sorriram os dois. Tinham conseguido acabar o trabalho antes do fim do turno. Estavam enfarruscados e exaustos, mas era um cansaço bom, misto de satisfação e alívio. Celsinho subiu até ao camarote, tomou banho e vestiu uma roupa lavada. Sentou-se um pouco na cama a folhear uns desenhos que estivera a fazer com grafite, desenhos de tubos intrincados nas entranhas da plataforma, de gaivotas pousadas na amurada, de dois gregos a jogar aos dados junto a um rolo de cabo-d'aço. Quando subiu ao refeitório ainda lhe doía a barriga d…

Sonata nº2, Opus 35

Ala dos doentes terminais. Ele, que não estava muito entubado, consegue esticar o braço e segurar a mão dela, sempre fria.
- Olha! Estão a dar outra vez a nossa música!
- Pois estão - consegue ela falar, com uma pérola líquida a escorrer-lhe pela face enrugada.
Ele tenta aquecer-lhe a mão, enquanto a ternura lhes invade o peito ao compasso da marcha fúnebre de Chopin.


(homenagem, enviesada, a Raymond Carver e a um dos seus contos, que devia ser lido por todos os pseudo-românticos: "De que falamos, quando falamos de amor?")

pesadelo-de-trazer-por-casa

A sua casa fora um bom negócio, mesmo para os preços e os padrões da época. Já há dez anos que se mudara para ali, mas ainda não se conseguira habituar. A sua casa parecia uma casa comum, mas o ângulo formado pelo telhado assinalava uma dobra no binómio espaço-tempo, uma esquina. Quando abria a porta da frente, esta e todas as janelas da fachada davam para a rua alcatroada de todos os dias, com um estreito jardim como uma terra-de-ninguém entre a parede da casa e o alcatrão da rua. Atrás, a casa não tinha janelas, apenas uma porta, que dava para uma quintal murado que ele juraria não pertencer a este mundo. O chão em terra ocre-púrpura regurgitava de minhocas de cores metálicas onde plantas sem raízes se equilibravam num caule cónico que parecia suspenso a poucos centímetros do solo, como se fios invisíveis as unissem ao esquadro de madeira de uma manipulador de marionetas, e o céu! O céu que daí podia ver não era parecido com nada que tinha visto até então, irradiava faixas de luz co…

Pelo povo

Esta, eu nunca percebi muito bem: o existir em Portugal um partido de direita com o nome de Partido Popular; e uma instituição bancária com outro nome indigesto: Banco Popular.

(Se tivesse viajado no tempo desde o fim do século XIX, acreditaria de imediato que o poder tinha descido à rua).

Out of season

Domingo anterior ao Carnaval, estacionou o carro na marginal, e foi andar um pouco na praia. Apreciava detalhes, o godé caprichoso dos tons da areia e das nuvens, os pequenos lenhos e canas que se embrulhavam na orla das ondas, uma ou outra bóia de rede, quase sempre quebrada.
Sentiu-se, também, quebrado, por ter acordado cedo ou pelo esforço da caminhada. Ancorou ao balcão do primeiro café que encontrou junto à praia. Tinha uma vista magnífica, o mar agitado, um relance da costa que se estende até Peniche, e a silhueta esbatida das Berlengas. Pediu um café, serviram-no com alguma demora, apesar de não estar quase ninguém, o café estava mal tirado, amargo e com borra, e depois veio o amargor do preço: oitenta cêntimos. O seu estômago de protestador, de insatisfeito e justiceiro, andou às voltas. Oitenta cêntimos! Por uma chávena de café que sabia a petróleo! Pagou contrafeito, mas sem levantar ondas. Espiou um jornal, tentando ocupar o seu lugar no balcão por um período alargado de tem…

Africando

A solidão, para ela, não era um conceito, era uma imagem, sempre a mesma, mas viva. O banco de madeira da sua infância onde se sentava junto ao tamarindeiro nas traseiras da casa, o tamarindeiro de sombra fresca e rumorejante que produzia um fruto ácido como a vida. Em volta, o sol quente, o zunir das moscas, o labor babélico das formigas que levantavam, dia após dia, um imenso cone de barro. Primeiro a solidão foi melancolia, doce alheamento, depois, converteu-se em execração, da companhia e dos actos dos outros, anátema que carrega desde então. A causa foi o estupro na sombra do tamarindeiro, no qual ecoaram os seus gritos, que só as formigas puderam escutar.

Má publicidade

A edilidade decidiu encontrar meios para que as pessoas deixassem de se atirar da varanda da torre da Sé, Ex libris da cidade. Primeiro, colocaram na balaustrada trechos bíblicos, depois, citações de filósofos e de poetas, um cubo de Rubik por solucionar, e um painel com a chave do Euromilhões, e não resultou. Em desespero de causa, optou-se por afixar trechos de best-sellers de Margarida Rebelo Pinto e José Rodrigues dos Santos, o que se traduziu num aumento substancial do número de suicídios. Quando os vereadores esgotaram as ideias, foi colocado na base da torre um contentor grande das obras, para suprimir os trabalhos de lavagem do pavimento.
Na ilha do Ferro, quase junto ao mar, no meio de dois montes formosos como tetas, os caprichos do vento e da humidade faziam escorrer água das agulhas de um pinheiro gigantesco que ali existia, e isto durante todo o ano. Os Guanchos tinham esse pinheiro em grande reverência, e os seus ascetas visionários isolavam-se ali, entoando cânticos às potestades do sol e do trovão enquanto bebiam daquela água que os nutria e os levava ao êxtase. Foram eles que anunciaram ao povo Guancho que o futuro ia ser de mortandade, logo que a água dos céus lhes começou a saber a mijo.

Post-it

De Luís Ene, sobre a brevidade na escrita:

1. Ser breve não é emagrecer um texto até o deixar fraco. Ser breve é transformar toda a sua gordura em músculo até o tornar o mais forte possível.
2. Ser breve não é usar poucas palavras. É conseguir que essas palavras digam muito mais do que delas se esperaria.


(ler mais)
Já se sentia meio vazio, quando lhe deram dinheiro para o convencer a legar órgãos para transplante. Era uma inclinação natural - nunca tivera coração!

labirinto

Desde que Ícaro se tomou de amores pelo Sol, o seu pai Dédalo prefere voar na noite fresca. A Lua partilha a sua dor.

Dúbio sacrilégio

"Deus passou por aqui!" - exclamou, apontando com uma expressão de candura as suas pegadas na terra fresca do Jardim e a mancha de urina junto às raízes do plátano grande - "Aposto que está a trabalhar na mesa de pedra, com os seus alfarrábios e os seus prospectos socialistas". Subindo as escadas de pedra, Guilhermina Battaglia foi procurar Deus, cingindo nas mãos enluvadas, as cartas endereçadas a Ele.

classificado

«Homem trabalhador e bem instalado na vida, procura companheira sexualmente permissiva, receptiva a sexo em grupo e participação em filmes Hardcore. Para relacionamento sério»
Somos enquanto estamos. O senhor X, que não precisa de trabalhar, porque vive de rendas, e mora num apartamento numa cidade-dormitório, cruza-se diariamente em rotinas mais ou menos certas com quinze pessoas, das quais só seis sabem o seu nome com alguma segurança, três das quais conseguem a proeza de, na sua ausência, associar o nome ao rosto, e assim, são os únicos que poderiam indicá-lo a um estranho que o procurasse. O senhor X não possui filiação politica, religiosa ou clubística. O senhor X frequenta um restaurante e dois cafés, e um apartamento sobre a farmácia onde a Deolinda tem para servir os clientes, quatro belas moças de origem eslava. O senhor X deixou de aparecer, logo, de ser visto. Ninguém o procurou, porque seria pedir muito que as poucas pessoas que o conheciam soubessem, precisamente, onde morava. O vizinho do apartamento em frente, lembrou-se de parar um minuto à sua porta para ver se lhe cheirava a podre, e foi tudo. Três semanas depois, o senhor X reaparece e co…
Ligou-lhe ao fim do dia: - Olá, estava aqui por casa a ver televisão e lembrei-me de te ligar para ouvir uma voz amiga - Fizeste mal! Hoje não estou para amizades. Discuti com o Jorge e ele, como de costume, foi para o clube beber uns copos com os amigos, também soube pelo meu médico que tenho um mioma que tem de ser removido, e deram-me um toque no carro, enfim, as coisas estão do piorio. - Desculpa-me, não fazia ideia... - Claro que fazias, ou antes, isso não iria alterar nada, tu ligavas à mesma, os homens são todos uns insensíveis. Se eu estivesse no corredor da morte, eras capaz de pedir para falar comigo só para me perguntares, antes que fosse tarde demais, que tipo de arroz uso na cozinha. Tu não queres saber de mim nem de ninguém, só queres ouvir o som da tua voz. Ela desligou. Ele ficou um pouco a olhar o telemóvel, e depois pousou-o ao lado do televisor desligado. Mirou as horas no relógio, e deu de comer ao peixe-dourado, pensando em deitar-se. Tocou o telemóvel. Era ela, hesito…
Leonor nasceu e criou-se bela, do tipo de não precisar de favores nem condescendência, as coisas saíam-lhe naturalmente ao caminho, as pessoas faziam-lhe as vontadinhas todas, e despertava confusas paixões nos homens com quem convivia. Numa opção que causou alguma estranheza no seu círculo de amigos, escolheu para sua melhor amiga a Rute, a feiazinha da escola, que quis manter ao seu lado quando ambas abandonaram os estudos e seguiram as suas carreiras. Leonor não parecia ligar a preconceitos sobre a aparência física, enquanto que, para Rute, a amizade de Leonor era uma dádiva incompreensível, um achado de que não se considerava merecedora, mas que agradecia em silêncio aos céus por existir, ela era uma deusa entre gnomos, e tudo o que era gente bela ou interessante acabava por gravitar em volta das duas. Este estado de coisas manteve-se durante anos, Leonor coleccionando namoros e casos, Rute colhendo as sobras ou sendo soberanamente desprezada por elas, mas sem se importar grandement…

Y

No meio de rochedos numa aba do planalto de Ilíon, erguia-se a sua casa de paredes de adobe e tecto de colmo. Artemísia cultivava ervas raríssimas nos campos para compor os seus filtros e beberagens, e criava aves e cordeiros para os rituais secretos que oficiava. Era feiticeira e meretriz. Até ela vinham os guerreiros, que se faziam passar por inofensivos aldeões, sem as suas espadas e os seus escudos, sem os elmos guarnecidos com marfins em forma de crescente lunar. Vinham por fossos e túneis da altiva Tróia e dos redutos aqueus, em busca do prazer e do transe que Artemísia lhes concedia com a sua lascívia e as suas artes mágicas. Ela sim, agradava a Gregos e a Troianos.
Quando o homem entrou no café, a patroa percebeu logo que algo de sério o atormentava, vinha de olhos rasteiros contemplando as marcas cinzentas dos sapatos no chão rústico, não cumprimentou como era hábito, nem disse nada enquanto cruzava todo o estabelecimento até à mesa mais isolada, no ângulo oposto ao da entrada. Ela conhecia-o desde há muitos anos, dos tempos da mocidade, ainda eram primos e as suas vidas nunca tinham andado muito arredadas, como gatos do mesmo beiral. E nunca o vira assim! Talvez algum sobressalto amoroso...a saúde ameaçada ou a morte de um amigo...Decidiu tirar a limpo. Deu indicações à empregada para tomar conta do movimento e sentou-se à sua beira.

- O que vai beber, Gilberto! Você parece que viu assombração!

- Qualquer coisa, Adelaide - e emudeceu novamente.

Ia ser mais difícil do que ela pensava inicialmente. Foi buscar um cálice e, de caminho, a garrafa da aguardente que ele sempre bebia com o café. Serviu-lhe um, que ele engoliu como se fosse um shot, e ela…
- Caramba, você é tão parecido com uma pessoa com quem andei uns tempos. Talvez seja aquela coisa de alma-gémea de Platão e dos hindus. Você acredita que pode ser reencarnação? - Sim e não. - Como assim? - Sim, acredito na reencarnação! Não, ainda não reencarnei!

hecabombe

- Olha, tão lindo, relâmpagos e estrelas-cadentes! Não devíamos pedir um desejo? - Não são estrelas! E era bom desejarmos que haja um abrigo por perto...

Ingressou num curso rápido de escrita criativa, porque queria surpreender os que o conheciam. Os memorandos da empresa começaram a ser elaborados como textos herméticos.

Fazia sempre um check-up mensal e, preocupadíssimo, queixava-se de dores nas vértebras, mas o seu médico relativizava sempre as suas ralações, explicando-lhe repetidamente que essas dores se deviam à circunstância dele ter nascido num berço de ouro.
(Enquanto o Universo e as outras pessoas correm para diante como maratonistas, eu estou rodando em câmara lenta em busca de um momento no passado que não conheço e a partir do qual começei a divagar - sou um reaccionário, reajo nadando contra a corrente, procurando talvez uma manhã sem perguntas, um momento efémero de paz antes do Universo explodir em conflitos e ultimatos, uma praia ao entardecer onde ainda me lembre do som da tua voz, da segurança de saber que estavas viva e por perto)
Sempre se sentira assim, tolhido e amordaçado, uma venda sobre os olhos para não ver o que aos outros parecia impossível de ver, e mordaças e panos na garganta para não falar e gritar o que imperava soltar de si. Os néscios e os mesquinhos abafavam a sua vida, negavam-lhe o espaço e o pensamento como se lhe tivessem imposto sobre o crânio a pressão de uma pata de Apatossauro que o lacerava por dentro, fazendo o sangue espirrar-lhe da boca e dos ouvidos, e o seu sangue eram as palavras, sangradas no silêncio. Com movimentos acrobáticos no espaço reduzido conseguiu libertar-se das cordas nos pulsos e da mordaça e dos panos, e começou a gritar alto, gritar as palavras que ninguém mais lhe conseguiria matar, e enquanto falava copiosamente e gritava com alegria, arrancou a venda dos olhos e viu-se no seio das trevas. Respirando com dificuldade, tacteou em volta, e descobriu na flor dos dedos o interior alcochoado de um caixão.

Blocos de pedra

Diante das pirâmides de Gizé, Napoleão exclama para os seus homens: "Do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam!"
Enquanto galopa à volta da pirâmide maior, uma pedra arremessada por alguém atinge-o no sobrolho, fazendo-o sangrar. Desmonta, recolhe a pequena pedra e, depois de estancar o sangue com um lenço, profere para os seus generais: "Fui atingido por um minuto de História!"

injustiça

O doutor Joseph-Ignace Guillotin inventou a guilhotina para minorar o sofrimento humano, e a sua invenção tornou-se muito popular e recebeu a adesão de milhares de pessoas. Por ironia, nunca chegou a receber os direitos que lhe cabiam de Cutright.
A sua vida sexual era muito pouco imaginativa, ele sempre pedia às amantes para ficarem por baixo e na diagonal da cama, para condizerem com o seu pénis inclinado para o lado.
Era uma workaólica. A conselho do seu psicólogo, tirou férias nas Caraíbas, mas lá, continuava a convidar estranhos em bares para beber do seu uísque aguado.

os laços da terra

Construíram a sua casa no extremo do terreno, junto ao promontório. Um pequeno varandim cimentado permitia-lhes deitarem-se ali nos dias amenos, a olhar o Douro e ler Hölderlin e Rilke. Por vezes amavam-se nas cadeiras de espaldar, embalados pelo farfalhar da brisa nas vinhas.

A casa e a paisagem ficaram mais tristes quando ele partiu, perseguindo um delírio que ele pensava que lhe iria fazer reaver a juventude que se esvaía. Mas não tardou em regressar, como um cão envergonhado, de cabeça baixa e olhos suplicantes. Ela aceitou-o de volta sem retóricas nem questões, achou natural, porque ele pertencia àquele sítio como as encostas abruptas e as águas indómitas.

Quando tudo parecia serenar, e as coisas e os sentimentos reconheciam o lugar a que pertenciam, foi a vez dela se distanciar. A doença acometeu-a e esvaziou-a de vida, tornou-se uma figura magra e seca que ele levava nos braços até ao varandim, onde ficava a contemplar docemente a lonjura.

Os médicos e os medicamentos nada podiam …

Bronca

Matou o seu marido, à noite, enquanto ele dormia e enrolou-o no tapete grande da sala, grande e persa. Como era uma mulher de armas, colocou o morto ao ombro e o deixou à porta da tinturaria, com um recado escrito para tingirem o persa. Na manhã seguinte, os empregados da tinturaria executaram a encomenda. Depositaram o morto na reciclagem - correctamente, em Resíduos Orgânicos - e tingiram o tapete na cor pretendida. Como ninguém aparecesse para reclamar o tapete, guardaram-no no quarto dos fundos. Na manhã seguinte, tinham à porta um novo corpo enrolado num tapete, este, de mulher. Com a experiência da véspera ainda fresca na memória, os empregados da tinturaria colocaram corpo e tapete na reciclagem, ignorando que este trabalho tinha sido pago adiantado. E foram despedidos por isso.

disfuncional

Festejar o Carnaval com espírito de Quarta-Feira de Cinzas.
O país estava a extravasar de pessoas desempregadas, angustiadas, prontas a arrebentar ou a colidir. O governo, inapto, decidiu criar uma Torre de Descontrole para monitorizar os seus caminhos tortuosos.

Langevin

Embarcou com duas companheiras numa nave espacial que zarpou à velocidade da luz. Como o tempo dentro da nave escorria mais lentamente do que cá fora, a sua ejaculação precoce mais parecia sexo tântrico.

Irish (d)cream

Subiu ao cesto da gávea para avistar terra e se viu rodeado pelo fogo de Sant'Elmo. "Deve ser Avalon", pensou.

E-lowliness

Andava sem saber mais o que fazer, e foi-se entretendo, leu textos e opiniões dos outros, viu os vídeos de sucesso no U-tUbe, e quando o aborrecimento se acentuou, cortou as unhas das mãos diante do monitor, arranjou uma escova de dentes velha e limpou criteriosamente o teclado, virando-o do avesso para lhe dar umas pancadinhas nas costas de modo a soltar os ácaros e lascas de unha. Voltou às teclas, mandou uns mails, inscreveu-se em dois ou três Emailings para garantir que tinha correio, e pôs a correr um vídeo musical enquanto pensava em coisas que podia fazer ali. Ouviu a campainha da porta a tocar. Desceu as escadas de maus-modos e espreitou pelo óculo: um homem com uma pasta, vendedor ou pregador, o que ia dar ao mesmo, só variando na tipologia do artigo. Ignorou-o e voltou ao seu computador enquanto a campainha soava ainda uma e outra vez. Tinha-se instalado novamente e verificava a caixa de entrada (vazia) do seu mail, quando voltou a ouvir a campainha. Nem se deu ao trabalho d…

Um deus anil

Graus Fahrenheit. Fahrenheit soa a distante mundo perdido, no alto, um planeta gelado de habitantes de corpo translúcido e olhos luminosos, com telescópios com lentes convexas de lâminas de gelo por onde olham arrebatados para as chamas do seu Sol azul.

Desalmado

Esta alma, este casaco velho, tem vincos que se me notam na pele, vincos descosidos e remendados, esgarçados e sem graça. Por uns deixei-me perder da minha infância, por outros perdi a uma só vez a filosofia e a metafísica, e vivo p’ra aqui largado, sem discurso e sem método, sem abrigo e sem porto. Se ao menos fosse algo que se pudesse deixar na berma de um caminho, como a pele de uma cobra ou um fogão velho, e colher outra como se colhe um fruto novo e sem bicho, de pele luzidia e com todas as gramíneas intactas e nos seus lugares predestinados. Diz-me quem me vê, que eu não estimo a minha alma, que não a resguardei do frio e da chuva, que não a pus a assoalhar em terraços de sol, que não cuidei dela como cuido da minha higiene. Idiotas. Não me conhecem, e não conhecem a minha alma. Ela é que me abandona quando eu dormito, descobre-me prostrado de cansaço e evade-se por esse mundo fora, calcorreando caminhos e palavras pedregosas e encharcando-se de luar e orvalho. Esta alma, tem vi…
A Edgar Cayce, o vidente americano, bastava-lhe dormir sobre os livros que, quando acordava, o conteúdo desses livros estava presente na sua mente. Isso explica muitas das suas visões e prodígios, os seus desconcertantes conhecimentos médicos e as visões compósitas que emergiam no seu cérebro como chispas de cor e luz dentro de um caleidoscópio. Até ao dia, em que Edgar Cayce adormeceu sobre o Livro em Branco, que o transformou num obcecado por ermas paisagens Árcticas.

Num futuro próximo

Imagem
Nomenclatura Actualmente, a História diferencia, como estádios evolutivos, o Homo Sapiens identificado com o Homem de Neanderthal, que povoou o planeta até ao final da última Idade Glacial, do Homo Sapiens Sapiens cujo ascendente sobre a espécie anterior se tornou evidente pela mesma altura, a ponto de a absorver ou levá-la à extinção. Entretanto, ainda no primeiro quartel do século vinte e um, a reflexão histórica decidiu modificar a classificação da espécie Homo Sapiens Sapiens, a nossa, substituída nos manuais escolares pela designação moderna de Homo Demens Demens.

A diligência do Minho

Naquela região do interior, há muitos anos, toda a gente andava de camioneta, havia carreiras de hora em hora e sempre cheias, os lugares, e o espaço de carga sob e sobre estes. Havia um motorista, mas também um cobrador que cobrava ou picava os bilhetes, e tinham sempre muito que fazer. Era de camioneta que as pessoas iam para o trabalho, para os mercados, para a escola, passear a família, laurear a pevide e saltear o grelo. Mas esses tempos dourados depressa passaram, havia agora cem vezes mais carros nas estradas, e as pessoas iam umas com as outras, e a clientela foi rareando. Primeiro suprimiu-se o cobrador para poupar despesas, depois começaram a suprimir-se as carreiras uma a uma, a ponto dalgumas terras deixarem de as merecer, enquanto outras, só as viam passar de três em três ou de quatro em quatro horas. As coisas têm vindo a agravar-se e, Sábado passado, a administração iniciou um projecto radical, o das "Carreiras Espontâneas". Deixa de haver carreiras fixas na r…
No meio do Atlântico, na solidão da pequena ilha sitiada pelas águas, o governador achou que era hora de sacudir o torpor e trazer a animação à vida das suas gentes. Mandou instalar uma tenda de circo com o objectivo de organizar um freak show - aqueles que se sentissem habilitados para entrar nele ocupariam a arena, e os restantes, pagariam entrada para os ver. O governador reuniu toda a população debaixo do toldo gigantesco, e pediu voluntários, toda e qualquer pessoa que possuísse alguma característica peculiar, deveria saltar para o centro do círculo. E os voluntários começaram a descer para a arena. A mulher com três mamilos, o homem com dentes na garganta, o mal-formado e o informe, o que dormia em pé, o gigante, o que via o Holandês Voador nas falésias do norte, a mulher de barbas, o vampiro com sede, o que só andava para trás, o que tinha pavor de narizes humanos...Foram-se juntando no centro, acotovelando-se uns aos outros. Mesmo o governador se juntou a eles, balançando um t…

Sobre amizades e partilhas

(...) They've got a wall in China It's a thousand miles long To keep out the foreigners They made it strong I've got a wall around me You can't even see It took a little time To get to me (...)
(Something So Right de Paul Simon)

DesEN(E)rolar

A vida nem sempre é uma diva, nem uma dádiva

A vida fica para depois...

A vida desiste facilmente de nós.

A vida, é um termo evasivo que usamos para camuflar a nossa inércia e impotência.

A vida nada pode contra aqueles que já não se lembram de quando morreram.

Também há aqueles que sonham e rezam por uma vida-outra, que se vai revelar quando tiverem desistido de acreditar que estão vivos.

Sempre procurou um ou mais sentidos para a vida, demanda graaliana interrompida por um camião que encontrou pela frente quando entrou ao contrário numa rua de sentido único.

Só começou a acreditar que a vida podia talvez tenuamente ter algum sentido quando descobriu que estava grá-vida.

expressamente

Juntou-se a fome à vontade de comer, e prosseguiram juntas o jejum.