Um galão directo e uma torrada com pouca manteiga - pediu no balcão à colega. Podia até ter pedido antes, porque ele fazia sempre o mesmo pedido, quase sempre à mesma hora, sentava-se de preferência na mesa ao lado da Jukebox munido do jornal que capturava na entrada, e comia sem levantar os olhos, distante e enigmático. Enquanto esperava, ela olhou-se no espelho e passou a ponta do indicador por uma sobrancelha. Estivera a arranjá-las, e parecia-lhe que não estavam iguais. Levou-lhe o pequeno-almoço, que ele agradeceu polidamente, mas sem entoação. Ela foi servir outros clientes, mas sempre com ele no canto da retina, bebia-lhe os gestos e as expressões, se ele tinha uma palavra inusitada ou um movimento repentino, ela sobressaltava-se, entre assustada e agradecida, como se ele o fizesse para sair da rotina, para lhe dar a entender em silêncio que sabia que ela estava ali, a olhá-lo, e que vivia como ela, esperando por algo na névoa dos gestos de todos os dias. Quando ele abandonava o café, ela sentia a saudade sofrida de quem fica no cais, só desanuviada por saber que o voltaria a ver na manhã seguinte. Discretamente, ela tentou acentuar aquela relação cúmplice entre os dois. Rosas novas na jarra daquela mesa, o seu jornal que já lá o esperava quando ele se preparava para sentar, um guardanapo de papel dobrado em origamis de fantasia a um canto da mesa, a impressão dos seus lábios com bâton no topo da página de desporto que ele consultava diariamente. Estranhamente, quando a sua expectativa por uma reacção aumentava, ele deixou de aparecer. Ela sentiu-se angustiada. Teria ido depressa demais? Ele podia ser incorrigívelmente tímido e ter-se recolhido na carapaça. Também podia ter acontecido alguma desgraça, e ela não tinha como saber. Passaram-se três, quatro, cinco dias, e ele sem aparecer. Ela entrou em parafuso, chorava pelos cantos ao mínimo pretexto, e desfazia-se em lágrimas no quarto dos fundos onde morava. Um dia, o patrão ameaçou que a punha na rua. Fora visitá-la no quarto a meio da noite para lhe cobrar o aluguer, e disse que não iria tolerar por muito tempo aquela choradeira. Deu-lhe uns dias de licença, para ela ir ver a família ou o campo, para espairecer. Ela aceitou, contrariada. Não tinha família e aquela era a sua única casa, mas tentou dar uns passeios pela cidade. Só saía depois da hora dos pequenos-almoços (na esperança de o voltar a ver), depois, andava pelas ruas ao acaso, visitava lojas, não para comprar, mas para distrair o espírito, dava pão aos pombos nas pracetas e parques, e imitava o andar de estranhos que caminhavam à sua frente enquanto ouvia o seu MP3. Foi numa dessas deambulações matutinas que o reencontrou. Viu-o à porta de um café a fumar e, sem saber o que lhe iria dizer, caminhou mesmo assim na sua direcção, e parou à sua frente. Olharam-se demoradamente. Ela notou a bata branca de padeiro sob o casaco de napa, e um traço de massa seca na face.
- Agora trabalho de noite - disse-lhe ele, quando ela começava a duvidar que ele a reconhecesse.
- Quase dei em maluca porque pensei que lhe tivesse acontecido alguma coisa - ripostou ela, sem acreditar que fora capaz de dizer aquilo.
Ele atirou fora o cigarro, puxou da carteira e tirou do porta-moedas um dos pequenos origamis da mesa do café. Ela sentiu-se serenar, como uma onda que se estende no areal. Desprezando as palavras, que as palavras não eram para eles, ela tomou entre as suas, as mãos frias que expunham a figura de papel.

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