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Natureza-morta

Diante da tela, um dilema se colocou ao pintor de naturezas-mortas que queria pintar frutas numa taça: a que cores deveria dar mais destaque? Ao amarelo ígneo das laranjas? Aos tons repousados das uvas tintas? À palidez marfínea do melão? Passou horas nisto, recompondo as frutas na taça larga, procurando a perfeição, o centro subtil que seduziria o olhar no seu foco. Incapaz de tomar uma decisão, adiou as frutas e pintou o seu próprio retrato diante do espelho: magro e pálido, dois olhos escuros como lumes apagados, com uma mão ossuda brandindo o pincel, enquanto a outra cingia à bata, à altura do coração, uma folha de parra de cor sépia.

2 comentários:

  1. maria.c22:38:00

    gostei muito deste :)

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  2. Há momentos em que, mesmo tendo arte para isso, não somos capazes de fazer um auto-retrato porque somos movimento, mutação, bailado de fotões. Outros momentos há, em que só vemos em nós objectos frios e inertes (ideias passadas, emoções evocadas), e fazer um auto-retrato é um exercício simples, como pintar uma natureza-morta.

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