Há uns anos bons, na minha adolescência, quando a minha avó era viva, ela dizia-me em confidência que eu era o seu neto predilecto, isso não era algo que se esperasse ouvir dela porque não era muito de exteriorizar emoções - a vida castigara-a de tal forma que desenvolvera uma carapaça dura sobre o que sentia, tornara-se a maior parte do tempo seca e áspera como uma árvore carcomida. Mas, por vezes, quando me via sem a presença dos meus irmãos, dava-me com os seus olhos muito azuis a sorrir, moedinhas pretas para comprar coisas. Muitos anos depois, antes do seu espírito definhar numa casa de repouso a ponto de não reconhecer ninguém, quando eu, já adulto, a visitava na casa velha, desencantava dum bolso do avental uma moeda de cinquenta escudos com a caravela estilizada, e traficava-a para a minha mão, segurando-a entre as suas mãos enrugadas enquanto murmurava o que ninguém podia saber: É uma moeda de prata!!

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